O farol e sua sombra!

28 Capítulo Vinte e Oito - Casamento.


Finalmente chegou o dia do casamento.

Ginger não dormiu.

Tecnicamente, ela dormiu, mas na prática foi um sono lúcido. Estava ansiosa demais para apagar, com medo de perder a hora, mesmo sabendo que não perderia a hora. Apesar de sonhar, sabia que dormia e se obrigava a continuar a dormir. No final, ela levantou de uma vez só quando ouviu o primeiro badalar da manhã. Iria se casar? Era um casamento de fachada? Sim. Mas Ginger decidiu que ia desfrutar do dia como uma noiva de verdade até os convidados irem embora e então daria boa noite para Levi e se arrastaria para o seu novo quarto. Que não seria o mesmo quarto que o dele. De qualquer modo, ela ainda era uma noiva. Uma noiva falsa com um noivo de mentira, mas a festa seria de verdade e pelo menos no papel eles estariam casados.

Enrolou para levantar, de olhos fechados, até que a luz se tornasse evidente e a cacofonia da casa fosse ouvida. Estava cheia de expectativa, esperança e medo. Não sabia o que esperar e se deveria esperar algo. Apenas seu coração apertava em uma cadência confusa. A cerimônia seria à tarde. Ao ouvir os primeiros sons de vida em casa, Ginger abriu os olhos. Se deparou com seu vestido pendurado na porta. Um lindo vestido. Branco, com um brilho suave e bordados de flores coloridas e folhas por todo ele. O decote era em formato de coração, drapeado e as mangas eram curtas e bufantes. Ginger colocou nele todas as suas coisas preferidas e muito esmero. Sabe-se lá se teria outro vestido de noiva. Aquele era o vestido de seus sonhos.

Levantou-se, calçou as pantufas e vestiu um robe. Foi à varanda. O céu estava abrindo, revelando manchas azuis entre uma totalidade cinza, o tempo estava fresco e agradável, e o vento ainda era úmido, enchendo o ar com o cheiro de plantas recém regadas, traços de uma chuva que se passou. O resto do dia provavelmente teria a temperatura perfeita. Fresco e brilhante, não muito quente, mas também sem nuvens cinzas. O tipo de dia que Ginger amava. O sol lhe trazia energia, mas com a temperatura amena, ela não sofreria com os “males do verão”: a tontura e fraqueza que sempre a acometia nos tempos mais quentes do ano.

Ginger sentiu uma mistura confusa de melancolia e alegria.

Algo mudaria? Sua rotina mudaria. E ela estaria perto do Levi e um pouco longe de sua família. Talvez seus sentimentos mudassem. Sua paixonite sobreviveria à convivência? Talvez fosse melhor que não. Que esses sentimentos se afogassem com a rotina e suas complicações e que Ginger descobrisse que eram apenas uma quedinha. Um homem bonito, com um sorriso bonito e ela sempre gostou da beleza. Ela iria embora e não existia discussão sobre isso. Era melhor que não estivesse apaixonada, apenas confusa sobre o que sentia. Chegando a essa conclusão, Ginger bateu levemente em suas bochechas e com um suspiro foi viver seu dia de noiva.

Sua família não se surpreendeu que já estava acordada. Seus pais pareciam um pouco alegres e um pouco melancólicos, a enchendo de conselhos durante o café da manhã. Soul controlou seu humor e encheu Ginger de garantias que se Levi fizesse algo contra ela, Ginger poderia contar com a fúria de sua irmã mais velha. Soul realmente parecia disposta a cometer um crime. Beverly só procurou equilibrar a situação, rindo e fazendo piadas. Depois Ginger tomou um belo de um banho. Saiu tão cheirosa do banheiro que espirrou, e o nariz ameaçando a corizar. Se depilou apenas por costume. Gostava de sentir a pele lisinha e apesar dos pelos serem a coisa mais normal do mundo, não gostava muito da aparência deles. No final dessa provação auto-imposta saiu com um tom rosado e algumas doses de arrependimento. Estava se esforçando demais? De qualquer modo, precisava finalizar e secar o cabelo. Beverly e Soul foram lhe fazer companhia durante esse processo. Enquanto Beverly arrumava o cabelo de Ginger, que sentou-se no chão e lixava as próprias unhas em um formato arredondado, Soul estilizava o cabelo de Beverly. Era uma logística confusa, mas que a intimidade permitia. Enquanto prendia o cabelo de Ginger com grampos, a sorridente Beverly não deixou de comentar:

-Não acredito que você vai ser a primeira a se casar de nós três.

-É um casamento de conveniência, não vale!

A réplica de Ginger foi acompanhada de um rubro a mais em suas bochechas. Soul, com um laço de fita rosa na boca, retrucou:

-O seu sorriso é como de uma noiva real.

Ginger não replicou novamente. Seu rosto continuava a esquentar. Ela sentia-se sorridente, como se os músculos de seu rosto estivesse fora de controle e tudo que eles conseguiam fazer era mostrar os dentes, externando uma alegria sem sentido. Não lembrava de ver uma noiva de verdade, mas sentia que seu próprio sorriso era de fato amável. Seu coração certamente estava em descompasso com os fatos.

-Ouvi que Levi mandou reformar a mansão pra te receber.

-Bev…

-O que foi? Ele parece levar isso um pouquinho a sério.

-Ele é gentil.

-Não é não.

-Você só faltou escorraçar o homem, Soul.

-É meu jeitinho, Bev. Ele é um príncipe, não pode achar que vai ter vida fácil só por isso. De qualquer modo, não seria nem um pouco irracional se ele se apaixonasse por nossa Gigi.

Ginger queria olhar a cara de sua irmã mais velha dizendo isso, mas não pôde, porque Beverly estava colocando algumas joias em seu cabelo. Sua irmã dizia cada coisa… Ginger não conseguia se imaginar na mesma frase que apaixonável. Não era desagradavél, mas porque alguém se apaixonaria por ela? Ela era normal. Não eram as pessoas extraordinárias que inspiraram grandes paixões ou coisas assim? Pelo menos era assim nos livros. Não conseguia imaginar ninguém se apaixonando por ela. Esquisito…

De qualquer modo, não se deixou abater e continuou seu dia lindamente. Próximo do horário do casamento, finalmente colocou seu vestido. Suas bochechas não precisavam de nenhum rubor extra, estavam perfeitamente rosadas, mas ela aplicou um pouco de cera de abelha nos lábios e os pintou, deixando um tom satisfatório de rosa. Sua mãe lhe deu um colar de pérolas e brilhantes e outras joias. E por fim, colocaram o véu nela. Ginger não sabia o que sentia. Era uma emoção que parecia lhe afogar, esmagando seu coração com mãos invisíveis. Estava sem fôlego, apesar de respirar. Olhou-se no espelho e sentiu que estava muito linda, como uma fada ou algo do tipo. Seus olhos pareciam radiantes, em um tom tão brilhante de lilás que parecia magia. E suas bochechas doíam de um sorriso que parecia eternizado em seu rosto.

Sua família a encheu de elogios e sorrisos, e sua mãe enxugou os olhos com um lenço ao vê-la. Ginger também queria chorar, mas se conteve. Riu da ironia de que ela, a chorona da família, parecia a única que estava segurando as lágrimas naquele dia. Suas irmãs a abraçaram, apesar de saberem que iriam se ver normalmente no dia seguinte. Soul brincou que era a atmosfera. Rindo, eles caminharam para as carruagens. Beverly e Soul ajudaram Ginger a se locomover e a acompanharam em uma, enquanto Isaac e Eleonora estavam na outra. A cerimônia aconteceria na casa de Levi e por causa das aparências, Ginger moraria ali até Cinnamon e sua comitiva chegar. Os pertences dela já estavam na casa nova. De qualquer modo, eles seriam embalados e guardados. Ginger não ia à casa de Levi desde que ele descobriu que ela era um Farol. Em alguns momentos, ela ria de que ele parecia competir com sua mãe sobre quem era mais preocupado com sua segurança e Eleonora perdia, o que era um grande feito. Ginger estava ocupada demais para prestar a atenção ao mundo exterior, mas Soul comentava sobre a situação da cidade. A escolha do casamento intimista foi extremamente acertada.

Durante a viagem, Ginger pensava no noivo. Ele estaria nervoso? Bem, ela estava nervosa. O que ele estaria vestindo? Vestiria preto? Levi iria sorrir hoje? Ela se sentia boba ao pensar no sorriso dele. Talvez fosse melhor que ele não sorrisse, assim ela não corria o risco de tropeçar ou esquecer de respirar e desmaiar. Porém, se ele não sorrisse, Ginger se sentiria a pessoa mais decepcionada do mundo inteiro, o dia dela certamente estaria acabado. O pior de tudo isso, é que ela pouco poder tinha sobre os sorrisos de Levi.

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Levi levantou antes de todo mundo. Antes da Ginger, inclusive.

“É um casamento de fachada!”. Foi com esse pensamento que ele tentou se convencer a dormir e falhou consigo, pois passou a noite inteira acordado, rolando de um lado ao outro da cama, se lamentando por não ter sono e por perder tempo deitado enquanto o sono não vinha. Assim, no primeiro raio de sol, ele levantou, antes dos galos, antes dos servos e provavelmente antes da cidade inteira. A primeira coisa que conferiu foi o clima. Olhou pela janela e o céu estava claro, cinza e pesado em nuvens, com algumas manchas azuis aqui e ali. O fato de estarem no litoral e o clima ser imprevisível era um motivo de estresse. Provavelmente choveria forte pela manhã e estiaria ao meio dia, que provavelmente seria a hora em que o deck começaria a ser decorado.

William acordou e encontrou seu patrão sentado na cama, esperando o tempo passar. Levi estava se sentindo tão acordado e atento quanto da vez que ele comeu um bolo recheado inteiro. Se tivesse dormido não estaria subindo pelas paredes? William se contentou em rir do jovem mestre. Ah! Os jovens…

Com a presença de William e da governanta Olívia, os preparativos do casamento começaram. Levi seguiu parte de sua rotina normal, treinando, tomando café e ouvindo a cacofonia alegre e urgente que se formava por toda a casa, enquanto Olivia lhe passava um relatório sobre as mudanças para acomodar a estadia de Ginger. Era muito trabalho para pouco tempo de casamento, mas já que Levi se propôs a fazer algo, que o fizesse adequadamente. Não queria sentir arrependimentos. Pelo menos não os evitáveis.

Os músicos afinavam seus instrumentos. A casa inteira cheirava a flores e plantas. Beverly provavelmente arrancou um jardim inteiro para o casamento da irmã, era a única explicação. Uma floricultura sentiria inveja de tanta variedade, em cores, formas e cheiros. As cadeiras já estavam amarradas a uma carroça, prontas para serem colocadas no deck assim que a chuva parasse. Parte da casa já estava montada para o jantar e os lençois e arranjos começaram a ser colocados. As velas dos castiçais foram trocadas por velas de cera de abelha e as lamparinas por óleo perfumado. A cozinha já tinha começado a preparar o jantar. As massas do bolo já estavam feitas, Levi tinha passado na cozinha na noite anterior para averiguar. Os doces e suas massas também já estavam prontos e as bandejas flutuavam acima de água gelada. A água evitou apenas as formigas comuns, o noivo fez seu teste de qualidade em todos eles. Levi nunca se sentiu tão feliz em ser um homem rico, com um corpo privilegiado, e uma festança para dar. O bolo seria de massa branca com recheio de creme com compota de abacaxi e coco, mas isso ele não experimentou. Se faltasse e tivesse um buraco no bolo, como explicaria para Ginger? Também ficou longe dos camafeus, dos quais a noiva disse que era seu doce preferido, pegou apenas um, mas queria roubar a forma inteira.

Durante todo o preparativo Levi transitou entre o nervosismo, um pouco de felicidade e doses cavalares de açúcar e lamentações, pois era um casamento de fachada e ele estava levando tudo muito a sério. Ele tentava se controlar e parecer apenas mais um dia normal, mas estava com um bom humor tremendo e se quer sabia o porquê. Seus criados nunca viram tantos sorrisos aparecendo no rosto de seu jovem mestre desde… muito tempo. Era um evento feliz. Eles inclusive receberam boas gorjetas e Levi sentia-se cada vez mais generoso. No final, ele gastou tanto dinheiro que só lhe restou aproveitar a festa como um noivo de verdade.

Uma hora antes do casamento Levi se aprontou. Sua família, os Blackblood, foi a primeira a chegar e eles correspondiam a cerca de oitenta por cento dos convidados. Ginger e Levi levaram muito a sério o termo “intimista” e só convidaram suas famílias. Era um casamento de fachada, não havia sentido em convidar mais pessoas do que isso, e mais, os dois eram reservados e sem amigos. Ginger, por que ela não saia de casa, Levi, porque ele não saia do trabalho. Os empregados de Levi também foram convidados. Eles eram as pessoas em que Levi confiava a segurança e cuidado de sua casa e estavam sempre ali.

De qualquer modo, foi uma baita visão ver todos aqueles Blackblood arrumados e alegres. Exceto por Abraham, ele só estava bem arrumado,mas não alegre, pois não tinha superado o pé na bunda muito bem merecido que ele levou e provavelmente não o superaria tão cedo. Selene e Dawn pareciam infectados pela atmosfera, sentados um ao lado do outro, rindo e cochichando sobre o que via, e sendo observados com alegria por Éden, que não via a hora daquele par se casar. Zachary e sua esposa Lucy sentaram na sombra, ao lado de Peony, que se distraía provocando o caçula da família. Os anciões Blackblood passeavam pela casa e de vez em quando beliscavam algum doce ou quitute, enchendo as bochechas e os bolsos. Levi só observava, eles alegremente comendo seu dinheiro. A ideia foi dos velhos, por que era ele que estava pagando? Riu e balançou a cabeça. O tempo parecia não passar. Talvez Ginger desistisse. E se ela fugisse? Para onde? A cidade era um ovo… Ele constatou que já estava tendo alguns pensamentos irracionais. Não tinha o porquê de Ginger fugir… Ou será que tinha? Para sorte de Levi, William apareceu e o avisou que a noiva e sua família tinham chegado. Os Garden foram absolutamente pontuais.

Os convidados se acomodaram cada um em seu lugar. Éden assumiu a posição de oficial. A música tornou-se uma melodia melosa e Soul e Ginger entraram jogando flores. Nada disso era muito do interesse de Levi. Ele queria ver a noiva. A sua noiva. Depois das damas, a marcha nupcial começou e os convidados levantaram. Ginger entrou de braços dados com seus pais. Um ponto branco contrastando com toda a sua volta. Ela sentiu-se sortuda por ter seus pais ali, ao seu lado, pois sentia que poderia tropeçar e cair de tão nervosa. Levi estava magnífico, ali no altar, a esperando. E Ginger não sabia como se sentir sob seu olhar. Seu coração batia forte e seu rosto parecia fora de controle, querendo sorrir com tanta força que doía. Ela não sabia o que pensar, não conseguia pensar. Ousaria dizer que não queria também. Era só que vê-lo ali, esperando por ela, de preto, exceto pelo verde de seu colete, o colete que ela lhe deu, em meio a tantas flores, e com um raio de sol praticamente o beijando, Ginger sentiu que estava vivendo um belo sonho, talvez uma miragem, alguma coisa fora da realidade… Ela estava sem fôlego.

Literalmente, pois seu pai lhe sussurrou:

-Respira, minha filha.

E Ginger respirou, como se fosse a primeira vez (e era) depois de muito tempo. Era tão boba, por que deixar que se sentisse assim, tão… Tão sem ar. Era apenas seu coração, que a oprimia com um ritmo galopante. De passo em passo, a noiva de mentira chegou ao altar, sob os olhos vidrados do noivo de mentira. Os dois tão envolvidos um com o outro que o que era farsa se confundia com verdade, ou talvez, a verdade era que estava camuflada pela farsa.


Notas finais
Comecei a trabalhar, por isso a demora para o capitulo sair.