O livro do encantamento.
4 Mentes e espíritos compartilhados.
Notas iniciais
Limpei com as costas de uma mão uma lágrima antes de cair, tive a sensação que um pouco de vida voltou para o meu rosto, mas suor se espalhou em minhas mãos, uma mistura de empolgação e nervosismo.
— Calma... — sussurrei, tentando expulsar a insegurança. — Só preciso ter calma... — inspirei fundo. — Vai dar certo. — assegurei-me.
E com isso eu já sentia-me mais confiante, lancei um rápido olhar em volta, tenho que ser discreta para não gerar conflitos, caminhei na direção de um velho e grande carvalho, escorei as costas no tronco, um calafrio me cercou, a sensação de olhos vigiando-me veio á tona, balancei a cabeça em negação.
Isto deve ser obra da minha imaginação.
— “Sua função é conectar a mente do conjurador com a pessoa escolhida, dessa forma poderão trocar informações e ligar seus espíritos.“ — li a explicação do feitiço de modo que não soasse muito alto.
Novamente as letras embaralharam-se, mudando de lugar umas com as outras, retornando á sua língua original, resmunguei indignada desviando os olhos do livro, porém minha curiosidade fez com que eu o encara-se, as palavras da página correspondente ao feitiço sumiram, como se nunca houvessem sido escritas, arregalei os olhos, logo a seguir em grandes letras surgiu algo escrito, cobrindo quase todo o espaço da página.
Espere um pouco... O nome do feitiço!
— Noxceão altras. — afirmei firme e claramente.
Uma onda de eletricidade atingiu-me, meu corpo inteiro estremeceu, procurei com os olhos por um raio, porém era ainda de dia, apesar de estar perto do por do sol sumir e dar início á noite. Então deduzi que poderia ser o efeito do feitiço, deixei o livro escapar de minhas mãos o derrubando na grama verde, cai de joelhos, minha visão ficou turva e ruídos de lâminas invadiram meus ouvidos, os barulhos soaram mais altos e tudo o que eu enxergava desapareceu por completo.
A exaustão estava dominando-me, eu respirava ofegante enquanto suor frio escorria pelo meu rosto, a dor no peito não cessava, de repente Harald apareceu em minha visão balançando o machado com um sorriso sarcástico nos lábios, ele girou sua arma golpeando meu braço, gotas de sangue caíram no chão, a ferida começou a arder.
— Desiste, Fenris? — perguntou Harald em um tom de deboche.
O que? Espere... Este corpo não me pertence! Eu não sou o Fenris! Eu... Sou a Celene. Então por que eu estou na arena, sendo golpeada pelo Harald no lugar do meu irmão?
Rapidamente a explicação do feitiço me veio á mente:
— ”Sua função é conectar a mente do conjurador com a pessoa escolhida, dessa forma poderão trocar informações e ligar seus espíritos.”
A frase seguinte se destacou dentro de minha cabeça:
— “... conectar a mente...”
E logo mais outra foi realçada:
— “... ligar seus espíritos.”
Compreendi que minha mente estava sentindo as mesmas sensações que a de Fenris, eu enxergava com os olhos dele.
Certo... Preciso mandar uma mensagem para Fenris.
Harald desferiu um soco no rosto de meu irmão e com a força do impacto o derrubou, fazendo-o bater a cabeça no chão duro de pedra, um pouco de sangue escorreu de sua nuca. A dor também foi sentida por mim, devido á magia. Pálpebras lentamente se fecharam, tirando a visão que eu tinha.
Tentei concentrar-me em mover os braços e pernas de meu corpo ajoelhado, debaixo do carvalho, a fim de levantar-me, porém não obtive sucesso. Mudei minha estratégia para realizar movimentos ainda mais simples, abrir a boca, mexer a articulação do calcanhar, fechar as mãos e piscar os olhos, novamente as tentativas foram em vão.
O som da risada zombeteira de Harald provocou raiva dentro de mim, porém não a expressei por não estar controlando o meu corpo, apenas um grunhido de Fenris foi solto ao vento, um grunhido de dor e ódio, mas principalmente de ódio. Talvez eu compartilhasse de seu sentimento por causa da conexão estabelecida pela magia, afinal não passava de uma espectadora.
— Responda Fenris! — gritou Harald.
— Ah... — gemeu de dor, com a voz fraca. — Nu... Nun... — gaguejou quase num sussurro, sem completar a palavra. Em um abrir de lábios a completou, num tom de voz quase inaudível, sem força e energia.
Fenris!
Tossiu secamente, cuspindo um pouco de sangue, encontrava-se em estado lamentável e deplorável, as batidas agitadas que antes eu escutara e sentia de seu coração pulsando diminuiram o seu ritmo, tornando-se lentas e então criando uma pausa de alguns segundos entre si. O frio dominou sua pele.
Fenris!
Arrastou seus lábios uma última vez, sussurrando uma frase que certamente Harald não conseguiu ouvir, com a decepção estampadas em sua voz, porém eu compreendi, porque compartilhávamos da mesma mente:
— Desculpe minha família... Mas não fui capaz de sobreviver.
Fenris!
A onda de eletricidade retornou com mais intensidade, conseguia senti-la percorrendo o meu corpo imóvel, subindo pelas minhas pernas até arrepiar os meus fios de cabelo, um clarão surgiu eliminando-a sem hesitar, senti-me como se meu peso sumisse, flutuando pela luz inesperada.
Celene?
A voz do meu irmão soou de modo surpreso, energético e estranhamente, aliviado.
Entendo. Funciona dessa forma a troca de informações.
Como?!
Calei-me, sem resposta alguma para sua reação por eu ter deixado escapar esse pensamento, provavelmente vou demorar a aprender a controlar com destreza o feitiço.
Celene, como entrou na minha cabeça?
Ah... Não temos muito tempo para você ouvir a história toda, seus sinais vitais estão caindo. Por favor, confie em mim, irmão!
Está bem.
Concentrei-me em procurar a lembrança de seu rosto, em instantes ela tomou forma revelando sua pele clara, nariz fino, sobrancelhas um pouco grossas levemente arqueadas em desafio, um brilhante oceano azul em seus olhos, divertidos e honestos, lábios na cor próxima ao rubro, formando um sorriso de canto, cabelos alaranjados e lisos constantemente bagunçados com alguns fios colados á sua testa e bochechas.
Baseando-se nessa lembrança imaginei o mesmo rosto encostado no chão de pedra, mas apagado, escorrendo suor frio de sua testa deslizando em sua bochecha, olhos cansados e opacos, lábios retraídos e fios de cabelo molhados por conta do suor, suas pálpebras fecharam-se lentamente, como se aguardassem pacientemente o fim.
Acorde, Fenris!
Os seus olhos abriram-se conforme a ordem, possibilitando assim que eu enxergasse a arena outra vez, Harald o encarava decepcionado, chacoalhou o machado no ar como se estivesse preparando-se para atacar, o jogou para cima segurando rapidamente a ponta de seu cabo antes que caísse, ouvi algumas vozes surpresas de quem assistia.
Levante-se! Ainda não acabou!
Apoiou as palmas das mãos no chão, sustentando o peso do próprio corpo num auxílio para se colocar em pé, desviou o olhar para um local não muito afastado, a lança de Fenris cobriu minha visão, voltou os olhos para o oponente, tateou a ferida no peito, encarando o sangue nas pontas dos dedos.
Não sei o que você está fazendo, mas está funcionando.
Ótimo! Cure-se, Fenris!
A ferida ardeu fortemente arrancando um pequeno grito de dor dele, colocou uma mão sobre ela, a sensação de sua pele encostando no líquido escarlate sumiu, dirigiu o olhar para o ferimento, o sangue jorrado desapareceu, deixando apenas uma ferida aberta, que aos poucos fechou-se por completo, a sua área estava limpa e a certeza que a dor foi embora se fez presente, pois eu não a sentia. Fenris procurou o corte em seu braço atingido, mas não o encontrou.
Calor retornou para a sua pele, os batimentos de seu coração aumentaram até se estabilizarem, a energia recém adquirida tomou controle de seu corpo, caminhou na direção de sua lança esquivando-se de um golpe voltado para o seu estômago, Fenris tocou em sua arma, seu rosto iluminado foi refletido na lâmina, senti a incrível sensação de felicidade que ele sentiu, felicidade por estar vivo.
Escute Fenris! A arma de Harald apenas é letal se for direcionada para um corte lateral, onde as duas extremidades da lâmina tocam, então aproveite a chance para golpeá-la quando ele incitar um golpe vertical.
Eu realmente sou grato por nosso pai lhe ensinar as estruturas das armas.
Aproximou-se de Harald segurando firmemente a lança com as duas mãos, o adversário correu desferindo um ataque para o seu braço, porém foi bloqueado por Fenris rapidamente, o contato entre o aço e o cobre provocou um ruído estridente, ambos afastaram-se e logo Fenris girou a lança num golpe direcionado para o braço de Harald, o bloqueio foi imediato, mas a lâmina raspou em sua pele, surgindo um filete de sangue, num momento antes de ser contida.
Agitou o machado em um movimento lateral, Fenris rolou no chão escapando do golpe, se hesitasse mais teria um grave ferimento como o anterior, Harald elevou sua arma a posicionando para um ataque vertical, de modo que uma lâmina estivesse na frente e a outra atrás, girou sua lança acertando o machado, Harald piscou surpreso, perdendo a postura, Fenris aproveitou a brecha e desferiu uma rasteira o derrubando, a arma de seu inimigo escapou de suas mãos caindo para o lado contrário, meu irmão concentrou grande parte de sua força no giro da lança e acertou a testa de Harald com o cabo, o impacto deixou seu oponente inconsciente.
— O primeiro vencedor é Fenris. — anunciou com a voz alta Layric.
Você conseguiu!
As pessoas que perderam em suas apostas soltaram resmungos e gritos raivosos, mas não importava porque eu e meu irmão estávamos agradecidos por ter terminado essa exaustiva batalha.
Fenris lançou um olhar em direção aos anciões, Layric estralou os dedos e instantaneamente dois homens com roupas brancas adentraram a arena em um salto, meu irmão abriu espaço para eles cumprirem sua tarefa, o braço esquerdo foi envolvido no pescoço do loiro enquanto que o direito no homem de cabelos castanhos, apoiando assim o peso do corpo de Harald, caminharam em passos largos e apressados, com os olhos dirigidos para frente e o silêncio mantido.
— Gimle, sua batalha contra o vencedor começa agora! — Layric exclamou animado logo depois que os encarregados do corpo de Harald o colocaram em cima da maca, próxima dos anciões.
Com seus olhos avistei o sorriso maligno de Gimle, ele deslizou o dedo indicador pela lâmina de sua espada novamente cortando-o, mas ao invés de beber o sangue derramado, o passou no chão indicando que escrevia algo, afastou-se e apontou a espada para a área manchada.
— Veja. — disse num tom de voz rude.
Fenris avançou alguns passos lentamente e parou quando conseguiu enxergar claramente as letras, seu corpo estremeceu e eu compartilhei do medo que surgiu, Gimle havia escrito a seguinte palavra:
— ”Morra.”
Saltou desviando de um golpe brusco na direção de sua cabeça, algo escorreu por sua orelha, Fenris a tocou confirmando minha suspeita, era sangue.
Ele é rápido! Celene, eu vou desviar enquanto você estuda sua espada.
Tome cuidado!
Balançou a arma iniciando uma sequencia de ataques, com o objetivo de cortar diferentes partes de seu corpo, Fenris acompanhava a velocidade dos golpes sem demonstrar cansaço, Gimle quebrou a sincronia de movimentos desferindo um soco que acertou o rosto de Fenris, investiu em um ataque voltado para seus braços que fora bloqueado com... uma mão. Pavor tomou a sua face, Gimle girou seu corpo perfurando a perna de Fenris, soltou um grunhido acompanhado de um grito de dor.
Esta espada é fina e longa, a lâmina é um tanto encurvada, corta com facilidade... Semelhante á espada que Héktor usou no treinamento.
Celene!
Empurre sua lança contra a parte em que começa a extensão da lâmina, logo acima da terminação do cabo negro, continue empurrando até ouvir um ruído de algo rachando. Uma pequena rachadura deve servir.
Bloqueou com a lança um golpe direcionado para o seu pescoço, forçou a arma contra a parte indicada, mas Gimle rapidamente se afastou, Fenris correu ao seu encontro girando a lança juntamente com o corpo apontando a extremidade para o peito de Gimle, o adversário saltou e fez uma cambalhota de costas no ar, caindo em pé e desferindo cortes nos braços de Fenris enquanto ele estava distraído, rangeu os dentes devido á dor.
Fenris agitou a lança planejando um ataque, porém Gimle o socou e chutou suas costas derrubando-o, sua testa bateu fortemente no chão, sangue jorrou pelo seu rosto, arfou de dor, Gimle aproximou-se pegando sua lança caída ao seu lado e lançando-a para bem longe, puxou os seus cabelos rudemente apontando a lâmina da espada para sua face, Fenris debateu-se para sair, os olhos negros de Gimle brilhavam famintos para vê-lo sofrer.
— Morra. — sussurrou entre uma risada esganiçada dentro do ouvido de Fenris.
Sem hesitar perfurou a sua pele com a lâmina, a ferida que se abriu foi profunda derramando uma grande quantidade de sangue, soltou um grito que chamou a atenção dos demais guerreiros, principalmente meus irmãos que observaram horrorizados, pois interferências eram proibidas. Gimle agarrou um braço de Fenris e penetrou a maior parte da lâmina, provocando outro grito mais alto de agonia saído dos lábios de meu irmão, ao retirá-la o chão foi coberto por uma pequena poça escarlate, a cabeça de Fenris latejou como se existisse zunidos dentro dela, provocando dores em mim também, sua visão embaçou e eu não consegui enxergar nada mais com clareza.
Os filetes de sangue se abrirão fazendo com que escorresse pela sua pele, cuspiu um pouco de sangue, a sonolência ganhou força seguida da tontura, uma figura aproximou-se do rosto de Fenris e pelo toque reconheci que era a mão de Gimle, pousou sobre a sua face, novamente outra figura apareceu, mas antes que a reconhecesse atravessou o olho de Fenris. O grito foi de imediato repleto de desespero e em seguida ouviu-se a risada alta e perversa de Gimle.
Cure-se!
Como anteriormente eletricidade envolveu meu corpo, juntamente com a sensação de leveza extrema, a luz reapareceu e por alguma razão um enorme cansaço cercou-me, expulsando-a e a eletricidade.
Fenris recobrou sua visão e força, nenhum vestígio de ferimento marcava sua pele, desferiu um soco no estomago de Gimle, o fazendo ficar confuso, levantou-se chutando suas pernas, a espada que carregava escapou de suas mãos quicando no chão, Fenris bateu repetidas vezes a cabeça de Gimle no chão, até ele entrar em estado de inconsciência.
A multidão gritou de empolgação, provavelmente para as pessoas foi um intenso combate corpo a corpo, senti como se estivesse sendo puxada, minha vista foi tomada por um clarão.
Pisquei os olhos, abri e fechei minhas mãos, por fim bati meus pés na grama, eu voltara para o meu corpo, me coloquei em pé e avancei alguns passos, porém perdi o equilíbrio por um instante quase caindo, sentia um grande peso imaginário sobre mim, um cansaço tremendo como se não dormisse á semanas. Resolvi sentar e escorar as costas no tronco da árvore.
Encarei a página do feitiço, as palavras mudaram de lugar cessando seus movimentos ao ficar em minha língua, passei os dedos sobre elas e compreendi a causa para este cansaço.
— “Para curar a pessoa escolhida você passará parte de sua energia vital á ela, porém se usar este processo mais de uma vez seu corpo se esgotará.” — li em um tom de voz baixo.
— Não houve ganhador na luta entre Gleipnir e Balder, ambos ficaram desacordados. — declarou Layric. — Consideramos um empate, os dois estão aprovados para a segunda fase das avaliações. — gesticulou.
O esforço tinha valido á pena, afinal salvei meu irmão.
— Restam apenas Héktor e Hakon. — disse Blemor com um brilho sedento faiscando em seus olhos negros.
Estremeci, ainda tenho um presentimento ruim quanto á Blemor e Hakon, mas nesse momento preciso focar-me em Hakon, caminhei cambaleando segurando o livro aberto na direção em que eu estivera com minha mãe. Uma gentil mulher de cabelos pretos trançados se ofereceu para me acompanhar na caminhada, lhe respondi com um sorriso e um leve chacoalhar de cabeça negativo.
Héktor o fitava com um olhar cauteloso, permanecia na mesma posição em que eu o vira pela última vez, Hakon estendeu uma mão á sua frente fechando os olhos a seguir, um brilho púrpura a rodeou, pisquei os olhos, certificando-me que aquilo não era minha imaginação, que era real. Seus olhos sombrios pousaram nos meus espantados, balançou a cabeça de um lado para o outro, de maneira lenta, logo depois levou o dedo indicador aos lábios, num sinal para eu permanecer em silêncio.
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