O garoto de Azul
2 Suco de Morango
Hector acordara com um movimento sutil de Júlio na cama. Não estava tão acostumado a tê-lo consigo, dado o tempo em que ele passava trabalhando. Tentou voltar a dormir, mas não conseguia. Sua cabeça não parava de pensar no quanto amava o homem ao seu lado. Ele pensou em acordá-lo, mas decidiu apenas olhá-lo dormir e admirar seu sono profundo.
Pediu, em voz baixa, que o quarto deixasse alguns feixes de luz entrar. Sob a luz fraca desses feixes Hector observava Júlio atentamente. Ele estava completamente relaxado. Seus cabelos pretos e lisos caiam sobre o travesseiro e sobre os seus ombros. Seus lábios eram finos e suaves. O formato quadrado de seu rosto fazia com que sua barba mal feita parecesse mais sexy do que a da maioria dos homens.
Sob a luz fraca, a sua pele parecia brilhar ou talvez fosse só a paixão que Hector sentia que fazia de Júlio o centro de todas as atenções. Júlio era magro, mas tinha um corpo malhado, devido ao trabalho em alto mar. Algo que Hector adorava em Júlio era o seu abdômen. Com alguns pelos raros na parte do peitoral e alguns próximos à virilha, o abdômen de Júlio era apenas magro. Não havia muitos músculos malhados, talvez porque Júlio soubesse o quanto Hector adorava deitar ali, e músculos malhados não eram nada confortáveis. Os braços dele eram bem mais grossos que os de Hector.
Ele olhou novamente para o rosto de Júlio. Observou novamente os seus cabelos, os seus olhos relaxados, mas dessa vez foi além da boca. Olhou para o seu nariz reto e afinado, as maçãs do rosto, a concavidade nelas. Olhou para as coxas dele, eram grossas, torneadas, e sua bunda era maravilhosa. Era voluptuosa, redonda e dura. Seus pés eram largos, porém não estragavam o seu andar gracioso. Júlio era o que Hector sempre pedira aos céus, mas por vezes acreditava que ele sempre fora muito mais. Era belo, doce, gentil, alegre e simplesmente perfeito.
—Devo sentir medo ou ficar lisonjeado?
Júlio abriu um sorriso dentro de um bocejo enquanto começava a acordar de verdade. Hector beijou o dono daquele sorriso.
—Bom dia, dorminhoco. Só estava olhando a sorte da minha vida.
—Bom dia, desastrado. Lisonjeado, então.
Júlio sorria. Hector agradeceu por estar deitado; aquele sorriso deixava as suas pernas bambas e o lembrava do dia em que haviam se conhecido.
...
Era o seu penúltimo ano. Hector estava ansioso.
Havia sido convidado a assistir a uma entrevista, onde teria a chance de conversar com o único Biotermofísico de Páktrons da cidade. Quem faria a entrevista seria o seu orientador, mas Hector esperava ter a chance de poder fazer uma de suas perguntas ou de, quem sabe, conversar sobre sua vida.
Sabia que não seria fácil, afinal de contas Krauser Krag não passava muito tempo em terra e quando passava se dedicava à família e ao seu aprendiz. Ele não sabia nada sobre o último, somente que estava terminando e que seria o próximo Biotermofisico de Páktrons.
Ele estava ansioso. Seus olhos não conseguiam fixar-se em um local e ele não parava de pensar em como seria a entrevista. Suava frio. Teve de se medicar num posto do bairro. Ele chegou à sala de reuniões antes de todos. Seguido de seu orientador e do Krauser. Como o aprendiz ainda não havia chegado, Hector decidiu sair um pouco e tomar um suco.
Saindo da ampla sala, ele se dirigiu a uma pequena bancada, onde um dos robôs serviçais lhe serviu um copo de suco de morango. Voltou para a sala logo que viu alguém entrar, ainda com seu copo nas mãos. A porta se abriu ao se aproximar e ele entrou.
—Bem, agora que estão todos aqui. Hector, esse é Júlio.
O Sr. Satine apontou para sua direita e ele desviou os olhos do chão para onde seu orientador apontava, mas logo viu que aquela foi uma péssima escolha. Ele tropeçou em seus próprios pés e caiu. Quando conseguiu se levantar, ele olhou para todos com o rosto completamente rubro. Pobre Júlio, mal chegara e Hector já havia lhe molhado todo.
—Mil desculpas! E-e-e-eu...
Hector não sabia o que fazer. Estava completamente vermelho. Ele queria muito chorar naquele momento. Suas mãos tremiam. Em sua cabeça ele só conseguia pensar em se desculpar e em se esconder o mais rápido possível. E naqueles olhos.
—Não se preocupe, eu vou enxugar isso em algum banheiro por aqui. – Júlio soou mais tranquilo do que todos esperavam.
Krauser o olhou com olhos admirados. Era isso que mais adorava em seu aprendiz. Apesar de tudo, Júlio sempre conseguira se sobressair em todas as situações. Houve várias ocasiões em que Júlio conseguira manter a calma e o seu jeito cortês, mesmo que o próprio Krauser tivesse dificuldades para isso.
—Por favor, deixe-me acompanhá-lo. Eu vou tentar não derrubar mais nada em você, dessa vez.
—Senhores, iniciem a entrevista enquanto eu resolvo esse incidente.
Júlio se dirigiu à porta, seguido de Hector. Hector parecia uma criança.
—E-e-eu realmente sinto muito. Não sei o que aconteceu comigo.
Júlio deixou uma pequena risada escapar entre os lábios, deixando Hector ainda mais vermelho.
—Não há pelo que se desculpar. Foi apenas um incidente. Acontece. Afinal, onde é o banheiro mais próximo?
—No andar de baixo.
Júlio falava, mas permanecia focado observando as placas que indicavam as escadas e os elevadores.
—Então, você é sempre desastrado assim?!
—Só nas horas vagas. – Hector tentou fazer piada da situação, mas pareceu mais como um grito de socorro.
A risada de Júlio fora curta.
Eles chegaram ao banheiro. Júlio tirou o paletó e o colocou sobre a pia, acionando um pequeno jato d’água. Esfregou um pouco, apenas para a mancha sair e colocou numa pequena máquina de secar ao lado da pia.
—Júlio.
—Oi?
—Como é saber que vai ser o próximo “Krauser Krag” da cidade?! Quero dizer, ser respeitado e admirado por todos e ainda ser uma pessoa celebre na cidade.
—Eu não havia pensado, eu acho que é um pouco difícil. – Júlio parecia em dúvida quanto à palavra usada.
—Difícil?
—Sim. Como você mesmo disse haverá respeito e admiração de todos. Quando eu decidi virar Biotermofisico de Páktrons eu não queria nada disso e continuo sem querer, mas elas são consequências que tenho que lidar com. Mas tudo o que eu quero é só viajar pelos mares e pelas ilhas próximas e analisar as condições de existência dos Páktrons. Nunca fui bom com essa coisa de todos me conhecerem. Prefiro o anonimato.
—Interessante. As coisas não saem sempre do jeito que planejamos. Quando estava no colegial eu pensava nos holofotes. Eu queria ser um dos que eram entrevistados. Mas, no acampamento, eu percebi que os holofotes só deveriam passar por mim quando eu estivesse entrevistado alguém. Não acho que tenha nascido para eles.
Eles caminhavam calmamente em direção à sala. O silêncio que flutuava sobre eles agora não era mais constrangedor. Era um silêncio bom. Eles haviam esquecido o incidente que os levou até ali.
Entraram. Não havia mais marcas do suco derramado no chão. Os orientadores haviam dado uma pequena pausa na entrevista para descontrair um pouco e esperar que os aprendizes chegassem.
—Dessa vez sem derramar nada em ninguém, certo Hector? – O comentário de seu orientador fez com que todos rissem.
A entrevista seguiu calmamente. Infelizmente Krauser tivera que sair rapidamente, mas Hector ficou satisfeito com todas as perguntas que seu orientador tinha feito.
Quando estavam à porta de saída do prédio, Júlio e Hector pararam para conversar um pouco, agora sem nenhum resquício de tensão.
—Então, o que você acha de irmos ao aquário? Trouxemos alguns espécimes.
—Seria bom. Dessa vez eu farei o possível para não derramar nada sobre você, eu prometo!
Eles riram, deram um abraço e se despediram, mas não sem olhar nos olhos um do outro. Naquele momento Hector só pensou nas esmeraldas dos olhos dele.
...
Hector levantou-se da cama depois de passar algum tempo com Júlio deitado em seus ombros. Tomaram banho juntos e foram ver Theo.
Ele estava deitado e acordado, mas em silêncio, o que era sempre estranho, já que ele nunca estava em silêncio, somente ao dormir. Quando Júlio se aproximou ele soltou um pequeno sorriso e se direcionou aos braços dele.
Júlio o ergueu no ar e, em troca, recebeu a suave gargalhada do pequeno. Ele era o bem mais precioso dos dois. Não havia mais nada no mundo que eles amassem do que o pequeno Theo, somente um ao outro.
E Hector, observando toda a cena parado na entrada do quarto, só conseguia pensar no quão sortudo ele era por ter deixado aquele copo de suco escorregar de sua mão.
—Amor, eu estava pensando em a gente ir para um piquenique à tarde. O que você acha?
—Sim, vai ser ótimo.
—Eu vou fazer algumas coisas para a gente levar e comer. O que você acha de um suco de morango? – Hector riu, sabendo que ele se lembraria da primeira vez.
—Sim, me soa ótimo.
Júlio riu e beijou a testa de Theo, beijando Hector em seguida.
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