O homem que eu amo
17 Capítulo 17
Notas iniciais
O telefone tocou acordando a mulher. Ela xingou mentalmente quem quer que estivesse ligando aquela hora. Olhou o relógio no criado mudo. Marcava 3h27.
– Alô... – atendeu com voz de sono.
– Glória!
– Quem é?
– Sou eu, Tom.
– Oi, Tom...
– É urgente, Glória! Eu preciso que você vá agora na casa do Carlos e do Tonny antes que aconteça alguma merda.
– O que aconteceu? – Ela levantou num rompante.
– O mesmo de sempre, o ciúme do Carlos. Ele bateu num rapaz na boate que estávamos e saiu de lá arrastando o Tonny pelo braço. O rapaz que ele agrediu é conhecido nosso da época da faculdade e nós estamos indo deixar ele na emergência, mas precisamos voltar pra casa em seguida por causa das crianças. Eu liguei para o celular do celular do Tonny, mas não consegui falar. Chamou poucas vezes ele não atendeu e depois ficou caindo na caixa. Por causa disso eu não quis ligar para o telefone de casa, não sei o que está acontecendo, fiquei com medo de piorar ainda mais as coisas... E o Carlos bebeu muito...
– Tudo bem. Eu já entendi. Estou indo pra lá agora. – respondeu pegando a primeira roupa que encontrou para vestir.
Glória correu até o carro que havia ganhado do filho há dois anos. Ela evitava dirigir, não gostava. O fazia apenas em situações de real necessidade ou de extrema urgência, como aquele momento pedia.
Ela dirigia com a expressão pesada, carregada de preocupação; mas o sentimento maior dela era a culpa. Glória sempre se culpava por Carlos ter esse jeito agressivo com Tonny numa situação de ciúme. Ela acreditava que isso era resultado de uma criação falha. Talvez se tivesse sido mais dura com ele, mais firme, ele não fosse assim e seu genro não sofresse as consequências.
No caminho para o apartamento do filho e do genro, Glória rezava. Pedia com todas as suas forças que estivesse tudo bem. Que fosse apenas uma discussão boba e logo fizessem as pazes. Orou para que sua ida até lá fosse em vão. Para que quando chegasse lá, eles estivessem fazendo sexo de reconciliação. Pra ela, passar por um constrangimento como esse era a melhor coisa que poderia acontecer naquele momento.
Ela também refletia sobre a mudança do filho nos últimos meses. Sete meses sem nenhum evento de ciúme. Todos haviam comentado sobre isso; sobre como Carlos havia se transformado em outro homem. “Será que só eu não acreditava de verdade na mudança do meu filho? Será que só eu achava que essa calmaria não ia demorar muito?”, se perguntou. E mais uma vez ela se culpou. Desta vez por não acreditar no próprio filho, por não acreditar que ele poderia ser uma pessoa melhor. Todos acreditavam na tal mudança, menos ela. Embora seu cérebro dissesse “Eu sabia!”, seu coração de mãe queria manter a esperança de estar errada dessa vez. Tudo que mais desejava no mundo que a situação não passasse de um mal entendido.
A mulher passou pela portaria sem ser interrompida. Ela, assim com todos os parentes e os amigos mais íntimos – Tom e Mazo – tinha acesso livre ao edifício. Enquanto o elevador subia, ela se perguntava se Tonny teria autorizado previamente a entrada deles com medo que o pior acontecesse algum dia e assim pudessem encontra-lo. Mas ela não queria nem imaginar aquilo, buscou afastar o pensamento.
“Isso significaria que meu filho teria feito algo terrível... Deus, nunca permita que o pior aconteça...”, ela rezou andando apressadamente pelo corredor do edifício, após sair do elevador.
Antes mesmo que pudesse tentar tocar a campainha ou usar a cópia da chave que tinha para entrar no apartamento, a porta abriu e a imagem que Glória viu, a fez perder o chão. Faltou ar em seus pulmões. Ela juntou as duas mãos tapando a boca, os olhos apavorados.
Carlos tinha do lado esquerdo do rosto completamente ensanguentado. Tinha sangue também nas suas mãos e camisa.
“Eu sabia! Eu sabia que o pior ia acabar acontecendo... Não pode ser...”, pensou ao ver a cena, completamente paralisada...
– Mãe... – Carlos chamou um tanto aflito, fazendo-a voltar à realidade.
– Meu Deus, Carlos! De quem é esse sangue na sua roupa? O que aconteceu? O que você fez com o Tonny? – perguntou, mas sem esperar pela resposta ela entrou correndo, empurrando-o para o lado. Acreditava que se o filho estava daquele jeito, o genro certamente estava pior.
“Deus, que ele esteja bem... Deus, que ele esteja bem...”, ela rezou como um mantra, num caminho de segundos até o quarto, mas que lhe parecia uma eternidade. Parecia que seus maus pensamentos estavam se realizando.
.
Uma hora e meia antes...
– Você está bêbado, Carlos! Eu não vou entrar nesse carro com você na direção! – Tonny falou ao chegar no estacionamento. – Combinamos que eu voltaria dirigindo, eu nem bebi por causa disso!
– Entra neste carro agora, Anthony! – Carlos gritou, em pé ao lado da porta do motorista, com o marido a sua frente a um metro de distância.
– Não! Eu já disse que não vou entrar! Você está alcoolizado! – gritou de volta.
Carlos pegou no braço do marido com violência, deu a volta no carro com ele, abriu a porta do carona e o empurrou pra dentro do veículo:
– Não se atreva a sair! Se você descer desse carro, vai ser pior pra você! – Carlos gritou apontando o dedo na cara do marido, sem se importar com os olhares dos curiosos, em seguida bateu a porta com força.
Anthony percebeu que eles estavam chamando atenção e decidiu ir para não aumentar a cena.
– Você é uma puta mesmo, não é?! Pior que prostituta de beira de esquina! Sempre procurando um pau que possa te foder! – Carlos iniciou as ofensas enquanto dirigia.
Tonny começou a chorar. Ele não estava acreditando que estava vivendo aquele pesadelo de novo. Ele tinha acreditado que o marido tinha mudado, que aquilo não ia mais acontecer, mas lá estava ele de novo. E aquilo doía. Doía muito, porque ele acreditou em um Carlos diferente, o Carlos que ele havia se transformado, controlado, sem agressão.
– O que foi, vadio? Não aguenta ouvir a verdade? Eu vi, seu filho da puta, você se oferecendo pra ele na porta do banheiro. “É meu colega da faculdade” – fez uma voz débil – e o palhaço aqui acreditando. O idiota aqui acreditando no seu papinho furado. Há quanto tempo você dá pra ele?
Tonny tentou segurar um soluço em vão.
– RESPONDE! – ele gritou – Eu te fiz uma pergunta! Há quanto tempo você abre as pernas pra aquele filho da puta?! – com uma das mãos segurou o rosto de Tonny com violência, apertando suas bochechas, o que formava um bico involuntário nos lábio publicitário, virando o rosto dele na sua direção, dando ao mais novo um olhar de desprezo. – Seu puto, imundo! Responde!
Quando tirou uma das mãos do volante e os olhos da pista, o carro invadiu a contra mão. Uma luz forte invadiu o interior do carro quase segando os dois, uma buzina alta foi ouvida e Carlos desviou rapidamente de um caminhão que vinha na direção contrária, quase batendo de frente.
– CARLOS, VOCÊ VAI MATAR A GENTE! – Tonny gritou desesperado. – Me deixa dirigir! Para com isso, pelo amor de Deus! Você já tinha parado com isso... – Anthony pediu aos prantos.
– Eu parei com isso e você resolveu pensar que eu sou idiota, ficou pensando que eu sou babaca, que eu sou otário... Queria dar o rabo para Brian Smith também? Claro que queria! Só não teve chance, não é? RESPONDE! – gritou mais uma vez, fazendo Tonny estremecer no banco.
– Eu tô te implorando, Carlos. Para com isso agora! Pelo amor de Deus, eu te imploro, não faz isso... – a voz do publicitário falhou.
– Mas eu vou dar o seu, vadio de merda! Você vai aprender a não brincar comigo, filho da puta! – continuou como se Tonny não tivesse dito nada. – Você vai ver só!
Tonny resolveu se calar e penas ouviu a chuva de ofensas até chegar em casa e entrarem no quarto, que agora tinha um cenário diferente. Parte dos objetos pessoais que tinham no cômodo, como os livros e alguns objetos de decoração já tinham ido para a casa nova. De resto tudo seria novo na mansão.
– EU NÃO VOU PERGUNTAR DE NOVO, ANTHONY! – Carlos gritou mais uma vez – É melhor você falar a verdade, ou vai ser pior pra você!
– Ele só me perguntou as horas! Eu já falei! – Tonny gritou de volta, chorando descontroladamente.
Neste momento o celular do publicitário tocou.
– Seu vagabundo mentiroso! – desferiu um tapa na cara de Anthony, que foi ao chão com tamanha força do golpe, próximo aos pés da cama – Você deu o seu telefone pra ele, seu filho de uma vadia! E ele já está ligando pra você! – pegou o marido com brutalidade e jogou em cima da cama, tateou seus bolsos até encontrar o aparelho. – Olha aqui o que eu faço com seu celular! – jogou contra a parede com força, sem sequer olhar quem estava ligando. – Eu deveria fazer o mesmo com você! – disse apontando pra o marido.
Tonny se encolheu em posição fetal.
– Tá pensando que eu não sei? Hein?! – desferiu outro golpe com a mão aberta que o atingiu na omoplata. – Que você ia dar pro Smith ali mesmo no banheiro se tivesse oportunidade? – outro tapa – Era isso que você queria, não era? – mais um golpe – Que eu não estivesse lá pra ele te foder? Hein?! – outro, e mais outro e mais outro e mais outro, nas costas e nas costelas – Pois eu vou te ensinar! Vou te ensinar a deixar de ser uma puta vendida, seu vadio!
Carlos puxou Anthony pelo cós da calça, forçando-o a virar de frente. O publicitário tentou se defender, segurando as mãos do marido, mas só serviu para levar mais dois tapas no rosto, que fizeram sua cabeça virar para um lado e depois para o outro, sob gritos de “não me toque” do executivo. Rendido, ele sentiu o marido desabotoar sua calça para em seguida retirar com violência, levando seu sapato no processo.
O executivo retirou o cinto que usava na cintura e lapeou com força as pernas do publicitário, deixando uma marca rubra na pele clara de Tonny.
O publicitário gritou de dor. Se encolheu, tentou se defender com as mãos, o que só serviu para que os golpes atingissem também seus braços. As cinturadas eram cada vez mais fortes, cada vez mais violentas, por todo o seu corpo. A cada novo golpe, um grito de dor. Ele contou... Vinte e dois golpes lhe atingiram, vinte duas vezes ele gritou.
– Puta de esquina! Queria dar pra Brian Smith, não é? Do mesmo jeito que dá para aquele seu ex-colega da faculdade, e sabe mais lá pra quem você dá essa bunda! – virou o publicitário de costas com brutalidade e sentou sobre suas coxas e abaixou a cueca, desferiu dois golpes de cinto, um em cada nádega, para em seguida jogar o objeto de lado e começar a bater com as mãos, deixando as marcas dos dedos no outro a cada pancada.
– PARA! PARA, CARLOS! – Tonny gritou com tudo que tinha, tentando se soltar, mas o marido era mais forte.
– CALA A BOCA! – outro tapa no lado do rosto de Tonny, que pela posição pegou mais na orelha e no pescoço. – E fica quieto! Eu vou te ensinar a me respeitar. Te ensinar a não dar esse seu rabo imundo pra mais ninguém! – outro tapa no rosto. Deitou sobre o corpo de Tonny, puxando a cabeça dele pra trás segurando pelos cabelos – Você é meu! Só meu! Está me ouvindo? RESPONDE! – gritou no ouvido do publicitário.
Anthony estremeceu devido a dor no tímpano e apenas soluçava de tanto chorar.
– Se você não sabe disso, eu vou te ensinar... Puta ruim só aprende assim...
Ergueu o corpo novamente, desabotoando a própria calça colocando o pênis pra fora, se estimulou um pouco até ficar totalmente ereto, com uma das mãos segurou a nuca do publicitário, pressionando a cabeça dele contra o colchão e tentou penetrar o marido à força.
– NÃO! – Tonny gritou, contraindo as nádegas para impedir a invasão, tentando se debater. – PARA! EU NÃO QUERO, CARLOS! PARA! – o executivo lhe deu outro tapa na cara com a mão livre.
– O que é? Agora prefere seus machos do que a mim? Hein?! – mais um golpe no rosto – Mas você vai aprender que seu dono sou eu, seu puto nojento! – deu um tapa com força na nádega de Anthony. – Para com isso agora! – gritou se referindo a contração das nádegas que o impedia de penetrar o marido – Vou foder você, até você aprender que seu macho sou eu! – outro tapa ainda mais forte na bunda, pra em seguida forçar mais uma vez a entrada de forma mais violenta.
– AHHHHHHH!!!!! – Tonny gritou de dor mais uma vez.
O publicitário não aguentava mais tentar lutar para se defender. Já estava conformado com fato de que seria estuprado pelo marido, quando usou o último fio de força que tinha para esticar a mão e pegar uma estatueta que ficava em cima do criado mudo e girou o braço pra trás, acertando a cabeça de Carlos.
O executivo caiu ao lado do publicitário na cama com as mãos no olho esquerdo, grunhindo de dor.
Tonny ainda levantou a cueca como conseguiu, não queria ficar exposto, mas foi tudo que pôde fazer. Queria se levantar e sair de perto do marido, mas mal conseguia se mexer. Continuou de bruços enquanto seu corpo sacodia devido ao pranto.
Quando a dor inicial da pancada passou, Carlos olhou para o lado e viu o estado deplorável de Tonny. Ele estava vestido apenas com a camisa polo e a cueca. As áreas expostas do corpo estavam todas marcadas. E ele sabia que a parte que não podia ser vista não estava diferente. Onde não havia marcas de cinto, havia de dedos e mãos. Em algumas partes elas se fundiam. Alguns lugares começavam a ficar roxo.
Ao prestar atenção no rosto do marido, percebeu como estava vermelho das pancadas que havia tomado, marcado, o lábio estava cortado e saia sangue, a face encharcada de lágrimas e coriza. Estava de olhos fechados.
O executivo percebeu que ele não estava apenas sacodindo por causa do choro, ele estava também tremendo, em choque. Hesitantemente ele tocou o cabelo do marido.
– NÃO TOCA EM MIM! – Tonny gritou, sem seque saber de onde tirou forças, assustando o outro.
– Me perdoa... Eu... – Carlos tentou dizer num sussurro.
Anthony finalmente abriu os olhos e olhou para o outro ao seu lado e percebeu que ele tinha um corte no supercílio esquerdo que sangrava bastante. O rosto dele estava ensanguentado e formava uma poça no colchão.
– SAI DAQUI! SAI DAQUI! Sai... – a última palavra quase não saiu.
Carlos ainda ficou olhando o marido por alguns segundos e seus olhos se encheram de lágrimas, sua face expressava arrependimento. Ele se levantou, ajeitou as próprias roupas, pegou as chaves do carro e o celular e andou em direção à saída discando o número da mãe, mas ao abrir a porta deu de cara com ela.
A mulher o olhou da cabeça aos pés. Ele tinha o rosto, as mãos e a camisa ensanguentados. Ela estava estática, olhos arregalados e as mãos tapando a boca, até que ouviu o filho.
– Mãe... – Carlos chamou um tanto aflito, fazendo-a voltar à realidade.
– Meu Deus, Carlos! De quem é esse sangue na sua roupa? O que aconteceu? O que você fez com o Tonny? – Entrou como um furacão, empurrando o executivo para o lado, sem sequer esperar pela resposta.
Ao passar pela porta do quarto, Glória viu o genro todo marcado, deitado em posição fetal, tremendo. De alguma forma um alívio tomou conta do seu corpo.
– É do corte no meu rosto! Todo o sangue é meu. O que você pensa de mim? – respondeu Carlos ofendido.
Glória colocou a cabeça do lado de fora da porta — Vá para um hospital você vai precisar de pontos neste corte. E não se atreva a voltar aqui! – fechou a porta do quarto.
Ao se aproximar da cama, Gloria viu que Tonny estava em estado de choque e ao ver a condição dele não pode segurar as lágrimas.
– Oh, meu menino... – Glória sentou-se perto do genro, acariciando seus cabelos. Ela tinha a voz embargada. – Me perdoe... Eu sinto muito. Por favor, me perdoe... – pedia como se tivesse sido ela a provocar aquelas marcas. Embora não o fosse, ela se sentia responsável.
Aquela não era a primeira vez que Tonny apanhava do marido, aquilo ocorria ocasionalmente com o descontrole de Carlos por causa do ciúme.
Desde quando o primeiro episódio aconteceu, Glória foi o porto seguro do genro. Na ocasião, ela brigou feio com o filho por ele ter agredido o marido. Acreditou que fora o suficiente, que não iria mais se repetir. Mas aconteceu a segunda, a terceira, a quarta, e de novo, de novo, de novo... Algumas vezes de forma mais violenta, como desta vez, de outras menos, mas as agressões continuavam e ela cada vez mais se sentia culpada pelo comportamento violento do filho.
Naquele momento Glória se preocupava com o fato de o filho está ferido, mas estava mais preocupada com Tonny. Ele era a vítima. Ela não tinha dúvida que o corte que Carlos tinha havia sido provocado em legítima defesa. O genro nunca tinha tirado sangue dele daquela forma em situações anteriores. Viu a estatueta ensanguentada e percebeu que foi aquele o objeto que havia atingido seu filho.
– Você fez o que tinha que fazer pra fazê-lo parar... Eu sei... Eu não te culpo. – ela disse olhando para o objeto, pensando no estado do filho, que poderia ter ficado cego se o golpe fosse um pouco mais pra baixo.
Para Tonny a voz de Glória era etérea e longe. Ele não chorava mais. Olhar perdido. Estava perdido na sua dor. Seu coração doía. Doía tanto que chegava a ser uma dor física. Doía muito mais que as marcas em seu corpo. Sentia-se traído, enganado. Havia de fato acreditado na mudança do marido. Há sete meses Carlos tinha mudado de postura.
Em geral, o espaço de tempo entre uma agressão física e outra era extenso, demorava meses. Isso porque Tonny fazia de tudo para Carlos não chegar ao descontrole total. Sempre buscava fugir de situações que fossem despertar ciúme do marido; tentava contornar as situações que não podia evitar e se impunha sempre que podia, como podia. Não fosse pela crença da mudança do executivo, nunca aceitaria o convite da irmã e do primo para a pista de dança, naquela noite. Na verdade, há sete meses ele jamais teria aceitado. Teria dado alguma desculpa e recusaria, justamente para evitar qualquer situação que pudesse resultar em briga. Há algum tempo Tonny já tinha diminuído consideravelmente as saídas à boate. Era raro ir, e quando ia, mal dançava, não ia para a pista, passava a maior parte do tempo sentado... Tudo para evitar situações geradas pelo ciúme do marido.
Mas agora lhe parecia Carlos tinha apresentado uma mudança de postura. Ele realmente tinha acreditado nisso. Na sua cabeça não era apenas um intervalo nas agressões físicas. Ele tinha de fato melhorado e muito nas atitudes de possessividade. Pensou que finalmente tinha chegado o momento que teria um casamento normal, saudável... Ledo engano.
“Burro, burro, burro... Como eu pude acreditar nessa farsa? Idiota! Estúpido.”, o publicitário se perdia em seus pensamentos.
– Não se preocupa... Eu vou cuidar de você, meu filho...
Glória foi até o banheiro, colocou a banheira pra encher com água quente, preparou um banho com óleo de camomila e calêndula. Quando retornou para o quarto, mais de dez minutos depois, sentou ao lado dele novamente. O publicitário agora parecia mais calmo, tremia minimamente.
– Vem, vamos tomar um banho. – Tentou erguê-lo pelos ombros, mais como um incentivo para que ele se levantasse, mas percebeu que ele não apresentava nenhuma reação às suas palavras e ações. Colocou o rosto na frente do dele – Tonny. Tonny, meu benzinho, você tá me ouvindo?
O publicitário piscou demoradamente, quando abriu os olhos, olhou pra ela.
– Vem... Vamos tomar um banho bem quente... – Ela tentou mais uma vez.
– Por quê? – Ele perguntou num sussurro. – Por que ele faz isso comigo?
Glória não pôde impedir que as lágrimas que vieram a seguir, diante da forma tão dolorosa que a pergunta foi feita. Eles estavam com os rostos bem próximos. Ela balançou a cabeça minimamente num gesto de negação – Eu não sei. – respondeu após alguns segundos. – Eu queria poder te responder, meu querido, mas eu não sei...
– Por que eu continuo com ele? Mesmo ele fazendo essas coisas comigo?
– Isso só você pode responder, meu amor... – secou o próprio rosto e em seguida passou a mão pelos cabelos do genro. – Não pensa nisso agora. Por favor, me deixa cuidar de você. Não fica se martirizando. Por favor, ‘tô te pedindo. – a voz de Glória era o mais doce que ela poderia ser – Vem... – se levantou, em seguida apoiou o genro, que levantou com dificuldade devido às dores.
No banheiro, Tonny tirou a roupa que ainda restava em seu corpo com a ajuda da sogra, finalmente revelando as marcas escondidas por baixo da camisa. Havia várias marcas roxas e vermelhas em suas costas, costelas e barriga.
O publicitário fechou os olhos tentando não expressar dor ao sentir a água quente tocar sua pele machucada. Sentia várias partes do seu corpo arder e latejar. Ao ficar submerso, ele tentou encontrar uma posição em que suas nádegas não tocassem o fundo, aquela região doía bastante e ele não podia sentar. Estava praticamente boiando. Felizmente o tamanho exagerado da banheira permitia isso.
Glória tirou a roupa, ficando apenas de calcinha. Sentou no degrau mais alto da banheira, ficando numa posição que não era muito confortável pra ela, mas era possível Tonny apoiar a cabeça em seu colo, e isso era o mais importante pra ela. Glória sempre preferia não lava-lo nessas ocasiões, para não provocar mais dor, por isso apenas lavou o rosto dele com cuidado e fez o mesmo com seus cabelos, que estava sujo com o sangue do Carlos. Enquanto isso, ele relaxava minimamente, na medida do possível, com a água quente com óleos calmantes.
– Sabe... – ele começou – Você pode até achar que eu sou um idiota... Talvez eu seja mesmo. Mas eu tinha acreditado na mudança do Carlos. Fazia quase um ano que ele não me batia. – Tonny tinha a voz rouca, sem emoção, falava baixo e pausadamente. Glória precisava se esforçar para ouvi-lo – No dia que Victor chegou, ele... Ele ficou morrendo de ciúme e nós brigamos. Ele não queria que eu saísse com o Ethan e o Victor. Me xingou... Me agrediu verbalmente o caminho todo. Quando chegamos, eu... Eu consegui ser mais rápido, entrei no apartamento e tranquei a porta do quarto. Ele bateu forte, eu pensei até que ele fosse derrubar a porta... Eu gritei mandando ele ir embora, dizendo que o odiava e ele acabou desistindo de entrar. Naquele dia ele ia me bater. No fundo eu sabia... Eu sabia... Eu corri para fugir dele. – fez uma pausa de longos segundos, como se estivesse se lembrando da cena – Naquela época já fazia alguns meses desde o último episódio, fazia alguns meses que ele não me... Você deve se lembrar... – respirou fundo – Mas agora parecia diferente... Desde que decidimos adotar ele tinha mudado. Não fazia mais cenas, não brigava por causa do ciúme, estava mais tranquilo... Se irritava às vezes com situações reais, mas logo ficava tudo bem... Ele... A gente resolvia tudo sempre. Eu simplesmente não entendo...
Glória continuava apenas a acarinhar e ouvir Tonny. Volta e meia secava as próprias lágrimas. Era a primeira vez que ela ouvia o que aconteceu de naquele final de semana que Tonny dormiu na casa do irmão e ela ligou para o genro a pedido do filho.
O publicitário, apesar de estar visivelmente abatido, tinha o rosto impassível, sem demonstrar nenhuma emoção, assim como sua voz.
– Será que o problema sou eu?
– Não fala besteira, meu filho...
– Certamente o problema é comigo... – continuou como se não tivesse ouvido a sogra – Talvez eu não mereça ser plenamente feliz... Você sabe o que acontece agora... Eu digo que vou deixa-lo, que quero divórcio, ele faz o possível e o impossível pra se redimir e me convencer do contrário... E eu fico. Eu sempre fico. Mesmo que ele não fizesse nada para se desculpar eu ficaria... Da primeira vez não. Da primeira vez eu o teria deixado. Mas ele prometeu que não iria acontecer novamente, disse que você tinha brigado com ele e não deixaria acontecer de novo... – riu fraco – A segunda e a terceira vez foram mais brandas, e eu acreditei nele mais uma vez. Acreditei que era apenas um descontrole momentâneo. Na quarta vez eu tentei. Juro que tentei, mas eu simplesmente não consegui deixa-lo... E desde então minhas ameaças de separação são apenas ameaças. É incrível que ele ainda não tenha percebido isso... Mas a verdade é que não passam de ameaças vazias. – balançou a cabeça – Ele bateu no meu rosto... Deixou meu rosto marcado. Ele nunca me bate no rosto. Ele só fez isso na primeira vez. – riu fraco – Eu lembro que eu questionei o que eu ia fazer com aquelas marcas, que todo mundo ia ver e perguntar o que tinha acontecido... Depois disso ele nunca mais me bateu no rosto. Apenas lugares que fossem possíveis esconder. Nada que uma calça e uma camisa de manga comprida gola alta não resolvessem. Agora eu vou precisar me esconder de todo mundo, não vou poder sair na rua, não vou poder ir trabalhar...
– Vamos fazer uma coisa de cada vez... Primeiro vamos sair da água e cuidar de você. – Interrompeu Glória. Aquele relato era doloroso demais pra ela. Já conhecia a história, mas ouvi-lo falar daquela forma era como reviver da pior maneira possível. Ela tinha certeza que não era diferente para o genro. – Vem... – levantou – Tudo vai se resolver, você vai ver. Tudo sempre se resolve, de uma forma ou de outra.
Glória ajudou o genro a se secar cuidadosamente, passou uma loção calmante para a pele no corpo dele, deu-lhe remédio pra dor, para em seguida vesti-lo.
Tonny escolheu uma calça leve e uma camisa de manga comprida de algodão cinza. Sempre se vestia assim nessas ocasiões para esconder as marcas, mesmo que estivesse sozinho. Ele não gostava de vê-las. Para ele era como símbolo de sua fraqueza. Símbolo de sua incapacidade. Incapacidade de deixar o marido que tinha um comportamento abusivo.
Glória vestiu uma camiseta e uma cueca box, que ela não sabia se era do filho ou do genro, mas isso não tinha importância.
Depois que a mulher trocou os lençóis sujos de sangue, eles deitaram no meio da cama, um de frente para o outro, bem próximos.
– E pensar que eu estava contando as horas pra mudar pra nossa casa, que estava em contagem regressiva para a adoção do nosso filho... Eu sou um idiota por achar que nós poderíamos ser uma família. Que poderíamos ter uma vida normal, como Mazo e Tom, por exemplo... Essas coisas não devem ser pra mim. Eu acreditei que poderia ter, mas...
– Shhh... – Glória o interrompeu – Não vamos falar disso agora. Não fique pensando demais, ok? – deu um selinho no genro fazendo um carinho no seu rosto – Vamos dormir. Deixa pra pensar nisso depois que acordar. Daqui a pouco vai amanhecer. E, olha... Escuta bem o que eu vou te dizer... O que quer que você decida, seja qual for a sua escolha, eu estou do SEU lado.
– Obrigada. Por tudo. Ainda bem que eu tenho você. Obrigada por fazer parte da minha vida. – Ela lhe sorriu levemente, um sorriso triste.
– Agora durma. – deu-lhe outro selinho e se esticou para apagar o abajur.
Tonny fechou os olhos. Mas dormir infelizmente não era uma das opções. Além da dor que assolava seu corpo, sua mente não parava de trabalhar um segundo sequer. Se martirizava por acreditar que havia tomado a pior decisão da sua vida ao dar entrada no pedido de adoção. “Ethan estava certo”, ele pensou. Refletia sobre decisões que tinha que tomar dali pra frente. Dentro do turbilhão de pensamentos que passava pela sua cabeça, ele só tinha certeza de uma coisa: o que aconteceu aquela noite não podia acontecer nunca mais.
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