O lado oculto da Lua
3 Capítulo 3: Um novo inimigo?
Notas iniciais
—Tooth?- A voz do guardião ecoava naquele imenso vácuo silencioso, tão silencioso que Jack mal conseguia escutar sua respiração e muito menos seus passos. Sua visão estava totalmente comprometida, lá dentro era tudo mais escuro de como aparentava ser do lado de fora.
Ele estava pisando em ovos, sem saber ao certo para onde estava indo ou aonde estava. Era impossível se localizar lá dentro.
Depois de um tempo indeterminado, um grunhido ecoou de dentro daquele local, um som tão ensurdecedor que Jack sentiu as ondas sonoras agudas espetarem seus tímpanos com tamanha intensidade. O guardião tentou identificar que tipo de som era aquele depois que se recuperou, mas logo em seguida uma rajada de vento o derrubou da onde estava e a escuridão que antes dominava, agora dava lugar aos poucos a luz da lua que iluminava o céu.
Era como se uma cortina fosse erguida e Jack pudesse ver com mais nitidez o que era a nuvem até então não identificada. Aquilo tinha um bico e asas gigantescas. Quando tentou se levantar do chão, conseguiu ver as garras daquela estranha criatura que estavam a poucos centímetros de seus pés. Era como se fosse a silhueta de uma espécie de ave.
Jack instintivamente pegou seu cajado para atingi-la, mas parou instantaneamente assim que viu onde Fada estava.
A guardiã parecia estar flutuando na escuridão ,mas aos poucos foi possível ver grandes olhos amarelos da criatura que não piscavam e se mantinham fixos no olhar de Fada. Como se estivesse mantendo-a em um transe hipnótico.
Frost se aproximou aos poucos daquela cena, percebendo que a criatura e nem a guardiã movimentavam sequer um músculo naquele momento. Mas isso não significava que fada não estivesse em perigo, já que a criatura, por mais imóvel que pudesse estar, parecia estar se preparando para atacar a presa à sua frente.
Qualquer passo em falso seria definitivo para que uma tragédia pior acontecesse.
—JACK!- Bunny não conseguia identificar se estava aliviado em saber que seu colega não se machucou ou se estava furioso por ele ter se arriscado daquela forma.- VOCÊ PODIA TER MORRIDO, SEU IDIOTA!- Ele sempre escolheria a alternativa da qual pudesse dar um sermão em Frost.
— Shiiiu!!- Surpreendentemente, Jack Frost não se deu o trabalho de responder ao insulto, por mais que estivesse se segurando pra responder, sua prioridade naquele momento era outra.- É melhor não falar muito alto, eu tô tentando fazer alguma estratégia pra tirar a Fada dali.
Até aquele momento, Coelho não tinha percebido do que o seu colega estava falando, pelo menos não percebeu até o momento em que seus olhos se depararam com aquela criatura bizarra.
— Não podemos ficar aqui parados!-Coelho resmungava em um sussurrou enquanto tirava um bumerangue de suas costas, se colocando em posição de ataque.
— Eu sei! Mas não podemos fazer nenhum movimento brusco enquanto a Fada estiver ali.-Jack recolheu o cajado temporariamente tentando bolar um plano em sua cabeça.
— Quer esperar que esse bicho faça um movimento brusco?!- Coelho rebateu, já se preparando para atacar.
— Ainda não!- Frost estava começando a ficar irritado com aquela insistência toda.- Espera o meu sinal!- No mesmo instante algo atingiu o bico da ave, que soltou um grunhido furioso olhando na direção dos guardiões que estavam abaixo dela.
— O QUE VOCÊ FEZ?!- Jack esbravejou assim que percebeu que a criatura havia sido atingida e estava prestes a devorar sua amiga.
— EU NÃO FIZ NADA!!- Bunny esbravejou indignado ainda segurando um dos seus bumerangues que supostamente iria atingir a ave.
Assim que Fada voltou ao seu estado normal e se deparou com a criatura à sua frente,instintivamente tentou escapar, visto que sabia que as probabilidades de vencer sozinha um monstro daquele tamanho eram quase nulas. Mas assim que se virou para trás para voar na direção dos seus colegas, a criatura fora mais rápido, abrindo o seu bico e prendendo a guardiã nele, mais especificamente, as suas asas.
— NÃO ATAQUEM!- Fada tentou avisar seus amigos, mas foi tarde demais.
Todos eles acharam que o monstro a devoraria, e atacaram a criatura de todos os lados e formas possíveis.
Quando Jack soltou a primeira rajada congelante para cima da ave, a mesma se debateu e começou a chacoalhar a guardiã segurando-a pelas asas. Coelho por sua vez, atingiu o bico da criatura para que soltasse a sua " presa " com o impacto, mas de nada adiantou e a ave continuou a se debater.
Sandman criou uma espécie de rede para conter o monstro, mas este conseguiu destruir facilmente as linhas douradas que se desmanchavam a cada movimento que suas asas faziam. Enquanto isso, North sobrevoava a gigantesca silhueta com o trenó, se preparando para pular em sua cabeça e cravar as suas espadas em seu crânio ou em seu bico.
Mas nenhum deles sabia que estavam cometendo um erro. Um grande erro.
Assim que North atingiu o bico da criatura em cheio, a mesma ergueu a cabeça soltando um grunhido de dor e logo em seguida virando-se na direção de North, desta vez com a ponta do bico ensanguentada e sem a guardiã.
O silêncio da dúvida foi tortuoso naquele milésimo de segundo em que todos os guardiões viram a mesma cena. Achando que o pior tinha acontecido.
—ELA ESTÁ AQUI!- Jack gritava atraindo a atenção dos demais guardiões, mas ao contrário do que se esperava de uma comemoração, o guardião parecia mais pálido do que de costume e sua expressão era de choque enquanto segurava a amiga em seus braços.
—Ela está bem?!- Coelho se aproximou dos dois, mas logo viu que a resposta para a sua pergunta era negativa quando sentiu suas patas molharem com um rastro de sangue que levava até Toothiana.- O que houve com ela?!!- O rosto de fada estava sem cor, seus lábios entreabertos emitia gemidos de dor quase inaudíveis, seus olhos estavam avermelhados e cheio de lágrimas, seu corpo tremia.
— Eu-eu...não estou sentindo...as minhas asas.- O sussurro desesperado da guardiã fez com que Jack, ainda em estado de choque, verificasse com uma das mãos as costas de fada. E a única coisa que sentia era o sangue quente cobrir as suas mãos e manchar boa parte da manga do seu moletom azul marinho, que agora se transformava em vermelho vinho. -O-onde estão as minhas asas?- A guardiã parecia implorar com seus olhos rosados para que Jack lhe desse uma resposta positiva, mas a expressão de Jack era uma incógnita.
Quando a dose de adrenalina passou, Fada sentiu a dor dilacerar o seu corpo por inteiro, e agora a única coisa que saia de sua boca eram gritos. A mesma agonizava nos braços de Jack, se debatendo desesperadamente sem saber o que fazer com a dor que nunca havia sentido em séculos.
Frost se ajoelhou no chão, trêmulo, sentindo a poça de sangue molhar as suas roupas enquanto escutava os gritos de sua amiga. Ele sentia as lágrimas congelarem na superfície de seu rosto enquanto via Fada agonizando de dor , e instintivamente estendeu uma das mangas do seu moletom para que a guardiã pudesse suportar um pouco mais a dor enquanto mordia o tecido.
E assim fada o fez, quase amordaçando a sua boca e mordendo aquele tecido com todas as suas forças enquanto suas lágrimas escorriam dos seus olhos até o queixo, molhando o tecido e também molhando seus lábios, fazendo-a sentir o gosto salgado das próprias lágrimas.
— Aguenta firme.- Jack pegava em uma das mãos da guardiã olhando em seus olhos, tentando de todas as forma distraí-la daquela dor e fazer tudo o que estava ao seu alcance para mantê-la viva, já que ela estava perdendo muito sangue e nem o moletom de Jack fora capaz de conter aquela quantidade sangue que já estava deixando todo o tecido encharcado.
Quando Coelho viu aquela cena, sentiu seu sangue ferver como nunca e só conseguia se imaginar arrancando a cabeça daquela criatura como uma forma de conter todo o ódio que estava sentindo naquele momento. Porém, não pôde concretizar o seu plano, já que assim que se virou para trás não haviam mais rastros da ave ou qualquer névoa. Ela tinha escapado.
No local onde era para a suposta criatura estar, estavam North e Sandman visivelmente esgotados, olhando de longe o rastro vermelho que se estendia até Fada. Suas expressões já descreviam a culpa que estavam sentindo por terem falhado em proteger a guardiã, ou pelo menos evitar que algo ruim lhe acontecesse.
— Ela está perdendo muito sangue!- Jack fez com que os seus colegas de trabalho parassem seu momento de reflexão e tomassem alguma atitude.- Sandy!- O mesmo chamou o guardião para ajudá-lo a “cedar” Toothiana com a sua areia do sono, sabendo que fada não suportaria aquela dor por muito tempo se estivesse acordada.
— Eu vou pegar alguns medicamentos naturais que eu tenho, talvez ajude.- Coelho tratou de abrir um buraco abaixo das suas patas, enquanto isso North conduzia o trenó para mais perto dos demais guardiões.
— Entrem aqui, Rápido! Eu conheço alguém que pode nos ajudar.-Jack carregou toothiana(Já desacordada)para dentro do veiculo enquanto Sandy os acompanhava logo atrás.
Assim que se sentaram nos bancos de madeira, North rasgou um pedaço considerável de seu casacão vermelho e o enrolou em volta do ferimento para estancar o sangue e logo em seguida quebrou a bola de neve, teletransportando-os para outro local.
~°~°~
— O que você quer?-A voz do outro lado daquela porta de madeira mostrava o quão o contato de North era “amigável”.
Não fazia muito tempo que North tinha dito para Jack que aquela pessoa que ele conhecia iria ser muito receptiva, mas se a palavra “receptiva” se resumisse a alguns insultos atrás de uma porta, então a pessoa estava dando a melhor recepção possível para os guardiões.
Principalmente, quando Jack viu a expressão de Sandy, que observava aquele enorme casarão de madeira à sua frente com um certo receio.
— Acho que não somos bem-vindos aqui.- Jack inclinava a cabeça para tentar enxergar o rosto da pessoa que insultava North pela fresta da porta, mas não conseguiu ouvir nada além do seu colega de trabalho agindo de uma forma tão cordial com aquela pessoa(O que era bem estranho, já que se fosse em outro caso, certamente North perderia a cabeça).
— Você sempre vem aqui quando alguma merda acontece, desembucha logo! O que você fez dessa vez?
— Precisamos da sua ajuda...-North saiu da frente da porta e mostrou os três guardiões ao longe sentados em seu trenó.- A Tooth está ferida.
— Como assim “FERIDA”?
— Estávamos em uma missão e isso acabou acontecendo.
— É SÓ ISSO QUE VOCÊ ME DIZ?! VAMÔ! SAI DA MINHA FRENTE!- A porta quase foi arrancada por uma senhora de cabelos brancos de altura mediana com uma expressão nada amigável em seu rosto. Suas bochechas avermelhadas era um complemento que descrevia bem o quão furiosa ela estava.
Suas botinas marrons batiam no chão com força, assim como suas mãos que puxavam o casaco preto pra baixo como se fosse arrancá-lo. Ela não parecia nada feliz quando se dirigiu até o trenó, e só piorou quando finalmente chegou lá.
— Como deixaram isso acontecer?!- A senhora rechonchuda e levemente furiosa deixava um tom ameaçador escapar em sua voz, transformando uma simples pergunta em uma pergunta retórica.- AH CLARO! JACK FROST! TINHA QUE SER...
— Mas eu não...-Jack tentou se defender, mesmo amedrontado pela mulher que o encarava com sangue nos olhos naquele momento.
—Ele não teve culpa, Amélia.- North se dirigiu até o trenó a fim de evitar outra tragédia, já que conhecia muito bem a impulsividade da sua colega de trabalho e sabia que em muitos casos ela não usava essa impulsividade para fazer coisas boas.
— ENTÃO QUEM TEVE?- A voz de Amélia que mais parecia um rugido.
— Fui eu.- North abaixou a cabeça no mesmo instante,sem ter coragem de encarar Amélia.- A Fada estava em perigo e disse para que não fizéssemos nada, mas eu não escutei...- Jack e Sandyman se posicionaram para defender o colega e tentar repartir a culpa, mas no fundo sabiam que ele estava fazendo isso para evitar problemas maiores com a amiga, que agora o encarava perplexa.
— SERÁ QUE EU VOU TER QUE PARTIR SUA CABEÇA COM UM MACHADO PRA ELA DEIXAR DE SER TÃO DURA?! TALVEZ EU TENHA QUE CORTAR SUA ORELHA PRIMEIRO, JÁ QUE VOCÊ NÃO SABE USAR!- Amélia gritou tanto que seu rosto inteiro ficou quente e vermelho, além da sua voz ficar rouca por alguns instantes. Ela era uma das poucas pessoas que conseguia amedrontar North, e naquele momento, amedrontar boa parte dos guardiões.
— Pode nos ajudar?-Jack esperou que a mulher parasse de falar para pegar um fôlego e aproveitou a oportunidade antes que ela arranjasse mais voz para gritar com ele.
— Eu tenho cara de médica, por acaso?-Embora estivesse com a sua voz rouca, não deixou sua delicadeza de lado para responder o guardião.- Me dá ela aqui! ANDA MULEQUE!- Jack sobressaltou do banco em que estava com a última frase, mas não deixou de entregar toothiana para a mulher, que por sua vez a carregou como se estivesse levando um saco de arroz nas costas.
— Não se preocupe garoto, ela é assim mesmo.- North apoiou a mão no ombro de Jack enquanto o conduzia para dentro do casarão de madeira.
— Eu tô preocupado é com a fada.- Frost respondeu sem tirar os olhos da sua amiga, que agora era balançada como um chaveirinho nos ombros de Amélia.
— Ela sabe o que está fazendo, é só jeitão dela.- O papai noel dera uma risada como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo. Na verdade, pra ele realmente era.
—Espero mesmo que ela saiba.
~°~°~
Animais empalhados e armas penduradas como quadros decoravam as paredes de madeira daquela enorme sala de estar. Era uma visão um tanto ameaçadora e nada convidativa, embora o cheiro de chocolate quente desse um toque de conforto para o lugar, os animais mortos que adornavam o ambiente anulavam essa sensação rapidamente.
North já estava acostumado com aquele clima passivo/agressivo da casa de sua colega de trabalho, mas Jack sentia seu estômago revirar a cada cabeça de servo empalhada que lhe encarava.
Era difícil se sentir confortável lá, embora estivesse pisando em um tapete de lã de ovelha extremamente macio, Frost não conseguia se imaginar em outro lugar a não ser em um zoológico, mais precisamente, sete palmos abaixo dele.
— Tudo bem por aí?- North perguntou ingenuamente para o guardião, sem perceber o choque em seus olhos e o receio em seus passos.
— Sim sim, tudo ótimo!- Jack respirou fundo, sentindo o cheiro do verniz e do chocolate quente adentrarem em suas narinas enquanto segurava a ânsia de vômito que queimava sua garganta.
— Sei que ainda deve estar um pouco assustado com ela, mas eu te garanto que ela é uma pessoa boa.
— Ah claro...-Frost respondeu sem tirar os olhos dos animais empalhados em uma estante logo atrás do guardião. Era um pouco difícil acreditar na bondade de alguém que decorava sua casa com animais mortos, mas Jack faria o possível para acreditar nisso.
Em meio a espingardas e cabeças de servos, Frost conseguiu encontrar em cima de uma mesa de canto um pequeno retrato em preto e branco. Uma foto de uma mulher de mãos dadas com uma criança, não parecia ser o tipo de pessoa que penduraria animais empalhados em sua sala de estar.
— Não toquem em nada!- A voz de Amélia ecoou do segundo andar, como se estivesse pressentindo que alguém tentaria “investigar” a sua vida. O que não deixava de ser verdade, uma fotografia tão doce em meio a hostilidade poderia atiçar a curiosidade em certos guardiões.
— Achei que iria gostar daqui...Seus pais não caçavam também?- North tentou puxar algum assunto com o colega enquanto se acomodava confortavelmente em uma poltrona de couro e apoiava seus pés na mesinha de centro da sala. Era o seu jeito de provocar Amélia, mas também de fazer com que Frost se sentisse mais à vontade.
— Só o meu pai, na verdade.- Os olhos azuis do guardião rolaram novamente até o retrato.- Minha mãe até tentou, mas depois da primeira caçada, ela nunca mais quis acompanhar meu pai de novo.- Aqueles olhares assustados dos servos na parede lhe lembravam o olhar de sua mãe quando chegou em casa naquela noite. Ela faria um jantar de ação de graças com a caça que conseguiu com a ajuda do marido, mas no final das contas a única coisa que fez foi uma sopa de lágrimas. Frost nunca conseguiu esquecer como aquilo a afetou.
— E você? Nunca quis caçar com o seu pai?
— Eu tive que ajudar ele algumas vezes, mas eu não era muito bom de pontaria.
— Seu pai não lhe ensinou a atirar?
— A espingarda era a única herança que o meu avó deixou, e meu pai era muito apegado a ela. Dizia que eu só podia usar quando eu tivesse 18 anos. Até lá eu tinha que usar o arco e flecha ou um estilingue.
— Pelo menos conseguiu pegar alguma coisa?
Frost não queria exibir a caça como uma conquista, mesmo que imaginasse que North ficaria orgulhoso de saber que ele conseguiu matar algum animal naquela época, não era algo que Jack se orgulhava de ter feito e nem se orgulharia de mostrar. Hoje ele tinha consciência da crueldade que cometeu.
— Não...Não consegui pegar nada.- O flashback do seu pai batendo em seu ombro enquanto exibia um sorriso de orelha a orelha pelo filho mais velho ter conseguido acertar uma águia surgiu em sua mente como uma assombração, uma memória de alguém que Frost não queria voltar a ser.
— É uma pena, se tivéssemos nos conhecido antes eu teria te ensinado a caçar até um javali!- North até terminaria de se gabar de suas habilidade como caçador se não fosse uma interrupção abrupta vinda do segundo piso.
Um grito ecoou por toda a casa, e Amélia que até aquele momento estava cuidando da guardiã, agora descia os lances de escadas rapidamente passando pelos demais colegas de trabalho como um borrão.
North, Jack e Sandman não tiveram nem tempo de questionar o que estava acontecendo quando Amélia começou a pedir ajuda para carregar toalhas e um balde de água morna até o quarto onde Fada estava.
Todos atenderam prontamente as ordens da mulher, que agora subia até o dormitório tentando manter a sua calma enquanto os gritos não paravam de ecoar em seus tímpanos, ficando cada vez mais altos a cada minuto que se passava.
A cada passo que os guardiões davam ,a cada lance de escada que subiam carregando pilhas de toalhas e um balde de madeira enorme, se sentiam completamente impotentes diante daquela situação que só piorou quando viram o estado da guardiã assim que adentraram no quarto.
Seus olhos estavam arregalados enquanto seu corpo se debatia, ela não emitia uma palavra que pudesse ser interpretada, apenas emitia gritos de horror como se estivesse sendo atacada por algo. Era como se ela estivesse em mundo à parte, já que não percebeu quando todos entraram no quarto.
Era uma cena aterradora e triste, saber que uma guardiã como ela parecia tão vulnerável naquele momento, mais assustador que isso era saber que ninguém sabia ao certo o porquê daquilo estar acontecendo mesmo com o problema aparentemente resolvido.
Vê-la naquele estado era a prova concreta de que precisavam para perceber que não estavam imunes a nenhum tipo de ataque, nem que esse fosse invisível. Naquele momento North torcia para que fosse algo relacionado a algum inimigo que já conhecesse, pelo menos saberia como derrotá-lo ,mas aquilo nada parecia haver com qualquer um dos seus antigos inimigos e o desconhecido o amedrontava de uma certa forma.
— Olha,eu não sei o que tá acontecendo, mas se não resolverem isso de uma vez...vão estar no mesmo estado que ela.- Amélia mergulhava as toalhas dentro balde, tentando conter todo o seu nervosismo.
— Nós também não temos ideia, foi tudo muito rápido...-North esfregava uma de suas mãos na testa, extremamente tenso ao ver sua colega de trabalho se contorcendo naquela cama.
— Mesmo que não saibam! Deveriam estar preparados pra algo desse tipo.- Amélia torcia a toalha quente em suas mãos, preparando-a para colocar na testa da guardiã.- Onde já se viu? Séculos de experiência e mal sabem com quem estão lutando.
— Como eu disse, Amélia, foi tudo muito rápido...Não deu nem tempo de identificar e...
— O tempo não é culpado pela SUA incompetência!- A mulher mais uma vez perdeu a paciência, se controlando ao máximo para não acompanhar Fada em seus gritos.- Quantas vezes eu te disse pra tomar cuidado? QUANTAS, NORTH?
O guardião apenas assentiu e abaixou o olhar, sem saber que resposta dar a sua colega de trabalho que lhe encarava perplexa.
— Acalme-se querida...vai ficar tudo bem...-Amélia mudou totalmente seu tom de voz e sua postura ao se dirigir a guardiã, parecia mais uma mãe cuidando de uma filha. Embora fosse extremamente explosiva, Amélia era ótima no que fazia quando se tratava de cuidar de outras pessoas.
E com uma sutileza inacreditável, em poucos minutos conseguiu colocar a guardiã novamente nos trilhos, fazendo com que os gritos cessassem e que o restante dos guardiões pudessem respirar aliviados.
— Porque eles me deixaram aqui? Pra onde eles foram?-Fada murmurava olhando nos olhos de Amélia.
— Eles quem?-A senhora se agachou ao lado da cama e segurou firmemente as mãos delicadas da guardiã.
— Meus pais...-Os olhos rosados se encheram de lágrimas e a guardiã que antes gritava de horror, agora chorava copiosamente como uma criança.
Amélia e os demais guardiões ficaram sem reação naquele momento, ninguém esperava por uma resposta daquelas e muito menos pela reação. O silêncio tomou conta do cômodo naquele instante,um silêncio de insatisfação,insatisfação de não conseguir entender o que estava acontecendo e nem de não saber o que fazer para mudar aquilo.
— Vai ficar tudo bem,querida.- Amélia engoliu seco e mesmo sem ter expressado as melhores palavras,foram as únicas que encontrou naquele momento em que acariciava o rosto da guardiã na tentativa de conter suas lágrimas.
—Eu sei que não vai ficar.- A expressão de Fada mudou drasticamente e dentre os seus soluços, aquela frase saiu em um tom tão sério que fez soar premonitório. Como se aquelas palavras fossem as únicas que a fazer sentido dentre todos os murmúrios emitidos anteriormente, o único lapso de consciência que a guardiã estava tendo parecia mais um alerta do que estava por vir do que um sinal de sua melhora.
Amélia sentiu um arrepio percorrer sua espinha dorsal até chegar em sua nuca quando ouviu aquela frase, o que foi no mínimo preocupante, fazendo-a lançar um olhar receoso na direção dos guardiões que lhe encaravam da mesma forma.
North fez um sinal para que Sandman e Jack o acompanhassem para fora do quarto e deixasse Amélia a sós com a Guardiã. Ele sentia que não iriam ser de muita ajuda para a colega se permanecessem lá parados sem fazer absolutamente nada.
— O que ela quis dizer com aquilo ?-Jack perguntou em um sussurro, como se fazer aquela pergunta fosse algo proibido.
— Não faço ideia, mas pode ser apenas um delírio.- North sabia que estava se contradizendo ao responder aquilo, mas não tinha uma resposta melhor para dar naquele momento, por mais que sua intuição lhe dissesse que aquilo era muito mais que apenas um delírio.
Jack não rebateu a resposta e assentiu como se tivesse aceitado, mas também sentia que aquela situação era muito mais grave do que eles estavam imaginando, principalmente depois do que tinha acabado de acontecer em Burguess.
Enquanto isso em Burguess...============
O contraste do mar de buzinas com o silêncio do interior do carro era gritante. Jamie estava aflito demais para ficar parado no saguão esperando algum milagre acontecer.
Ele nem lembrava mais as incontáveis vezes em que tentou contatar sua esposa antes de sair do edifício e se trancar dentro do carro. Aquele era o único lugar em que ele se sentia minimamente seguro e um pouco mais calmo. Descer todos aqueles lances de escadas com uma multidão e funcionários desamparados e desesperados era quase uma peregrinação do sofrimento alheio. Não era o tipo de cena que deixaria as coisas um pouco melhores.
Ainda sem contato algum com a família, Jamie ainda queria ter a falsa sensação de que estava tudo bem e que não teria com que se preocupar, mesmo que fosse uma tarefa difícil depois de ter visto aquela “coisa” sobrevoando Burguess. Muito se especulou sobre um suposto atentado, mas Jamie ainda queria fechar seus olhos e acordar em sua cama como se tudo aquilo não tivesse passado de um pesadelo.
Talvez pensar que poderia ser uma invasão alienígena seria muito mais reconfortante do que um pesadelo em si.
— Sr. Bennet?- O coração de Jamie quase saiu pela boca quando ouviu alguém batendo no vidro da janela do seu carro.- Oh, me desculpe…Não foi minha intenção te assustar.- Eliza apontou a lanterna para o rosto de Jamie.
— Não...Está tudo bem, Eliza.
— Achei que o senhor já tinha ido embora...Mas quando vi que seu carro ainda estava aqui, vim checar se estava tudo bem.
— Muito obrigada pela preocupação, Eliza...Pra ser honesto, eu gostaria de ter ido embora assim que entrei no carro. Mas é um pouco perigoso dirigir no escuro.
— Recebi algumas notícias de que a luz já voltou em alguns pontos da cidade. Acho que daqui a pouco vai voltar aqui também.
— Isso é ótimo!- Pelo menos uma noticia boa para deixar Jamie um pouco mais tranquilo.- E já tem noticias do que causou esse apagão?
— Estão falando que poderia ter sido uma tempestade ou algo assim.
— Aquela coisa não parecia uma nuvem carregada nem de longe…
— Eu também acho, mas é o que estão dizendo por aí...O senhor conseguiu ligar pra sua esposa?
— Ainda não, mas…
— Se quiser pode tentar mais uma vez.- Eliza estendeu o celular nas mãos de Jamie antes mesmo que ele tentasse recusar por educação.
— Muito obrigado mesmo, eu juro que vai ser a última.- O rapaz teclou os números rapidamente e sentiu seu coração disparar quando ouviu o toque da chamada, até sentir um choque ao ouvir a voz de sua esposa no outro lado da linha.
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