O livro do encantamento.
3 Mágoas.
Notas iniciais
Um calafrio percorreu o meu corpo fazendo-me estremecer, apertei a mão de minha mãe que segurava a minha, lançou-me um rápido olhar de preocupação, inspirei fundo, a fim de conter a insegurança e o medo presente que sentia. Soltei lentamente sua mão, lhe dirigindo um sorriso pequeno ao me fitar.
— Estou bem. — assegurei.
Apesar do comportamento estranho do líder dos anciões, as pessoas ao meu redor agiam normalmente, principalmente minha família, encarei o chão, relutante em perguntar á mamãe sobre o que ouvira, soltei um longo suspiro, finalmente decidi. Puxei seu braço delicadamente, prendendo totalmente sua atenção em mim, ela acenou a cabeça levemente, indicando para que eu começasse á falar.
— Ouviu o líder chamar meu nome? — eu disse lentamente.
Desviou os olhos na direção dele e então os voltou para os meus, franzindo as sobrancelhas, chacoalhou a cabeça em negação, segurou o meu rosto com suas mãos quentes e macias, fitava-me com um amor maternal enquanto que a encarava com olhos confusos.
— Querida, eu não ouvi nada além de seu anúncio. E garanto que seus irmãos e todos reunidos aqui não ouviram o contrário. — disse de maneira lenta e calma. —Tem certeza que está bem? — mudou seu tom de voz para agitado e ligeiro.
Mordi os lábios nervosamente engolindo em seco, abaixei o olhar e lhe respondi de maneira cansada, sem energia em minha voz:
— Certeza absoluta.
Acariciou minha bochecha com o polegar, desferindo fracas batidinhas com seus dedos em cada uma, na intenção de me reanimar, retirou as mãos do meu rosto, passando os dedos pelas longas mechas de cabelo jogadas em meu ombro, levantei meu olhar, sorriu docemente colocando as mechas para trás, em minhas costas, forcei-me á sorrir, porém sem o mesmo ânimo que ela possuía.
Não... Eu não estou ficando maluca!
— Já vai começar. — nos alertou Fenris vindo em nossa direção acompanhado dos demais irmãos.
Héktor caminhou parando em minha frente, o sorriso confiante que carregava logo sumiu, segurou o meu queixo com uma das mãos, o brilho antes determinado agora era de preocupação em seus olhos, o que o deixou com uma aparência mais séria, fria.
— O que aconteceu? — indagou com a voz baixa.
Novamente forcei um pequeno sorriso e segurei sua mão, a expressão em sua face não mudara, afastei sua mão aberta delicadamente a trazendo para perto de meu peito e empurrando seus dedos de modo devagar, fechando-a.
— Não houve nada. — menti, a voz um pouco trêmula.
Ele franziu as sobrancelhas, demonstrando raiva em seu rosto, bruscamente tomou minhas mãos para si, arregalei os olhos por conta de seu ato repentino, as apertou fortemente, causando-me um desconforto notável.
— Você é uma péssima mentirosa, Celene. — afirmou com certa raiva, mas ao mesmo tempo num tom baixo, para que assim a conversa não fosse interrompida. — Pode enganar quem você quiser, mas não vai me convencer de que está tudo bem, eu sou seu irmão e te conheço melhor que todo mundo. – enfatizou a palavra “conheço”, em sua frase.
— Héktor... — sussurrei, sem saber o que dizer.
Fechou os olhos, suspirando, os abriu retornando á sua expressão serena e com um brilho dando vida novamente á seu olhar. Afrouxou o aperto em minhas mãos, desviou os olhos por um momento e então fitou-me com intensidade, a qual fazia-me sentir a compaixão e o carinho esbanjados em seus incríveis olhos azuis.
— Diga-me, o que te assustou? — disse com ternura.
— Eu... — hesitei, mas respirei fundo e prossegui. —Escutei o líder chamar por meu nome.
— Seu nome? — repetiu incrédulo. — Ouvi apenas o seu anúncio.
— É por isso que eu preferi esconder, você também não acredita em mim. — retirei minhas mãos de Héktor, sentindo água encher meus olhos.
Afastei-me dele, o deixando mudo e provavelmente abalado, as escolhas começariam e eu precisava me focar em como dar o próximo passo na busca por respostas, não somente sobre o livro, mas também referentes ao meu lar.
Fenris bateu o cotovelo na barriga de Balder, seu gêmeo iria reclamar, mas ele tampou sua boca com a mão, ambos viraram-se na direção dos anciões, mamãe envolveu Gleipnir em um abraço, ao se soltarem aproximou-se dos irmãos gêmeos e os abraçou, andou com passos apressados no lugar onde Héktor estava, abriu os braços para abraçá-lo, mas quem o fez foi seu filho, escondendo sua cabeça em seu tórax forte. Do mesmo jeito que fazia comigo quando eu era mais nova.
Mamãe afastou-se retornando ao meu lado, com as costas retas e cabeça erguida, Héktor passou por mim sem me olhar, juntando-se á Balder, Fenris e Gleipnir. Eles avançaram no meio da multidão, em passos rápidos e pesados, pouco á pouco as pessoas foram abrindo espaço para deixá-los caminhar livremente, mais alguns homens os seguiram, cessaram os passos em frente aos anciões, os guerreiros curvaram-se em respeito. Por um instante sentia-me mal e arrependida por ter lhe dado as costas de forma rude, expulsei esse pensamento da mente balançando negativamente a cabeça. Não era hora para tratar disso.
— Gimle, de Lyred, Hakon, de Vidnas, Harald, de Aldrich, Gleipnir, Fenris, Balder e Héktor, de Beck. Estes são os nossos guerreiros. — disse o vice-líder dos anciões, Layric, os nomes e logo após as famílias ao qual pertencem.
— Homens, para a arena. — ordenou um dos anciões, ao lado de Layric.
Levantaram-se seguindo em fila para o local ordenado, cercas largas de madeira contornavam o espaço de pedra, normalmente iniciaria dessa forma, na intenção de medir a força e habilidade dos guerreiros em um combate corpo á corpo, mais tarde, era acrescentado obstáculos e os avaliados teriam que atravessar a linha vermelha marcada do outro lado, mas, os obstáculos nunca seriam fáceis ou não causariam certos riscos, como sangramentos. A regra é bastante simples: quem ficar inconsciente, seja qual for o método ou o motivo, será desclassificado.
Gimle sustentava um sorriso torto em seu rosto, em seus olhos consegui enxergar sede de sangue, estremeci, pegou sua espada, de largura fina e cabo vermelho deslizando seus dedos sobre a lâmina, gotas de sangue caíram no chão de seu dedo indicador, levou o dedo para perto de seu rosto e o colocou na boca, bebendo o sangue derramado. Sentia meu estômago se revirar, envolvi minha barriga com os braços, a ânsia de vômito tornou-se forte, tampei minha boca com as mãos, reprimindo a causa do gosto horrível em minha garganta.
Hakon sentou-se no chão, claramente pensativo, a ausência de luz em seus olhos surpreendeu-me, era a prova que eles já testemunharam muita tristeza, ódio e dor, porém os mesmos sentimentos foram guardados para si, o afundando cada vez mais em um mar caótico.
Irei testemunhar algo assim, á ponto de meus olhos tornarem-se opacos e nebulosos em minha jornada?
Mordi os lábios, nervosa, se eu não aventurar-me, como poderei descobrir os segredos que me rodeiam e o livro? Aconteça o que acontecer, irei continuar.
Harald aparentava explodir de empolgação, fechou as mãos em punhos deixando-as próximas de seu peito iniciando uma corrida sem se deslocar, sua franja estava coloca na testa e molhada, indicando que em seus momentos anteriores esteve exercitando-se intensamente, era a explicação mais lógica que formulei, porque á julgar pela sua personalidade, Harald não adquiria um nervosismo tão grande para suar antes de um combate.
— Qual sua opinião sobre os adversários da nossa família, mãe? — sussurrei sem a encarar.
— Parecem interessantes... — ponderou. — Acredito que os meninos terão quer ser muito energéticos para enfrentar Harald, senão coisas ruins acontecerão. Mas deverão tomar mais cuidado com Gimle, ele é muito assustador e quanto á Hakon... — interrompeu-se.
A fitei com curiosidade, mamãe colocou o dedo indicador encostado na curva de seu queixo cobrindo a parte superior de sua barriga com o braço livre, fazendo os seus dedos tocarem no cotovelo do outro, mantinha o olhar fixo em Hakon, que não mudou de posição. Afastou os braços cruzando-os em seguida.
— Não tenho uma opinião formada sobre Hakon. — admitiu constrangida. — É muito enigmático. — virou-se para mim agarrando minhas mãos e as acariciando com os polegares. — Seu pai adorava enigmas. — afirmou com um sorriso radiante.
— Pena não estar mais conosco. — minha voz saiu carregada de tristeza.
Expressou um sorriso triste largando minhas mãos, tocou meu ombro de forma carinhosa, permitindo que seus olhos me contassem tudo o que ela sentia ao me ver dessa maneira, apertei sua mão firmemente, revelando o meu melhor sorriso á fim de a tranqüilizar, o efeito ocorreu como o esperado e mamãe afastou-se de mim, novamente ficando parada á minha esquerda.
Finalmente Hakon levantou-se, com a expressão sombria intacta, um leve frio me atingiu, eu não sabia se a razão disso acontecer era porque começava á sentir medo ou desconfiança dele... Tinha um pressentimento ruim á respeito de Hakon.
Atrás de mim e da mamãe ouvia-se pessoas conversando e fazendo apostas, a maioria apostava em Gimle, por ser o guerreiro mais ameaçador que foi testemunhado, o restante possuía a certeza que Harald ganharia, apesar de não ouvir ninguém apostando em meus irmãos, não estava magoada, na verdade concentrava-me em Hakon, ele apenas observava os cantos da arena, sem se aquecer ou alongar como Harald, Gleipnir, Héktor, Balder e Fenris.
— Enceramos o sorteio para a primeira etapa da avaliação, será dito o nome de seu adversário e o seu, pedimos para prestar muita atenção, por favor. Não haverá repetições. – disse Layric num tom de voz firme.
O silêncio retornou ao ambiente, troquei um olhar com minha mãe, abracei o livro abaixando a cabeça, assim, encostando o queixo em sua capa grossa, meus cabelos balançaram com a brisa gelada que veio, o inverno estava próximo.
— Gleipnir e Balder, Harald e Fenris, o vencedor lutará contra Gimle, por fim, Héktor e Hakon. Posicionem-se á frente do oponente. — gesticulou Layric, voltando-se para o líder. — Avise quando começar, Blemor.
— Comecem! — seus lábios fechados tornaram-se num sorriso perverso.
Harald sacou seu machado o chacoalhando no ar, sinalizando para Fenris se aproximar, a ponta do cabo era embelezada com um único detalhe dourado, na parte superior dele havia outro e uma pequena corda dourada enrolando a largura da lâmina, Fenris pegou sua lança, que possuía cabo vermelho e lâmina prateada e afiada, avançando em sua direção e logo protegendo-se de um ataque desferido por Harald.
Balder sorriu em desafio para Gleipinir, seu irmão mais novo, com apenas dois anos de diferença, Gleipinir colocou uma mão sobre o lado direito de seu cinto marrom e outra no lado esquerdo retirando as duas bainhas de cores diferentes, negra e escarlate, puxando de dentro de cada uma espadas curtas com o cabo na respectiva cor de sua bainha, após isso jogou-as para o alto, a luz do por do sol refletiu em suas lâminas encurvadas, ele segurou as armas num momento antes de caírem no chão.
Parece que alguém seguiu o meu conselho quanto ao peso da espada...
Balder agarrou sua lança, semelhante á de Fenris, porém a cor de seu cabo era azul escuro, a girou desferindo um golpe direcionado para o estomago de Gleipnir, mas ele se esquivou agitando as espadas em sincronia mirando no braço esquerdo de Balder, que não carregava a lança, Balder bloqueou a investida rapidamente, logo após estendendo a lança para frente á fim de acertar o peito de Gleipnir, abaixou-se desviando novamente.
Algo estranho acontecia, diferentemente de Héktor que permanecia em sua posição rígida de combate, pernas separadas uma na frente e a outra atrás do corpo, com a espada que segurava firmemente próxima de seu peito, Hakon mantinha-se com os ombros um pouco caídos, cabeça levemente abaixada, pernas em um pequeno espaço aberto entre si e joelhos semi flexionados, uma postura bastante relaxada para se iniciar uma batalha. E despertando não apenas a minha, mas a confusão de todas as pessoas ao meu redor, Hakon não carregava nenhuma arma.
O ruído da lâmina do machado contra a extremidade da lança atrapalhou meu raciocínio e chamou minha atenção para a luta entre Harald e Fenris, meu irmão tentava esconder o cansaço que sentia, já seu adversário aparentava ter energia de sobra, suor escorreu pelo rosto de Fenris, o limpou com o braço franzindo as sobrancelhas, Harald sorriu largamente balançando sua arma de um lado para o outro, Fenris rangeu os dentes com raiva caindo na provocação de Harald. Correu na direção de seu oponente desferindo um ataque voltado para a perna direita, mas Harald o bloqueou sem dificuldades.
Elevou o machado na intenção de acertar em um só golpe a cabeça de Fenris, girou a sua lança bloqueando o ataque no último momento, Harald afastou-se grunhindo em indignação, Fenris rodopiou juntamente com a sua arma sendo contido pelo aço do machado contra o cobre da lança. Harald iniciou uma sequencia de golpes direcionados para o peito de Fenris, bloqueados pelo meu irmão, bruscamente Harald desferiu uma rasteira fazendo-o perder o equilíbrio e perfurou o local desejado, um pedaço da camisa de Fenris foi rasgado revelando um forte sangramento, sangue jorrou em seu tórax pouco musculoso.
O ataque atordoou os sentidos de Fenris, pois ele esquivava-se e bloqueava os ataques de Harald com dificuldade, esforçando-se para ser rápido o suficiente, pela expressão no rosto de Harald deduzi que estava só brincando com o oponente, cerrei os punhos, dirigi o olhar para minha mãe, ela assistia á luta com uma mão na boca, roendo suas unhas, a preocupação invadiu o verde de seus olhos gentis.
Fenris está muito cansado e seu ferimento foi grave, o sangue não para de escorrer, se essa batalha continuar assim ele vai...
Arregalei os olhos, tampando a boca com a palma de uma mão, horrorizada, lancei um olhar desesperado para o livro, de acordo com a senhora Eira sua língua é mágica, bastando ler as palavras escritas para ativar os feitiços. O abri rapidamente folheando as páginas de modo apressado, eu não conseguia entender a descrição dos feitiços, as batidas do meu coração agitadas soaram em meus ouvidos, aumentando o seu ritmo á cada página que virava.
Eu preciso encontrar alguma coisa! Não posso deixar meu irmão morrer!
— Vamos... — resmunguei com a voz fraca. — Por favor! — implorei, água inundou meus olhos. — Mostre-me qualquer coisa, seu livro idiota! — falei um pouco mais alto, com raiva na voz, escorrendo uma fina lágrima pela minha bochecha.
— Celene? — perguntou mamãe num tom de mágoa. — Ah! Querida... — lamentou envolvendo-me em um abraço protetor. — Acalme-se, por favor... — pediu enquanto que lágrimas molhavam seu rosto.
Apertei fortemente o livro contra o meu peito, então, tomada pelo ódio o atirei para longe, o livro bateu contra o chão e o impulso o fez quicar até parar aberto, escondi minha cabeça no peito de minha mãe, entregando-me por completo ao choro.
O que adiantou o encontrar, se nem ao menos posso o usar para salvar quem eu amo?
Mamãe largou-me acariciando os meus cabelos, ao contrário de mim ela ainda derramava lágrimas, a vermelhidão estava surgindo em seu rosto, lhe dei um abraço apressado beijando sua testa, segurou minhas mãos encarando-me intensamente, fechou os olhos por um instante os abrindo para direcioná-los ao chão.
— Desculpe.... Eu... Preciso... Ficar... Sozinha. — falei pausadamente devido á voz fraca e falha.
Não houve resposta vinda dela, apenas um olhar sem brilho e chateado, soltou minhas mãos caminhando em direção á nossa casa, sem virar o rosto para trás.
Passei rapidamente os olhos para o livro, as batalhas continuavam emocionando as pessoas que observavam, alegria, curiosidade e surpresa espalhadas em suas expressões, ninguém sentia a dor da chance de perder alguém.
Agora meus olhos tornaram-se sombrios como os de Hakon.
Suspirei profundamente, mesmo ciente da tentativa ser em vão, caminhei até o livro ajoelhando-me logo após, o segurei sentindo a falta de ânimo provocar o grande peso em meu corpo, peso que apenas eu conseguia enxergar. Pisquei os olhos, uma luz cercou a minha visão antes de fechá-los, pisquei novamente vendo o clarão surgir mais uma vez, a luz vinha de suas páginas... Um brilho azulado cercou toda a extensão das páginas, á medida em que enfraquecia as letras das palavras embaralhavam-se trocando de lugar, ao desaparecer as letras ficaram imóveis e inesperadamente estavam em minha língua.
— Feitiço de comunicação mental... — sussurrei um trecho da descrição. — Talvez sirva para esta situação... — balbuciei, passando os dedos sobre as palavras.
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