O lobo e a raposa
9 Inesperado
Capítulo 09: Inesperado
— Kakashi, vou colher algumas frutas, você também quer? — questionei perto do meio-dia, quando estava prestes a sair e procurar algo para saciar a fome.
Observei o lado de fora e percebi que o tempo não estava muito bom, havia chovido bastante nas últimas semanas.
— É melhor eu pegar um pouco mais — disse a mim mesmo, não querendo ter que sair na chuva quando ficasse com fome.
— Kakashi? — chamei novamente ao perceber que ele ainda não havia me respondido. Olhei em sua direção e vi que ele ainda estava dormindo, o que era muito estranho.
A audição do lobo era muito apurada, portanto, era impossível que ele não tivesse me ouvido. Além disso, ele era muito cuidadoso e notava qualquer movimentação minha, mesmo após morar em minha companhia por tantos anos.
— … Kakashi? — chamei novamente, um pouco hesitante. Mas outra vez, não tive resposta.
Caminhei até mais perto dele e fiquei parado em sua frente, erguendo a mão e parando-a no ar antes de lhe alcançar. Fique nessa posição por um longo minuto e depois resolvi tentar, abaixando minha mão e tocando a lateral da sua cabeça, fazendo ali um leve carinho.
Enquanto lhe tocava, olhava para seus olhos e esperava que ele os abrisse e brigasse comigo, mas isso não aconteceu.
Naquele dia, desiste de ir buscar comida e fiquei ao seu lado, lhe chamando, empurrando e até mesmo mordendo. Fiz tudo o que pude para lhe acordar, mas não obtive resultados.
Um dia, dois dias, três dias… Uma semana, duas semanas três semanas… Um mês, um mês e meio se passou e ele ainda não havia acordado.
Kakashi parecia estar em algum tipo de coma e embora estivesse bem externamente, talvez não fosse o caso quando o assunto era interno.
Não sabia o que fazer para lhe ajudar, pois não sabia onde exatamente estava o problema, então apenas lhe fiz companhia e esperei, esperei dia após dia para que seus olhos se abrissem.
Naquela manhã de início de inverno, estava deitado em cima de Kakashi, o lugar onde costumava ficar desde que ele ficou inconsciente e não acordou mais. Deitei de barriga para baixo sobre seu pescoço e apoiei minha cabeça sobre a sua, aproveitando o calor do seu corpo.
— Se você não gosta que eu te faça de travesseiro, então acorde e brigue comigo — pedi em tom triste e como o esperado, não houve resposta.
Fixei meus olhos do lado de fora da caverna e vi as folhas que caíram no outono, voando de um lado para o outro com os ventos gélidos do inverno. O mundo parecia ser o mesmo, mas sentia uma grande diferença agora que Kakashi estava nesse estado inativo.
Pela primeira vez desde que cheguei a essa floresta, parei para pensar no que eu faria quando tivesse que ir embora.
Se passaram apenas pouco mais de dez anos desde que estive aqui, mas seja essa floresta, a companhia de Kakashi ou a vida calma e sem preocupações, já estava completamente acostumado com ela.
— Não quero ir embora — disse o que estava no fundo do meu coração. Porém, sabia que o que eu queria e o que podia fazer, eram diferentes. Tenho um acordo com Kakashi e quando o tempo se encerrar, terei que ir embora, mesmo que não queira.
— Kakashi… Posso ficar aqui para sempre? — Não havia resposta porque ele não podia responder, mas mesmo se ele pudesse falar agora, provavelmente não me diria para ficar.
Suspirei pesadamente e depois fechei meus olhos, não apenas para descansar, mas também para fazer mais uma tentativa.
Desde que ele dormiu e não acordou mais, tenho meditado e usado minha energia demoníaca para nutrir seu corpo. Olhando de uma perspectiva distante, estava prejudicando meu corpo para ajudar o seu. Olhando de uma perspectiva pessoal… estava trocando parte da minha vida, pela sua.
Pode parecer algo terrível, abdicar da sua própria vida pela de outra pessoa, mas demônios vivem centenas de anos, alguns até chegam a milhares de anos. Para mim, trocar alguns anos pelo bem de Kakashi, não é uma perda, pois eu era egoísta e esperava que ele pudesse ficar mais tempo ao meu lado.
Assim, dia após dia, semana após semana e mês após mês, lhe fiz companhia e usei minha energia para abastecer seu corpo, esperando que isso pudesse lhe ajudar.
Infelizmente, não tive resultados, mesmo que um ano já tivesse se passado.
Felizmente, ninguém apareceu atrás de problemas e assim, ficamos em segurança.
(Narração do ponto de vista de Kakashi.)
Abri meus olhos e meu corpo reagiu imediatamente, encolhendo e se transformando, enquanto a forma humana que não usava há mais de um século, finalmente aparecia.
Sentado no chão, peguei a raposinha em minha cabeça e a coloquei em meu colo, sem saber como deveria lhe olhar.
Antes de ser ferido pelo exterminador, eu já havia enfrentado uma longa batalha com outro lobo, décadas atrás e depois daquela batalha, meu corpo se deteriorou e não consegui mais assumir minha forma humana.
Depois da luta contra o exterminador e os novos ferimentos, uma médica especialista em demônios me disse que eu tinha pouco tempo de vida, no máximo alguns anos e depois disso meu corpo não poderia mais suportar, pois havia uma grave perda de energia constante.
Nesse tempo em que não podia acordar, não é que eu não quisesse acordar, mas que meu corpo não suportava, por isso, se manteve nesse estado inanimado. Ainda estava ciente que acontecia do lado de fora e apenas não podia responder.
Por isso…
Claramente senti a energia dele entrando em meu corpo dia após dia, curando meu corpo pouco a pouco. Ouvi suas palavras a cada poucas horas e senti o calor do seu corpo junto ao meu.
Enquanto estava naquele estado a espera da morte, ele me trouxe pouco a pouco de volta a vida, mesmo que precisasse trocar pela sua própria vida.
— Tão pequeno — olhei para o carinha em meus braços que parecia ter voltado para o tamanho de quando nos conhecemos e me senti um pouco triste por ele.
Seja pela sua perda de energia ou pela falta de comida enquanto ele me fazia companhia quase o dia todo, ele claramente estava em um estado bastante debilitado.
— Obrigado, Naruto — sorri levemente enquanto percebia que essa era a primeira vez que dizia seu nome.
Coloquei-o no chão e voltei para a forma de lobo, pegando-o com minha cauda e o trazendo para mais perto. Depois que ele fez tanto por mim, aquecê-lo era o mínimo que poderia fazer.
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