O filho do Camus

2 Aquele que eu sempre procurei


Já estava ali à horas e não havia conseguido despistar o delegado, estava odiando aquela situação não queria um estranho se metendo em sua vida, mas confessou que daquela vez havia extrapolado um pouco, em suas ações. Como ele pensou que sairia em pune após hackear documentos do governo? Onde estava com a cabeça? Suspirou lembrando-se da conversa que teve com o delegado anteriormente.

— Vamos começar pelo princípio… O que te levou a invadir a segurança dos registros de adoção da Grécia? — O delegado perguntou e o garoto continuou encarando a parede atrás do delegado em uma clara demonstração de que estava o ignorando. Era bem verdade que o mesmo havia se sentido intimidado pelo delegado, mas jamais admitiria isso e preferiu manter a indiferença como uma forma de não transparecer seu nervosismo. O delegado continuou com as perguntas forçando o jovem a responder sendo ignorado pelo mesmo.

— Não vai me dizer nada? Estou tentando facilitar para você garoto. — O delegado continuou tentando quebrar aquela barreira imposta pelo garoto sem sucesso. Suspirou internamente impaciente, ao que parecia ele não diria nada.

— O que sua mãe pensaria se te visse aqui? Em uma delegacia após quebrar leis sigilosas? Já pensou nisso? — Decidiu apelar, aquele garoto não passava de uma criança duvidava que passasse dos quatorze anos não seria vencido por uma criança. Notou que conseguiu atingir seu objetivo, pois o garoto parou de fitar a parede e o olhou com uma irritação visível na sua postura.

— Não fale da minha mãe! Você não sabe nada sobre ela! — O garoto que instantes antes permanecia calado agora só não havia gritado pois tinha consciência de onde estava.

O delegado arqueou uma sobrancelha ao presenciar aquele rompante, estava começando a quebrar a defesa do moleque.

— Então que tal me falar sobre. — Aquilo era mais uma afirmação do que uma pergunta. — Talvez eu possa entender os motivos que o trouxeram até aqui. — Viu o garoto bufar indignado e cruzar os braços olhando para o lado de forma emburrada.

— Porque eu deveria falar algo para você? Não vai mudar em nada a minha situação. — O garoto disse encarando o delegado nos olhos que sustentou o olhar do mais novo, pode perceber o desafio estampado nele, como que o provocando a quebrar a sua afirmação.

— E porque não deveria? Pelo que sei você foi pego hackeando um sistema protegido do governo e nada me impediria de prendê-lo agora mesmo. Vamos lá estou te dando a chance de se redimir e me contar os fatos pelo seu ponto de vista. — E lá estava o assunto novamente, o delegado soube contornar a situação e encarava o garoto que bufou em descontentamento, não era totalmente verdade o que disse, pelo menos não naquele momento, mas precisava pressionar o rapaz.

Após alguns minutos de silêncio o garoto finalmente cedeu às investidas do delegado.

— Eu queria encontrar o meu pai. — Disse em um tom muito baixo, quase como um sussurro. Então o delegado pode compreender brevemente o que estava acontecendo ali.

— Muito bem, me conte o que exatamente você fez. Vamos tentar chegar a uma solução. — O delegado abrandou o tom de voz a fim de conseguir a confiança do garoto. Ele ainda mantinha uma expressão emburrada, mas pouco à pouco foi contando ao delegado o que acontecera.

O delegado saiu com a desculpa de providenciar algumas coisas, mas o garoto não parava de pensar que sairia dali algemado. Ainda lhe foi servido mais um copo d’água e ele já estava entediado de tanto esperar naquela sala, estava até cogitando se não seria melhor ser logo preso de uma vez apenas para sair dali, quando uma movimentação se fez na porta e o delegado adentrou a sala chamando a atenção do rapaz que estava ávido por alguma decisão.

— Muito bem meu jovem, acho que tenho uma surpresa para você. — O garoto franziu o cenho confuso e com a fala do mesmo um homem adentrou a sala a passos lentos. O garoto não pode conter a confusão estampada em sua face. Quem era aquele homem? Porquê ele estava ali?

— Muito bem, vou deixá-los à sós. — Com isso o delegado se foi fechando a porta deixando o garoto sozinho com aquele estranho.

O garoto observava o homem com olhos atentos, ele não parecia com nenhum dos gregos que encontrou desde que chegou ao país. Possuía uma pele muito branca e cabelos avermelhados tal qual os seus apenas em um tom mais escuro como sangue, e os olhos verdes mais frios que conheceu, não sabia dizer como, mas sentia algo rodear aquele estranho como uma aura talvez fosse aquele ar imponente e elegante que demonstrava, o fato era que estava se sentindo acuado diante daquele homem misterioso e não gostou disso. Sendo assim agiu impulsivamente como era de seu costume.

— Vai ficar aí parado me encarando ou vai dizer o que quer? — A pergunta em tom arrogante tirou Camus de seus pensamentos, desde o momento que entrara naquela sala não pode conter a surpresa em avistar aquele garoto, tanto que não percebeu que era analisado por aqueles olhos de forma intensa. A semelhança era tão forte que nem precisava de um exame para concluir que aquele garoto era de fato seu filho.

Olhou para o garoto que esperava uma resposta e pode ver em seu olhar a desconfiança mergulhada ali. Controlou-se internamente antes de avançar ficando de frente para o garoto que permanecia sentado, não se sentiu à vontade para sentar.

— Olá, me chamo Camus Lefèvre. — Iniciou se apresentando, não sabia ao certo o que dizer e não gosto disso. Sempre sabia o que falar ou fazer porque logo agora as palavras lhe fugiam à mente? Notou a surpresa nos olhos do garoto ao reconhecer seu nome e continuou controlando sua voz ao tom que sempre usava para mascarar suas emoções.

— Acho que sou o seu pai. — Foi direto e preciso, sem rodeios, afinal. O que mais ele diria?

×

Vários cenários se passaram na cabeça de Léo sobre como seria o encontro com seu pai desde que era pequeno quando sua mãe lhe falava sobre o mesmo. Exceto o que presenciava. Em todas as possíveis cenas em sua mente existia um fator em comum, a reação do seu pai; ele ficaria surpreso no início e depois, quando Léo lhe contasse com detalhes sobre sua mãe e mostrasse o pingente que era dela ele então derramaria lágrimas de emoção e o abraçaria forte enquanto Léo aproveitava o abraço que sempre sonhou ganhar. Mal sabia ele que Camus não era de derramar lágrimas.

Jamais passou por sua cabeça que encontraria seu pai em uma delegacia onde ele fora detido por invadir sistemas do governo correndo o risco de ser preso ou pior, deportado de volta para o Brasil onde seria levado para um orfanato e jamais teria chances de voltar para a Grécia sendo que era menor de idade. Mas o pior não fora a situação em que o encontrara, e sim, no modo como seu pai reagiu. Indiferente. Ao ver aquele que tanto procurou e idolatrou referir-se a ele de forma tão fria e desinteressada fez seu coração se apertar e um bolo se formou em sua garganta o impedindo de respirar novamente querendo sair e estourar em forma de choro. Todas as suas fantasias não eram reais, pelo menos no sentido emocional pois, como sua mãe dissera o homem a sua frente era sem sombra de dúvidas o Camus que ela lhe descrevera inúmeras vezes, era igualzinho, até mesmo as sobrancelhas bifurcadas nas pontas eram idênticas.

Léo abaixou as mãos para o seu colo e as apertou no tecido da calça que usava tentando controlar a vontade súbita de chorar quando o homem que deveria abraçá-lo perguntou, após um momento de silêncio, no mesmo tom impessoal e frio qual era o seu nome. Forçou o bolo em sua garganta para dentro assim como a vontade de se derramar em lágrimas e fazer um papel idiota em frente aquele homem. Respirou fundo controlando-se e respondeu baixo para não correr o risco de gaguejar.

— Leonhard Martins. — Proferiu tendo coragem para sustentar o olhar do homem sobre si. Seu corpo todo vibrava na expectativa de abraçá-lo, mas tudo o que fez foi forçar um sorriso debochado que escondia sua mágoa.

— Aposto que não acredita que sou o seu filho. — Soltou de forma rebelde, sabia que não deveria falar assim com o seu pai, mas não podia dar o braço à torcer quando o mesmo não mostrava nenhum interesse em si.

— Na verdade, eu acredito, sim. — A resposta levou embora todos os argumentos de Léo o pegando desprevenido, encarou Camus procurando qualquer traço de ironia, mas tudo o que viu foi a certeza no rosto firme de seu progenitor. Ele acreditava, realmente acreditava ser seu pai, mas então… Porquê o tratava daquela forma tão fria? Será que… Não o aceitaria? Aquela simples hipótese fez seu sangue gelar, pensou que não aguentaria caso fosse esse o caso.

— Dada à nossa semelhança e os detalhes sobre Alice e eu que você citou no depoimento, não tenho motivos para duvidar minha paternidade. — Camus esclareceu diante da confusão do garoto e o tom didático na sua voz irritou Léo que o olhou com certo desprezo.

— E agora que reconheceu isso, vai me jogar em algum orfanato ou serei deportado? Presumo que não vá me deixar ser preso ao menos isso não é? — Léo respondeu irritado escondendo sua mágoa através de palavras duras e Camus pode notar o sarcasmo pingando em cada uma delas. O cavaleiro manteve a expressão inalterada enquanto o garoto permanecia com o semblante carregado e a pele alva levemente vermelha dada a sua irritação.

“Um adolescente rebelde? Era só o que me faltava.” Pensou Camus consigo.

— Você virá comigo.

— Para onde? — Léo interrompeu quase que imediatamente.

— Para minha casa. — Camus respondeu e encarou Léo o esperando levantar e segui-lo, o que foi feito de forma hesitante.