O lobo e a raposa

8 O tempo passou


Capítulo 08: O tempo passou


Sempre ouvi os humanos dizerem que: O tempo passa rápido quando você se diverte.

Antes, nunca pensei muito nisso, pois nunca me diverti muito, então não havia como saber se era verdade ou não, mas… agora era diferente.

Kakashi se recuperou completamente e como havia me prometido, deixou que eu ficasse em sua companhia. Embora ele às vezes estivesse de mau humor, mas eu sabia que na maioria das vezes era culpa minha.

Assim como naquele dia em que acordei deitado em cima dele. Não sabia exatamente o que havia acontecido, mas após pensar com calma no assunto, não era difícil chegar a uma conclusão.

Eu estava com frio e um pouco doente, Kakashi é um lobo e seu pelo é muito confortável e quente, além disso, ele fica na caverna onde não chove. Depois de juntar tudo isso, eu inconscientemente devo ter ido até ele quando não estava completamente desperto.

Em uma situação como essa, como ele poderia não ficar zangado comigo? Portanto, não me importava com seu mau humor e apenas tentava não aumentar a sua raiva.

Passando os dias assim, com cautela e calma, quase dez anos se passaram. Durante esse tempo, não vi muito outros demônios, com exceção de um falcão que tentou se apossar desse território e mais alguns lobos que vieram procurar briga com o lobo prateado.

Nesse tempo, meu corpo finalmente cresceu um pouco. Minha forma animal agora podia rivalizar com uma perna de Kakashi e minha forma humana deveria parecer um garoto de quatorze ou quinze anos. Toda essa mudança ocorreu depois daquele período que o Kakashi me explicou ser a chamada "adaptação".

Durante esse tempo, também me aproximei um pouco mais dele. Ao menos agora podia dormir na caverna, mesmo que ainda fosse longe dele, mas já era uma evolução.

Ele falava com mais naturalidade e não era como antes, distante e sério. Ao conversar com ele, agora tinha a sensação de que estava falando com um professor ou um ancião da família, eu o respeitava naturalmente, mas não havia mais medo. E por mais velho e sério que ele fosse, às vezes podia compará-lo com uma criança.

— Vamos, é dia de treino, você prometeu! — reclamei, mordendo sua orelha e puxando-a, tentando sem sucesso lhe levantar ou ao menos acordar.

— Eu disse o dia, mas não disse as horas — retrucou e virou calmamente a cabeça para o outro lado e voltou a dormir.

Desanimado, deitei no chão e o encarei, tentando encontrar o majestoso lobo prateado que conheci e que se perdeu nesse cachorro grande e preguiçoso.

Já era o final da tarde quando ele finalmente se levantou e seguiu para fora da caverna, se sentando e balançando calmamente sua cauda, como se estivesse ali para pegar um sol ao invés de treinar comigo.

— Vamos, ataque — pediu e finalmente fiquei empolgado. Corri e tentei lhe atacar de vários ângulos diferentes, mas seja sua cauda ou suas patas, elas sempre me interceptavam antes que pudesse chegar até ele. Após ser arremessado para longe dezenas de vezes, cair no chão e voltar para atacá-lo, estava cansado demais e apenas deitei no chão enquanto respirava rapidamente.

— O treino está encerrado — avisou calmamente. Em seguida, lentamente voltou para sua caverna, outra vez indo dormir.

— Você vai ficar careca se dormir tanto — sussurrei com raiva.

— Eu ouvi isso — avisou em tom ameaçador e meus pelos se arrepiaram enquanto eu pulava e corria para longe, com medo de receber alguma punição.

Da última vez que ele me puniu, tive que ficar parado de pé, do lado de fora da caverna, por três dias inteiros! Sem comer, dormir, tomar água ou mesmo ir ao banheiro! Foi terrível!

Corri para o rio, assumi minha forma humana e lavei as mãos enquanto olhava para a água e para os peixes que nadavam nela. Já estava escurecendo e quase não podia ver, mas felizmente minha visão era muito melhor do que a de um verdadeiro humano e ainda consegui persistir ali por um tempo, tempo suficiente para pegar alguns peixes.

Quando voltei para perto da caverna, já era noite. Arrumei alguns galhos ali no espaço aberto em frente da caverna e depois caminhei até ele.

— Kakashi ~ — chamei cantarolando. — Acenda a fogueira para mim? — Pedi com olhos cheios de carinho e olhando fixamente para ele. De repente uma enorme pata apareceu em minha frente e tocou meu rosto, escondendo meus olhos.

— Não me olhe assim, estou tendo calafrios — avisou e eu apenas ri, esperando enquanto ele se levantava, caminhava até perto da pequena pilha de madeira e usava uma pequena concentração de raios para fazer fagulhas e queimar um pouco os galhos. Corri assim que ele terminou e assoprei para que o fogo não se apagasse, cuidando dele até que se espalhou para as outras madeiras e por último colocando os peixes espetados em galhos por perto, para os assar.

Ele se deitou ali ao lado e eu cuidei dos peixes, às vezes virando-os e os substituindo quando já estava pronto. Depois de quase uma hora, todos foram colocados no fogo e podiam ser comidos. Separei a maior parte para ele e coloquei em uma folha em sua frente, deixando que comesse sozinho enquanto eu comia a minha parte.

Como um demônio raposa, não havia problemas em comer peixe cru, mas minha forma humana não aceitava comida crua com muita facilidade, então às vezes tentava algo diferente. Kakashi também parecia gostar e até mesmo não se queixava de me ajudar, como foi a questão do fogo agora há pouco, afinal meu fogo não serve para esse tipo de propósito.

— Kakashi, estava notando esses dias que cresci bastante nos últimos anos. Isso é tudo por causa daquele ano da adaptação? — questionei algo em que vinha pensando bastante.

— Não — respondeu para a minha surpresa.

— Não? Então… — Não sabia nem mesmo o que realmente deveria perguntar, afinal não sabia muito sobre essa questão. Felizmente ele pareceu ver minhas dúvidas e explicou:

— Você cresceu mais nesse tempo, porque sua vida está mais estável. Não é preciso fugir com frequência, pode comer e descansar com regularidade e vive feliz e sem preocupações. Essas condições de vida fizeram você crescer saudável, apenas isso.

— O ano da adaptação das raposas, tem o propósito de transformar seu corpo. Para ser mais específico, a partir daquele dia, você já pode acasalar.

A ouvir essa última parte, engasguei com o peixe e tive dificuldade de respirar. Tive até que correr para o fundo da caverna e tomar um pouco de água no córrego que havia ali. Quando voltei para perto da figueira, não sabia que expressão usar.

— Isso… Essa questão… Ainda sou criança — comentei um pouco desconfortável.

— Você se baseia na sua forma humana. Não se esqueça que é um demônio e para os demônios, não existe nada assim. Acima de cinquenta anos, muitos clãs já casam seus filhos ou começam a lhes treinar para lutar — Me lembrou de algo que já havia mencionado antes.

— Sim, afinal é difícil para os demônios terem filhos, por isso, eles começam a tentar cedo. Me lembro dessa questão, mas sabe, ainda me sinto como uma criança e não tenho muito interesse nesse tipo de contato… Isso é porque cresci sozinho ou outros clãs ignoram os pensamentos dos mais jovens?

— Os dois — respondeu, se levantando e indo em direção à sua caverna enquanto acrescentava uma explicação: — Você cresceu sozinho e longe de outras raposas, então é normal que não tenha interesse sexual. Mas também existe o fato de que em outros clãs, muitos jovens e crianças não têm suas opiniões ouvidas.

Suspirei ao ouvir isso e não sabia dizer se era algo bom ou ruim o fato de não ter um clã e família.

— Não pense muito. Sua família jamais te forçaria a fazer algo — Suas palavras interromperam meus pensamentos e me deixaram surpreso. Essas palavras significavam que ele conhecia minha família?

— Vou dormir, não me perturbe — pediu antes que eu tivesse tempo de lhe perguntar algo, fazendo com que minhas dúvidas que já estavam na ponta da língua, fossem engolidas novamente.

"Tudo bem, ainda temos tempo para conversar sobre isso", disse a mim mesmo em pensamentos, mas não esperava que tudo tivesse mudado no dia seguinte.