O homem da janela
2 Capítulo 2 - Caderno de desenho
Luna arrumava as caixas dos novos livros que haviam chegado quando o sino tocou. Ela olhou para porta e viu Theo com o papel amassado nas mãos.
— Não era a poesia perfeita — Ele disse com os olhos marejados.
Ela fez sinal para ele a acompanhar até a cafeteria lhe serviu um biscoito de chocolate. Ele encarou o prato por alguns segundos antes de dar uma mordida sem muita vontade.
— Você quer falar sobre isso?
— Ela nem leu direito — O menino disse, cabisbaixo — Amassou e jogou o papel em mim. Todo mundo riu.
— Eu sinto muito — Luna disse — Não são todas as pessoas que merecem a poesia perfeita.
— E como eu sei que a pessoa merece?
— Não sabe, mas nem todas amassam o papel e jogam em você, isso eu te garanto.
Theo deu outra mordida no biscoito e o colocou de volta no prato.
— Eu sei que não é fácil, mas acredite em mim, essa infelizmente não vai ser a primeira vez que alguém não vai enxergar o seu potencial — Luna se afastou do balcão — Pode ficar a vontade, tenho que terminar de arrumar os livros novos. Me chame se precisar.
Luna voltou a arrumar as caixas e notou Theo pegar o caderno de desenhos. Ela compreendeu o que ele estava fazendo, ela costumava desenhar para se expressar, principalmente quando tinha a idade dele.
Após alguns minutos, Theo pegou a mochila e se dirigiu a Luna.
— Eu tenho que ir.
— Você está bem? — Ela perguntou.
— Mais ou menos, mas já está tarde — Ele disse — Mas meu irmão já deve ter saído do trabalho e se eu chegar depois dele, ele vai ficar bravo.
Luna olhou para o relógio pendurado na parede.
— Acho que você vai conseguir ir embora com ele, logo ele passa aqui na frente.
— Como você sabe que ele passa aqui na frente?
Luna sentiu as bochechas queimarem.
— Eu já vi ele passar — Ela tentou disfarçar — Uma vez.
— Entendi — Ele levantou a mão para se despedir — Vou ver se consigo encontrar com ele.
Luna observou Theo sair da livraria, e esperou um pouco antes de ir à janela, onde ela acabou vendo o menino encontrar seu irmão. Ela acenou sem jeito quando Theo apontou para a livraria e Miguel a viu na janela, logo ela saiu de lá e torceu para ele achar que ela só estava vendo se o menino estava bem. Ao voltar para as caixas, ela notou que Theo havia deixado o caderno em cima do balcão, ela tentou devolver, mas eles já haviam ido.
Naquela noite Luna voltou a desenhar quando chegou em casa, e levou o caderno no dia seguinte para desenhar na loja quando tivesse tempo livre. Maitê chegou a se assustar em ver Luna desenhando, considerando que fazia muito tempo que ela não praticava o hobbie.
Dias se passaram e Theo não retornou para buscar o caderno, o que deixou Luna em um misto de preocupação e curiosidade. Talvez ele não tivesse notado, ou talvez ele não quisesse voltar para lá. Durante esses dias Miguel não passou pela janela, o que a deixou ainda mais intrigada. Mas em um fatídico dia de movimento, a paixão platônica de Luna apareceu na livraria.
— Ah, você veio buscar o caderno do Theo?
— Sim, mas você está ocupada, eu espero — Ele disse se afastando quando notou que ela atendia um cliente que constantemente fazia perguntas sobre os livros.
— Eu só vou terminar essa venda e já pego pra você, está na cafeteria, porque não aproveita e toma um café?
Ele sorriu e se dirigiu ao balcão. Ela suspirou quando ele deu as costas. Ela torceu para que ele não tenha notado.
Quando ela pensava ter uma brecha, outro cliente aparecia, chegou um ponto em que ela sequer conseguiu sair do caixa. Era um ótimo dia de vendas. Quando o movimento encerrou, ela se dirigiu até Miguel que ainda a esperava.
— Desculpa pela demora, foi um dia atípico.
— Tudo bem, não precisava se preocupar — Ele disse — É só um caderno de desenhos.
— Ele deixou aqui na última vez que veio aqui — Ela disse enquanto procurava na parte de baixo do balcão — Aliás, fez tempo que não vejo vocês.
— Vocês?
— Ah, é que… — Ela gaguejou um pouco — Faz tempo que você também não aparece aqui.
— É, a gente tá se mudando.
Luna levantou com os dois cadernos de desenho na mão.
— É mesmo? Vão para onde? — Ela perguntou analisando as capas dos cadernos. Um era do Theo, outro era dela.
— É só pro outro lado da cidade, mas ele vai ter que mudar de escola — Ele respirou fundo — Ele não está muito feliz.
— Bom, eu entendo ele, vou perder o meu melhor cliente.
Ela entregou um dos cadernos para ele enquanto ele soltava um riso.
— Mas porque vão se mudar? — Luna perguntou de curiosa.
— Eu e minha noiva achamos melhor nos mudamos antes do casamento para ele se adaptar — Ele respondeu.
A palavra "noiva" ecoava na cabeça de Luna.
— Luna? — Ele a puxou de volta para a terra, fazendo ela notar que ficou um tempo em silêncio.
— Desculpe — Ela tentou não se mostrar envergonhada — O Theo mora com você?
— Desde que meus pais se divorciaram, não queria que ele ficasse mal — Ele se ajeitou — E cá entre nós, cuido dele melhor que aqueles dois.
— Aposto que sim.
Ele pegou o caderno e sorriu para Luna.
— Eu tenho que ir — Ele disse se levantando — Quanto eu te devo pelo café?
— É por conta da casa.
— Não, dessa vez eu vou pagar.
Quanto Miguel passou pela porta, Luna sentiu um misto de emoções. Não haveria mais ninguém para ela olhar pela janela, e ela não sabia se gostava da ideia. Ela havia alimentado aquela paixão por muito tempo, mas talvez nem a poesia perfeita faria ele mudar de ideia. E porque mudaria? O que ela era para ele além da dona da livraria que o irmão frequentava? E o que ele era além do homem da janela? Até poucos dias ela sequer sabia o nome dele, então porque ter esperanças?
— Você está bem? — Maitê perguntou quando saiu dos fundos da cafeteria.
— Você escutou?
— Uma parte.
Luna se recostou no balcão da livraria e suspirou.
— É o fim de uma era — Ela disse e ambas riram.
Ela pegou o caderno de desenhos e começou a folhear, mas notou que não reconhecia nenhum dos desenhos que estavam desenhados ali. Aquele não era seu traço e muito menos suas obras. Aquele não era seu caderno.
— Ah merda — Ela quase gritou.
— O que aconteceu? — Maitê perguntou assustada.
— Ele está com o meu — Ela balançou o caderno.
— E agora?
Ela correu até a saída e tentou encontrar Miguel, mas era tarde demais.
A única coisa que ela queria fazer naquele momento era sumir.
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