O filho do Camus
1 Um presente de olhos verdes
ATENAS, Grécia
Nas intrincadas ruas gregas repletas de turistas uma perseguição acirrada acontecia. Três policiais que abandonaram as viaturas pois não poderiam seguir com as mesmas devido ao grande número de pessoas aglomeradas no local, seguiram no encalço de uma pessoa que mais a frente corria desesperada tentando despistá-los cortando caminho entre os pedestres. Sob os gritos de ordem dos policiais algumas pessoas davam passagem aos mesmos, mas não era o suficiente para alcançarem o delinquente que sumia entre as ruas.
— Ele entrou na rua Daedalus! — Um dos policiais gritou e os três pararam a frente da entrada.
A rua Daedalus fora nomeada assim pelo fato de possuir inúmeros becos interligados que faria qualquer um se perder facilmente ali como um verdadeiro labirinto. Lá se concentrava a parte mais pobre da cidade, onde vários barracos foram construídos tornando o lugar parecido com uma favela.
— Maldito! O sr. Marco não vai gostar de saber disso. Vamos mexam-se! — Um dos três disse e todos adentraram a rua apressados a simples menção do delegado.
Dentro dos inúmeros becos estreitos e na maioria sujos que constituíam a rua Daedalus, uma figura corria sem diminuir o passo, pelo porte físico podia se ver que tratava-se de um rapaz, mas seu rosto permanecia coberto pelo capuz do moletom escuro. O jovem corria e saltava alguns muros baixos com destreza invejável, dando uma guinada em uma curva inesperada a sua direita escorregou no lixo jogado no chão e quase caiu, foi aí que parou para recuperar o ar e perceber que ja não mais era seguido pelos policiais. Um sorriso desenhou-se na face encoberta. Tivera sorte em deparar-se com a Daedalus, aquele “labirinto” o salvaria. Correndo para a saída da rua julgando já estar a salvo se surpreendeu ao ser detido por braços que o cercaram e o jogaram no chão. Com um grunhido de satisfação um dos policiais que o cercaram algemava o rapaz que tentava em vão se libertar.
— Achou que estava livre hum? Seu moleque! Nós mapeamos toda essa área e antes que pensasse em nos enganar já estávamos a sua espera. — O policial fez um sinal e dois outros levantaram o rapaz, o primeiro puxou o capuz revelando o rosto do detido. O rapaz possuía belos cabelos em um tom alaranjado na altura do ombro e olhos de um verde claro cheio de arrogância. Não aparentava ter mais que treze anos, se realmente não tivesse menos.
— Eu não vou falar nada. Vocês não podem prender um menor de idade! — Ele ainda se debateu em vão desafiando os policiais com o olhar.
— Admiro sua coragem moleque! — O policial solta uma sonora gargalhada acompanhada pelos outros. — Mas não se preocupe, terá bastante tempo para falar com o delegado. Ele costuma ser paciente. — Após dizer isto caminhou junto dos outros dois até a viatura que esperava em frente da entrada da rua, com o garoto se debatendo e xingando os policiais que o empurravam bruscamente.
×
A delegacia de Atenas estava mais calma do que de costume o que deixou o tempo do delegado mais livre para cuidar do delinquente juvenil na sala ao lado. O homem em seus quarenta anos, levantou-se preguiçoso e seguiu para mais um de seus deveres, ao entrar na sala encontrou o jovem sentado na sala de interrogatório completamente em silêncio. Seu físico jovem tornava-se pequeno quando visto dentro daquela sala escura e vazia, exceto por duas cadeiras dispostas frente a frente com uma mesa entre as mesmas.
O garoto em questão se perguntava o porquê de não estar sendo tratado como um criminoso, na verdade até que o pessoal da delegacia havia sido receptivos, ao contrário dos que o apanharam na rua Daedalus, ele foi colocado em uma sala escura e ficou ali sozinho, as algemas não estavam mais em seus pulsos e até lhe foi servido um copo d'água ao qual ele bebeu de uma vez. Ele percebeu que todos estavam o tratando como uma criança. Teve seus pensamentos interrompidos por um homem robusto adentrando a sala. Deveria ter uns quarenta e poucos anos a julgar por sua aparência, usava óculos de grau e por trás dos mesmos olhos azuis intensos o encaravam.
— Muito bem garoto. — O homem se pronunciou sentando na cadeira a sua frente, o garoto continuou puxando um fio da manga de seu casaco sem olhar para o estranho, mesmo que não quisesse admitir estava intimidado pelo homem. Talvez aquele fosse o tal delegado que o policial mencionou quando o capturou.
— Vamos começar pelo princípio… O que te levou a invadir a segurança dos registros de adoção da Grécia? — O garoto continuou calado olhando para um ponto na parede atrás do delegado o ignorando, o mesmo suspirou, aquilo levaria o resto do seu tempo livre.
ווו×
Afrodite acabava de adentrar o templo da décima segunda casa com alguns instrumentos de jardinagem quando viu Camus passando em direção a saída.
— Olá Camus, você me visitando? Mas que honra, que pena estar tão mal apresentável no momento. — Afrodite diz pelo fato de usar um avental um pouco sujo de terra, pois estava cuidando das suas rosas no jardim.
— Não seja convencido, estou só de passagem. — Camus fala com sua frieza habitual.
— Estava só brincando picolé, mas o que vai fazer na sala do Mestre? Nessa direção só pode estar indo para lá. — Afrodite pergunta mais por curiosidade do que por interesse no assunto.
— Meus assuntos não lhe dizem respeito. E se usar esse “apelido” inconveniente mais uma vez irei te transformar em uma estátua de gelo. — Camus fala tudo calmamente ignorando o pisciano que revira os olhos para sua resposta.
— Chato. — Afrodite resmunga quando o cavaleiro sai de sua casa e volta aos seus fazeres.
×
A primeira vez que Camus ouviu sobre o assunto pensou que finalmente o Grande Mestre havia sucumbido aos malefícios da idade e não estivesse em seu juízo perfeito, ter se tornado como muitos dizem, um velho gagá.
Claro que falar algo desse tipo em voz alta estava completamente fora de cogitação. Mesmo doente o Grande Mestre merecia respeito e Camus mais do que ninguém seguia à risca tal pensamento, sendo muito rigoroso quando o assunto era disciplina. Hyoga que o diga, o jovem sofreu uns bocados nas mãos do cavaleiro quando este era discípulo do mesmo.
Camus respirou fundo e olhou novamente para o patriarca com todo o autocontrole que possuía em sua expressão indecifrável.
— Desculpe-me Grande Mestre, creio que não compreendi o real significado desta conversa. — Com sua voz uniforme Camus tentou não rir da situação, sim rir, por mais que odiasse sua reação não poderia fazer outra coisa a não ser rir da ideia descabida de que possuía um filho. Bom, pelo menos seria o que Milo faria. Mas Camus não era como o escorpiano e reprimiu essa vontade enquanto esperava a resposta do Grande Mestre.
Há poucos minutos Camus fora convocado à sala do Mestre para tratar de um assunto de extrema importância, intrigado o cavaleiro achou se tratar de alguma missão secreta visto que não lhe fora informado o motivo de tal assunto urgente.
O santuário havia alcançado um tempo de paz após a Guerra Santa e todos os cavaleiros mortos em decorrência da mesma haviam sido ressuscitados pela benevolência de Atena, mas isso não significava que o mundo estava completamente em paz e que os cavaleiros não se faziam mais necessários, sempre havia algo com que se preocupar e por tais pensamentos que Camus não se deixara abalar pela atraente vida comum. Muitos cavaleiros aprenderam como viver de forma normal, aproveitando o tempo de paz que possuíam sem negligenciar seus deveres como cavaleiros claro, deveres estes que se tornaram mais brandos com a escassez de batalhas. Camus por outro lado estava cada vez mais fechado e antissocial do que de costume, pois não conseguia seguir em frente se não fosse cavaleiro e internamente ansiava por uma batalha, ou qualquer que fosse o motivo para que se sentisse útil, pois assim como muitos cavaleiros sua vida havia sido talhada sob os fundamentos para tal e sem isso sentia-se vazio. Logo, quando foi convocado intimamente ansiou por uma missão e tal qual não foi a sua surpresa e talvez um pouco de decepção? Ao saber que não se tratava disso, mas sim de um filho.
Camus não acreditava na veracidade dos fatos apresentados pelo Grande Mestre. De acordo com o mesmo, fora informado pela polícia ateniense sobre um rapaz que estava à procura de um homem chamado Camus que informou ser seu pai. O garoto havia hackeado o sistema de adoção da Grécia a fim de conseguir tais informações e consequentemente fora preso, a polícia mantinha contato com o santuário e mais alguns fatos relatados pelo garoto puderam chegar até Camus.
— Camus presumo que esteja com um pouco de dificuldade em aceitar os fatos, mas peço-lhe que pense no assunto e reveja se as informações apresentadas lhe são familiares, precisamos saber se, de fato, são verídicas e se for confirmado, a sua partida até Atenas para buscar o garoto. — Shion entregou um documento obtendo o depoimento do garoto para que analisasse, apenas as partes que lhe dizem respeito foram disponibilizadas devido a regra de sigilo. Camus passou alguns minutos lendo o depoimento e refletindo sobre o que estava escrito. Ali informava que de acordo com o garoto, ele seria filho de uma brasileira chamada Alice que o teve aos dezoito anos quando possuiu um caso com um estrangeiro chamado Camus, ruivo de olhos verdes, que dizia ser francês, mas morava na Grécia, dentre outros pequenos detalhes sobre Camus que apenas ele sabia. O mesmo ficou intrigado e buscou na memória algum fragmento dessa tal Alice até que lembrou-se que, quando mais novo com seus dezoito anos, foi ao Brasil em missão e de fato, havia passado uma noite com uma jovem chamada Alice, não apenas uma, mas várias noites até que chegou o dia de partir. Alice era realmente linda com belos olhos castanhos e cabelos negros, a pele bronzeada pelo sol daquele país tropical e um sorriso cativante que o atraiu desde a primeira vez que a viu. Foi uma das poucas pessoas que conheceram uma parte de Camus que vivia escondida, um coração ardente por trás da face frívola. Fazia tanto tempo que não pensava nela que não se lembrava mais, gostou dela de fato, sentiu-se atraído como nunca por outra mulher, mas não estava apaixonado e tinha deveres como cavaleiro logo nunca mais a veria, só não imaginava que o fruto de uma daquelas noites fosse bater na sua porta treze anos depois. Um filho, aquilo era surreal demais para acreditar, seria esse garoto realmente seu? Se fosse teria que arcar com as consequências, não era homem de fugir das responsabilidades.
— E então Camus, confirma o que está escrito? — Shion perguntou tirando o cavaleiro das suas lembranças. Camus olha para o Grande Mestre e mantendo sua fase frívola confirma.
— De acordo com as informações descritas aqui, de fato, são verdadeiras. Mas não posso afirmar com convicção se esse garoto é meu filho apenas por esses papéis, preciso de um exame de DNA. — Camus afirma hesitando brevemente ao falar a palavra filho, ainda estava surpreso com a notícia mas tentou cuidar das coisas da forma mais prática possível.
— Muito bem, então prepare-se partirá dentro de duas horas para Atenas. — Shion anuncia e Camus concorda fazendo uma breve reverência.
— Sim, Grande Mestre. Com sua licença. — Camus saiu do décimo terceiro templo com algo dentro de si inquieto, seria ansiedade? Mas por qual motivo? Não poderia ser apenas por descobrir a possibilidade de um filho, mesmo tendo altas chances de ser seu. Não, claro que não seria isso estava apenas surpreso.
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