O farol e sua sombra!
29 Capítulo Vinte e Nove - Beijem logo!
Ginger e Levi se encontraram no altar.
Por de trás do véu, ela conseguia vê-lo, cumprimentando o seu pai. Levi estava tão lindo que Ginger sentia que seu coração estava pesando sobre seus pulmões. Quer dizer, não deveria ser surpreendente. Aquele era o Levi, ela não conseguia imaginá-lo feio. Exceto pela primeira vez que o viu, mas seu cérebro estava mais do que disposto a esquecer aquele momento.
Ele só parecia tão… tão fascinante. E ela estava muito disposta a esquecer todos os seus defeitos. Respirando suavemente, Ginger esperou Levi. Ele terminou de falar com os pais da noiva e concentrou toda a sua atenção nela. Ginger fechou os olhos ao sentir sua respiração se tornar uma bagunça novamente. Ora, ora, ela estava realmente desnorteada. O que era isso? De qualquer modo, Ginger também queria ver a reação dele ao levantar o véu. Ela respirou fundo, encheu os seus pulmões de coragem e abriu os olhos. Com êxito, seus olhos se cruzam com o de Levi, no exato momento em que a pupila dele se dilatou ao vê-la. Por alguns instantes, Ginger se viu refletida ali, no brilho dos olhos dele. A emoção expressa no rosto do Blackblood parecia tão complexa que Ginger achou que tinha lido errado. Pelo menos, naquele momento, Levi era perfeito. Não sabia que queria ser vista assim, mas quando aconteceu, soube que era o que queria. Aquele incandescente olhar suave, cheio de ternura, calor e complexidade. Tão incandescente que ela desviou os olhos, o coração pulsando em seus ouvidos.
No nervosismo, Ginger alisou o colete de Levi como fez algumas dezenas de vezes antes, procurando rusgas onde não tinha. O noivo riu de uma piada interna que só ele conhecia. Enquanto a noiva adotava tons de vermelho que fariam com que as rosas a invejassem.
-Meu colete está perfeito, foi você que fez.
Levi sussurrou uma provocação, enquanto segurava a mão de Ginger. Ela lhe lançou uma olhadela, um pouco feliz que estava com luvas e Levi não sentiria que sua mão estava úmida. Um pouco triste, pois estava com luvas e não sabia quando poderia tocá-lo livremente novamente.
-Podemos começar?
Perguntou Éden, contendo sorrisos. Aquela era a atmosfera adequada de um casamento e ele sentia-se em júbilo por isso. Apertando suavemente a mão que segurava, Levi acenou com a cabeça que sim.
___________________________________________________________________________
Quando terminou a cerimônia, Ginger lembrava-se apenas de seu sincero e tímido sim, torcendo para que aquela verdade estivesse guardada em seu coração. O “aceito” que ela proferiu era de verdade, apesar de combinarem um casamento de mentira. Trazer a verdade para um lugar de mentira não era uma forma complexa e desonestidade? Com aquele tipo de pensamento confuso, ela proferiu os votos tradicionais de casamento, feliz por estar em um território comum e familiar. Depois de proferir os votos, houve um momento de silêncio na cerimônia. Éden encarou Levi e foi encarado de volta. Os olhos de Ginger pulavam de um para o outro. Ela já tinha ido a outras cerimônias de casamento e sabia o que viria. Supostamente, ela sabia o que viria. Era possível ouvir a fachada do casamento estralando. Seria muito estranho se eles não se beijassem, não é? Essa conversa tinha sido procrastinada inúmeras vezes nas últimas semanas. Não foi racional da parte deles, mas Ginger sabia que ela fugia da racionalidade com maior frequência do que gostaria de admitir. Sua surpresa foi que Levi a seguiu nessa empreitada. Ninguém puxou o assunto e agora o assunto estava puxando seus pés de volta.
Agora eles estavam ali, em frente às suas famílias, fingindo casar. Se encararam novamente, sem saber o que fazer. Quer dizer, eles sabiam sim. O que era a chuva pra quem já estava encharcado? Foi essa a conclusão de Ginger. A coragem, por outro lado, não estava com ela. Querer beijar alguém, ou precisar beijar, e beijar de fato eram coisas diferentes. A única coisa que ela poderia fazer era a mais retumbante das inúteis: corar como um tomate, até a raiz do cabelo, e se constranger com o fervor que sentia em seu rosto. Eles deveriam ter conversado sobre isso antes… Decidiram sobre a coisa maior, mas, talvez, em algum tipo de ato falho ignoraram o final da cerimônia, o beijo dos noivos. Agora, Ginger só podia encarar Levi, esperando ele tomar uma decisão e esperando que a decisão dele fosse a mesma que a dela. Ela o olhou com muito afinco, tentando passar alguma mensagem, qualquer que seja. Seria estranho se eles não se beijassem… Eles se encararam pelo que parecia uma eternidade. A noiva parecia cada vez mais impaciente e o noivo era a própria imagem do termo “emoções complexas”. Um casal apaixonado já teria resolvida a questão. Um casal que se odiava também. Contudo, aquele era um casal no limbo. Não sabia se gostavam ou, ao menos, fingiam que não sabiam. As farsas não resistiam à verdade, não, não… Elas desabam com som estrondoso em momentos repentinos, não suportando o menor confronto. Era mais ou menos isso que Levi ouvia em seus próprios ouvidos, o som estrondoso da verdade que ele não queria encarar. Deveria continuar a farsa? Aquela farsa perigosamente mais perto de ser uma verdade do que uma mentira? O que faria depois? Era mais fácil fingir que todas aquelas decisões eram pura gentileza. É possível ser gentil com qualquer um, é desejável ser gentil com qualquer um, mas quando o assunto era Ginger, pura gentileza era um termo inadequado. Era suave por que não suportava magoá-la. E puro… Queria ele ser puro. Havia pouca pureza, apesar de não existir má intenção. Era um fantasma que ele desviava os olhos com frequência e que o aparecia quando dormia. Levi passou a fingir que não via, a ignorar o que sentia desde que soube que Ginger poderia escapar.
Agora, sob o olhar brilhante e cheio de expectativa de Ginger, não havia como Levi fugir. Ele já tinha fugido da conversa antes e caiu nessa enrascada.
Ela era tão bonita que lhe doía.
E ele queria beijá-la.
Não podia.
Levi não tocou no assunto durante a organização do casamento porque sentia que Ginger ia lhe questionar. Mais do que isso, ela lhe entregaria um olhar tristonho difícil de suportar e Levi não era do tipo que abraçava dificuldades que poderiam ser evitadas. Nenhuma pessoa sensata se jogaria em uma fogueira sabendo que sairia no mínimo chamuscada. Ele gostava de pensar que era uma pessoa sensata.
Se Ginger não quisesse beijá-lo… triste, mas menos mal. Agora se ela quisesse… Como ele manteria sua sanidade nos próximos meses sabendo disso? Não era aquela a definição de “se tentar”? Sabia que não conseguiria dizer não para ela. Não era qualquer mulher, era a Ginger. A Ginger que tinha olhos como cristais e que só levava o que gostava sob eles. Levi já tinha se deparado preso ali, em olhares de admiração nem um pouco contidos, grudados em sua nuca e muitas vezes em seu rosto, que o fazia pesado e leve ao mesmo tempo, andando entre a alegria e a preocupação e sem ter para onde fugir. No final, fugiu tanto que deu de cara com o problema. Agora deveria firmar suas convicções e decidir qual era a melhor decisão. Demorar mais era atestado de esquisito.
Enquanto os noivos estavam em seus dilemas, seus convidados esperavam. Os mais velhos trocando olhares contendo piadas internas, e os mais novos impacientes. O fim da cerimônia era o início do banquete, eles queriam comer!
Esperaram o suficiente para a desbocada da Selene gritar:
-Beijem logo!
Ginger riu, meio de graça e constrangimento. Levi riu também, de raiva… se envolver em um relacionamento depois de sua sobrinha era o supra sumo da humilhação. Talvez por causa da atmosfera absurda e da intimidade familiar, um coro desejando que eles se beijassem se formou, se tornando cada vez mais alto.
Não parecia ter tempo para perguntar coisa alguma. Ginger só observou atônita enquanto Levi a puxava pela cintura e jogava o véu dela sobre ele também. Beijando ou não, ele não daria o gosto de ver para aquela multidão barulhenta. Pensando em todos os prós e contras, o objetivo dele era beijar a bochecha dela, de modo que parecesse um beijo na boca. Naquele momento lhe parecia a melhor decisão. O problema era que a sua confusa noiva não percebeu a intenção.
Ginger o beijou.
E Levi não resistiu, não tinha vontade alguma para isso. Só a beijou de volta, com toda a vontade que escondia dela e de si, tentando se convencer que aquela seria a primeira e última vez e que deveria aproveitar como tal.
Ginger, por estar de olhos fechados, não viu a reação surpresa de Levi. Suas mãos estavam agarradas ao colete dele como um porto seguro e ela não sabia se aquele calor era dela, se os batimentos nas palmas de suas mãos eram dele. A única coisa que sabia era que se sentia tão viva que estava a ponto de enlouquecer, seus ouvidos cheios de gritos de provocação e sua boca de doçura.
_++++++++++++++++++++++++++++++++++
Com essas lembranças vagas e confusas, Ginger seguiu a noite. Durante a janta houve risos e provocação. O jantar estava delicioso, e as velas nas mesas foram acesas quando o céu se alaranjou. Foi um belíssimo pôr do sol aquele e Ginger sentiu-se privilegiada. Levi ficou do seu lado todo momento. O aperto de sua mão era reconfortante e a risada dele lhe dava comichão. Ele era muito mais sociável do que ela e interagia com a própria família e com a de Ginger com tranquilidade e bom humor. Para ela, distribuía comentários bem humorados, recomendação dos melhores pratos e uma detalhada crítica gastronômica sobre os doces servidos na festa. Aparentemente Levi tinha comido um montão de cada docinho.
-Você é realmente um formigão.
Comentou Ginger, enquanto Levi comia seu quinto camafeu. Éden o impediu de pegar o sexto, e o sétimo com o oitavo juntos. Ginger estava prestes a julgar seu noivo, agora marido, mas a opinião dela foi barata: Levi só precisou colocar um doce no prato dela toda vez que pegava um para si próprio. Agora ela estava com um prato lotado de doces.
-Tenho que comer para ver se é bom.
Levi disse isso com a maior cara limpa, colocando um bombom coberto de coco inteiro na boca. Aquele era o quarto.
-E você precisa comer cinco pra ter essa informação?
-É claro…
-Estou impressionado. Se eu comesse essa quantidade de doce já estaria desmaiada em algum canto. Não literalmente, mas certamente estarei pronta para ir dormir. Não enjoa, não?
-É claro! Por isso estou fazendo rodízio, primeiro o camafeu, que tem um gosto mais suave, depois o de coco, que tem uma textura diferente. [...] De qualquer modo, o três amores é sempre o último e o de café o penúltimo. Chocolate amargo tem muita personalidade.
Ginger teve que admitir para si própria que perdeu o fio da meada por alguns momentos. Ela sabia que Levi era chegado em uma sobremesa, mas não aquele tanto… Observando bem, todos os Blackblood de nascença também eram. A matriarca e Lucy comia doces com parcimônia. Elena era particularmente exigente. Lucy mais comedida. A Ginger sobrou a reflexão de que talvez ela estivesse entrando em uma colônia de formigas.
Fale com o autor