Para quase todas as pessoas em Nova York, aquela manhã era só mais uma, comum como tantas outras, sem nada de especial, porém, para um adolescente de 16 anos do bairro do Queens aquele dia marcaria o início de uma nova vida, o começo de uma história que mudaria os rumos de toda a cidade, o início da lenda do amigão da vizinhança.

Peter Parker abriu os olhos, espreguiçou-se como em qualquer outro dia, jogou o cobertor de lado e levantou-se da cama. Tudo da mesma maneira em que fazia sempre. Dirigiu-se até o espelho, ainda não tinha se dado conta de uma coisa estranha, mas chegando à frente do espelho percebeu, estava enxergando perfeitamente, mesmo sem usar óculos. Ficou confuso.

“O que diabos tá acontecendo?” Pensou consigo mesmo.

Entretanto, as coisas estranhas não paravam por aí. Sentiu a barriga esquisita. Levantou a camisa, ainda usava a do dia anterior, da exposição. A visão foi chocante, não no sentido ruim, mas simplesmente chocante. Seu abdômen estava bem definido, o peito másculo, os músculos do braço saltavam, todo o seu corpo estava diferente. Por instantes, Peter encarou o espelho boquiaberto. Deu dois passos para trás ainda incrédulo, tropeçou, mas o tropeço que derrubaria qualquer pessoa não o derrubou. Com apenas um pé no chão e o corpo totalmente inclinado, lá estava ele, equilibrando-se com extrema facilidade. Mais uma vez, ficou chocado.

“Isso só pode ser um sonho” Pensou. Mas não, não era...

O jovem Parker decidiu voltar para cama, logo acordaria daquele sonho tão real e tudo estaria normal como sempre. Aquele, no entanto, era o seu novo normal. Quando puxou o cobertor novamente, ele não soltou de sua mão. Peter apavorou-se, debateu-se, balançou-se, tentou de todas as formas livrar-se daquele cobertor maluco, mas nada adiantou.

Não sabia mais o que fazer. Levantou-se outra vez, foi até a porta do quarto, mas quando tentou girar a maçaneta o inacreditável aconteceu. A porta não se abriu, ela simplesmente arrancou-se. O susto fez o cobertor soltar-se da mão. Peter observou toda aquela cena, não sabia mais definir o que estava acontecendo. Em um emaranhado de pensamentos confusos, uma lembrança inundou a sua mente. A aranha.

Levantou o pulso a frente dos olhos, ali, viu a marca das presas. Seu primeiro pensamento foi que era impossível, aquilo era vida real, não uma história de ficção científica. No entanto, aos poucos, a ficha foi caindo. A exposição era de aranhas modificadas, quando voltava para casa, já tonto, ouviu no rádio do carro do tio que uma das aranhas não foi encontrada, uma aranha o picou no meio da multidão, tudo se encaixava. Os pensamentos de Peter clarearam-se e ele compreendeu. De alguma forma, por algum motivo, aquela aranha o modificou. Talvez Peter estivesse racionalizando tudo muito rápido, mas não havia outra explicação. Pensou nos personagens das histórias que tanto amava e se imaginou como um deles, sorriu a tamanho absurdo. Sentou-se na cama e voltou a olhar o quarto. Ficou minutos ali, imóvel, apenas refletindo. Com pouco tempo, os tios apareceram, e mesmo diante de tudo aquilo, conseguiu uma desculpa para toda a situação.

A vida do garoto havia mudado, uma nova jornada começava. Entretanto, enquanto tudo aquilo acontecia com Peter Parker, outra vida em Nova York, ali também no Queens, abria as portas para um novo começo. Nada tão espalhafatoso quanto o do jovem picado por uma aranha modificada, mas ainda assim, um novo começo. Cory abriu os olhos.

--o—

— Você não acha que está sendo muito radical? — Perguntou Lancel.

— Radical, Lancel? Você é idiota? — Vociferou Norman em resposta.

— Sr. Osborn, por favor, eu imploro ao senhor: — Gargan suplicava de joelhos. O desespero do segurança bateu fundo em Ferguson.— Minha esposa está desempregada, se eu for demitido eu não sei nem o que vamos fazer.

— Você deveria ter pensado nisso antes de ser incompetente, não concorda? — Disse Norman tão frio quanto um iceberg.

Lancel estava triste pelo segurança, mas nada poderia fazer para ajudá-lo. MacGargan era o único que havia ficado responsável pelo laboratório onde estavam as aranhas na véspera da exposição vexaminosa que havia acontecido no dia anterior. No entanto, a parte mais estranha da história era que todas as câmeras de segurança da Oscorp haviam sido desligadas justo naquela noite. Horas depois da exposição foi achado a caixa elétrica responsável pelo sistema de vigilância completamente esmagada pelo que pareciam ser punhos. E depois dessa sucessão de eventos, Osborn não tinha dúvidas, o segurança era culpado, demiti-lo era o passo seguinte. Lancel ainda acreditava, porém, que Farley tinha algum envolvimento com o ocorrido.

— Sr. Osborn, eu preciso muito desse emprego, faço o que o senhor quiser. — Gargan já se arrastava aos pés do patrão, mas Norman não o tipo de pessoa que se comovia fácil. Lancel tinha certeza de que toda aquela cena apenas irritava mais o empresário.

— Já disse a você, não adianta implorar. — Iniciou Osborn, seco.— Se você não sair daqui por bem, serei obrigado a chamar os seguranças. — Com um adendo e sorriso de desprezo, ele prosseguiu.— Os que ainda estão empregados, no caso.

— Sr. Osborn... — Tentou novamente Gargan, mas Norman não o deixou continuar e desvencilhando-se, disse:

— Pra mim já chega. — Pegando o telefone para falar com sua secretária continuou.— Felicity, mande os seguranças para a minha sala. Agora!

— Não é necessário, Norman. — Falou Lancel, dirigindo-se então para Gargan. — Venha, jovem. Continuar com isso não vai adiantar.

— Eu não tive culpa, Sr. Ferguson. — Disse o segurança em lágrimas, a voz dele estava embargada.

— Eu acredito. — Disse Lancel compreensivo. Ele realmente acreditava naquele homem.— Vamos, venha comigo.

Ferguson deu a mão a Gargan, ajudando-o a se levantar. Os dois saíram da sala de Norman. Lancel acompanhou o agora ex-segurança até a saída da empresa. Já na recepção, disse:

— Não fique para baixo, ouviu? — Falou o cientista. Gargan apenas assentiu com a cabeça. — Tenho certeza de que você logo estará empregado de novo.

— Obrigado, senhor. — Disse Mac de cabeça baixa, indo embora em seguida.

Lancel observou enquanto ele se afastava, estava com dó daquele pobre homem e, sinceramente acreditava que ele não tinha nenhuma culpa. Sentiu-se mal por estar cometendo uma injustiça. Todavia, por um pequeno momento, viu MacDonald Gargan, já na rua, olhar para trás, em direção ao prédio da Oscorp, e ali, naquele instante, o olhar do pobre homem parecia diferente, não mais medroso e hesitante, mas apenas puro ódio. Procurou não pensar nisso, acreditou que era apenas a sua imaginação.

— Ora, ora, o que temos aqui. — Lancel estava de costas, mas aquela voz era, como sempre, inconfundível. - Se não é o ex-principal cientista da Oscorp.

Se virando para Farley, Ferguson forçou um sorriso e disse:

— Olá, Farley. Como vai?

— Aaaaa eu vou excelentissimamente bem. — Lancel tentou simular uma expressão de contentamento pela resposta, mas tinha certeza de que falhou na tentativa.— Já soube, meu amigo? hahaha! Sou o novo cientista principal da empresa

— Sério??? — Fingiu surpresa Ferguson.

— Seríssimo! Já até me mudei para o seu laboratório. — Gabou-se Farley. Lancel engoliu o mormaço que veio a sua garganta naquele momento.

— Meus sinceros parabéns. — Não eram nenhum pouco sinceros.

— Obrigado, amigo. Isso significa muito para mim. — Disse Stillwell abrindo um largo sorriso falso e apertando as mãos de Lancel. Este sorriu em resposta.— Se quiser, eu mexo uns pauzinhos para você fazer parte da minha equipe de subordinados.

— Não é necessário, Farley. — Respondeu Ferguson sem desfazer o sorriso.

— Tudo bem, amigo. — Disse Stillwell despedindo-se e caminhando para o elevador.— Mas saiba que a proposta sempre estará de pé.

— Que bom, que bom. — Aquele homem havia conseguido, Lancel o odiava.

Enquanto a porta do elevador fechava, Ferguson ainda pôde ouvir Stillwell dizer.

— Eu, o cientista principal da Oscorp, quem poderia imaginar? Realmente não há nada mais incrível que o acaso.

--o—

A noite caíra em Nova York, fazia dez dias desde a exposição da Oscorp. A vida de muitas pessoas seguia comum, nada de muito relevante havia acontecido, essa, no entanto, não era a realidade de MacDonald Gargan.

Ele assistia esparramado no sofá mais um jogo da NBA. Os Nets perdiam feio. Mas aquilo era só o dia tenebroso que ele passou sendo fechado com chave de ouro. Tudo culpa daquele cientista cretino. Farley Stillwell.

Demitido, endividado, sem saber se realmente seria pago pelo serviço feito para um verme e sua mulher completamente furiosa com ele. Não conseguia entender o motivo de não importar o que fizesse, ele sempre se ferrava. Agora o que restava para era se entupir com uma cerveja barata e ver o seu time perder.

— Você é realmente um inútil, não é? — Disse a mulher de Gargan sentando-se no outro sofá da sala e encarando-o.

— Karine, eu já disse que eu vou receber pelo serviço. — Tentou justificar-se o ex-segurança.

— Você trocou o certo pelo duvidoso, Mac. — Retrucou Karine. Seu semblante era fechado.

— Amor, você tem que entender. — Tentou outra vez Gargan.

— Entender é o caralho, seu merda. — Elevou o tom a mulher.

Mac odiava quando ela fazia isso, xingá-lo não era uma coisa legal. Quando se conheceram, ela era maravilhosa, engraçada, só o tratava bem. Agora, depois de doze anos de casamento tudo era uma razão para humilhá-lo. Ele sabia que as vezes fazia bobagens, mas ela era a sua esposa, não devia tratá-lo tão mal. Tentava sempre ser o melhor marido possível. Quando o Dr. Stillwell ofereceu dinheiro em uma quantidade que ele jamais havia visto na vida, aceitou por ela. Essa era a chance que a vida deu de dá-la uma vida melhor, e sua mãe sempre dizia para agarrar as chances que a vida oferecia.

— Qual garantia você tem que esse tal doutor realmente vai pagá-lo alguma coisa? — Questionou Karine.

— Ele me deu a palavra. — Disse quase em um sussurro, encolhendo-se, o gigante Gargan.

— A palavra? A palavra, Mac? — Karine sorriu indignada.— De que porra vale a palavra de um velho filho da puta que trama matar umas aranhas para a pesquisa dele ser priorizada?

Gargan olhou para baixo em silêncio.

— Eu quero que você responda, seu lixo. — Gritou Karine levantando-se.

— Desculpa, mas não me xinga, por favor. — Gargan começou a chorar.

— Meu Deus, um homem desse tamanho chorando que nem uma mulherzinha. Maldito o dia que eu me casei com você, Mac. — Gargan chorou ainda mais. Não era a primeira vez que Karine dizia aquilo para ele, mas sempre doía como se fosse.

— Eu prometo, amor. Ele vai pagar o que disse que iria, te juro. — Disse Gargan jogando-se aos pés da esposa.

— Eu acho bom. — Disse ela saindo de perto dele, mas virando-se, encerrou.— Se ele não te pagar e você tiver perdido esse emprego por nada, pode saber, eu vou embora.

Gargan olhou-a temeroso. Karine continuou.

— Ouviu, não é? Eu vou embora. Isso não é um blefe. Eu nunca mais olho na sua cara.

Enquanto Karine saía rumo ao quarto, Mac ficou lá, no chão, completamente jogado, da forma patética como tudo que ele fazia. No entanto, de uma coisa ele tinha certeza, não poderia perder a esposa, de forma nenhuma. Ela era a única coisa que valia a pena em sua vida, a única coisa pela qual se valia lutar. E ele lutaria até o último suspiro por ela, nem que fosse necessário dar a sua própria vida para isso. Estava decidido, no dia seguinte iria dar um jeito de falar, e cobrar o Dr. Stillwell. Agora, mais do que nunca, possuía um motivo para isso, salvar o seu casamento.

Ergueu os olhos para TV, os Nets ainda perdiam, mas para ele estava tudo bem, pois aquela seria a última vez que sentiria o gosto da derrota. Quando o sol nascesse novamente, MacDonald Gargan só saberia provar a maravilha que a vitória pode proporcionar. A decisão estava tomada. Um novo homem estava prestes a nascer. Foi até o armário da cozinha e pegou o revólver.

_o_

Desde que a aranha picou Peter, sua vida mudou. Agora o jovem sentia-se um novo homem. Sim, um homem, era assim que Parker se via. No entanto não era apenas ele que se enxergava assim, seus tios, e até mesmo os colegas de escola passaram a vê-lo dessa forma. Todos gostavam do novo Peter Parker. Todos, exceto duas pessoas, Cory e Flash Thompson.

— Você está ficando parecido com ele, o Flash. — Passou a dizer Cory desde que acordou. Peter relevava as palavras do amigo, afinal de contas, não devia ser fácil para ele conter a inveja, já que enquanto Cory viu sua vida mudar acordando em uma cadeira de rodas, a vida do seu melhor amigo sofreu uma virada com ele tornando-se popular na escola. Era isso, Cory estava com inveja, mas Parker não poderia fazer nada quanto a isso, a inveja de Cory não era problema dele.

Já o próprio Flash Thompson estava detestando Peter justamente por ele ser o novo popular. As garotas davam a ele agora quase a mesma atenção que ao astro do esporte da escola. Parker amava tudo aquilo. Aqueles poderes eram a sua oportunidade e ele agarraria essa chance com tudo. Inclusive, ele poderia faturar muito com eles, porém, ainda não sabia como.

Mais uma manhã raiou em Nova York. Quando Peter desceu para o café, Tio Ben já havia saído para o trabalho. Apenas Tia May estava em casa, ela havia chegado durante o fim da madrugada de um plantão no hospital.

— Bom dia, querido. — Saudou o sobrinho a Sra. Parker.

— Bom dia, Tia. — Saudou o jovem de volta sentando-se a mesa e passando geleia no pão.

— Sabe quem veio durante o plantão falar comigo? — Perguntou May sentando-se a mesa também.

— Não faço ideia. — Respondeu Peter sem dar muita atenção.

— O Cory. — Disse a tia encarando-o

— Na cadeira de rodas? — Perguntou Peter surpreso.

— Exatamente. Ele está tentando lidar com a nova... é... situação, e por enquanto está se saindo muito bem. Ele estava com a mãe, mas não era ela que guiava a cadeira, era ele. — Contou May.

— Que bom, que bom. — Peter estava impaciente, só conseguia pensar em uma forma de faturar com os poderes.— Mas o que ele foi fazer lá?

— Ele veio me dizer que está preocupado com você. — Disse séria May.

— Preocupado comigo? — Sorriu Peter debochando.— Acredite, Tia, eu não poderia estar melhor.

— Pois eu também venho achando você estranho. — Disse May, com semblante preocupado.

— Ah tia, por favor. — Exaltou-se Peter.

— Olha só pra você, querido. — Disse May apontando a reação do sobrinho e arregando os olhos.— Desde quando você se exalta assim?

— Tia May, eu estou ótimo, entendeu? — Encarou-a firme Peter.— Eu apenas estou mudando, tudo bem? E isso é normal. Por exemplo, todos estão gostando do novo Peter, eu estou quase tão popular quanto Flash Thompson no colégio.

— O mesmo Flash Thompson que você sempre disse que era um babaca? Ele é a sua nova métrica do que é ser legal ou não? — O tom dela era calmo, mas penetrante. Peter a olhou por alguns segundos sem saber o que dizer, porém, por fim, disse:

— Todos gostam de mim agora, Tia May.

— Quem realmente importa já gostava desde sempre, e agora está preocupado com essas suas mudanças.

— Pois é melhor que se acostumem. — Concluiu Peter saindo.

— Seu tio vai chegar tarde hoje, mas amanhã ele disse que vai conversar.— Falou May enquanto Peter batia a porta indo para o colégio.

--o--

Aquela manhã era uma manhã diferente no colégio, Cory finalmente retornava após acordar. haviam-se passado poucos dias desde esse fato. Peter considerava a volta tão cedo algo precoce, mas se o amigo já estava achando-o estranho, preferia guardar essa opinião especifica pra si.

Quando encontrou Cory, logo na entrada, Parker ofereceu-se para empurrar a cadeira para ele, o qual recebeu um não como resposta. O garoto, que há poucos dias nem consciente estava, buscava independência na vida.

“Eu não preciso de ajuda, não sou um inválido” Essa era frase que Peter mais ouviu do amigo naqueles dias. Ele tentava compreender que devia ser difícil estar tendo que lidar com a deficiência, mas achava que se deixar ser ajudado de vez em quando não era demérito algum. Infelizmente Cory não pensava da mesma maneira.

As primeiras aulas do dia eram de Química do Professor Curtis Connors. Peter era disparado o melhor aluno da disciplina, recebendo constantes elogios do professor. Inclusive, essa era uma das possibilidades de carreira que o jovem pensava em seguir quando tentasse a sorte na faculdade e, no futuro, quem sabe, tornar-se professor tal qual Connors.

Durante a aula, o jovem Parker estava tentando pensar em como faria para lucrar com as habilidades que recebeu daquela aranha, mas nada vinha a sua cabeça, nenhuma ideia, um grande branco. Passou pelas mais variadas ofertas de ganho de dinheiro fácil, coisas que vagavam por atração de circo a animador de festa infantil, também passando por exibicionismo, animador de públicos e lutador clandestino. Nenhuma das opções parecia tão viável para ele.

— Quero que formem trios para a análise da próxima amostra. — Anunciou o Professor Connors. No mesmo instante todos começaram a se mover, cada um na direção das pessoas mais chegadas. Peter foi para o lado de Cory. Como eram o único amigo um do outro, a escolha era óbvia. Apesar de Peter ter ficado mais próximo de outras pessoas, seu fiel companheiro ainda era Cory.

— Oi, Peter. Oi, Cory. Posso formar trio com vocês. — Peter reconhecia a voz, mas ainda assim não acreditou que pudesse ser real, porém, quando se virou, lá estava ela, linda e brilhante como o sol como sempre, Liz Allen.

— Você quer fazer com a gente? Nem ferrando que isso é real, só posso estar sonhando. — Falou espantado Cory.

— Quero sim, Cory. Liz sorriu quando dava a resposta. — Foi o suficiente para Peter se derreter inteiro. Nunca havia visto sorriso mais lindo na vida. Allen continuou.— Minha média tá horrível, sei que vocês são bons nela, pensei que poderiam me ajudar.

— Se é assim, com toda certeza ajudamos. — Cory disse dando um tapa nas costas de Peter.— Afinal de contas, quem nunca sonhou ser usado por Liz Allen? Não é mesmo Peter?

— Hã? — Disse Parker finalmente acordando dos delírios de contemplação por Liz Allen. — Claro, claro. É um prazer te ajudar, Liz.

— Ah meninos, obrigadaaaaa!!! — Disse a garota dando um abraço em cada um. Peter quase desfaleceu com o gesto. Era até bobo o jovem quanto amava Liz, mas sabia que tinha que se controlar.

— Se render abraços como esse, eu limpo até a sua casa. — Brincou Cory. Liz sorriu.

Os três se sentaram junto no balcão. Peter no meio e cada um dos outros dois nas pontas. A cada vez que Liz aproximava-se para tecer algum comentário ou somente observar a amostra, o jovem Parker tremia-se por inteiro. Nem ao menos formular uma frase sem gaguejar conseguia.

— Pe-Pe-Penso que-que essa sub-substância está diretamente li-ligada ao tó-tópico dito pelo pro-professor na semana passada.

Sentia-se um completo idiota quando estava próximo de Liz.

— Peter, dá uma segurada aí. Você tá tremendo que nem vara verde. — Cochichou Cory em determinado momento.

— Tô tentando, mas tá difícil.

A aula, ainda assim, ocorreu tranquilamente até certo ponto, quando alguém veio informar o professor Connors sobre algo. Esse alguém era Flash Thompson. O playboy entrou na sala com a empáfia que lhe era característica. No entanto, quando virou os olhos para os balcões da sala, onde estavam os alunos, e viu Liz sentada junto a Peter e Cory, travou. Não foi algo de mero um instante, foi bem perceptível, a todos.

Flash voltou a se mexer. Falou o que queria ao professor e deu meia volta para a porta. Entretanto, Peter notou um último olhar do playboy e, pôde decifrar o que estavam por trás daqueles olhos. Era ódio. Flash estava claramente furioso. E pelo que Parker percebeu, Liz também viu isso.

No mais, tudo ocorreu com tranqulidade no restante da aula. A análise do trio de Peter foi elogiada por Connors. Algo que Parker já esperava. Liz, por sua vez, ficou extremamente feliz por aquilo. Peter imaginou que ela não devia receber tantos elogios vindo de professores. No corredor, quando saíram da sala, ela os agradeceu novamente.

— Obrigada! Obrigada! Obrigada! Vocês são demais, meninos. — Ela os abraçou novamente. Outra vez Peter quase desfaleceu.

— Por nada, Liz. Quando quiser nos usar de novo é só chamar. — Cory estava decididamente muito engraçadinho aquele dia.

— Por na-nada, Liz. Foi um pra-prazer te ajudar. — Disse Peter. Tinha conseguido se controlar um pouco, mas não muito. Considerava pelo menos que a gagueira perto de Liz estava em menor quantidade. Pensou que isso já era um avanço.

Os três separaram-se. Liz foi até a sua turma por um lado do corredor, Peter e Cory seguiram pelo outro lado.

— Você estava patético, Peter. — Comentou Cory.

— Eu sei. Tentei me controlar, mas perto da Liz fico ainda mais bobo. — Reconheceu Peter passando a mão pela testa frustrado e um pouco envergonhado.

— Percebi que não conseguiu, e a Liz deve ter percebido também. — Brincou Cory.

— Eu sei, eu sei. Sou um idiota. — Se martirizou o jovem Parker.

— Agora não adianta ficar assim. — Aconselhou Cory. Pensa que na próxima você vai conseguir tecer uma conversa normal com ela.

— Até parece que vai ter próxima. — Disse Peter pessimista.

— Achei que você era popular? — Debochou Cory.

— Perto dela, sou o maior nerd do mundo. — Diminui-se Peter.

— HAHAHA! Talvez você não tenha mudado tanto. — Disse Cory, ele ria.— Esse é o amigo que eu conheço.

Enquanto os dois conversavam, o movimento aumentava ao redor deles. Pessoas corriam na direção oposta. Peter aos poucos começou a notar isso. Pela expressão de Cory, ele também. Logo os dois começaram a ouvir vozes alteradas vindo de onde as pessoas iam.

— O que será que tá acontecendo? — Pergunta Cory.

— Não sei, mas vamos descobrir. — Peter empurrou a cadeira de Cory, mesmo com ele tentando reclamar, indo rumo à direção da confusão. Conforme se aproximavam as vozes ficavam mais altas, logo reconhecê-las ficou fácil.

— Você não manda em mim, entenda isso. — Liz gritava claramente furiosa.

— Você é minha namorada, Liz. — Gritava de volta Flash.— Me deve respeito.

— Sim. Sou sua namorada, não sua propriedade. — Gritou Liz.— E nunca te dei motivo para acreditar que não te respeito.

— Você sempre se achando a tal, não é? Pois eu sou Flash Thompson. Eu mando na porra dessa escola.

— Você pode mandar em todo mundo aqui, mas em mim você não manda. — Liz era firme.

A discussão juntou toda a escola como plateia. As pessoas se aglomeravam pelo corredor para assistir a confusão. Uns riam achando divertido tudo que acontecia, outros fofocavam animados, alguns estavam chocados com o que presenciavam, e ainda haviam aqueles que apoiavam que a briga escalasse para algo mais sério.

— Peter, que loucura. O Flash é completamente pirado. — Fez piada Cory.

— Acho que tenho que fazer alguma coisa. — Disse Peter encarando sério a discussão

— Fazer alguma coisa? — Assustou-se Cory. — Você tá doido, nada de se meter nisso.

— Não posso deixá-lo falar assim com ela. — Peter parecia decidido a se meter.

— Pode sim. Isso não tem nada a ver com você. — Exclamou Cory segurando o braço do amigo. Peter o encarou, fez uma expressão de quem pedia desculpas e puxou o braço, gritando:

— Para de gritar com ela, Flash. — Todos viraram seu olhar para Parker.

— Parker. — Sorriu enfurecido Flash.

— Não se meta, Peter. Eu lido com isso sozinha. — Pediu Liz.

— Desculpa, Liz. Mas não posso vê-lo gritar com você e não fazer nada. — Disse Peter indo até próximo dos dois.

— Bancando o herói, Parker? — Debochou Flash.— Por mim tudo bem, já estava querendo te dar uma lição mesmo, seu arrombado.

Peter se prostrou a frente de Liz protegendo-a. Sabia que estava cometendo uma loucura. Flash era duas vezes maior que ele, mas isso não importava mais naquele momento. Não iria permitir de jeito nenhum que alguém gritasse com a garota que amava.

— Peter, se afaste. — Liz falava, agora não mais aos gritos.— O Flash tá nervoso, ele pode acabar fazendo uma besteira contigo.

— Tá tudo bem, Liz. Eu sei me cuidar. — Tranquilizou-a Parker.

— É, Liz. Ele sabe se cuidar. — Flash sorria quase enlouquecido.

As pessoas ao redor cochichavam sobre o que estava acontecendo. Alguns falavam mais alto, desses Peter podia ouvi-los falar que ele era doido de enfrentar Flash, mas Parker não ligava, agora, depois da aranha, ele teria chances contra Thompson.

— Cai pra dentro, filho da puta. — Chamou para briga Flash. O playboy fez pose de luta.

— BRIGA! BRIGA! BRIGA! BRIGA! — Gritavam as pessoas ao redor.

— Peter, não. — Tentou uma última vez Liz.

— Se afasta, Liz. — Aconselhou Peter.

Ali, no meio do corredor, o garoto dava a sua maior demonstração de coragem na vida. Fez pose de briga também. Flash aproximou-se e desferiu um soco na direção do rosto de Peter. No entanto, algo inesperado ocorreu. Como que se por um sexto sentido, Parker sentiu o perigo do soco se aproximando, instintivamente inclinou a cabeça e o corpo para o lado. O punho de Flash passou rente a orelha do garoto. O ventinho do movimento tocou suavemente os cabelos de Peter. Ele havia se esquivado do soco.

— Mas que porra é essa? — Exclamou confuso o playboy. A plateia fez coro de surpresa e espanto.

Flash não desistiu. Socou novamente, mas, mais uma vez o sexto sentido fez Peter agir por instinto e esquivar. Thompson desesperou-se. Começou a desferir seguintes socos contra Parker. Não adiantava, nenhum sequer chegou próximo de tocar Peter.

A plateia estava embasbacada. Ninguém falava nada, apenas observavam chocados o que aconteciam. Era Flash Thompson sendo feito de idiota por Peter Parker. O nerd patético Peter Parker. Aquilo era algo difícil de acreditar que realmente estava acontecendo.

Peter lembrou-se então dos artigos que leu do Dr. Ferguson. Algumas aranhas quando atacadas demonstram rapidez quase inacreditável para escapar dos botes de predadores. Algo quase como se previssem o que iria acontecer. Algo como um sexto sentido de aranhas, ou simplesmente, um sentido aranha.

Flash cansou. Estava claramente exausto de seguidas tentativas e falhas. Aproximou-se outra vez de Peter e tentou um chute, no entanto, outra vez o sentido aranha alertou Parker, que saltou, indo extremamente alto. a plateia soltou um “ohhhh” de espanto. Em seguida, já de volta ao chão, Peter agiu. Com um movimento do braço desferiu um forte soco no queixo de Flash Thompson. O playboy voou do outro lado do corredor, caindo completamente nocauteado.

Todos olhavam Peter boquiabertos, não acreditando que aquilo aconteceu. O garoto virou o olhar para Liz, ela estava espantada, assim como Cory. Peter entendeu então o que havia feito. Nocautear Flash Thompson era acabar com um reinado sombrio naquela escola. Sentiu-se incrível por isso. E ainda mais, pois graças aquela confusão, chegou à conclusão do que faria para se dar bem com os poderes. Iria se inscrever no evento clandestino de luta livre que iria rolar na noite do dia seguinte.

--0—

— Bom dia. Eu gostaria de falar com o Dr. Farley Stillwell. — Disse Gargan a recepcionista.

— Só um momento. — Ela respondeu, ligando para o cientista. Mac esperou observando-a, mas virando o olhar em constrangimento quando ela o encarou de volta.— O Dr. Stillwell não esperava ninguém hoje.

— Diz para ele que é o Gargan. — Iniciou.— E que é urgente.

A recepcionista passou o que Mac disse, e no mesmo instante já disse que o cientista o encontraria em vinte minutos no restaurante a duas quadras da Oscorp. Gargan se dirigiu até lá. No entanto, não esperou por vintes minutos, nem trinta ou quarenta, nem sequer uma hora. O tempo passou e o ex-segurança continuou esperando. Quando já haviam se passado mais de uma hora e meia, Mac imaginou que alguma coisa tinha acontecido e Stilwell se atrasou. Quando duas horas se passaram, Gargan começou a pensar que o cientista não viria. Quando três horas se passaram já era uma certeza.

Chovia no momento que Mac deixou o restaurante. Na chuva, o homem olhou para o alto para sentir a água no seu rosto. Chorou. Ele era ridículo, um lixo completo, tratado por todos assim. Não sabia o momento em que tornou aquela figura patética, talvez sempre tenha sido assim, mas estava cansado daquilo tudo. Tomou uma decisão, iria falar com Stillwell nem que tivesse que esperá-lo até o fim do expediente da Oscorp. E assim ele fez.

Já eram seis da tarde quando o cientista deixou a Oscorp indo até o seu carro no estacionamento. Gargan o seguiu até lá.

— Agora nós vamos ter a nossa conversa, doutor. — Gargan abordou o cientista.

— Gargan? O que você faz aqui, idiota? Ninguém pode nos ver juntos, seu animal. — Exclamou Farley, saindo do susto da abordagem repentina para o medo de alguém os ver.

— Já disse, vamos conversar. — Mac estava com raiva, não iria ceder.— Minha mulher exigiu que eu recebesse o prometido.

— Puta que pariu, você é um bosta mesmo. — Falou o cientista fazendo cara de nojo para Gargan.— Nem em casa você tem pulso.

Mac chorava, mas, por sorte, a chuva escondia.

— Só me pague e eu vou embora. — Disse Gargan.

— Entra no carro aí, porra. — Iniciou Stilwell abrindo sua porta.— Que a gente conversa.

Mac assim fez. Já dentro do carro, Farley disse.

— Não te falei que você teria que ser paciente?

— Minha mulher ameaçou me deixar se você não me pagar. — Falou Mac

— Ah puta merda, Gargan. — Exclamou Stilwell socando o volante do carro. Que espécie de homem é você? Imponha respeito na sua casa, caralho.

Gargan vacilou por um instante, mas conseguiu rebater.

— Por favor, Dr. Stillwell. Apenas me pague.

— Já disse que vou pagar, mas você tem que ter calma. — Falou o cientista.

— E quando vai ser o pagamento? — Questionou Gargan. Ele tremia. Tinha medo da esposa cumprir a ameaça feita e realmente deixá-lo. Não podia viver sem ela, não saberia o que fazer sem ela.

— Ainda não sei, mas será logo. — Sorrindo, disse o cientista tranquilizando Mac.— Agora, saia do meu carro.

— E a minha esposa. — Perguntou Gargan temeroso.

— Faça o seguinte. — Iniciou Farley demostrando impaciência.— Amanhã eu ligarei para você e converso com ela, tudo bem assim?

Gargan confirmou com a cabeça.

— Ótimo. Agora saia do meu carro e não volte a Oscorp. — Finalizou a conversa o cientista.

Mac saiu. Ainda chovia. Porém, agora ele estava mais tranquilo, pois o doutor tinha muito mais capacidade que um burro como ele de convencer a esposa. Sentia que tudo ficaria bem. No entanto, por algum motivo, continuava a chorar. Não sabia explicar aquilo, mas se sentia triste e inútil. Chegou à conclusão que aceitar a proposta de Dr. Stillwell de matar as aranhas havia sido um erro. Mas, agora, naquela noite chuvosa, nada poderia fazer. Ali, sozinho, novamente olhou para o céu. A chuva caiu diretamente em seu rosto, acolhendo-o. Assim como quando era criança, sua mãe fazia. Sentia saudades dela. Sozinho, retornou para casa.

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Tio Ben olhava o sobrinho desapontado. Peter, no entanto, não queria saber daquilo. Havia brigado com Flash e brigaria de novo caso fosse preciso. Afinal de contas, se ele recebeu esses poderes, não existiria razão para não os usar para fazer o que desejava a tanto tempo. Dar uma lição em Flash foi o que o jovem e Cory sempre quiseram, mas quando isso foi possível, todos ficaram contra ele. Cory, os tios, todos do colégio que pareciam que gostavam dele, estavam contra o que havia feito. Aquilo para Parker era injusto. Extremamente injusto.

— Não adianta ficar emburrado. — Disse Ben enquanto dirigia tranquilamente pela cidade. Levava o sobrinho ao colégio. Como Tia May havia avisado no dia anterior, o tio queria conversar com o jovem.

— Não estou emburrado, estou indignado. É diferente. — Disse Peter sem olhar para o tio. Apenas observava a rua pela janela do carona do carro.

— Pois não devia. — Falou Ben, demonstrava tranquilidade.

— Como não? O Flash merecia, mas agora, todos estão contra mim. — Peter estava frustrado.

— E estão com toda razão por isso. — Disse o tio. O sobrinho ficou ainda mais revoltado.

— Ele é um babaca. Sempre foi um babaca. E eu cansei de só escutar as babaquices dele calado. — O garoto não olhava mais para janela, mas ainda não encarava o tio, mantinha os olhos virados para a sua frente. Um congestionamento se formava.

— Ele ser um babaca não te dá o direito de rebaixar-se ao mesmo nível. — Disse firme o tio.

— Rebaixar-se ao mesmo nível? Por favor, tio Ben. — Elevou a voz o garoto. Eu não aguento mais isso. Por que todos são assim? Por que o mundo é assim? Eu não posso dar o que um idiota merece? Isso é injusto para caralho.

— Olha a boca. — Reprendeu o tio. Filho, escute. Você é jovem, está conhecendo o mundo agora, ainda por cima numa fase de mudanças.

— Mudanças. — Sussurrou Peter.— E põe mudanças nisso.

— Me escute, por favor. — Pediu o tio.— Sei do que estou falando, passei pelas mesmas mudanças na sua idade.

— Ah não passou não. — Disse o jovem dando um sorriso debochado.

— O que eu estou querendo dizer é que entendo que as vezes a vida pode parecer injusta, está entendendo?

— Tio Ben, eu não quero entender nada. — Foi duro o garoto. Mas aquilo era o que realmente pensava. Sabia que o tio estava tentando dar conselhos a ele, mas não havia pedido e nem desejava conselho algum. A única coisa que importava para Peter naquele dia era a luta valendo 1200 dólares que teria. Aquele blá blá blá do tio só o irritava.

— Filho, escute. — Pediu o tio outra vez, porém, Peter já estava cansado.

— Não! Escuta você, Tio Ben. — O garoto elevou o tom. Praticamente gritava. Encarando o tio, continuou.— Eu não quero conselho nenhum, você não tem nenhuma obrigação de me aconselhar e eu não tenho nenhuma obrigação de te ouvir. Você não é meu pai.

O carro parou abruptamente. Peter tomou um susto. Mas olhando para frente viu que Ben havia parado por conta do congestionamento que havia se formado. Ainda assim, o garoto viu, de relance, lágrimas encherem os olhos do tio, mas com rápidas piscadas elas voltaram a desaparecer. O garoto sentiu-se mal por ter dito aquelas palavras, todavia, era a verdade. Ben não era seu pai. Seu pai verdadeiro havia morrido há muito tempo, quando ainda era uma criança.

— Não estou tentando ser seu pai. — Iniciou Ben. A voz vacilava levemente.— Só quero, como alguém que ama e se preocupa com você, o seu bem.

— Olha, tio. — Peter respirou fundo.— Não precisa, já disse.

— Peter, por favor. — Ben tentava, mas o jovem Parker estava decidido.

— Não, tio. Por favor, você. O Flash precisava de uma lição, e apenas eu tinha o poder e a vontade para dar uma lição nele. Não me arrependo, e faria de novo.

— Ter o poder para agir não é tudo. Há algo que deve caminhar junto com essa força. — Disse Ben. Que apesar das palavras de Peter, olhava-o com carinho.

— Bobagem. — Falou o jovem revirando os olhos.

— Não é. — Foi firme, Ben Parker.— Lembre-se sempre. Com grandes poderes, vem grandes responsabilidades.

— Lá vem o senhor outra vez. — Disse Peter, impaciente. — Já disse, não preciso de conselho nenhum.

— Tudo bem. — Ben deu um longo suspiro, olhou para o volante e voltou o olhar para o trânsito. Peter sentiu-se aliviado que aquela conversa finalmente havia acabado. Quando olhou pela janela novamente, sentiu a vontade de abri-la. Assim o fez. Uma leve brisa o envolveu, despenteando levemente seus cabelos. Olhou para o tio. Pensou em pedir desculpas pelo que havia dito, mas reconsiderou, ainda estava irritado. Deixou esse pensamento se esvair em sua mente, teria muito tempo depois para se fosse o caso, pedir desculpas a ele.

Há momentos na vida que marcam e mudam nossas trajetórias. Às vezes é um acontecimento, as vezes são ações que tomamos, ou que tomam contra nós, outras vezes são meros olhares, porém, em certas ocasiões, são apenas palavras. Raramente notamos esses momentos de imediato, alguns nunca sequer perceberemos. No entanto, eles continuam a acontecer.