O mais baixo amor
6 Capítulo 6
Notas iniciais
“Tá tudo bem, tá tudo bem. Agora eu tô com você, ninguém irá te machucar…
Era começo de dezembro, férias escolares, algum pai de aluno resolveu viajar e deixá-lo sozinho, lógico que não iria prestar. Os pais de Daniel eram tão inocentes, que acreditavam que boas notas significavam responsabilidade e caráter. Tão inocentes…
Cobra e Jade tinham 15 anos e pareciam estar em uma espécie de trégua, já que ambos haviam fugido de casa para ir a festa regada de bebida na casa do mais novo namorado da garota.. Só tinha um problema, não era porque eles estavam em paz, que o restante também deveria estar.
Cobra observava a quase meia irmã se esfregar na pista com o seu novo namorado, e aquela cena não agrava nem um pouco. Então, virou mais um copo na tentativa de apagar aquela imagem da cabeça.
– Vamos dançar!- Gritou a loira ao seu lado que ele nem sabia o nome.
– Não, vamos ficar aqui.- Pediu sorrindo para a garota.
Apesar de não gostar da cena, não queria desgrudar os olhos da irmã, era masoquista. Cobra notou que Jade também o observava, então, por que não provocá-la? O rapaz beijou a loira a sua frente com vontade. Jade parou de dançar e o encarou. Daniel não gostou nada da ideia bufando e arrastando a namorada consigo. Quando Cobra terminou com sua cena e notou que a garota não estava ali, resolveu ir atrás da irmã.
Não demorou muito para encontrá-la, estava junto com o seu namorado do lado de fora da casa. Cobra se escondeu atrás da parede para escutar a conversa.
– Você pensa que eu sou o que, garota?!- Gritou o namorado.
– Daniel, acalme-se.- Pediu Jade.
– Me acalmar? Você pensa que eu não vi como você age com relação ao seu irmão?!- O rapaz gritou, fazendo Jade se encolher.
– Ele não é meu irmão.- Corrigiu a garota.
– E esse é o problema, ele não é o seu irmão. Ele não é o seu irmão!- Gritava Daniel completamente irritado e bêbado.- Eu não nasci para ser corno!
– Eu nunca te traí.- Alegou a garota encarando o rapaz a sua frente.
– Mentirosa.- O rapaz pegou Jade pelo braço.- Pagando de virgem, mas deve ser uma putinha.- Daniel cuspiu as palavras.- Se é assim, eu também quero.
– Não!- Jade balançou a cabeça em desespero.
– Sim, ah sim!- Daniel puxou a blusa de Jade a rasgando.- Vamos ver se você é boa.
– Não! Não!- O rapaz jogou Jade no chão e avançou em cima da garota, que o tentava empurrar, mas sem sucesso.
Cobra ouviu os gritos da garota e saiu correndo pelo quintal, no meio do caminho pegou uma barra de ferro e foi em rumo ao casal.
– Solta a Jade!- Gritou acertando com a barra de ferro na cabeça de Daniel que caiu desmaiado pro lado.
Cobra ofegava de nervoso e Jade o encarava com lágrimas nos olhos, ambos em choque. O rapaz soltou a barra de ferro assustado com a sua reação e olhou a garota no chão, em seguida se ajoelhando próximo a irmã.
– Jade…- Pegou o rosto da garota nas mãos e a encarou por alguns minutos antes de puxá-la para um abraço.- Tá tudo bem, tá tudo bem. Agora eu tô com você, ninguém irá te machucar.
Daniel não morreu, mas ficou com um grande galo na cabeça e um medo terrível de Cobra. Também preferiu não prestar queixa, já que ele podia ser acusado de tentativa de estupro.”
Cobra esperava na sala Jade terminar o seu banho, enquanto se lembrava do episódio deplorável. Depois daquele dia, ele achou que as coisas mudariam, mas Jade fingiu que nada havia acontecido e voltou a odiá-lo como sempre. Ela poderia fazer o mesmo. Cobra só não saberia se teria saúde para aquilo. A garota saiu do banho, veio em direção da sala, apenas de roupão, e se sentou ao lado do rapaz. Cobra ficou em silencio, esperou que ela dissesse algo, mas não aconteceu.
– Ok Jade.- Cobra foi o primeiro a falar.- Se você quer que eu finja que nada aconteceu, eu finjo...
Jade o encarou e Cobra parou de falar.
– Se você quer fingir, problema é seu, mas eu não vou fingir nada. Estou cansada de mentir.- Jade desabafou.
Cobra suspirou, não imaginava essa reação da garota.
– Eu também não quero mais mentir.- Confessou.- O que faremos agora?
– Como assim o que faremos agora? Cobra não estamos namorando e nem por isso meu ódio por você diminuiu.- Jade sorriu de lado o encarando.- Foi só uma transa. Uma boa e quente transa.
Cobra sorriu de volta e mordeu o lábio inferior.
– Então podemos repetir, não é mesmo?
– Claro.- Jade sorriu e Cobra a agarrou a beijando, então a garota o empurrou o jogando no chão.- Mas não agora, estou com fome.
Cobra olhou para o teto derrotado e Jade passou por ele, confiante de si mesma e foi para a cozinha. Cobra fez o mesmo, afinal de contas, era bem provável que Jade não soubesse riscar um fósforo.
Cobra preparou o café da manhã e Jade cuidaria da louça, era uma regra. No entanto, era difícil se manter quieto enquanto a garota estava somente de roupão. Ele era humano. Cobra se levantou e foi até Jade.
– Quer ajuda?- Perguntou para a garota.
– Eu conheço esse seu sorriso.- A garota piscou e sorriu para ele.
– Você está sorrindo para mim? Isso é alguma pegadinha?- Perguntou Cobra divertido e a garota jogou água nele.
– Idiota.
Cobra ajudou a enxugar os pratos, enquanto observava Jade, de vez enquanto ela soltava um “o que você está olhando?”, o rapaz não respondia. Era muito estranho tudo aquilo, Jade estava sendo legal com ele? Era uma trégua ou um sinal que viria artilharia pesada? Cobra não sabia e nem queria entender, estava cansado de conversar com os seus demônios tentando entender os de Jade.
(...)
Cobra e Jade estavam deitados na cama do garoto, haviam acabado de transar mais uma vez. Era interessante, como ambos não se cansavam um do corpo do outro. Jade se levantou e começou a se vestir, sem dizer uma única palavra para Cobra.
– Você sabe que pode dormir aqui, não sabe?- Indagou Cobra suspenso pelos cotovelos para encarar Jade.
– Sei, mas não quero.- Disse a garota friamente.
– Claro, não segue os padrões da filhinha mimada do papai.- Atacou Cobra. Odiava quando falava assim com as pessoas, mas era difícil se controlar, sempre se sentia diminuído pela morena.
– Sim e não.- Disse Jade calmamente.- Sim, esse quarto não está a minha altura. Não, não é por causa disso que eu estou saindo.
– Então por que?
– Porque dormi aqui é um erro, transar com você é um erro.- Jade desabafou.
– Um erro que você adora cometer, não é mesmo?- Apesar do tom sarcástico, ele tinha um sorriso malicioso nos lábios.
– Não é porque eu estou fazendo isso com você, significa que não te odeio.- Jade o encarou com uma sobrancelha arqueada e um sorriso de canto, características da garota que seria capaz de tacar fogo em Cobra e ainda sorrir.
– Jade, por favor.- Implorou segurando o pulso da garota.
– Não posso.- A morena puxou o pulso e saiu do quarto.
Assim que Jade saiu do quarto do rapaz, sentiu suas pernas bambearem e ela teve que se segurar nas paredes para chegar ao quarto. Era bom fazer o que sempre quis, mas ao mesmo tempo tão doloroso. Devia odiá-lo, estar nesse momento pensando em mil maneiras de acabar com a vida de Ricardo, não se sentindo fraca por ele. Como queria voltar lá e passar a noite com o rapaz, mas não podia. Dormir com ele, seria como concordar com um compromisso e isso nunca aconteceria, jamais.
A garota puxou a gaveta e pegou uma foto de Ricardo Cobreloa, a única que ela não tinha queimado. Esta foto ela havia roubado do álbum de formatura do rapaz, era a que ele estava mais bonito e a primeiro momento, Jade pensou em queimar, mas não conseguiu. Cobra estava sorrindo na foto, feliz por ter concluído o ensino médio. Jade acariciou a foto antes de virá-la e ler a frase que estava escrito com sua própria letra no verso da foto.
“Amar é destruir, e ser amado é ser destruído”
Nunca aquela frase fez tanto sentido.
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