O homem que eu amo
5 Capítulo 5
Notas iniciais
A casa estava um caos total e ainda eram sete horas da manhã. Nana chorando no meio da cozinha, Deus sabe o motivo, com várias partes do corpo rabiscadas de caneta colorida e Dan sem querer ir pra escola, correndo de cueca sem querer vestir a farda. “Esse menino só pode ser raciado* com índio! Não é possível isso!”, pensou Tom diante da cena que começava a ser corriqueira, já que o pequeno nunca queria vestir suas roupas. Mas isso não era tudo. O café da manhã ainda não havia sido preparado e logo Mazo desceria pronto pra trabalhar e precisaria comer antes de sair. A água do café secava na panela, o pão queimava na torradeira, o leite borbulhava sujando todo o fogão, e ainda tinha que preparar o lanche que o menino deveria levar pra escola... Ufa! Aquele dia definitivamente não era de Tom.
Quando chegou à porta da cozinha, Mazo só demorou três segundos pra ter uma visão completa do que estava acontecendo e ver quão caótica era a situação. O belo homem viu o marido com uma expressão de choro que dava dó, que quando reparou na sua presença desandou a chorar de fato, não conseguindo mais segurar as lágrimas.
– Eu não aguento... Não aguento mais... – disse Tom entre lágrimas. Estava há muito tempo na rotina de casa que estava deixando-o cansado e estressado, sem tempo pra ele mesmo. Todos os dias gerenciando os problemas do dia-a-dia da casa, das crianças e do marido. O dono-de-casa estava estafado.
Mazo foi até o fogão desligou as bocas acesas, puxou a tomada da torradeira que já fumaçava e, por fim, abraçou Tom como se o protegesse de alguma coisa – Está tudo bem... Tudo bem... – disse com a voz carinhosa e calma.
– Não tá tudo bem... – respondeu o outro choroso
– Você só está cansado, estressado, apenas cuidando da rotina da casa, não tem se divertido muito... Mas a gente vai resolver isso, tá? E eu acho que eu posso fazer algo pra te ajudar agora... Por que você não sobe com a Nana, dá um banho nela e eu termino de arrumar o Dan e levo ele pra escola, hum?!
– Mas eu nem consegui terminar de preparar o café e o lanche dele não está pronto... – as lágrimas não cessavam.
– Shhh!!! – secou as lágrimas dele com os polegares e segurou seu queixo erguendo o rosto e depositando um beijo carinhoso – Não se preocupe. Nós podemos tomar café fora, no bistrô. Tenho certeza que ele vai achar superdivertido. Cuido do lanche dele também.
– Mas aí você vai se atrasar pro trabalho...
– Não vai fazer muita diferença. Eu posso fazer isso. Agora vai, vai que você vai ter trabalho de tirar todos os riscos do corpinho dela. – o beijou novamente.
Tom fungou, balançou a cabeça positivamente, andou até a filha que ainda chorava pegando-a no colo – “Por que essa menina tá chorando tanto?”, se perguntou mentalmente – e antes de sair da cozinha olhou para o marido.
– Obrigado – agradeceu com o coração aquecido e subiu as escadas.
Mazo conseguiu convencer o filho a se vestir e ir pra escola com promessa de comprar também guloseimas para o lanche daquele dia.
Tom já estava preocupado com o choro excessivo da filha.
– Meu bebê, o que você tem? Fala pro papá... – perguntou angustiado
– Dodói... – a pequena respondeu aos prantos.
– Onde dói? Conta pro seu pai... – a menina apenas continuou chorando e ele ficou ainda mais aflito – Meu amor, o papá quer te ajudar... Fala pra mim onde dói, filha...
A menina apontou pra própria testa.
– Tá doendo a cabecinha? O papá vai te dar remedinho, tá bom? Depois vamos tomar banhinho.
Tom foi até a cômoda no quarto da menina e a fez tomar um medicamento em gotas. Retirou toda a roupinha, a fralda e levou-a para o banheiro.
Realmente o banho foi demorado. Demorou mais do que Tom gostaria pra tirar toda aquela tinta de caneta colorida do corpo da criança. Quando saiu com ela do banheiro, percebeu a filha sonolenta. Enquanto trocava a fralda de Nana, Tom sentiu que o corpo da menina estava mais quente. Ao toca-la percebeu que a testa e o pescoço estavam muito quentes e mediu a temperatura. A garota tinha 39 de febre. Terminou de vesti-la, trocou de roupa e dirigiu até o hospital. Enquanto estava na recepção da emergência aguardando ser chamado para o atendimento, ligou para marido.
– Oi meu amor, você está bem? – perguntou a voz do outro lado da linha.
– Eu estou bem. A Nana que não está. Estamos no hospital, na emergência. – Mazo se assustou.
– O que aconteceu? Quer que eu vá encontrar vocês? Em que hospital vocês estão?
– Calma, meu amor. Não precisa se desesperar. Ela disse que a cabeça estava doendo e quando saiu do banho percebi que ela estava molinha e com febre, então decidi trazê-la pra cá. Já estamos aguardando o médico chamar. Não acho que seja nada grave, espero que não... Estou te ligando pra te avisar e pedir pra você pegar o Dan na escola, talvez eu não consiga. Não sei como faremos, mas ele tem natação hoje... – se antecipou, imaginava que ia demorar já que o lugar estava lotado de crianças pra serem atendidas mesmo sendo um bom hospital particular, talvez fosse exatamente por isso.
– Não se preocupe, eu resolvo isso. Eu posso ir busca-lo na escola e almoço com ele. Não lembro como está minha agenda pela tarde, mas eu acho que tenho uma reunião. Se eu não puder leva-lo à natação trago ele pra cá. Mas não se preocupe, o mais importante agora é a nossa princesinha. Como ela está?
– A dor de cabeça deve ter passado, eu dei remédio pra dor em casa, ela parou de chorar e agora está dormindo, mas continua com febre. Não sei quanto tempo vai demorar aqui, está muito cheia a sala de espera, mas te aviso qualquer mudança.
– Tudo bem. Te amo. Se cuida.
– Você também, se cuida.
Como Tom esperava, o atendimento demorou. A garota foi atendida quase 11h da manhã e ainda ficaria para tomar medicação e aguardar resultado dos exames que havia feito. O rapaz ligou pro marido e atualizou sobre a situação.
Mazo precisou mesmo buscar o garoto na escola e almoçou com ele em um restaurante. O executivo também confirmou a reunião que teria naquela tarde, não podia levar o filho pra natação, e pior, nem mesmo poderia ficar com ele.
Carlos ouviu o leve toque na porta e em seguida foi aberta. Aquele era um procedimento normal na empresa. Executivos dos cargos mais altos da diretoria podiam ir direto às salas uns dos outros sem precisar ser anunciado, a não ser que fosse solicitado à secretária avisar a restrição de entrada devido a alguma reunião ou coisa semelhante. Mas este não era o caso, então, logo Mazo apareceu no campo de visão do vice-presidente, mas não fechou a porta e em seguida passou por ela um pequeno ser ostentando seu curto black power.
– Olá, campeão! Que bom te ver. – Carlos levantou da cadeira e agachou do lado da mesa de braços abertos esperando o abraço do pequeno, que correu em direção a ele – O que está fazendo aqui? Veio ver o papai?
– Vim trabalhar. – respondeu o garoto.
– Ah! É mesmo? E eu posso saber o que você faz nesse seu trabalho?
– Não sei... – respondeu com uma cara engraçada fazendo os adultos rirem.
– Então não se preocupa, o que não falta aqui é trabalho. Já, já eu arrumo um pra você, tá bom?
O menino balançou a cabeça positivamente.
– A que devo a honra? – perguntou à Mazo
– Preciso de um favor seu. – Mazo explicou rapidamente a situação sobre a outra filha está no hospital e pediu para o vice-presidente ficar com Dan enquanto terminava sua reunião, que era muito importante.
– Claro que fico com ele. Como você mesmo disse eu tenho um monte de coisas pra fazer, mas você estará numa reunião, é impossível leva-lo. Não se preocupe, a gente se vira. Só não volte muito tarde, tenho que sair mais cedo hoje, até às cinco da tarde.
– Ah, não se preocupa, isso não deve durar mais que duas horas. Obrigada, cara. Te devo uma. – agachou na frente do filho. – O papai precisa fazer uma coisa muito importante...
– Derrotar os inimigos? – perguntou o menino inocente, fazendo os adultos rirem. Para o garoto, o pai era alguma espécie de super-herói.
– Mais ou menos isso... Por isso o papai precisa que você fique com o tio Carlos. Mas tem que ficar quietinho, tá bom?
– Tá bom.
– Então até mais tarde, filhote. – beijou a cabeça do menino e saiu.
Passava das duas da tarde, Tonny já tinha retornado do almoço e Carlos não tinha tentado nenhum contato desde a noite anterior.
– O senhor é Anthony Gutierrez? – indagou o desconhecido. Tonny levantou os olhos da tela do computador para visualizar o homem atrás da divisória baixa à sua frente.
– Anthony Moore-Gutierrez, sou eu. Por quê? – corrigiu o rapaz como se tivesse mais alguém ali com aquele nome. O estranho saiu sem dizer nada e quando voltou Tonny tomou um susto.
Havia um buquê simplesmente enorme e belíssimo de flores vermelhas e brancas. Era tão grande que Tonny nem conseguia visualizar o homem atrás enquanto ele dizia:
– Isso é pro senhor.
Tonny balançou a cabeça em negação, apenas uma pessoa poderia estar fazendo aquilo. Levantou resignado e pegou as flores para o alívio do rapaz, estava realmente pesado!
– Obrigado.
– Assine aqui, por favor.
Enquanto assinava o comprovante de entrega, num segundo um mulheril apareceu ao seu redor.
– Nossa! Mas nasceu virado pra lua mesmo! Sábado perfeito, flores no trabalho... Aposto que passaram o domingo todo fazendo amor. Aquele seu marido deve ser muito bom de cama, né não? Se fosse meu, não deixava ele sair da cama! – uma delas disse suspirando.
– Se um dia você se separar dele promete que fala pra gente primeiro? Quem sabe a gente tem mais chance se colocar o currículo primeiro. Já que ele tem uma queda por publicitários, quem sabe?
– Fala pra mim também, quem sabe eu tenho chance. De repente eu posso gostar... Com tanto homem se descobrindo gay e bissexual, alguma coisa deve ter aí! – gracejou o colega que sentava atrás dele que era absolutamente hétero e casado com uma mulher. As meninas riram.
– Tá bom! No dia que eu me separar dele eu prometo que vocês saberão em primeira mão, juro! – disse emburrado de um jeito engaçado e exagerado – Agora me deixem em paz que eu quero trabalhar! – falou abanando os braços.
Tonny recebeu mais outros três iguais de hora em hora. Não tinha mais onde colocar as flores, eram muitas! O escritório todo já estava alvoroçado com aquilo. Apenas o buquê que recebeu por último, às 17h, tinha um cartão, onde Tonny reconheceu a letra do marido.
“Queria poder te dar uma rosa por cada lágrima que fiz você derramar. Sinto muito. Sinto sua falta. Te amo mais que tudo. Carlos.”
– Então pode comprar uma floricultura. – Tonny falou baixo para si mesmo enquanto respirava fundo e recordava o quanto havia chorado na noite de sábado, pelo menos umas duas horas sem parar.
Ficou pensando o que fazer com tantas flores e acabou decidindo deixar no escritório mesmo, pelo menos por enquanto. “Vai ser complicado demais transportar isso tudo, além do mais se eu chegar em casa com isso ele vai ficar se achando e eu ainda não perdoei ele”, pensou.
Mazo cancelou todos os compromissos que tinha após a reunião; chegou em casa quase cinco da tarde com o filho nos braços, que dormia de tão exausto. Foi direto pro quarto do garoto e o depositou na cama. Em seguida seguiu para o quarto da filha, onde achou que encontraria o marido, e não se enganou. Nana dormia no berço, enquanto Tom cochilava na poltrona ao lado. Mazo mexeu na franja do amado, que acabou despertando.
– Oi... Como está a nossa boneca? – perguntou o executivo.
Tom atualizou o marido de como havia sido no hospital, os exames que a menina fez, contou que o médico disse que era uma virose e que havia sido medicada e estava melhor.
– Eu estou exausto. – se queixou Tom.
– Eu sei, dá pra ver no seu rosto. Venha, vou te dar um banho de banheira bem gostoso pra você relaxar.
Carregou o menor no colo até o quarto, despiu as roupas dele e as próprias roupas e preparou o banho de banheira.
– Eu acho que você está precisando de ajuda... – disse Mazo distraído enquanto esfregava as costas de Tom, que estava sentado entre suas pernas.
– Como assim precisando de ajuda?
– Eu sei que você escolheu deixar de trabalhar para não deixar as crianças com estranhos e acompanhar o desenvolvimento delas de perto, mas elas estão crescendo e o trabalho com elas só está aumentando, você ainda tem que lidar com essa casa enorme sozinho. Talvez fosse melhor se contratássemos alguém pra te ajudar. Você teria alguém pra dividir as responsabilidades, isso ia te dar mais tempo pra você mesmo, se divertir de vez em quando, ficar menos estressado...
– Não sei isso é uma boa ideia...
– O que impede, hum?!
– Não sei... Só não acho necessário. – estava relutante com aquela ideia.
– Apenas pense nisso com carinho, depois amadurecemos a ideia, ok?!
– Ok. – Tom se deu por vencido.
Quando o publicitário chegou em casa já eram quase 7 da noite. Ao abrir a porta encontrou Carlos sentado no sofá. A televisão estava ligada, mas o empresário parecia concentrado em alguns papéis que tinha nas mãos. Estava com os cabelos molhados, vestindo uma camiseta regata cavada preta e justa no corpo e um short que ia até o meio das coxas ressaltando as pernas torneadas que estavam cruzadas, o tornozelo apoiado em um dos joelhos. “É realmente uma bela visão...”, pensou Tonny ao ver a cena. Mas em seguida balançou a cabeça tentando mandar aquele pensamento pra longe. “Preciso manter a postura.”, disse pra si mesmo.
Carlos estava tão atento ao que estava lendo, que só percebeu a presença do marido quando ouviu o barulho da porta sendo fechada.
– Oi... – disse cauteloso, colocando os papeis no colo.
– Oi. Chegou cedo... Em casa antes de mim?! – perguntou Tonny com a voz calma sem demonstrar nenhuma emoção. Aquilo era realmente uma coisa rara.
– É... Adiantei as coisas no escritório e o que faltava fazer, eu poderia fazer aqui, apenas ler e analisar algumas pesquisas de mercado...
A verdade é que Carlos cortou um dobrado, fez o que podia e não podia pra conseguir chegar mais cedo em casa, mas naquele momento fingia ser uma coisa simples ou nada demais.
– Hum... Entendi. Você já jantou? –perguntou o publicitário.
– Ainda não. Estava esperando você chegar. Eu comprei a lasanha de frutos do mar daquele restaurante italiano que você gosta pra gente jantar.
– Tá. Tudo bem. Eu vou tomar banho, então, e podemos jantar depois, se você quiser.
– Claro. Como você quiser.
Então, conforme o combinado, Tonny tomou seu banho sem grande demora, se vestiu e voltou para jantar com Carlos. O moreno continuava no mesmo lugar e ele passou direto para a cozinha a fim de esquentar o jantar. Foi quando percebeu que a mesa já estava belamente posta, um tanto romântica até... Tinha até umas velas. Colocou a massa no forno e quando achou que estava bom colocou-a na mesa e foi até o balcão:
– Carlos, a comida está na mesa. – chamou o outro.
Sentaram-se para comer e o jantar estava sendo feito em silêncio. Aquilo estava incomodando Carlos absurdamente. Tonny não falava nada sobre as flores que ele havia mandado, sabia que precisava se desculpar propriamente, mas não sabia como ainda. Pelo menos Tonny já estava falando com ele de alguma forma, mas as coisas visivelmente não estavam bem, o “grande elefante branco no meio da sala” estava sendo ignorado. Então, depois de muito pensar, Carlos decidiu puxar uma conversa leve para tentar se aproximar do outro.
– O Dan ficou comigo lá no escritório hoje. – Disse de repente.
– Ah, foi?! Por quê? – o assunto realmente havia atiçado a curiosidade do publicitário.
– Parece que o Thomas precisou ir ao hospital com a Nana e Mazo foi busca-lo na escola, mas não tinha quem ficasse com ele porque o grandão tinha uma reunião importante, então fiquei com ele até a reunião acabar.
– Nossa! A Nana tá doente?
– Parece que é uma virose.
– E o Tom não me falou nada? Vou ligar pra ele depois... – A ultima frase era mais pra si mesmo que para o marido – E como o Dan se comportou? Não sentiu falta do pai?
– Ah, ele é supertranquilo. Dei um monte de papéis pra ele rabiscar enquanto eu precisava fazer umas coisas importantes e ele ficou quietinho. Pediu pra ir no banheiro algumas vezes, quis comer e em alguns momentos queria atenção, mas normal, ele é uma criança de 4 anos. Foi ótimo.
– Ah, que legal.
Terminaram o jantar e Tonny ligou para o melhor amigo a fim de saber o que havia acontecido com Nana e como ela estava. O outro o tranquilizou dizendo que não era nada demais e não ligou pra não preocupa-lo em vão.
Não demorou muito e Tonny já estava na cama. Lia um livro quando Carlos entrou no quarto. O empresário sentou na beira da cama ao lado do marido, tomou o livro dele gentilmente, marcou a página e fechou, colocando-o em cima do criado mudo a sua frente; segurou as duas mãos dele e olhou em seus olhos.
– Eu não acho que aquelas centenas de flores que te mandei irão apagar o que eu te disse, retirar o sofrimento que te causei ou desfazer seu pranto. Infelizmente eu não posso voltar no tempo e desfazer o que aconteceu, ou apagar todas as vezes que te magoei de alguma forma... – acariciou o rosto de Tonny – Mas posso te dizer que você é a pessoa que eu mais amo no mundo; que eu daria minha vida por você sem pensar duas vezes. Eu sei que eu deveria aprender a demonstrar isso de uma maneira melhor, mas embora eu queira ser perfeito pra você, eu não sou uma pessoa perfeita. E um dos meus maiores defeitos é o ciúme. – sorriu triste – Eu sei, você sabe, todo mundo sabe disso... Te magoar e te fazer sofrer são as últimas coisas, na verdade, as únicas coisas que eu não quero fazer com você nunca. Eu acredito que a minha missão nessa vida é te amar e fazer você feliz. Tudo que eu fiz na vida, tudo que eu corri atrás pra chegar até onde estou hoje, foi com o objetivo de te dar o que você merece e eu acredito que você merece tudo, merece o mundo! Mas eu não sei explicar... – balançou a cabeça negativamente derrotado – É só que nesses momentos de ciúme eu não consigo pensar... Por mais que eu tente, por mais que eu pense que aquilo pode te machucar, eu simplesmente não consigo segurar aquela sensação que me corrói, entende? É mais forte do que eu. Eu tento ser racional e não consigo... – suas palavras eram quase um sussurro sofrido. Engoliu em seco – Tudo que eu posso fazer é pedir o seu perdão. Não sei até quando você vai fazer isso, você é muito generoso comigo e eu nem mereço a sua generosidade; mas é que a ideia, o pensamento de viver sem você é doloroso demais. Eu não conseguiria, é como se faltasse o ar. – respirou fundo como se estivesse realmente faltando ar em seus pulmões. Depois de uma breve pausa voltou a falar. – Eu não sei mais o que te dizer. Na verdade, nem sei se palavras podem explicar como eu me sinto... Só peço que me perdoe, me deixe continuar sendo o seu marido... Só quero continuar tentando te fazer feliz... É tudo que eu quero.
O silêncio se fez. Não um silêncio constrangedor ou incômodo, um silêncio confortável. Apenas examinavam cada expressão, cada traço no rosto um do outro, como se buscassem ler as palavras em suas faces.
Tonny pensava em tudo aquilo que acabara de ouvir. Não conseguia chorar porque as lágrimas já haviam secado. Não duvidava das palavras do outro, mas não era como se fosse cair nos braços dele por causa disso. Na sua concepção, Carlos havia errado feio.
– O que você quer que eu te diga? Eu não tenho o que te dizer. É sempre assim... Você perde a cabeça, fala o que você quer, faz o que você quer, me causa dor e sofrimento, depois cai em si, faz coisas pra se redimir e pede perdão. Tem funcionado, não é? Sempre funcionou, porque seria diferente agora? – riu fraco – Você se acha mesmo no direito disso? De me colocar nessa situação o tempo todo? Se acha no direito de me colocar numa posição tão vulnerável, numa condição emocional tão frágil a ponto de me impossibilitar de dar atenção às pessoas da minha família? Você diz que tem medo de me perder... Já que esse medo te corrói a ponto de te cegar de ciúme, antes de perder a cabeça lembre que o único que pode fazer você me perder, é você mesmo com essas suas atitudes. Apenas isso pode fazer você me perder. Não existe ninguém no mundo que me faça deixar te amar, ninguém no mundo por quem eu vá me interessar, tudo só depende de você... E de mim. Depende do que construímos juntos. Você quer me fazer feliz? Então pare com isso! Me fazer feliz é mais simples do que você imagina, não preciso de coisas caras, presentes caros, viagens caras, restaurantes caros. Preciso apenas que você pare com esse ciúme insano! Não preciso que você seja perfeito, apenas pare com isso! – suspirou e o encarou por alguns longos segundos – Você precisa que eu diga as palavras? Eu digo MAIS uma vez: eu te perdoo. E não quero mais falar nesse assunto, estou cansado disso. Vamos apenas dormir, ok?
Carlos balou lentamente a cabeça positivamente. – Ok. – Foi tudo que disse perdido nos próprios pensamentos, não esperava por palavras tão contundentes do marido e ficou sem reação. Sentia como se Tonny tivesse lhe dado um tapa sem mão.
O executivo apagou a luz do quarto, deu a volta na cama e deitou no lado que costumava dormir. Apenas os abajures iluminavam o quarto. Estavam deitados de lado, um de frente pro outro, não muito distantes, mas não tão próximos assim. Se olhavam como se buscassem a alma um do outro através dos olhos. Até que Carlos criou coragem e tocou suavemente o rosto do marido, um toque muito delicado e repleto de carinho e se aproximou lentamente; beijou uma de suas faces, a testa, o queixo e o nariz do companheiro. Tonny apenas permanecia parado, recebendo as carícias sem esboçar nenhuma reação. Carlos então decidiu avançar um pouco mais, selou os lábios do mais novo uma, duas vezes. Na terceira, tentou aprofundar o beijo, mas foi impedido com toque das mãos do companheiro em seu peito que o afastou da forma mais delicada que conseguia.
– Não... Vamos apenas dormir. – Tonny ditou calmo. Se esticou pra trás e apagou o abajur do seu criado mudo.
O olhar de Carlos carregado de tristeza e frustração, mas ele não disse nada. Apenas apagou o próprio abajur e deitou de costas, encarando o teto que mal podia enxergar por conta da escuridão.
Tonny acordou com um barulho. Abriu os olhos e percebeu que era a voz do marido. Ele estava completamente molhado, coberto de suor, o lençol embaixo dele estava encharcado e se debatia levemente, balbuciando coisas que Tonny não conseguia entender muito bem. Achava ter ouvido algo como “não me abandone”, ou semelhante. O publicitário se preocupou ao ver o estado do marido.
– Carlos! Carlos, por favor acorda! – chamou mas não adiantou, então tentou sacudir os ombros dele – Meu bem, por favor acorda! Acorda, meu amor. – Já estava aflito.
Carlos abriu os olhos e puxou todo ar que podia pros seus pulmões de forma ruidosa, como se estivesse se afogando. Demorou alguns segundos pra perceber onde estava e visualizar o amado em sua frente.
Tonny se assustou ao receber o abraço de Carlos que levantou o tronco num rompante apertando-o com toda força que tinha. O publicitário pensou que não iria conseguir respirar, tamanha a força.
– Não me deixa. Não me deixa. Por favor, não me deixa. – Carlos repetia como um mantra, não conseguia pensar em outras palavras que não fossem aquelas três.
– Calma, calma... Eu estou aqui. Não vou a lugar algum... Shhhh... – tentou acalma-lo com uma voz suave. Tentou se afastar pra olhar o rosto do marido, mas só conseguiu ficar mais preso ao abraço.
As lágrimas caiam como se tivessem aberto torneiras nos olhos de Carlos.
– Tá tudo bem... Eu estou aqui com você. – repetiu.
Quando conseguiu finalmente se soltar para olhar o rosto do marido, Tonny o beijou. Um beijo calmo, delicado, suave que durou minutos. Carlos interrompeu o beijo e roçou a barba no maxilar de Tonny. Aquilo era covardia. Tonny nunca, absolutamente nunca, havia resistido àquele carinho, e ele acreditava que nunca conseguiria. Naquele momento o publicitário estava entregue.
Carlos voltou aos lábio de Tonny e quando o beijo foi retomado era intenso, necessitado e urgente. Carlos jogou o corpo por cima de Tonny, fazendo-o ficar deitado em baixo dele, tocando-o com urgência cada parte do corpo dele. As mãos eram fortes e o toque pesado, mais um pouco machucaria Tonny, mas mesmo sem machucar com certeza deixaria marcas no dia seguinte. Diante de tamanha intensidade, Tonny acompanhava tocando o marido como podia.
Carlos tinha uma urgência desesperadora. Não podia esperar. Precisava sentir que aquele homem que tinha sob seu corpo era dele. Tirou rapidamente e sem cuidado nenhum a camiseta e o short do marido, as únicas peças que ele vestia. Se posicionou entre as pernas do marido e arrancou a própria camisa mas nem sequer se preocupou em tirar a cueca box que estava, apenas colocou o pênis rígido pra fora e penetrou com tudo de uma vez em Tonny.
– Ahhhhhhhhh!!!
–Ahhhhhhhhhhhhhhhh!!! – Ambos praticamente gritaram. Tonny de dor, por ser penetrado tão bruscamente. Carlos de prazer, mas não era apenas um prazer carnal, era algo mais, era o prazer de saber e de dizer pra si mesmo que aquele homem era todo seu, lhe pertencia, apenas a ele e mais ninguém. Estava reivindicando-o e era da forma que queria e sabia fazer.
O moreno deitou o corpo sobre o amado, colocando as duas mãos na nuca dele, uma em cada lado segurando com firmeza, os dedos entrelaçados nos seus cabelos, seus rostos tão próximos que estavam quase colando suas testas, um olhando os olhos do outro e ele estocou forte e duro sem parar.
Tonny apenas segurava nele, uma mão em torno de cada braço do marido, apertando-o com força, tentando suportar aquela sensação.
– Ohhhhhhhhhhh!!! Awwwwwwnnn!!! Ahhhhhhh!!! — Tonny gemia alto sem parar a cada estocada, quase gritava de prazer e de dor.
Carlos apenas observava aquele rosto tão próximo ao seu sem deixar escapar nenhum som, apenas a respiração pesada saía de seus lábios. Era como se quisesse gravar a imagem na memória, para não ter dúvidas depois.
Continuou metendo até gozar bem forte e fundo, jogando a cabeça pra trás, liberando um som gutural pela garganta, um urro. Por fim, deixou o peso do corpo cair sobre o outro, tentando controlar a respiração, sem sair de dentro dele.
Quando sentiu que conseguia falar, Carlos ergueu o corpo apoiando o próprio peso nos cotovelos e olhou o nos olhos do outro.
– Eu sou seu marido. SEU – enfatizou a palavra – e de mais ninguém. Assim como você é MEU, apenas meu. É assim que deve ser e é assim que vai permanecer. – Disse com um tom de voz que parecia mais um aviso. Sem dar tempo de o outro responder, o beijou. Em seguida levantou da cama e puxou Tonny pela mão já o levando junto consigo.
– Agora vamos tomar um banho que estamos muito suados. – disse com naturalidade.
O banho foi de banheira, mas não demorou muito. Quando voltaram pra cama, fizeram amor no mais completo sentido da palavra, demorado, com direito a todos os toques, carícias, preliminares e declarações de amor durante o sexo. Quase como uma desculpa pela transa anterior, Carlos fez Tonny gozar quatro vezes do começo até o fim do ato, que demorou mais de uma hora e meia; bem diferente dos 10 minutos da primeira.
Tom acordou com o barulho da babá eletrônica, ouvindo a filha choramingar. Levantou imediatamente e correu até o quarto da garota. O homem encontrou Nana queimando de febre. Mediu a temperatura que estava em 40°c.
– O que aconteceu? – Perguntou Mazo entrando no quarto. Ele havia acordado com a movimentação e os sons que ouvia pela babá eletrônica.
– A Nana tá queimando de febre! – Disse aflito ninando a menina – Não era pra ela estar assim, tomou remédio há algumas horas apenas. Acho que é melhor voltarmos pra emergência.
– Tudo bem, mas vamos dar um banho frio nela primeiro pra aliviar a febre.
Tom decidiu fazer isso no banheiro do próprio quarto. Ligou o chuveiro com a temperatura da água quase fria. Quando sentiu a temperatura na pele, Nana chorou. Na verdade, berrou. A garota gritava, chorava, esperneava, tentava escalar o corpo do pai na intenção de fugir da água, mas nada adiantou. Tom praticamente entrou com ela debaixo do chuveiro com roupa e tudo para manter a garota na água por alguns minutos. A menina soluçava desesperadamente e aquilo partia o coração do dono-de-casa.
– Calma, meu amor, é pro seu bem... – tentou acalma-la em vão. A voz embargada e olhos marejados de ver a filha daquele jeito, naquele desespero.
Mazo entrou no banheiro com a toalha na mão para enxugar a garota. Quando viu o pai negro, Nana se jogou para os braços dele como se fugisse do bicho papão. Ainda soluçava sem parar a ponto de quase se engasgar. O executivo tentou acalma-la, levou-a até o quarto dela a fim de arruma-la pra ir ao hospital, o que deu trabalho levando em consideração o estado abalado da criança que não ajudava na tarefa. Enquanto isso, Thomas trocou de roupa e separou uma roupa para o marido. Mazo precisou fazer malabarismo pra se vestir, já que a menina não queria o pai Tom de jeito nenhum depois daquele banho, nem queria ficar na cama. Estava doente e era compreensível seu comportamento.
Enquanto arrumava a bolsa com as coisas da filha, Tom ligou para o melhor amigo.
Carlos e Tonny estavam deitados na cama ainda nus, um de frente pro outro, abraçados, pernas entrelaçadas, entre beijos, carícia e conversas triviais quando o telefone do publicitário tocou. Deveriam estar dormindo, era madrugada, iriam trabalhar quando o dia raiasse, mas não estavam se importando com isso naquele momento.
Carlos praticamente paralisou com o olhar duro diante da incredulidade que sentia ao ouvir o telefone do marido tocando àquela hora. Tonny apenas deu de ombros e o olhou com uma expressão de “não faço ideia de quem seja” e se esticou até o criado mudo para pegar o aparelho e viu no visor de quem se tratava.
– Tom? O que aconteceu? – a voz visivelmente preocupada.
– Calma, amigo, não precisa se alarmar. Desculpa te ligar essa hora da madrugada...
– Não se preocupe, não estávamos dormindo.
– Eu preciso muito de um favor seu... Você pode ficar com o Dan agora? É que a Nana está com uma febre insistente que não cessa, agora já está passando dos 40 graus e eu estou muito preocupado – Tonny ouvia o choro o tanto dengoso da menina ao fundo – Vou leva-la ao hospital, mas não queria ir sozinho porque não sei o que está acontecendo e não tenho com quem deixar ele.
Os casais moravam relativamente perto. Àquela hora, mais de três horas da madrugada, seriam apenas 10 min de carro, já que não havia trânsito.
– Claro que podemos! – disse solícito.
– Já estamos saindo, daqui a pouco estamos aí.
– Tudo bem, vou descer com o Carlos pra vocês não precisarem subir, tá bom? – Carlos já olhava curioso pra saber o que estava acontecendo – Até daqui a pouco.
Tonny explicou ao marido rapidamente o que estava acontecendo. Imediatamente eles levantaram, se vestiram e arrumaram a cama trocando os lençóis, já que iriam receber uma criança pra dormir com eles. Desceram para a portaria e não demorou nada para o outro chegar.
– Não tenho como te agradecer... – Falou Tom enquanto passava o menino adormecido pros braços de Carlos. Mazo continuou no carro com Nana.
– Não tem o que agradecer, é o que os amigos fazem. – Tonny respondeu.
– Nessa sacola tem alguns brinquedos que ele gosta, uma muda de roupa e a farda dele da escola... Desculpa abusar tanto vocês, mas é que não sei que horas vamos voltar, hoje passei o dia quase todo lá, pode ser que demore...
– Não se preocupe, nós cuidaremos dele e levaremos ele pra escola, ok? – disse Carlos interrompendo o discurso de Tom.
– Qualquer coisa me liga.
– Não será preciso, ele ficará bem com a gente. Melhoras pra Nana. – respondeu Tonny.
– Obrigada.
Carlos seguiu para o elevador carregando Dan com um braço enquanto o outro rodeava a cintura de Tonny. A cena não escapou dos olhos do outro casal.
– Pelo visto eles já se acertaram... – comentou Mazo quando Tom voltou ao carro.
– Dessa vez foi rápido... Bem mais rápido do que eu pensei – respondeu Tom.
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