O homem da janela
1 Capítulo 1 - A poesia perfeita
Algumas pessoas entram nas nossas vidas apenas para se tornarem lembranças, lições, ou coisas do tipo. Por mais que nós tentemos fazer com que elas fiquem e se tornem eternas, elas tem que partir pois esta é a missão delas em nossas vidas. Muitas vezes nos esquecemos dessas pessoas com o tempo, mas algumas deixam marcas que jamais sairão. Sempre iremos nos lembrar delas, e às vezes isso nos faz ter um misto de emoções.
Miguel era uma dessas pessoas na vida de Luna.
A jovem trabalhava em uma das livrarias mais antigas da cidade e tinha um grande carinho pelo local, já que a dona original era sua avó que já havia partido e deixado o negócio da família em seu nome para que a mesma pudesse tocar. Dentro da velha livraria, havia uma pequena cafeteria, onde Luna costumava ficar quando não havia clientes, muitas vezes tomando uma xícara de café e lendo algum livro. Ela voltava para casa todos os dias cheirando a café e biscoitos, tanto que isso se tornou sua marca registrada dentro da família. Quando a livraria estava cheia, ela se dedicava a ajudar seus clientes a encontrarem o título perfeito ou até mesmo ficava no caixa realizando pagamentos. Se você desse sorte de ser o único cliente a entrar na livraria, ela te mostraria cada título, te fazia um café e te levaria até a porta com um enorme sorriso. Você sempre iria voltar lá apenas para contemplar da companhia de Luna.
Mas tinha uma pessoa, que nunca entrava na livraria. Ele passava todos os dias pelas janelas carregando a sua bolsa, muitas vezes apenas olhando para a fachada. Luna não sabia o seu nome, mas o achava extremamente bonito. Talvez o estranho fosse uma das pessoas mais bonitas que ela já havia visto na vida. Ela era encantada por ele, e sempre ficava na janela no fim da tarde esperando ele passar. Nunca houve uma troca de olhares sequer, mas ela sempre suspirava quando o via. Uma verdadeira paixão platônica.
Em um dia comum de fim de mês, sem movimento, Luna estava sentada atrás do balcão da confeitaria lendo um livro que havia chegado a pouco tempo. Ela levantou os olhos quando o sino da porta tocou e observou o menino de doze anos entrar calmamente na loja. Ela colocou o marca páginas no livro e pôs a caneca no balcão.
— Maitê — Ela gritou — Olha a loja pra mim.
A assistente de gerente, também conhecida como prima da Luna, saiu dos fundos da cafeteria para que ela pudesse atender o cliente.
— Faz tempo que não aparece, Theo — Luna disse para o garoto que usava o uniforme da escola que ficava na mesma rua que a livraria.
— Eu preciso de um conselho — Ele disse — E você é sempre boa nisso.
— Conselho para um livro novo? — Ela perguntou.
— Para uma garota.
Atrás do balcão, Maitê riu.
— Está pedindo isso para a pessoa errada — Luna fez um bico em reação — A Luna é péssima quando o assunto é romance.
— Mas sou boa escolhendo poesias românticas que tocam o coração — Luna piscou para Theo — Por que a gente não procura um livro?
Luna e Theo foram até a sessão de poesias e começaram a vasculhar os livros.
— Me diga mais sobre essa sortuda que tem o seu coração? — Ela perguntou, deixando Theo com as bochechas vermelhas.
— Ela é da minha aula de desenho — Ele respondeu sem jeito — Ela é muito bonita e é muito legal conversar com ela.
— Então ela é uma artista.
— Que nem você, Luna.
Desconcertada, Luna puxa outro livro.
— Faz muito tempo que eu não desenho — Ela diz.
— Deveria voltar, aposto que é muito boa nisso — Theo diz e Luna sorri em resposta.
— Então, essa garota — Luna volta ao assunto principal — Você gosta a muito tempo dela? Quer que ela seja a sua namorada?
Theo fica vermelho novamente.
— Eu não sei, sabe, é estranho isso — Ele responde, sem jeito — Acho que só quero que ela goste de mim do mesmo jeito que eu gosto dela.
— Eu entendo.
Depois de alguns minutos, a poesia perfeita foi encontrada. E enquanto Theo copiava, o sino tocou.
Luna prontamente se dirigiu à porta e se deparou com o belo homem que sempre observava pela janela. Seu coração parou e suas mãos gelaram. Ele estava ali, diante dela, depois de meses de suspiros.
— Oi — Ele disse, com um sorriso que fez Luna sorrir junto.
— Oi — Ela respondeu, sem saber se deveria responder.
— Você deve ser a Luna, a dona da livraria, não é? — Luna sentiu as borboletas no estômago tentarem voar para fora. Ele sabia quem ela era — Meu irmão Theo fala muito sobre você.
— Você é irmão do Theo? — Ela disse com mais surpresa do que gostaria — Quer dizer, ele sempre vem aqui a nunca falou de um irmão.
— Típico dele — Ele riu, e ela se esqueceu como respirar — Ele está aqui?
— Sim — Ela fez uma longa pausa, sem saber o que dizer — Vem comigo.
O misterioso homem acompanhou ela até Theo, que ainda copiava a poesia.
— Theo, seu irmão — Luna disse, sem saber como agir.
— Ah, já estou quase terminando — Ele respondeu.
— O que está aprontando? — O homem se aproximou de Theo e espiou o livro — Trabalho da escola?
— Não, é para aquela garota que eu te falei.
— Ah, claro — Ele sorriu e depois olhou para Luna — Espero que ele não esteja te incomodando.
— O Theo nunca incomoda — Luna respondeu — Ele é sempre bem vindo. Aceita um café?
— É claro.
Luna foi até a parte de trás do balcão e serviu a xícara de café.
— Aliás, eu sou o Miguel — Ele disse se sentando em uma banqueta do balcão.
— Prazer em te conhecer Miguel — Luna diz.
— Prazer em finalmente te conhecer, Miguel — Maitê, que também estava atrás do balcão, alfineta.
Luna sorri desconcertada.
— Então, o que seu irmão costuma falar de mim? — Ela pergunta, curiosa.
— Ele diz que você é legal, e que sempre recomenda os melhores livros — O homem misterioso, agora com nome, disse — Ele gosta muito de passar o tempo aqui.
— Quase todos os dias — Luna comenta — Até estranho quando ele não aparece.
— Espero que ele não te incomode.
— Jamais.
Antes que pudesse perguntar qualquer coisa a mais, Theo aparece com o sorriso no rosto anunciando que terminou de copiar a poesia.
— Quanto eu te devo pelo café?
— Nada, é por conta da casa — Luna sorri, recolhendo a xícara.
— Obrigado Luna, até — Ele se despede junto com Theo.
— Até Miguel — Ele observa ambos saírem juntos, e vai até a janela como de costume — Miguel.
Ainda com a xícara nas mãos, ela observa o objeto que contém as últimas gotas do café e sorri. O homem que a fazia suspirar agora tinha um nome.
Após fechar a livraria e se despedir de Maitê, Luna caminhou para casa. Ela tomou um banho e se sentou no sofá com o velho caderno de desenhos e começou a rabiscar, sem nenhuma pretensão. Após algumas sombras e detalhes ela percebeu que estava desenhando um rosto bem conhecido, um rosto que tinha um sorriso que a fez perder o fôlego. Com as bochechas queimando, ela fechou o caderno e refletiu. Talvez ela precisasse da poesia perfeita.
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