Notas iniciais
Muito obrigado a quem está acompanhando, Makino07 e AjoHielo, vocês são demais! Este capítulo mostra a introdução de Victor Stone e os acontecimentos são importantes no decorrer da fic.

1.

Ele gostava de andar pelas ruas da cidade sem rumo. Ver os prédios, os carros, o ar urbano. As gentes.

Ele gostava de andar sem rumo, quilômetros e quilômetros feito um moto-maníaco. Não sabia explicar mas aquela liberdade, a liberdade dos andarilhos, o fazia entender o outro.

Naquela quarta, porém, entender o outro não era a coisa mais fácil a fazer.

Pairavam nuvens pesadas sob a tarde, e a sua jaqueta preta ia se enchendo de pequenos pontinhos brilhantes, da fina chuva que caía. Victor tinha a impressão de que as ruas por onde andava também estavam de luto.

A guarita onde ele se deteve, é a do clube mais requisitado de Jump Park, no centro, localizado na quinta com a Park Avenue. Vic já foi sócio antes, e ainda conhece boa parte do quadro de funcionários.

“Me dá esse jornal ali, por favor”.

Ele espiou: dentro da guarita havia folhas de jornais, um telefone fixo e anotações de recados espalhados na mesa. A rádio tocava uma música pop que foi sucesso nos anos 2000.

O vigia disse “é de anteontem viu” e depois teve de ir abrir a cancela para um esportivo roadster da Mercedes. O clube é frequentado em sua maioria pela classe alta.

No jornal: ADOLESCENTE DE 18 ANOS SE SUICIDA DENTRO DE CENTRO ESPORTIVO em letras garrafais. Fazia três dias, mas ele continuava pensando no acontecido. Naquele mesmo clube, anos antes, Victor era um atleta que havia se dedicado muito no esporte para competir nos jogos olímpicos universitários — o que nunca aconteceu.

O vigia deixou a guarita e foi até a Mercedes, onde falou alguma coisa sem importância na janela. Em seguida voltou ao mesmo lugar que ocupava.

“Esses playboys hoje só querem se exibir com seus carrões”, criticou. Na voz, o timbre da inveja.

“Todo homem quer deixar a sua marca”, Victor falou. “Algo pelo qual queiram ser lembrados”.

O vigia examinou a prótese mecânica na perna do outro, como se quisesse formular uma pergunta inadequada, e ambos ouvem o ruído do SLK acelerando no asfalto molhado.

“Não, obrigado”, respondeu. “Só quero caminhar sozinho… espairecer”.

Nunca iria se acostumar com o fato de uma outra pessoa o olhar diferente mas preferindo disfarçar, para manter intacta a suposta normalidade da sociedade. Ele podia andar sozinho, claro, e isso havia se tornado seu hábito. Levantava cedo, para os primeiros raios de sol aquecerem seu rosto, dissipando o frio da madrugada. Ou mesmo altas horas, quando as estrelas preenchem-lhe os sonhos, noite afora.

Ao por-do-sol, Victor deixava que a brisa da tarde levasse para longe os seus problemas. Mas aquela quarta amanhecera chuvosa.

Ele passeou pelo salão de eventos, pela academia e as piscinas. Já a visão do gramado verde trouxe-lhe um passado nostálgico. Se tivesse competido, tinha certeza de que teria ido ao pódio. Estava preparado e sentira, desde a primeira vez, que possuía o potencial para vencer. Coisas aconteceram, porém, e Victor não pode deixar sua marca.

Naquela quarta o gramado verde havia sido encharcado pelo temporal e o que restou se descortinou numa tarde enfumaçada, branca.

Dentro do ginásio, ele sentou na penumbra da arquibancada vazia. Estava solitário e muito silencioso. Era um daqueles momentos em que ouvimos nossos próprios pensamentos. Eles haviam combinado muita coisa juntos. Não conseguia entender como tudo terminou assim, mas precisava aceitar, ao menos seguir em frente. É o que os andarilhos fazem, não é?

Nas vezes em que visitou aquele clube, Victor visitara o passado. Alimentava a saudade vez ou outra, jogando sozinho, como podia, imaginando algum lance decisivo da grande final, no ginásio vazio. Se identificou com um dos pupilos que também lá treinava, quando soube que o tal se inscrevera na delegação para os jogos olímpicos. Acabaram se tornando amigos. Foi uma época em que o andarilho havia voltado a viver.

Examinou o contorno das linhas da quadra, tentando rememorar os planos que ambos fizeram com brilho no olhar, e por isso não percebeu quando a mulher se aproximou. Por um instante, Victor estava em Nagai, acenando para o pódio em um dia ensolarado, e não no local onde um adolescente de 18 anos tivera cometido suicídio. Ele o acharia na torcida e ambos fariam a comemoração secreta, aquela com que Victor o motivava nos treinos, passando a experiência de atleta veterano.

Nos três dias depois do acontecido, o andarilho descobriu que passavam programas geniais de madrugada. E, bem ao seu jeito, pensou que, de fato, teria que achar um outro amigo com quem bebesse Coca-Cola em Hong-Kong.