O mar e suas ondas
1 Capítulo 1
Faltando poucos dias para o início das aulas do meu segundo ano de Ensino Médio, meu pai resolveu me colocar em um colégio interno de Washington. O que não é nada interessante. Colégios internos são horríveis! Você têm de dormir todos os dias às nove e meia da noite, acordar às sete e meia, tomar café no refeitório em meio a uma multidão de garotos e garotas, estudar, almoçar, estudar novamente, jantar e dormir mais uma vez, assim seguidamente. A única parte boa é que nos finais de semana eu volto para casa e posso dormir de madrugada e acordar tarde no dia seguinte se eu quiser.
Logo que meu pai falou a respeito eu fiquei arrasada. Mas sabia que nada poderia mudar o que meu pai queria. Quando ele resolve fazer algo, nada o recua. Eu até tentei convencê-lo de que estava muito bem no colégio em que eu estava, que tinha amigos legais (apesar de que não sejam muitos, digamos que tenho somente dois amigos, porque sou um tanto antissocial), mas é claro que nada funcionou.
– Estou fazendo isso somente para o seu bem. – ele havia dito, depois de minha dramática reclamação de que eu não estava gostando nem um pouco da ideia. – Um dia você irá perceber o quanto eu fui bondoso com você.
Passei a primeira semana de aulas no colégio interno me perguntando por que meu pai estava sendo “tão bondoso” a ponto de colocar sua filha adolescente de dezesseis anos, prestes a completar os dezessete, em um colégio interno cafona em que ela tinha de usar uniforme brega de colégio (meia-calça, saia rodada xadrez, uma camisa preta estranha e um par de sapatos pretos muito esquisitos), como se estivesse em um orfanato. Tiveram vezes que me perguntei se meu pai não havia morrido e resolveram me colocar em um orfanato para crianças e adolescentes sem lar. Mas isso é um pouco macabro de se pensar, eu confesso.
Na sexta-feira, às dezesseis e quarenta e cinco, eu estava indo até a sala de informática no único tempo livre reservado para os alunos de segundo ano para enviar um e-mail para a minha melhor amiga, Lauren White. Eu havia a prometido, na despedida, que mandaria um resumo de cada péssimo dia que passasse naquele colégio, exceto aos finais de semana, porque geralmente ela ia me visitar em casa.
Sentei em uma das cadeiras marrons aconchegantes de um dos computadores da sala. Enquanto abria o meu e-mail, dei uma espiada pela sala. A Sra. Young, minha professora de Química, me fitava com seus olhos puxados e castanhos profundamente, escorada em uma das quatro paredes da sala, provavelmente à espera de alguém. Perguntei-me qual problema ela tinha comigo. Desde a segunda-feira, quando eu havia passado o meu primeiro dia no colégio, a Sra. Young me fitava estranhamente. A expressão dela não fazia muito sentido, porque era totalmente normal. Eu jamais podia dizer que ela sentia desprezo por mim porque 1) ela nem ao menos me conhecia direito e 2) não tem como sentir desprezo de uma pessoa que você não conhece. Mas sempre estranhei aquele olhar dela.
Concentrei-me na tela do computador, tentando desviar a atenção da Sra. Young. Abri a caixa de mensagens de Lauren e iniciei a escrita de meu e-mail:
“Oi, Lauren!
Por enquanto está tudo bem por aqui. De manhã tivemos alguns períodos de aulas de Física, depois alguns de Língua Inglesa, e mais alguns de Biologia. Estou enviando este e-mail agora no tempo livre, pois é o único momento que posso vir à informática do colégio.
São só cinco dias aqui, mas já estou com saudades de casa! Como vão as coisas por aí? Como está o Bryan, nosso parceiro? Estou curiosa para saber a respeito das novidades! Amanhã eu estarei em casa, aguardo a sua visita.
Agora tenho de ir até a biblioteca. Quero ler um pouco. Ocupar o tempo livre que tenho lendo é muito bom, você me conhece.”
Logo que terminei, enviei o e-mail e o fechei. E então, levantei da cadeira e saí de fininho pela porta de saída da informática. Eu não havia nem ao menos percebido como ela estava vazia. Era um milagre. Fiquei imaginando o que o restante do pessoal da turma estava fazendo, enquanto caminhava pelo corredor em direção à gigante porta da biblioteca.
Assim que passei pela porta, fiquei paralisada por alguns instantes, inspirando o cheiro delicioso dos montes de livros acumulados nas estantes de madeira. Eram inúmeras estantes enfileiradas e repletas de livros. Elas ocupavam quase todo o ambiente, pois eram gigantes, e o pouco de espaço que sobrava era ocupado por pequenas mesas em que geralmente os garotos e garotas sentavam para ler, e também pela mesa da bibliotecária, que ficava próximo à porta de entrada.
– Eu sabia que você apareceria. – disse a bibliotecária, Srta. Lynn, enquanto eu me encaminhava até os livros de poesia, na primeira estante.
– Nada como ocupar o tempo livre para ler um pouco. – eu disse, fitando-a.
– Você realmente tem uma grande paixão por livros, em especial poesias, Samantha. – ela argumentou, sorrindo.
A Srta. Lynn era uma mulher jovem, um pouco mais de 20 anos, idade em que eu me impressionava muito por ocupar o cargo de bibliotecária. Afinal, geralmente são pessoas mais velhas quem ocupam o cargo de bibliotecária. E como eu ia até a biblioteca todos os dias desde o primeiro dia (aliás, a única parte boa do colégio era a biblioteca), acabei criando uma pequena simpatia com ela. Era uma das únicas pessoas em que eu havia me interessado, pois tinha o mesmo gosto que eu com relação aos livros: adorava poesia.
– Eu adoro o fato de poder pensar sobre tudo e todos, através de poesias... De rimas. – eu disse, enquanto pegava um livro de poesias de Shakespeare, o meu favorito.
– Então somos duas. – ela disse, enquanto me observava caminhar até uma das mesas da biblioteca e me sentar. – Adoro essa parte das poesias também. Inclusive, as de Shakespeare são um dos meus favoritos.
Eu sorri e me sentei-me à mesa. Antes de me concentrar na página em que eu havia parado no dia anterior, olhei em volta. Não iria me sentir nada a vontade se tivesse ali alguém que eu não me confortasse e, caso tivesse, prometi a mim mesma que mudaria de mesa e ficaria bem longe. Não gostava das pessoas daquele colégio. Algumas eram antipáticas demais, outras eram falsas, outras um tanto idiotas, etc. Meus olhos incrivelmente pararam em um garoto que me fitava. Mas ele não me fitava como a Sra. Young me fitava, ele me fitava de outra forma.
O garoto estava sentado em uma mesa perto da de onde eu estava, digamos que alguns centímetros de distância apenas, com um livro sobre heroísmo sob a mesa. Vestia o uniforme igual ao dos garotos do colégio, tinha cabelos castanhos que iam até a nuca e eram um pouco cacheados. Os olhos eram verdes. Mas não um verde comum, era um verde claríssimo, como um diamante brilhante verde. O contorno da boca (apesar de que odeio ficar observando bocas de garotos) era perfeito, o nariz um pouco arrebitado, o que trazia um charme ao seu rosto. Fiquei pensando, enquanto o encarava, porque um garoto tão bonito estava olhando para uma garota como eu.
A expressão do garoto olhando para mim não era típica de um garoto comum. A expressão típica de garotos comuns é aquele sorriso de lado, que só quer dizer “vamos para o meu quarto?”. Porém, a expressão daquele garoto era diferente. Ele sorria. Mas não sorria da forma como eu geralmente estava acostumada a observar os garotos olhando para suas namoradas ou garotas-em-que-estavam-afim. Ele sorria naturalmente, como se tudo o que quisesse fosse sentar ao lado da garota em que encarava e conversar sobre Shakespeare e suas poesias.
Concentrei-me na poesia em que eu havia deixado para ler naquele dia: “O tempo é algo que não volta atrás. Por isso plante seu jardim e decore sua alma, ao invés de esperar que alguém lhe trouxesse flores...”. Eu queria pensar a respeito da poesia, mas não conseguia, pois a minha mente estava totalmente concentrada em apenas uma coisa: “ele está olhando para mim?”. Meus olhos queriam levantar para fita-lo, tudo o que eu queria era encara-lo novamente. Porém, o medo tomava conta de mim. Eu tinha medo de fita-lo e fazer com que nossos olhos se cruzassem pela segunda vez.
Mas desisti de recuar. Sem aguentar mais, levantei os olhos rapidamente. Ele ainda me encarava. Nós dois ficamos no mesmo dilema (olho no olho) por alguns segundos, o sorriso do garoto continuava estampado no rosto, os cabelos castanhos e cacheados deixando-o incrivelmente ainda mais bonito. Foi então que de repente, o garoto soltou uma risadinha. Mas não foi uma risadinha do tipo “que garota idiota, acha que eu estou afim dela”. Foi uma risadinha do tipo “que garota interessante!”. E então, ele voltou os olhos ao livro sob a mesa e se concentrou nele. E não me fitou mais.
Nos minutos restantes do tempo livre, acho que consegui ler umas cinco poesias. Consegui pensar a respeito de algumas, mas estava muito difícil me concentrar. O que aquele garoto tinha que ficava me atraindo? Eu nunca me atraí mais por uma pessoa do que por minhas poesias favoritas. Eu nunca havia tido problemas de concentração nas poesias antes. Havia alguma coisa errada, eu tinha de confirmar isso.
Quando o sinal indicando o final do tempo livre tocou, eu e o garoto levantamos exatamente no mesmo milésimo, provocando um estrondo duplo. Eu o fitei. Ele me fitou. Nós dois rimos. Mas o meu riso foi muito mais tímido, claro. Caminhei até a mesa da Srta. Lynn e mostrei o livro de poesias que eu estava lendo a ela.
– Srta. Lynn, queria saber se posso levar este livro para casa neste final de semana. Juro que cuidarei dele com muito carinho, não terá nenhum defeito quando eu trouxer segunda-feira. – pedi.
A Srta. Lynn meneou a cabeça e sorriu.
– Sem problemas, Samantha. – concordou.
Confirmei com a cabeça em gesto de agradecimento, e quando eu estava prestes a passar pela porta de saída da biblioteca, a voz daquele garoto finalmente foi revelada.
– Shakespeare! – ele exclamou, e eu me virei para fita-lo novamente. – Foi um grande homem. Adoro suas poesias, ele traz uma forma diferente de pensar a respeito de várias teorias.
– Eu penso da mesma forma a respeito dele. – disse eu. – Shakespeare sem dúvidas é um grande pensador.
– Sem dúvidas. – o garoto repetiu, e então sorriu.
E eu me virei e saí. Enquanto caminhava pelo corredor, fiquei fitando o chão e me perguntando milhões de vezes “o que foi isso?”. Não conseguia acreditar que havia acabado de encontrar um garoto que gostava de William Shakespeare, ou de suas poesias, tanto faz. Achei que eu e a Srta. Lynn éramos as únicas que gostávamos. Mas naquele momento, pude confirmar que não; havia um garoto que habitava o mesmo planeta que eu e que também gostava de Shakespeare. Eu mal podia acreditar no que havia acabado de ouvir.
Em meio à minha distração enquanto caminhava rapidamente em direção à minha sala de aula pelo corredor, bati de peito contra o meu professor de Física, o Sr. Houston, e ele me fitou com uma expressão enfurecida.
– Veja por onde anda! – exclamou.
Mas eu não liguei muito, nem para a sua expressão furiosa, nem para o restante das pessoas ao meu redor que me fitavam, cochichavam entre si e riam de mim. A única coisa que passava pela minha cabeça era aquela última cena na biblioteca. Senti uma enorme curiosidade em descobrir quem era aquele garoto.
Quando entrei na sala tranquilamente, achando que todos estavam fazendo a mesma coisa alguns segundos antes de o professor entrar para iniciar a aula, me deparei com a classe completa, cada uma das pessoas sentadas em seus lugares, o ambiente escuro, o quadro-negro ocupado por um refletor que mostrava alguns gráficos, o professor de Geografia, Sr. Johnson, ao lado do quadro-negro, segurando um lápis comprido, falando e apontando para a luz do refletor mostrada no quadro-negro.
Todos olharam para mim. Meu coração começou a bater mais rápido e eu senti uma forte decepção: eu não devia ter saído da sala naquele tempo livre. Como poderia ter esquecido? “Não acredito que fiz isso!”, pensei arrasada. Na última aula de Geografia, o Sr. Johnson havia combinado com a classe de que ocuparíamos o tempo livre de todos para fazer uma apresentação sobre a população da Pensilvânia.
O Sr. Johnson me encarou um pouco enfurecido, algumas pessoas da classe soltaram risadinhas e cochicharam entre eles. Mas eu não liguei muito para isso. Na verdade, fiquei dividida entre fitar o Sr. Johnson com minha expressão desesperadamente imploradora por um perdão ou fitar uma pessoa que estava bem ao fundo da sala e que eu já havia visto momentos atrás. Aquele mesmo garoto.
Desviei o olhar e fiquei me perguntando mentalmente “como ele chegou naquela sala antes que eu?” e “como eu não havia percebido aquele garoto nas outras aulas de Geografia e também, provavelmente, em outras matérias?”. Mas me virei para o Sr. Johnson e me preparei para encara-lo.
– Srta. Money! Parece que você esqueceu-se do combinado da última aula. O que é uma pena, pois já está marcado como falta. Serão pontos a menos para o seu conceito final. – ele disse, os olhos fixos nos meus, a expressão furiosa e arrasada, típica dos professores.
A classe soltou mais algumas risadinhas idiotas, mas eu ignorei.
– Eu peço desculpas, Sr. Johnson. Prometo que não irá se repetir. – retruquei.
– É o que eu espero senhorita. – o Sr. Johnson disse, enquanto eu me encaminhava para uma das classes vazias do fundo da sala.
Assim que me sentei e me ajeitei na cadeira, não consegui resistir a um olhar rápido para aquele garoto. É claro que eu não havia sentado na classe ao seu lado no fundo da sala, até porque ela estava ocupada por um garoto obeso, mas ele estava a duas classes de distância da minha e me fitava da mesma forma como na biblioteca. Perguntei-me qual era o problema daquele garoto comigo. Por que ele não parava de me olhar? Com anos de experiência, eu podia afirmar na melhor das hipóteses que minha aparência não era tão desejável a um garoto bonito e de mais ou menos a minha idade.
No restante da aula, não prestei atenção em nada que o Sr. Johnson tagarelava e apontava para a luz do refletor estampada no quadro-negro. Tudo o que eu tentava fazer era decifrar o porquê de aquele garoto me fitar daquela forma o tempo todo, como ele havia chegado naquela sala de aula antes que eu e como eu não havia percebido aquele garoto no colégio antes.
Fale com o autor