O lobo e a raposa

7 Não fique com raiva, não fique com raiva...


Capítulo 07: Não fique com raiva, não fique com raiva…


(Narração do ponto de vista de Kakashi.)


O ano da adaptação.

Se eu não tivesse vendo por mim mesmo, não acreditaria que aquela pequena raposa demônio já tivesse sessenta anos. Seu tamanho animal e humano era muito subdesenvolvido, ele deveria ter tido uma vida difícil.

Mas bem, no fim ele era um demônio e ter uma vida difícil é o que esperamos. A cada década que se passa, mais humanos existem e menos demônios sobrevivem e nascem. Em mais alguns séculos ou milênios, não seria uma surpresa se fôssemos extintos.

— É hora do remédio — A criança avisou, entrando na caverna e indo até à água que ficava lá no fundo. Todo o seu processo foi o mesmo de sempre, limpar meus ferimentos para retirar o remédio e depois aplicar mais remédio, era o processo que ele fazia duas vezes ao dia.

Porém, havia algo de errado com ele. Seus olhos estavam sem foco e ele não parecia se importar com o fato de estar todo molhado.

— O que aconteceu? — perguntei, mas para a minha surpresa, não houve resposta. Se eu já achava que tinha algo de errado antes, agora tinha certeza.

Essa criança era do tipo que se eu lhe desse três palavras, ele devolveria trinta e não duvidava que se eu conversasse com ele, a conversa nunca iria acabar. Ainda assim, lhe fiz uma pergunta e ele não me deu uma resposta.

Nem sequer uma única palavra.

Depois que ele lavou a mão e estava prestes a sair da caverna, pensei em lhe deter, mas depois desisti. Embora soubesse um pouco sobre raposas, eu não era uma e não havia como saber sobre tudo. Portanto, deixei que ele ficasse sozinho e cuidasse de si, entretanto, não esperava que após ficar na entrada na caverna por muito tempo, ele se virasse e voltasse para dentro.

Ainda deitado, observei seus movimentos com curiosidade enquanto ele caminhava até mim. Abri os olhos de surpresa e esperei para ver o que ele iria fazer, não esperando que ele de repente se jogasse sobre mim.

Ao sentir seu corpo quente contra mim, fiquei rígido no mesmo instante. Embora ele já tivesse me tocado para trocar o remédio do ferimento, era diferente de quando estava descaradamente me abraçando como agora. Estava me sentindo muito desconfortável, mas logo esse desconforto se tornou raiva, porque ele se esfregava em mim como se eu fosse um casaco.

— Maldita raposa! Me fazendo de aquecedor — praguejei com vontade de lhe jogar longe, com muita vontade!

Em meus 368 anos, nunca havia passado por uma situação onde alguém foi tão desrespeitoso comigo.

Mas…

Embora estivesse com raiva, não era estúpido. Sua temperatura corporal estava muito acima do que o normal e ele estava agindo estranho, juntando isso com a fragilidade do corpo humano, não seria difícil deduzir que ele não estava em boas condições.

Não gostava daquele tipo de contato, mas não afastei a criança. Consideraria isso como uma retribuição por ele estar usando seu próprio sangue para me ajudar a curar.

Virei a cabeça e decidi Ignorá-lo e fingir que não existia. Me ajeitei para ir dormir e de repente meu corpo congelou novamente. Ergui minha cabeça lentamente e olhei para trás, vendo a cena que estava esperando ser minha alucinação.

O garoto estava deitado de costas, escorado em mim e em seus braços estava, minha cauda.

Todo demônio sabe que tocar a cauda de outro demônio é inapropriado, isso é o mesmo que flertar. Para algumas raças mais conservadoras, tocar a cauda era algo tão íntimo quanto acasalar e apenas os companheiros ou filhotes podiam fazê-lo. Ainda assim, ele…

— Esse pirralho… — Estava com uma grande vontade de lhe dar uma dentada. Em tantos séculos de vida, foi a primeira vez que fui molestado dessa maneira!

— Apenas uma dentada e sua vida vai acabar — disse a mim mesmo, com vontade, uma grande vontade de comer essa raposa viva.

— Mas meu tratamento ainda não acabou — raciocinei comigo mesmo.

Olhei para ele e vi ele esfregando seu rosto em minha cauda, me deixando com tanta raiva que inconscientemente algumas de minhas habilidades começaram a escapar e alguns relâmpagos percorreram meu corpo.

Olhei fixamente para minha cauda presa em seus braços e disse a mim mesmo em meus pensamentos: "Não precisa de muito esforço e ele seria queimado até a morte. Apenas uma pequena fração de um relâmpago seria o suficiente."

Eu queria muito, queria mesmo, mas quando pensei em matá-lo, uma imagem apareceu em minha mente, era a imagem de um casal.

Um homem loiro e de olhos azuis, assim como a forma humana da criança. Uma mulher de longos cabelos vermelhos, tão vermelhos quanto seu pelo em forma de raposa, assim como a ponta das caudas desse filhote.

— Tsc! Você tem sorte de ser uma kitsune. Se não fossem essas suas nove caudas, já teria tirado sua vida — praguejei e decidi ignorá-lo antes que ficasse com ainda mais raiva.

Sim, se ele não tivesse nove caudas, não seria filho daquela pessoa e não me sentiria culpado em matá-lo. Nesse caso, sua vida teria terminado no dia em que ele invadiu meu território.

Esperei com a paciência que nem sequer sabia que tinha. Três dias se passaram e nada mudou na caverna, mas fora dela a chuva parou e o tempo começou a esquentar. Mais dois dias se passaram antes que ele acordasse.

Ao vê-lo acordado, toda a minha raiva acumulada de muitos dias, finalmente tinha para aonde ir.

— Você acordou? — Ao ver suas orelhas se mexendo no topo da cabeça e saber que ele estava ouvindo e de fato estava acordado, não perdi tempo e usei a cauda que ele abraçou durante esse tempo e joguei-o para fora, que era o que eu queria ter feito desde cinco dias atrás!