O lugar a que pertenço
1 Prólogo
Ela estava sonhando, tudo era tão confuso e vago, mas Kory, e apenas ela, sabia o quanto aquilo era real.
Em meio as árvores gotejantes da sombria e escura floresta negra, uma menina chorosa sendo arrastada à força por homens brutos com máscaras medonhas de E.T.s. Máscaras baratas de halloween.
As roupas dela estavam sujas de lama e seus cabelos vermelhos ganhavam um bonito tom azulado quando iluminados pela lua. Mas quando as nuvens cobriam o céu, lançando chuviscos esparsos, é que podia-se perceber que aquela era uma noite triste.
A levariam de volta ao cativeiro, de onde Kory não devia ter saído. “Você não devia ter fugido”, repetia raivoso o que a segurava, como se quisesse dar-lhe um castigo. E é mesmo impressionante que a pequena menina enxergasse, naquele homem, a figura de seu pai inflexível e exigente, que lhe impôs desde cedo um completo treinamento de sobrevivência, nunca aceitando erros — os corrigia com palmadas e broncas, dizendo que ela pertencia à elite, e que não deveria mostrar fraqueza. Nunca mostre. No fundo, ele sempre fora desapontado por ter duas filhas, Kory pensava, e ela sempre estava à espera de uma reviravolta, de uma oportunidade de reunir forças e provar-lhe que não é fraca.
Um corvo rasga o céu nublado e solta um piado longo e sinistro, como prenúncio de mau agouro.
Reunindo um ímpeto de agressividade, Kory se vira num movimento surpresa. Com as unhas ela arranha seu agressor no rosto e imediatamente tenta pegar a arma dele em seu coldre. Não pensava em fugir, primeiro porque não tinha pique para mais uma corrida floresta adentro. Segundo porque na certa seria mordida e arranhada pelos ferozes cães de caça novamente. Ela queria lutar bravamente até o fim, qualquer fim, apagar toda dor até que ela se acabe.
“Arrh” grita o homem e leva a mão ao rosto por sobre a máscara. Mas ainda num estado de lucidez, empurra a garota quando sente-a tatear a arma na sua cintura.
Os cães latem exaltados, abafando um palavrão na bronca de um dos comparsas, por não segurar a menina direito, enquanto o mesmo a tenta imobilizar por detrás. Ela escandaliza, agitando as pernas no ar, quase escapa, porém um outro puxão, que dessa vez acaba rasgando uma manga da camisa deixando o sutiã semi exposto, a trás de volta. Frio. Ela pensou em correr, mas não saia do lugar, como nos pesadelos.
“Essa vadia quase me furou o olho”, responde emputecido ao jogar a máscara por sobre o chão. “Ela nunca tentou nada pra fugir daqui, só porque sabe que a família vai pagar o resgate. Agora vai ver o que é bom.”
Ele rasga a outra manga da blusa da menina, que continua se debatendo, e tenta lamber o seu pescoço, com dificuldade. Ela grita mais ainda, sua voz parece ecoar dentro da floresta, de novo, e de novo. E isso provoca um som triste; tão triste quanto as árvores de uma floresta melancólica, gotejando em uma noite chuvosa como aquela.
E a mistura de sentimentos nebulosos refletidos nos olhos verdes da menina, ao poucos, vai se transformando numa coisa muito ruim de se olhar.
Fale com o autor