Ela estava sonhando, tudo era tão confuso e vago, mas Kory, e apenas ela, sabia o quanto aquilo era real.

Em meio as árvores gotejantes da sombria e escura floresta negra, uma menina chorosa sendo arrastada à força por homens brutos com máscaras medonhas de E.T.s. Máscaras baratas de halloween.

As roupas dela estavam sujas de lama e seus cabelos vermelhos ganhavam um bonito tom azulado quando iluminados pela lua. Mas quando as nuvens cobriam o céu, lançando chuviscos esparsos, é que podia-se perceber que aquela era uma noite triste.

A levariam de volta ao cativeiro, de onde Kory não devia ter saído. “Você não devia ter fugido”, repetia raivoso o que a segurava, como se quisesse dar-lhe um castigo. E é mesmo impressionante que a pequena menina enxergasse, naquele homem, a figura de seu pai inflexível e exigente, que lhe impôs desde cedo um completo treinamento de sobrevivência, nunca aceitando erros — os corrigia com palmadas e broncas, dizendo que ela pertencia à elite, e que não deveria mostrar fraqueza. Nunca mostre. No fundo, ele sempre fora desapontado por ter duas filhas, Kory pensava, e ela sempre estava à espera de uma reviravolta, de uma oportunidade de reunir forças e provar-lhe que não é fraca.

Um corvo rasga o céu nublado e solta um piado longo e sinistro, como prenúncio de mau agouro.

Reunindo um ímpeto de agressividade, Kory se vira num movimento surpresa. Com as unhas ela arranha seu agressor no rosto e imediatamente tenta pegar a arma dele em seu coldre. Não pensava em fugir, primeiro porque não tinha pique para mais uma corrida floresta adentro. Segundo porque na certa seria mordida e arranhada pelos ferozes cães de caça novamente. Ela queria lutar bravamente até o fim, qualquer fim, apagar toda dor até que ela se acabe.

“Arrh” grita o homem e leva a mão ao rosto por sobre a máscara. Mas ainda num estado de lucidez, empurra a garota quando sente-a tatear a arma na sua cintura.

Os cães latem exaltados, abafando um palavrão na bronca de um dos comparsas, por não segurar a menina direito, enquanto o mesmo a tenta imobilizar por detrás. Ela escandaliza, agitando as pernas no ar, quase escapa, porém um outro puxão, que dessa vez acaba rasgando uma manga da camisa deixando o sutiã semi exposto, a trás de volta. Frio. Ela pensou em correr, mas não saia do lugar, como nos pesadelos.

“Essa vadia quase me furou o olho”, responde emputecido ao jogar a máscara por sobre o chão. “Ela nunca tentou nada pra fugir daqui, só porque sabe que a família vai pagar o resgate. Agora vai ver o que é bom.”

Ele rasga a outra manga da blusa da menina, que continua se debatendo, e tenta lamber o seu pescoço, com dificuldade. Ela grita mais ainda, sua voz parece ecoar dentro da floresta, de novo, e de novo. E isso provoca um som triste; tão triste quanto as árvores de uma floresta melancólica, gotejando em uma noite chuvosa como aquela.

E a mistura de sentimentos nebulosos refletidos nos olhos verdes da menina, ao poucos, vai se transformando numa coisa muito ruim de se olhar.

Notas finais
Pode haver revisões neste piloto. Se houver, deixarei aviso no próximo capítulo. Aceito reviews ok?!