O livro do encantamento.
2 O sistema de avaliação.
Notas iniciais
— Como? — perguntei incrédula.
A senhora Eira tomou o livro aberto em suas mãos, deslizando o dedo indicador na linha de uma palavra, após alguns minutos consegui perceber que a resposta para minha pergunta não viria, assim, vagarosamente coloquei-me ao seu lado, dividi o olhar entre a palavra que ela marcava e o seu rosto sereno.
— Maicsit. — balbuciou.
Lançou-me um rápido olhar, deduzindo que eu não havia entendido o que dissera, voltou os olhos para a página do livro, seus lábios rosados formaram um sorriso constrangido, uma mecha de cabelo que estava atrás de sua orelha caiu sobre sua bochecha a fazendo a afastar de seu rosto prendendo-a novamente no mesmo lugar.
— Maicsit. — repetiu, agora mais claramente. — É como chamamos essa língua antiga. Dotada da magia.
— Magia? — sussurrei. — Pensei que apenas existisse em histórias para fazer crianças dormirem. — disse num tom de voz confuso.
— Então está na hora de rever seus conceitos. — fitou-me de maneira séria.
— E... — hesitei, sentindo um frio arrepiar o meu corpo. —Então a senhora poderia me explicar? — indaguei com a voz um pouco baixa.
— Sim. — expressou um largo sorriso. — Este livro contem palavras que formam feitiços, de grande á baixa potência e força. Basta lê-los em voz alta para ativá-los. — dirigiu seu olhar para uma estante de livros, seus olhos perderam o brilho gentil, tornando-se opacos enquanto encarava a sua frente, abriu a boca a fechando na mesma velocidade, aparentava divagar em seus pensamentos, como se estivesse em um conflito interno.
— Senhora Eira? — a chamei com preocupação misturada com curiosidade em minha voz.
Piscou, saindo de seu transe, virou-se para mim, encarando meus olhos com o brilho gentil de volta á eles, se pronunciou, de forma calma:
— Quer ouvir uma história?
Concordei balançando a cabeça levemente, a senhora Eira sentou-se na cadeira próxima á ela, imitei o seu gesto me sentando na cadeira da outra ponta da mesa, entrelaçou suas mãos, concentrando grande parte de sua atenção nelas, ergueu o olhar encarando-me de modo mais intenso que nos momentos anteriores, o silêncio se fez presente e o desconforto me atingiu, engoli em seco.
— Em tempos antigos, um pouco depois de quando a civilização aprendera a construir murros, aldeias e forjar armas, um homem bastante corajoso aventurou-se á explorar outras áreas, longe de seu povo, atravessou as diversas águas salgadas e doces, parando em ilhas antes inabitadas, até que um dia pisou em uma terra estranha, a areia emitia ondas de calor semelhantes á relâmpagos, pela primeira vez ele sentiu medo, porém não o deixou dominar sua mente e corpo. Olhando ao seu redor percebeu que a vegetação quase não existia, prova de que havia tão poucas árvores, após horas perambulando sem rumo, sentindo os pés descalços arderem, o homem encontrou uma caverna no extremo norte. — fez uma pausa para se certificar de que eu estava acompanhando os fatos da história.
— Prossiga. — disse firme.
— Adentrou a caverna, deparando-se com incontáveis cristais, sua curiosidade aflorou e lhe veio a ganância, caminhou mais á fundo, retirando algumas pedras preciosas que encontrava pela trajetória, sua atenção foi tomada pelo grande cristal ilustre que vira, diferente dos outros, suas cores alternavam-se constantemente, sem hesitar, o arrancou do chão. Inesperadamente ouviu um rugido de uma besta, começou a correr com tudo o que retirara da caverna, mas... A fera o cercou antes que fugisse, possuía dois chifres, dentes amarelados pontudos dentro de sua boca e mais quatro encostados em seus lábios, maiores em relação aos que estavam dentro, a criatura com o corpo de um lagarto arranhou seu rosto, provocando um corte profundo ao lado de seu olho esquerdo, o ataque serviu de aviso para o homem abandonar a caverna, com os pedaços de sua camisa rasgados no processo.
— O que aconteceu com o homem a seguir? — perguntei logo que ela parou de contar a história.
— Voltou para a sua aldeia, contou para todos o que acontecera, mas ninguém se dispôs á acreditar em suas palavras, então ele mostrou os cristais que tinha pego da caverna, assim como o homem, interessaram-se muito no maior cristal, de cor indefinida, alguns construtores habilidosos o quebraram a fim de fabricar lindas jóias e vender, no instante em que pedaço por pedaço se partiu, uma luz surgiu correndo pelo ar, o apavoramento tomou conta dos rostos das pessoas, desesperado em parar o que saiu do cristal, o homem aproximou um papel do rosto, fazendo uma parte da luz ser absorvida por ele. Vendo que esta idéia funcionou, o restante do povo ajuntou papéis, aprisionando cada partícula do brilho neles, até não restar mais nada sendo jogado com o vento.
— Nossa... — sussurrei impressionada, ajeitei-me na cadeira, mudando de postura várias vezes, o que pareceu incomodar a senhora Eira.
— Não fique inquieta, criança. — sorriu. — Estou chegando na parte em que você tanto espera.
— Ah... Sim. — respondi, expressando um sorriso tímido e sentindo um calor invadir minhas bochechas.
— Ao passar do tempo, os papeis em que o brilho fora trancado foram transformados em um único livro, o homem... Não, Mondric, usufruiu do poder contido nele, sendo declarado como mago, anos depois, a inveja subiu á cabeça de alguns homens, com a ajuda dos conhecimentos de Mondric, criaram duas cópias do livro, dessa forma, uma guerra sangrenta se iniciou por várias décadas, para decidir quem governaria á tudo e á todos, através dos poderes dos livros. Foi em uma dessas décadas em que os guerreiros forçaram Mondric á revelar a localização da caverna, combatendo as criaturas que apareciam e por fim, queimando os livros. Porém um deles ainda existe.
— Guerreiros... — resmunguei. — Espera! — arregalei os olhos. — O sistema de avaliação. — sussurrei.
— Tire suas próprias conclusões depois de ouvir essa história. Infelizmente, não posso te contar nada além disso. — levantou-se caminhando na direção da escada prateada.
— Não! Por favor, conte-me sobre a razão de terem inventado o sistema de avaliação! — gritei, porém a senhora Eira não me deu uma resposta. — Eira! — a chamei num grito.
Uma mão tocou o meu ombro, viro o rosto observando o sujeito que fizera isso, o sorriso largo não estampava os lábios do homem como antes, seus olhos estavam cansados, fitando o chão e não á mim, abri a boca, surpresa pela sua expressão ter mudado tanto.
— Senhorita, a senhora Eira já terminou sua conversa. Por favor, queira se retirar. — disse sem energia na voz, quase como um sussurro.
Abaixei o olhar, peguei o livro em meus braços, deixando que o homem me conduzisse até o portão, atravessei a estrada sem olhar para trás ou ao menos erguer o olhar para alguém, eu sentia um vazio, vazio causado pela decepção por não descobrir completamente a verdade por trás do livro.
Abracei o objeto em meus braços fortemente contra o meu peito, estava á beira de me entregar á tristeza, quando lembrei-me da frase que meu pai repetia á cada vez que eu sentia o mesmo vazio por não completar um objetivo muito importante para mim:
“— Se você desistir agora, jamais será realmente capaz de tentar novamente.”
Servindo como um clarão em uma noite escura, essa lembrança me fez reerguer a minha vontade de continuar lutando pelo meu desejo, finalmente levantei meus olhos, os direcionando para o céu, o azul pálido lentamente adquiria tons alaranjados e rosados, o por do sol se aproximava e com isso, as escolhas para decidir qual guerreiro era qualificado para lutar contra os monstros da caverna.
Apressei os meus passos, um sorriso preencheu os meus lábios ao avistar os rostos de meus irmãos, além deles vários outros homens encontravam-se na área de treinamento, sem demora juntei-me ao grupo de guerreiros, a faca atirada por Balder perfurou a zona perto do centro do alvo, antes de atirar a segunda faca ele soltou um grunhido em reprovação. Fenris levantou-se do banco de madeira, sorrindo com certa arrogância, caminhou em sua direção até ficar ao seu lado.
— Nada mal para um perdedor. Se continuar desse jeito vai ter que aguardar até a próxima avaliação para lutar com os homens. — debochou gesticulando para as duas facas cravadas no alvo.
— Se é melhor, então mostre. — desafiou rudemente, retirando as facas e entregando-as para Fenris.
Como o esperado ele as aceitou, esperando que Balder se afastasse um pouco e assim as lançou com uma precisão incrível, ambas perfuraram o centro do alvo, disputando o pequeno espaço entre elas. Balder franziu as sobrancelhas cruzando os braços em seguida, o que provocou uma fraca risada de seu irmão gêmeo.
— Espero que esta demonstração de habilidade lhe seja útil, perdedor. — sussurrou dentro de seu ouvido.
Bruscamente Balder tentou golpear o rosto de Fenris com um soco, porém Fenris desviou de seu ataque e rapidamente os dois trocavam socos e chutes entre si, avancei alguns passos para impedir sua luta, mas fui contida pelo braço de Gleipnir em volta de minha cintura, o fitei com a confusão estampada em meus olhos estranhos e meu irmão pareceu a perceber, sorriu presunçosamente afrouxando o aperto.
— Nasceram no mesmo dia e mesmo assim se desentendem facilmente. Melhor deixar que façam as pazes, não vai durar muito essa luta idiota.
— Certo. — murmurei.
Retirou o braço de minha cintura colocando sua mão em meu ombro numa demonstração de afeto, expressei um pequeno sorriso pondo minha mão em cima dela, permanecemos dessa maneira fitando os olhos um do outro até Héktor o chamar, Gleipnir agarrou uma espada jogada por Héktor, analisando-a demoradamente. Héktor virou-se na direção dos dois irmãos lutando e gritou com a voz firme:
— Não gastem muita energia, precisarão dela mais tarde.
Lhe responderam acenando a cabeça positivamente, sentei no banco deixado por Fenris e passei meus dedos sobre o desenho retratando as assas de uma águia entalhado na capa cinzenta do livro.
Tenho que pensar em uma forma de entrar na caverna! Algum plano brilhante em que eu não fique exposta á tanto perigo, pois meu físico não é um dos melhores...
— Celene! — chamou-me Héktor interrompendo minha linha de raciocínio.
— Estou indo. — respondi levantando-me do banco.
Ao me aproximar deles, não resisti á tentação de encarar as espadas que seguravam, suas lâminas brilhavam com os raios emitidos pelo sol, a lâmina da espada de Gleipnir possuía um formato um pouco reto, á julgar pela vista um corte provocaria um filete de sangue de risco médio, porque a sua extensão atordoaria os membros com uma grande dor, devido á batida, o material em que a lâmia consistia era um aço cuidadosamente forjado para ser muito resistente. Pousei os olhos na arma de Héktor, diferente da qual Gleipnir segurava, fora fabricada para causar um dano mais poderoso, a extremidade da lâmina era curvada, bastando apenas um mínimo corte para desencadear um sangramento forte, sua resistência era pouca, mas a espada cortava facilmente recompensando a falta dela em agilidade e leveza.
— Admirando as espadas? — perguntou Héktor usando um tom de voz brincalhão.
Pisquei meus olhos várias vezes, forçando-me a acordar de meus devaneios, Gleipnir reprimiu uma risada com uma mão tampando a boca.
— Em que posso ser útil? — perguntei calmamente.
— Assistindo. — afirmou devagar. — Seu aprendizado sobre a composição de armas servirá em nosso combate. — balançou sua arma realizando uma seqüência de golpes no vento, com uma destreza incrível por causa de sua leveza, á cada movimento a luz refletia na lâmina.
— Graças ao papai. — o lembrei com um sorriso largo da pessoa que me ensinara.
Gleipnir concordou com a cabeça, uma leve batida foi desferida por Héktor em seu ombro, afastei-me sentando no tronco caído de uma árvore, ambos tomaram a posição inicial de batalha, envolvidos em uma troca de olhares intensa, entrelacei minhas mãos, um frio inesperado na barriga surgiu, respirei fundo tentando expulsar a insegurança que sentia.
— Vai ficar tudo bem. É apenas um treinamento. —sussurrei fitando o chão. — Não há necessidade de se preocupar. — me assegurei.
Pousei meu olhar nos meus irmãos, tanto Gleipnir quanto Héktor aguardavam por um movimento para iniciar o combate e exalavam autocontrole, porém através do brilho nos olhos de Gleipnir reconheci que ele estava mais nervoso, apesar de manter uma expressão serena no rosto.
Gleipnir elevou um pouco a arma, sinalizando para que Héktor avançasse e começasse a batalha, Héktor desferiu um golpe com a espada sendo bloqueado com rapidez por Gleipnir, investiu em outro ataque dirigido á lateral do tronco de Gleipnir que fora bloqueado novamente, Héktor girou graciosamente a espada desferindo seu ataque na perna direita de seu adversário recebendo um bloqueio desajeitado, se Gleipnir não tivesse se apressado jorraria muito sangue de sua perna.
Héktor ergueu sua espada preparando-se para atacar, mas Gleipnir aproveitou sua brecha e avançou com a lâmina voltada para o estomago dele, rapidamente mudou sua posição bloqueando a investida, Gleipnir empurrou a extremidade da espada contra sua arma, Héktor concentrava grande parte de sua força em manter sua espada firme e imóvel. Finalmente Gleipnir abordou outra tática afastando sua arma e a direcionando para o ombro de Héktor, o impacto da extremidade da lâmina contra o seu ombro causou um barulho estridente, mesmo a espada de Gleipnir sendo bloqueada por Héktor. O bloqueio foi superficial.
Gleipnir afastou sua arma, Héktor colocou a mão sobre o ombro, rangeu os dentes devido á dor do golpe, a retirou balançando a espada no ar e gesticulando para seu irmão continuar a lutar, Gleipnir avançou rapidamente desferindo um ataque que logo foi bloqueado, então, ambos iniciaram uma guerra entre espadas, no qual tentavam derrubar a arma do oponente. Continuaram chocando suas espadas uma contra a outra, até que sem aviso Héktor girou a lâmina de sua espada em direção ao peito de Gleipnir, porém antes de seu golpe ser bloqueado ele a girou novamente cortando a perna de Gleipnir. O primeiro ataque era uma distração.
Gleipnir gritou de dor, a espada de Héktor foi retirada e depressa avançou contra a arma de seu adversário, o dano que Gleipnir sofreu era abalador considerando pela sua dificuldade em derrubar a espada, no momento em que Gleipnir olhou para o lado, a sua arma foi golpeada caindo com a lâmina cravada no chão, Héktor raspou a extremidade da lâmina no braço de Gleipnir, um filete de sangue se abriu e em seguida sangue jorrou pela sua pele, logo ele esticou a espada a apontando para a garganta dele.
—Temos um vencedor. — resmungou Gleipnir.
— Melhor cuidar de seus ferimentos. — eu disse eufórica caminhando na direção contrária á deles.
Molhei o pano manchado com sangue, o torcendo antes de passar na ferida da perna de Gleipnir, ele grunhiu com a ardência que isso provocou, pressionei o pano por um minuto e o afundei dentro da tigela cheia de água, o sangramento cessou, suspirei aliviada, enfaixei o ferimento com cuidado para não apertar muito forte. Terminado o trabalho de cuidar de suas feridas, peguei uma pequena quantidade da erva medicinal e coloquei no machucado de Héktor, havia uma vermelhidão ao seu redor, reprimiu um grunhido, após espalhar a erva cobri o ferimento com uma faixa.
— Celene, eu sei que você não desgrudou os olhos da batalha, então nos conte o relatório sobre as vantagens e desvantagens das armas que estávamos usando, por favor. — pediu Héktor acomodando-se melhor no tronco em que sentara.
— A espada que Gleipnir usava tinha uma incrível resistência em seu material, capaz de atordoar mais com uma batida do que com cortes. Um pouco pesada para você, Glei. — encarei-o recebendo o seu olhar sério fixo no meu, desviei os olhos, desconfortável. — Desculpe. — disse em voz baixa.
— Não se desculpe, eu não estou zangado. Estou seriamente considerando seus conselhos.
— Ótimo. — sorri, lançando um rápido olhar para ele. — A espada de Héktor possuía pouca resistência, mas graças á sua lâmina encurvada e estrutura, um pequeno corte provocava muito dano e sangramento. Bastante leve e ágil, porém, como eu disse, seu material não é muito forte. —fixei meu olhar no de Héktor. — Talvez seja essa a razão de não ter conseguido bloquear totalmente o ataque, Héktor.
— Entendo. — concordou.
Apertei o braço de minha mãe, a insegurança aumentara em meio á multidão, ela aparentou notar o meu nervosismo e então deslizou carinhosamente os dedos em meu braço, observando-me com um sorriso maternal.
— Acalme-se querida. — disse gentilmente.
Voltei meu olhar para os anciões, fazia pouco tempo desde que o por do sol viera, vestindo um manto branco feito de linho, o líder avançou com passos vagarosos parando em frente ao povo reunido, um sorriso se formou em seus lábios, o qual eu não sabia se demonstrava alegria ou orgulho, dentro de seus olhos havia um brilho intimidador.
— Que se inicie a avaliação. — gritou levantando suas mãos para o alto.
A multidão instantaneamente comemorou com gritos eufóricos, agarrei a manga do vestido de minha mãe, lançou-me um olhar preenchido de compaixão e entrelaçou sua mão com a minha, olhei para o livro que segurava, lembrando-me de minha missão, ergui os olhos encarando os olhos do líder dos anciões, sérios e amedrontadores, senti um calafrio percorrer o meu corpo, ele esticou a palma da mão, fazendo com que o silêncio retornasse.
— Decidiremos quem estará apto para adentrar a caverna. — tive a impressão que ele fitava-me de uma maneira intensa. — Celene. — sussurrou meu nome de maneira quase inaudível, como se quisesse que eu escutasse, apenas eu.
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