O lado oculto da Lua
4 Capítulo 4: Más Noticias
Notas iniciais
Suas mãos trêmulas apertavam o volante como se ele fosse escapar de suas mãos, Jamie tinha a falsa impressão de que o carro parecia mais pesado de conduzir, provavelmente resultado da sua ansiedade que lhe dominou logo depois que terminou de conversar com sua esposa no telefone. Emma ainda não tinha voltado pra casa.
Ambos queriam acreditar que ela poderia estar na casa de algum amigo, mas que pai não ficaria preocupado sem ter notícias de sua filha?
Embora soubesse que Emma era muito responsável e sempre dava um jeito de ligar para casa quando um imprevisto acontecia, aquele dia era atípico, já que mesmo que apagões fossem relativamente comuns em algumas áreas de cidade, aquele que tinha acabado de acontecer gerou um caos, que até então , Jamie nunca presenciou lá.
Ele lembrava de como sua esposa estava na ligação, aparentando uma certa calma para esconder o seu desespero.No fundo, ela só queria deixá-lo tranquilo para que voltasse em segurança pra casa. Ela sabia como a ansiedade do seu marido era incontrolável em algumas situações, resquícios da perda precoce de sua filha mais velha, Katherine.
Emma era muito pequena quando tudo aconteceu, tinha uma vaga lembrança da sua irmã, mas nenhuma delas que a fizesse perguntar o que aconteceu. O que por um lado era bom para os pais, que não precisavam retomar aquela dolorosa história, mesmo que no fundo nunca iriam esquecer.
Agora, um filme passava aos olhos de Jamie, temendo que o mesmo acontecesse a sua filha mais nova.Ele nunca gostou de pensar nessa possibilidade, mas já era algo marcado em sua mente.
~°~°~
—Sophie!- A garota de cabelos loiros se virou assustada ao ouvir seu nome sendo chamado no meio daquela multidão descontrolada na recepção do hospital.- Finalmente te achei, preciso que me faça um favor.- O enfermeiro ainda um pouco agitado lhe entregou uma prancheta com alguns papéis.- Preciso que vá até o paciente do 306 e troque a roupa de cama, também preciso que você reponha o soro e entregue o jantar pra ele.
— Algum cuidado especial?
— O Sr.Duncan é idoso, todo cuidado é pouco com ele…Nos últimos dias as enfermeiras têm percebido que ele está mais agitado, é bom evitar alguns ruídos perto dele, ele fica nervoso com muito barulho.
— Ah claro…- Era difícil desviar o olhar da multidão desesperada por atendimento médico quando tinha que ler aquele papel em suas mãos.- Mas eu não posso deixar a recepção aqui e…
— Eu sei, por isso já chamei outro funcionário pra atender o pessoal.- O enfermeiro voltou a sua atenção para aquele cenário caótico na recepção, ele já tinha recebido informações da superlotação no hospital devido ao incidente daquela noite, mas não imaginava que estaria tão caótico aquele ponto.
— Muita gente se acidentou nesse apagão, todas as nossas ambulâncias já estão na rua, mas poucas conseguiram chegar até o local de atendimento…Tentamos até contato com outros hospitais e estão na mesma situação também.
— Como isso é possível? Nunca vi um apagão deixar tanto estrago, meu pai me ligou agora pouco dizendo que acabou batendo o carro, porque os semáforos pararam de funcionar bem na hora que ele estava na rua. Pegou todo mundo de surpresa.- O rapaz limpou o suor na testa enquanto tentava se manter calmo.-Tive que pedir pra sair mais cedo do plantão pra ver como ele está, mas não se preocupe, vou cobrir o seu plantão amanhã pra compensar hoje.
— Está tudo bem, Nathan…Me compense quando puder, eu sei que é uma urgência.- Dificilmente Sophie cedia dessa forma, mas nesse caso ela sabia que poderia confiar nele. Nathan era muito esforçado e nunca faltava ao trabalho, ao contrário de alguns médicos que viviam tirando folga.
— Muito obrigada mesmo, Sophia.Tô te devendo essa.
— Disponha.
Assim que Nathan virou as costas, Sophie sentiu um peso em seu peito e uma necessidade incontrolável de ligar para o seu irmão mais velho só pra garantir que o mesmo não aconteceu com ele.
Jamie reclamava algumas vezes que Sophie não ligava com tanta frequência, essas reclamações começaram desde que ela entrou pra faculdade de medicina e só aumentaram ainda mais quando começou a trabalhar na área.
Embora morassem na mesma cidade, Sophie escolheu ficar um pouco distante do irmão, principalmente depois da morte de sua primeira sobrinha. Foi um período difícil pra toda família e que acabou deixando algumas sequelas na relação entre os dois irmãos, que antes eram tão unidos e agora não conseguiam conviver muito bem um com o outro.
Sophie lamentava não ter acompanhado muito o crescimento de Emma e gostaria de interagir com ela como fazia com Katherine, mas depois daquela tragédia, Jamie se tornou tão super protetor a ponto de não deixar quase ninguém se aproximar dela.
Antes que Sophie tivesse consciência que essa atitude impulsiva do seu irmão fosse um reflexo do seu medo, eles acabavam tendo muitas brigas por conta disso.Jamie a acusava de ser insensível a situação e Sophie o acusava por estar tirando conclusões precipitadas.
Até ela entender que os dois só tinham formas diferentes de lidar com aquela situação, mas que suas dores eram as mesmas. Foi então que decidiu que não iria tentar interferir tanto na relação de Jamie com a sua filha, nem que pra isso tivesse que abdicar de momentos com a sua família.
Sua cunhada também discordava dos julgamentos que o marido tinha e sempre tentava incluir Sophie em algo que a família fizesse, sendo um almoço de domingo ou uma noite de Natal. Mas Sophie, entendia que Jamie só não sabia lidar com a dor da perda e que esperar que ele mudasse isso da noite pro dia seria esperar por um milagre, até lá, ela não se daria o trabalho de exigir nada dele, mesmo sabendo que a atitude dele era errada.
Agora enquanto digitava o número do irmão em seu celular, respirava fundo pra se preparar para aquele momento. Ela não estava planejando ter uma longa conversa com ele, apenas uma confirmação que precisava para completar seu turno mais tranquila.
E como esperado, as coisas não saíram como deveriam.
Quando Jamie atendeu o celular já estava mais nervoso que o normal na ligação, embora não tenha dado muitas informações sobre o que aconteceu, ele só disse que estava voltando do trabalho porque estava preocupado com a filha.
—O que aconteceu com ela? Ela se machucou?- Foi a primeira coisa que veio na mente de Sophie, ela sabia que Emma era do tipo de criança que era mais agitada e por isso não se surpreenderia caso ela ralasse o joelho no meio de alguma brincadeira.
— Eu não sei dizer, mas quando eu chegar em casa vou ter certeza.- Jamie respondeu quase de uma forma enigmática, como se não quisesse que Sophie soubesse de mais coisas.
— Quando tiver certeza, por favor me avise, vou fazer o possível pra ajudar.
— Não se preocupe, eu sou o pai dela, não preciso de ajuda pra cuidar da minha filha.
— Eu não estou querendo te ensinar a cuidar dela, só estou querendo ajudar! Será que você não entende isso?!
— A gente só ajuda aqueles que não tem condições de fazer sozinho.
—Eu desisto, Jamie, eu desisto!- Sophie quase jogou seu celular no chão, tamanha era sua raiva depois do que ouviu.
Ela sabia que não tinha dito nada de errado, mas seu irmão sempre arranjava uma forma de culpá-la por tudo ou de colocar segundas intenções em suas palavras. A cada dia que passava era cada vez mais difícil conviver com ele.
~°~°~
— Eu consegui estancar um pouco do sangue, mas só por enquanto...- Amélia desceu as escadas carregando o balde cheio de toalhas úmidas de sangue.-...Como conseguiram arrancar as asas dela?!
— É complicado, Amélia.- North desviou o olhar no mesmo instante em que sentiu o cheiro forte de sangue, não queria acreditar no estrago que ajudou a causar.
— Complicado foi parar aquele sangue todo! Eu não sei o que vocês fizeram, mas se continuarem assim, vão perder muito mais que uma asa.
— Eu tentei atacar aquele monstro, mas ele foi mais rápido…
— Monstro?! Era só o que me faltava! Pelo menos vocês acabaram com a raça dele, não é?
North apenas olhou para Jack e Sandman, como se estivesse esperando que alguém respondesse por ele. Mas não foi necessário, Amélia já tinha entendido o recado.
— Isso é um absurdo! VOCÊS O DEIXARAM ESCAPAR?!
— Nós tentamos, mas…
— Não precisa me explicar o óbvio, North!- Amélia quase rasgou as toalhas úmidas para descontar toda sua raiva.- Eu só espero que você não traga mais um colega seu na minha casa com uma perna arrancada, esperando que eu faça um milagre! VOCÊ ME OUVIU BEM?
— Isso não vai acontecer de novo. Eu prometo.
— Prometa isso a Fada, não a mim. Eu não precisava daquelas asas, já não posso falar o mesmo dela...
Amélia era umas das poucas pessoas que tinha o poder de colocar a autoestima de North no topo e derrubá-la logo em seguida, era como assoprar um castelo de cartas.
— North, acho melhor voltarmos pra Burguess pra ver o que aconteceu por lá. Eu não acho que a Fada tenha sido a única afetada.- Frost tentou cortar aquele clima ruim que estava se formando, ele sabia que seu colega não merecia levar o peso da culpa quando não foi o único que errou.
—Tem razão, Jack.- North ainda estava meio atordoado com as pancadas que recebeu de Amélia.- Va-vamos voltar pra lá e averiguar o que aconteceu...Sandy, alguma ideia para onde aquele bicho pode ter ido?
Sandman apenas respondeu negativamente com a cabeça.
— QUE DROGA!- O guardião esbravejou, só imaginando o que faria com aquele monstro a próxima vez que o encontrasse. Era difícil distinguir o que lhe dóia mais, a sensação de incapacidade de proteger a sua colega de trabalho ou de ter deixado a criatura escapar.
— Tenho certeza que ele deixou rastros na cidade, North. Pela forma como ele atacou, deve ter feito um estrago muito grande por lá também.
— Vamos voltar lá de uma vez! Não quero esperar mais um minuto pra caçar esse filho da puta.- Jack e Sandman apenas obedeceram, e fizeram das palavras de North as suas também.Todos ali não descansariam enquanto não fizessem justiça pela colega.
Ou pelo menos era isso que planejavam quando Amélia interrompeu a saída de um dos guardiões.
— Você fica! — Amélia puxou Jack para dentro da casa antes que ele pudesse colocar seus pés para fora do local.
— O que pensa que está fazendo, Amélia?! Ele vem com a gente!- North já estava com o sangue fervendo e deu meia volta para “ resgatar “ Frost, pronto para entrar numa discussão com a subguardiã.
— É mesmo, é? E quem vai me ajudar a cuidar dela?- O guardião parou no mesmo instante e esperou que Jack decidisse o que iria fazer. Mesmo que odiasse admitir, Amélia tinha razão.
— Tá tudo bem, North…Não precisa se preocupar comigo, eu posso ficar aqui.- Frost se desvencilhou rapidamente de Amélia antes que ela o enforcasse lhe pendurando mais forte pelo capuz.- Tenho certeza que você e o Sandy vão dar conta do recado.
— Como quiser, garoto.- North se despediu com um aceno antes de ir embora com o trenó.
Quando o veículo saiu do local, o silêncio da despedida foi cortado rapidamente pela subguardiã.
— Ainda consegue congelar tudo que toca?
— Não tudo o que eu toco, mas eu posso dar um jeito de...
— Ótimo! Vou precisar de muito gelo pra cicatrizar as feridas dela.
— E como ficaram as asas dela?
— Asas? Que asas, Garoto?! Nunca vi tanto sangue na minha vida....É óbvio que não consegui recuperar nada. Vamos ter que tentar cicatrizar as feridas temporariamente, ou senão eu vou ter que fazer alguns pontos pra que ela não perca mais sangue.
— Tem certeza? Deve ter alguma forma de recuperar as asas dela...
— Ah, claro que tem! É só você voltar no tempo e não deixar o North fazer merda, o que acha?
— E se deixarmos abertas as feridas, talvez novas asas possam nascer, não?
— Que bela ideia, Jack! E se deixarmos ela perder todo o sangue do corpo dela sair, talvez ela possa morrer, não? Por favor, eu já trabalhei em tantas guerras e ficar acreditando nessas balelas não ajuda em nada.
— Mas ela não pode ficar sem as asas dela!
— Como os soldados diziam, você prefere perder uma perna ou perder a vida? Você que escolhe.- Amélia entregou mais uma pilha de toalhas e esparadrapos nas mãos do guardião antes de empurrá-lo para dentro do quarto.- Agora você vai entrar lá dentro e vai fazer de tudo pra cicatrizar aquela merda. Se ela perder mais uma gota de sangue, eu juro que eu vou arrancar as suas “asinhas” também. Ouviu bem ou quer que eu repita?
— E-e como eu falo sobre as asas pra ela?
— Você não fala.
— Mas...
— Já vou ter muito trabalho pra limpar aquele sangue todo do meu quarto, eu não quero ter que lidar com mais um estresse pós-traumático da sua amiga...Agora, pare de enrolação e entra logo lá dentro.- Jack não teve nem tempo de rebater quando fora chutado para dentro do quarto. A brutalidade de Amélia andava lado a lado com a sua preocupação com a vida da guardiã, era uma mistura agridoce de emoções, uma personalidade maternalmente ameaçadora. Agora Jack entendia porque North gostava dela.
— Jack?...- A voz baixa de fada fora a única coisa que o rapaz escutou assim que entrou no quarto. O contraste do tom intimidador de Amélia e da voz embebida de areia do sono era gritante.-...O que houve com as minhas asas?...- O olhar perdido da guardiã se escondia por baixo de suas pálpebras pesadas.
— Ham...Você vai ficar bem. Não se preocupe.- Frost se sentou ao lado da cama onde a amiga estava e arregaçou as mangas para começar o trabalho. E mesmo que pudesse controlar o inverno, não tinha sangue frio pra fazer o que lhe foi solicitado.
Ele não queria estar na pele da guardiã naquele momento, se a dor de ter uma parte do seu corpo arrancada já não fosse insuportável, um jato congelante queimando a carne de suas feridas abertas seria muito pior.
— Eu ouvi a Amélia falar sobre as minhas asas...- A areia mágica de Sandy ainda estava fazendo efeito, mas não o suficiente para que Fada não sentisse a dor a seguir.-...Jack?
O rapaz respirou fundo antes de tirar as bandagens ensanguentadas do corpo de sua amiga, ele só conseguia pensar em como faria para que aquilo lhe causasse a menor dor possível.
— Eu não vou conseguir…- Frost sentiu seu estômago embrulhar ao ver o sangue coagulado nas costas de sua amiga. As feridas estavam muito fundas, agora ele entendia como Amélia demorou tanto para fazer o sangue parar de sair.
— Como assim não vai?!- O sussurro de Amélia ecoou por uma fresta da porta. Ela desconfiava demais do rapaz para deixá-lo sozinho com a guardiã.- Parou de fazer gelo do nada?!- Ela invadiu o quarto, indignada com Jack.
— Escuta...Ela não vai suportar. Gelo cicatriza, mas também queima.
— Você vai resolver isso agora mesmo…- Assim que Amélia ousou em levar a mão de Frost a força até as feridas de Fada, o guardião lhe mostrou como o gelo poderia queimar.-...VOCÊ ENLOUQUECEU?!- A sub guardiã se afastou bruscamente ao ser atingida por um jato congelante em seu antebraço.
— Consegue entender agora?!- Jack a encarou, se impondo de uma vez por todas. Ele sabia que ela só queria ajudar, mas as coisas seriam muito piores se não tivessem o devido cuidado com as feridas de Fada.- Eu posso ajudar a cicatrizar, mas ela vai precisar ser medicada antes.
— Tá legal...Eu vou ver o que posso encontrar aqui.- Amélia esfregou seu antebraço com umas das mãos enquanto saia correndo do quarto para pegar alguns medicamentos. Já Frost gostaria de poder esfregar o seu cérebro para esquecer das lembranças de quando caçava com o seu pai, por algum motivo as imagens daquela águia se debatendo no chão ainda estavam lhe atormentando.
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