O espetacular Homem Aranha: Uma história
4 Cap 4 Escolhas e atitudes.
Haviam sido dias frustrantes para Lancel desde o fracasso da exposição. Reiniciar o projeto das aranhas era o mais lógico a se fazer. No entanto, Ferguson estava completamente esgotado mentalmente pelo trabalho perdido. Cogitava abandonar a Oscorp e apenas ir viver a sua aposentadoria. No entanto, desistir do sonho de sua vida não era tarefa fácil.
Naquela manhã, em específico, as coisas estavam ainda piores. Uma forte dor de cabeça o atormentava desde que acordou. Sua esposa o havia aconselhado a apenas tomar um remédio e descansar.
— Faltar um dia ao trabalho que você jamais faltou não é o fim do mundo. — Ela repetia.
Todavia, sim, para Lancel aquilo seria o fim do mundo. O trabalho sempre aliviava sua cabeça, só que, desta vez, nem isso ajudou. A dor de cabeça seguia insistente e sem dar sinal que o deixaria tão cedo.
Estava na sua sala, dentro da sua ala do laboratório, que desde que sua pesquisa foi substituída como a principal, passara a ser bem pequena. Apesar de tudo, isso era o que menos o incomodava. Acreditava que um cientista competente poderia obter resultados em quaisquer circunstâncias, apenas não tinha mais a certeza se ainda era um cientista competente.
Entretanto, de uma coisa ele tinha certeza absoluta, os gritos na sua antiga área do laboratório o irritavam profundamente. Desde que Farley tinha sido transferido com sua equipe para lá, o lugar havia virado uma algazarra sem fim. Os gritos empolgados e felizes eram comuns em todas as alas do laboratório quando ocorriam avanços significativos nas pesquisas, mas Farley havia banalizado isso. Todos os dias, nas mais variadas horas, irrompiam gritos de comemoração de Stillwell e sua equipe. Ferguson chegou a imaginar que sua irritação perante aquilo era apenas a inveja o corroendo, mas quando outros colegas cientistas também começaram a reclamar, Lancel tranquilizou-se e teve certeza de que aquilo havia passado dos limites.
— Norman, não dá para trabalhar dessa forma, você tem que tomar uma atitude. — Ferguson disse para Osborn. Afinal de contas, o dono da empresa era o único que poderia tomar alguma atitude e colocar ordem naquela bagunça. No entanto, o empresário recusou-se a agir.
— Escuta, Lancel. Eu não vou atrapalhar o andamento da pesquisa do Farley. Essa algazarra toda aí que você está dizendo, sendo estranho ou não, está dando resultado. Todos os dias o Farley me traz resultados do avanço do trabalho dele, e tudo vai seguindo em ritmo acelerado. Agora você quer que eu simplesmente atrapalhe isso? Sem chances.
— Mas, Norman... — Tentou contrapor Lancel, mas foi interrompido.
— Sem essa de “mas, Norman”. Te dei todo o investimento que você desejava e a coisa fracassou. Então, Lancel, agora é hora de você se sentar e observar o Farley. — Aquelas palavras foram doloridas de se ouvir, mas nada que Ferguson não esperasse de Norman Osborn. O empresário concluiu.— E diga isso a todos os outros cientistas, essas palavras valem para eles também.
A única coisa que Lancel poderia fazer agora, assim como foi dito por Norman, é se sentar e ouvir aquela gritaria. Entretanto, daquela vez, até para os padrões de Farley, os gritos haviam passado dos limites. Já eram minutos de algazarra generalizada na ala de Farley. Ferguson até tentou apenas ouvir, no seu canto, calado, mas não deu. Levantou-se, saiu de sua sala e se dirigiu até o laboratório de Stillwell, disposto a colocá-lo no seu devido lugar. Entretanto, chegando lá, viu que o que acontecia era uma comemoração. Ficou um momento parado à porta sem entender o que estava acontecendo. Até ser visto por Farley.
— Olha só quem está aí HAHAHA! — Disse Stillwell sorrindo largamente e um pouco alcoolizado, indo até Lancel.— Venha, meu amigo. Comemore conosco o meu sucesso.
— Comemorar? Comemorar o que? — Questionou Ferguson confuso.
— Não ouviu? O meu sucesso. — Stillwell tinha uma taça de espumante em mãos quando aproximou-se de Lancel.
— Que diabos está falando, Farley? Está bêbado. — Disse Ferguson, afastando-se perante o hálito de álcool de Stillwell.
— Fernando, Fernando, venha cá. — Farley gritou um dos membros de sua equipe.— Pegue a frasco e mostre a ele.
Fernando dirigiu-se até a mesa de experimentos e pegou um frasco e uma seringa e veio até os cientistas.
— O Fernando é muito eficiente, Lancel. Apesar de ser paraguaio. — Fez piada Stillwell.
— Sou brasileiro, Doutor. — Corrigiu Fernando.
— Claro, claro, tudo a mesma coisa. — Disse Farley tomando o frasco e a seringa das mãos do ajudante.— Aqui está, Lancel.
— O que exatamente? — Perguntou Lancel.
— A nossa arma contra o filho da puta do Stark. — Disse abrindo um sorriso triunfante Farley. Um liquido balançava dentro do frasco.— Contemple a nova arma para a criação de soldados dos Estados Unidos da América, este é o Soro do Escorpião.
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Aquele dia do colégio não interessava para Peter. A sua verdadeira preocupação estava no que aconteceria a noite, mal podia esperar para faturar os dois mil dólares que o anúncio prometia no ringue de luta livre clandestina. Por conta da ansiedade, não conseguia disfarçar o comportamento estranho e a falta de interesse nas coisas comuns do dia a dia. Cory percebeu isso.
— O que você tem, Peter? Tá ainda mais estranho hoje que nos dias passados. — O amigo o questionou dessa forma algumas vezes. Todavia, o jovem Parker tratou de se esquivar do assunto todas as vezes.
Para início de conversa, acreditava que nem devia estar ali. Só não foi suspenso pela briga com Flash, por causa do seu bom comportamento de anos. No entanto, pelo menos naquele dia, Peter preferia não estar no colégio, e sim, preparando-se para o duelo que teria.
Logo que o sinal tocou pela última vez, Peter saiu em disparada. Ouviu Cory chama-lo ao fundo, mas, dessa vez, não poderia dar atenção ao amigo, havia coisas mais importantes com as quais se preocupar. A luta era tudo o que interessava.
Antes de ir para o local da luta, Parker foi comprar roupas em bazares do bairro. O evento era de entretenimento, e um dos requisitos para participação, era fantasiar-se e criar um personagem para o público torcer. Esse detalhe era fácil para o jovem, seus novos poderes davam um norte claro de que personagem usar.
— Pra que você vai usar essas roupas, meu jovem? — Perguntou a dona do Bazar. Peter a olhou e ergueu uma das sobrancelhas
— Desculpe, senhora, mas isso não é da sua conta. — Respondeu Parker. Ela fechou a cara para ele.
Peter comprou uma calça azul de um material que, para ele, parecia algum tipo de moletom. A camisa era uma de manga longa vermelha, haviam detalhes azuis nela e, no peito, uma aranha estilizada. Havia comprado também uma máscara, ela era vermelha e cobria quase o rosto inteiro, com a exceção da região dos olhos. Aquele seria o traje do Aranha Humana. Nome inventado por Parker. Inclusive, ele havia achado o nome uma ótima ideia, dificilmente existiria um melhor.
Agora que estava pronto, Peter dirigiu-se para o local marcado. Logo que fez sua inscrição, que havia considerado inclusive um processo bem complicado, mas que conseguia entender que era para proteção dos organizadores do evento clandestino, recebeu o endereço em uma mensagem no celular. Quando chegou lá, percebeu que o lugar ficava muito próximo a biblioteca na qual o seu tio trabalhava. Pensou que deveria se apressar para não correr o risco dele ou algum conhecido vê-lo.
A noite já havia caído quando Parker chegou ao local. Bateu numa porta de uma casa que parecia apenas uma casa comum. Um homem mal encarado entreabriu a porta.
— O que quer aqui? — Perguntou o homem.
— Sou participante. — Disse Parker, sendo firme. E, em seguida, mostrando a mensagem que recebeu no celular.
O homem olhou o aparelho, conferiu o garoto de cima a baixo e falou:
— Que Deus tenha piedade de você, menino. — Peter quase riu disso. O homem abriu a porta para sua entrada e, assim Parker o fez.
Seguiu por um corredor escuro até chegar em outra porta. Lá, nada foi pedido, apenas passou tranquilamente, dando de cara com uma multidão espalhada pela plateia. Diferente do que parecia, o local era enorme, um grande ringue encontrava-se no centro, uma luta já acontecia. Peter tentou achar um lugar entre o público para assistir o combate, porém, o lugar estava lotado, o que dificultava essa tarefa.
— Ei, garoto. — Alguém o abordou pelas costas.
— Eu? O que foi? Perguntou Peter assustado, olhando para trás e dando de cara com um homem negro alto.
— Você também é participante dos combates de hoje, não é? — Perguntou o homem.
— Sou sim. — Respondeu Parker.
— Meu deus, eles estão aceitando qualquer um mesmo. Venha comigo. Tomara que você não morra. — Peter engoliu em seco. Não podia imaginar que alguém morresse ali. No entanto, seus pensamentos foram interrompidos por um grito de horror da plateia.
— Esse daí já era. — Disse um homem no meio do público.
— O Esmaga Ossos é um monstro mesmo. Impressionante. — Falou outro.
Peter assustou-se com aquilo e, perguntou-se o que estava acontecendo. Logo a resposta veio. Três homens carregavam em uma maca um corpo aparentemente morto para longe do ringue. Já no próprio cenário das lutas, um homem enorme, altamente musculoso e mal-encarado berrava loucamente como um lunático.
— Venha qualquer um, vou destroça-lo. Vocês serão as minhas putinhas hoje, e eu trato as minhas vagabundas do jeito que merecem. — Ele então pega uma cadeira e a parte ao meio para demonstrar aquilo que faria.
— Quem é esse? — Pergunta Peter ao homem que o abordou. O garoto, de olhos arregalados, estava assustado.
— Bom... Ele é quem você vai ter que derrotar se quiser a grana da luta. — Iniciou o homem.— Seu nome é Esmaga Ossos.
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O dia correu tenso para Mac. Durante todo o tempo ele olhava o seu celular, esperava ansioso a ligação do Dr. Stillwell, mas ela não chegava em momento nenhum. A preocupação corroía o ex-segurança profundamente, porém, ele sabia que aquilo era bobagem, pois o cientista iria ligar. Ao menos, era nisso que Gargan acreditava piamente.
Karine não falou com Mac desde o dia anterior. Quando ele chegou em casa, após a conversa com o Dr. Stillwell, a primeira coisa que fez foi conta-la como havia se desenrolado o encontro com o cientista. A reação de Karine foi de revolta absoluta.
— Ele te enganou de novo, seu infeliz. — Ela gritava.
— Não, amor. Ele vai ligar, ele prometeu que iria. — Tentou tranquilizá-la Mac.
— Do mesmo jeito que prometeu que iria te pagar? — Ela disse, havia abaixado o tom.— Até quando você vai ser idiota assim?
— Amor, eu te juro, vai ficar tudo bem. — Mac havia acolhido as mãos de Karine entre as suas, tentou abraça-la, mas Karine se afastou.
— Eu já te avisei. Se ele não pagar... — Começou Karine.
— Ele vai. Garanto. — Assegurou Gargan.
— Espero que sim. — Concluiu Karine.
A espera era tudo que restava a Mac. Foi então que o celular tocou. O ex-segurança correu para atender. A distância que ele estava do aparelho era curta, mas a caminhada até atendê-lo pareceu durar uma eternidade. Quando pegou o celular, Gargan tremeu, aquela ligação decidiria o futuro da sua vida.
— Alô! — Disse ao atender.
— Boa tarde! O senhor está interessado em adquirir um novo plano de assinatura mensal para o seu chip? Este pla... — Gargan desligou.
— Quem era? — Perguntou Karine atrás do marido.
— Só mais uma dessas ligações idiotas de telemarketing. — Informou a esposa Mac.
— Já é quase noite, cadê a tal ligação do cientista que você havia dito?
— Ele vai ligar logo, não se preocupe. — Disse Gargan.
— Espero que ligue, Mac. — Finalizou Karine.
A lua já reinava sozinha entre os edifícios no céu sem nuvens de Nova York e nenhuma ligação chegava. Mac estava sentado no seu sofá encarando o celular insistentemente, balançava a perna nervoso em um movimento ritmado. Várias coisas passavam por sua cabeça. Questionava se havia sido enganado novamente, e caso isso fosse verdade, pensava em diversas formas de convencer Karine a não o abandonar. Tinha certeza que conseguiria. Afinal de contas, ela o amava. E o amor a faria ficar.
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O celular tocou. Mac olhou o número, era desconhecido. Pegou o aparelho, nervoso mais uma vez, temeu que outra vez fosse ligação de telemarketing. E então, suando frio, ele atendeu.
— Alô! — A fração de segundos de espera pela resposta foi angustiante para Gargan.
— Boa noite, Gargan. Sou eu. — A voz inconfundível do Dr. Stillwell tranquilizou Mac. Ele sorriu consigo mesmo, e seus olhos encheram-se de lágrimas. Pela primeira vez em muito tempo, ele vivia um momento de felicidade. Seu casamento estava salvo.
— Que bom, Dr. Stillwell. Agradeço muito que o senhor ligou, agradeço muito mesmo, o senhor não tem noção do quanto. — Mac estava quase eufórico, já chorava de tanta alegria.
— Você está chorando, idiota? Pelo amor de Deus, tome vergonha. — A voz do cientista era de desprezo.
— Desculpe, Senhor. Eu só est...
— Não me importo. Vamos, passe essa bosta desse celular para sua mulher. — Dr. Stillwell era seco, claramente não estava contente em fazer aquilo.
— Sim, senhor. — Karine já esperava próxima ao marido. Mac entregou o celular a ela.
— Saía daqui. — Disse ela para Gargan, apontando para ele subir para o quarto dos dois.— Não quero ficar olhando essa sua cara de fracassado enquanto converso com o Doutor aqui.
Mac obedeceu, era tudo que restava a ele fazer. Chegando ao quarto, sentou-se sobre a cama. Ali, observou o local. Passou os olhos pelas fotos de casal com Karine, havia uma sobre a mesa de cabeceira de pouco depois de terem começado a namorar. Estavam em uma roda gigante, aquele havia sido um dia bastante feliz. Em outra foto, essa sobre a cômoda que ficava o abajur do quarto, os dois no segundo aniversário de namoro, estavam em um campo de girassóis numa noite de primavera, longe de uma grande cidade, apenas com a companhia um do outro, e das estrelas, que iluminavam aquela noite mágica. Mac acreditava que foi naquela noite que pode contemplar a mais bela lua da sua vida, e ainda assim, aquela lua não era mais bela que a sua Karine.
Ouvia a voz da sua amada na sala, mas não conseguia identificar aquilo que ela falava. Deitou-se sobre a cama, pegou o travesseiro em que Karine se deitava, o aroma dela estava ali. Sorriu, sua mãe sempre disse que amar era um erro, ele, no entanto, discordava. Amar a sua Karine era o maior, talvez até o único, acerto de sua vida.
A voz dela se calou na sala. Olhou para seu relógio no pulso, havia se passado vinte minutos desde que subira para o quarto. Esperou um pouco mais, e diante do silêncio persistente, desceu até a sala uma vez mais.
Quando lá chegou, viu a esposa sentada no sofá, as mãos na cabeça, entre os cabelos, olhando para baixo. O celular encontrava-se no sofá, ao lado dela. Estranhou a cena, mais do que isso, temeu perante o que pudesse ter acontecido.
— Amor? — Disse sem confiança.
— Você é um idiota, Mac. — Disse Karine, continuava encarando o chão.— Um enorme idiota.
— Como assim, Amor? O que aconteceu? — Perguntou temeroso com a resposta o ex-segurança.
— Ele está nos enrolando. É isso que está acontecendo, seu burro de merda. — Ela o olhou, seus olhos eram pura raiva.
— Não... Isso não é possível. — Desacreditou Gargan.
— Não só é possível, como é o que aconteceu e o que está acontecendo. — Ela se levantou e foi até a frente de Gargan. Encarando o marido, concluiu:— E eu já tinha te avisado do que aconteceria se ele não nos pagasse, não é?
— Amor, por favor. — Mac Suplicou.
— Adeus MacDonald Gargan. — Finalizou Karine.
— Amor, não. Ele vai pagar, sei que vai. — Gargan se prostrou como uma barreira na frente de Karine, impedindo-a de passar.
— Sai da minha frente. — O olhar de raiva da esposa o machucava tanto quanto as palavras.
— Amor. — Gargan pôs as mãos nos ombros da mulher.— Vamos conversar, assim nós resolvemos isso.
Karine afastou-se do marido, e disse:
— Não existe mais conversa, Mac. Eu já me decidi. Agora, saia da minha frente.
Os dois encararam-se por um segundo. Gargan via nos olhos dela que de fato ela já havia tomado uma decisão. No entanto, só de imaginar viver sem a sua Karine, ele já não sabia o que fazer. Não podia suportar tal ideia, ela era a única coisa que possuía em sua vida miserável.
— Vamos, saia da frente. — Disse mais uma vez Karine.
— Não! — Falou Mac. Tinha que ser firme agora. Pela primeira vez na vida, Gargan devia demonstrar autoridade.
— O que você disse? — Karine parecia não acreditar.
— Não ouviu? Você não vai embora. Você é minha mulher. M- I — N — H – A. — A cada palavra que saía da boca de Mac, seu tom ficava mais alterado.
— Eu não sou sua porra nenhuma, seu verme. Saia da frente! Eu tô mandando. — Ela gritava.
— Sabe de uma coisa? Eu não aguento mais você me xingando. Você não vai mais fazer isso. — Gargan apontava o dedo no rosto da esposa. Ele também gritava.
— Não precisa se preocupar com isso. Só nos veremos no tribunal daqui por diante, para tratar do divórcio.
— Não tem divórcio. Nos casamos sob o olhar de Deus, nosso casamento é até que a morte nos separe. — Gargan demonstrava a firmeza que jamais havia tido na vida.
— Cale a boca, Infeliz. — Karine disse isso avançando para passar por Mac, para ir em direção ao quarto.— E desaparece do meu caminho.
— Não vai passar não. — Mac a segurou e a empurrou levemente na direção em que viera. Karine, no entanto, tropeça nos próprios pés, caindo e batendo a cabeça contra o braço do sofá, indo ao chão.
Mac observou-a caída por um instante. Ela não se levantava, tampouco se mexia. Estava jogada ao chão, totalmente imóvel.
— Amor? Amor? Tá tudo bem? — Lentamente, Mac aproximou-se da esposa, agachando-se ao lado do corpo dela. Ali, mais próximo, teve contato com a pior visão da sua vida. Sangue escorria da cabeça de Karine.
O desespero tomou conta de Gargan. Ele tomou o corpo inerte da sua mulher em suas mãos, balançando-o, chamando-a, beijando-a, tentando de alguma forma fazê-la esboçar alguma reação. E, perante o vazio da falta de resposta, a abraçou. Um abraço cheio de dor e tristeza.
“Nosso casamento é até que a morte nos separe”
Karine estava morta.
Com o corpo frio em seus braços, Mac chorou. Por sua culpa, a sua vida, o que realmente importava nela, agora era apenas um cadáver sem vida. Gargan se questionou se era aquilo que Deus havia preparado para ele, viver uma vida sem nada, onde a sua única fonte de felicidade era retirada dele. Se aquilo fosse o seu destino, ele negava-se a viver.
Dirigiu-se até a cozinha e pegou uma faca. Colocou-a no pescoço e fez uma oração. Pensou se o Senhor perdoaria os seus pecados, pensou se sua mãe o estaria esperando. O mundo que ele conhecia estava perdido nas sombras, mas agora, ele escaparia desse mundo para sempre.
TRIM TRIM
O celular tocou. O Doutor ligava novamente.
— O Doutor... — A ficha caiu. Não era ele quem havia matado Karine. O culpado era Farley Stillwell, o homem que o havia enganado e despertado na sua mulher o desejo de abandona-lo. No entanto, não era o único. Norman Osborn, o homem que o havia demitido e Lancel Ferguson, o homem que não fez nada para evitar sua demissão. Os três eram os culpados, e ele os faria pagar.
— Doutor. — Disse Mac atendendo o telefone.
— Olá Mac, eu queria... — Farley começou, mas Gargan o interrompeu.
— O senhor está na Oscorp? — Perguntou.
— Se estou na Oscorp? Estou. Mas por qual moti... — Mac desligou o telefone.
Gargan, com a faca ainda em mãos, dirigiu-se a Oscorp.
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— O Esmaga Ossos continua invencível no dia de hoje. — Anunciava para todo o público o locutor das lutas. Mas agora teremos um novo desafiante.
A plateia delirava a cada palavra. O monstro chamado Esmaga Ossos estava no ringue, ele fazia movimentos paras as pessoas que assistiam como se regesse uma orquestra. Era ao mesmo tempo intimidador e patético. Ainda mais pelo que ele usava, apenas uma máscara que cobria apenas os olhos e uma sunga preta. Não era na opinião de Peter, a melhor das visões que alguém poderia presenciar.
O jovem encontrava-se no corredor que dava acesso a zona de entrada rumo ao ringue, já se encontrava devidamente trajado. As pessoas da organização das lutas ao redor dele olhavam-no como se estivessem prestes a envia-lo para o abate. Ele ouvia o barulho do público e ficava nervoso, apesar de estar confiante na vitória.
— Tem certeza de que não quer desistir, garoto? — Perguntou uma mulher do grupo dos organizadores.
— Certeza absoluta. — Peter olhou-a e continuou.— Vou acabar com o Esmaga Ossos.
Ela o lançou um olhar de pena e balançou a cabeça negativamente.
— Você quem sabe. — Disse em tom de pena.— Me diga qual nome usará para eu passar para o locutor.
— Eu sou o Aranha Humana. — Disse o garoto pondo as mãos na cintura, estufando o peito e fazendo pose.
— Que nome horrível. — Ela disse. Em seguida saiu, indo pela zona de acesso até o ringue. Voltou pouco depois e disse a Peter.— Entre quando for anunciado, ok?
— Ok. — Respondeu o garoto, balançando a cabeça em sinal positivo.
— Ah, para não esquecer, mudei o seu nome, tá? O que me passou era muito ruim. — Informou a mulher antes de sair novamente, não dando nem tempo para Peter responder.
Não importava, agora faltava pouco. Logo Parker estaria com o dinheiro em mãos e mal podia esperar por isso. Já começava a pensar em como sua vida mudaria naquela noite e em todas as coisas que compraria. A ansiedade pelo futuro era maior do que a que sentia para a luta.
— SENHORAS E SENHORES. — Gritou o locutor.— DE UM LADO TEMOS O ATUAL CAMPEÃO, COM SEUS 2 METROS E 3 CENTIMETROS DE ALTURA, PESANDO 123 QUILOS, O INVENCÍVEL ESMAGA OSSOS!!!!!!!
O público foi ao delírio.
— DO OUTRO LADO, MAIS UM DESAFIANTE, SERÁ QUE ESSE SAIRÁ VIVO? HAHAHAHA! — Debochou o locutor.— COM 1 METRO E 74 CENTIMETROS, PESANDO 67 QUILOS.
A plateia riu. O locutor continuou.
— O ESPETACULAR HOMEM ARANHA!!!!!!!!!!!!!!
Era a deixa de Peter. Havia gostado do nome, mas nenhum pouco da entrada sob vaias que recebeu. Tentou não se intimidar diante daquela multidão que torcia inteira contra ele. Caminhou fingindo uma falsa tranquilidade até o ringue. Ouvia absurdos enquanto caminhava.
— Vai morrer, arrombado. — Disse um.
— O Esmaga Ossos vai te trucidar. — Disse outro.
— Vai ser colocado para mamar o gigante, pau no cu. — Disse um terceiro.
Peter só se sentiu mais motivado em vencer com aquelas ofensas, calar a boca de todos era mais uma motivação. Graças a esse sentimento, qualquer sensação de nervosismo deixou o jovem. E, enfim, subiu ao ringue.
— Espera aí. — Disse o Esmaga Ossos ao vê-lo. O homem era uma montanha de músculos assustadora.— Vou ter de brigar com esse molequinho aí?
— Você sabe como as coisas funcionam. — Disse o locutor apenas para o lutador.
— Tá certo. — Respondeu o brutamontes.— Desculpe, garoto. Mas hoje você vai morrer.
— É o que veremos, grandalhão. — Respondeu Peter provocando.
— Chega de conversa. — Disse o locutor para os dois. Dirigindo-se agora para o público, ele continuou. — SENHORAS E SENHORES, FAÇAM SUAS APOSTAS PARA ESSE DUELO EXTREMAMENTE DISPUTADO. LUTADORES... PRONTOS? ENTÃO, COMECEM!!!!
Sem dar nem tempo para Peter pensar, o Esmaga Ossos avançou com tudo em sua direção. E, apesar do tamanho, era bastante rápido. Peter se jogou para o lado, por pouco não sendo pego. No entanto, antes que pudesse se recuperar do primeiro ataque, o brutamontes já investiu pela segunda vez. Parker não tinha tempo para uma reação. Todavia, o Sentido Aranha o fez agir, e quase que por impulso, o jovem deu um mortal por cima do gigante, que se bateu com tudo nas cordas. A plateia fez coro de surpresa.
— Que porra foi essa? — Questionou o lutador desorientado.
— Como assim, idiota? Já tá com medo, é? — Debochou Peter.
— Oras, seu... — O Esmaga Ossos investiu de novo, mas, dessa vez, com mais cautela. Tentou um soco com o braço direito, porém, para sua surpresa e a de todos os presentes ali, o garoto segurou tranquilamente o gigantesco punho.
Peter sorriu frente ao choque do brutamontes. O gigante tentou um novo soco, dessa vez, com o punho esquerdo. Parker apenas se abaixou soltando o punho direito, e deu um chute no joelho esquerdo do lutador, dando a volta neste e indo para trás dele.
O Esmaga Ossos sentiu o golpe do jovem. O gigante ficou de joelhos por alguns segundos, mas levantou-se com uma fúria quase cega, partindo com tudo para cima do garoto.
— VOU TE MATAR!!!!!!!!!! — Gritou o lutador enraivecido.
Peter, entretanto, mais uma vez, esquivou-se. Em seguida, pulou sobre as cordas, ficando de pé em cima delas. O gigante o observou, atônito. A plateia olhava aquele combate boquiaberta, não se ouvia nenhum barulho vindo da multidão. Então, Parker saltou mais uma vez, agora, na direção do lutador, acertando um forte soco no seu rosto. Com um baque firme, o Esmaga Ossos caiu. E não se levantou mais. Peter Parker, para o choque absoluto de todos os presentes, era o vencedor.
— SENHORAS E SENHORES. — Gritou o locutor, segundos após a queda do Esmaga Ossos.— TEMOS UM NOVO VENCEDOR. — Erguendo o braço de Peter, o locutor finalizou.— QUERO MUITOS GRITOS PARA O CAMPEÃO, O ESPETACULAR HOMEM ARANHA!!!!!!!!!!!!!!!!!!
O público foi ao delírio. E em coro, gritou.
— HOMEM ARANHA!!! HOMEM ARANHA!!! HOMEM ARANHA!!! HOMEM ARANHA!!! HOMEM ARANHA!!!
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— Não tinha dito para você não vir mais a Oscorp, seu imbecil? — Foi dessa forma que o Doutor recebeu Mac.— Só te deixei entrar aqui porque não queria correr o risco de alguém te ver e começar a pensar coisas que não deve.
— Os dois seguranças me viram. — Disse Mac, sua voz não conseguia disfarçar o ódio que sentia por aquele homem.
— Com eles eu me viro. — Falou Farley. Os dois iam em direção ao laboratório.— E quanto a você, o que quer vindo aqui uma hora dessas.
— Algo muito importante, Stillwell. — O doutor olhou Gargan estranho, como se achasse esquisita alguma coisa.
— Tá tudo bem contigo, infeliz. — Perguntou.
— Ótimo. — Disse Mac fazendo uma tentativa de sorriso.
— Cruzes. Não sorria, tá. — Fez careta de nojo Farley.— Parece uma aberração quando faz isso.
Os dois adentraram no laboratório. Gargan observou que o local estava uma bagunça, completamente diferente da época que o Dr. Ferguson trabalhava ali. No entanto, outra coisa chamou sua atenção. Não era apenas bagunça, havia comida espalhada, taças sobre as mesas de experiência, uma grande sujeira por toda a parte, como se uma festa houvesse ocorrido.
— Houve uma festa? — Perguntou o ex-segurança.
— Como? Festa? Houve sim. — Disse desatento o doutor enquanto tentava dar uma rápida geral no local.— Estávamos comemorando o avanço da minha pesquisa. O soro que criei está pronto. Resta apenas alguns ajustes, nos testes com animais alguns morreram, então ainda falta tempo para iniciarmos as testagens em humanos. Em compensação, a armadura que criei está finalizada, falta uma coisinha ou outra, mas tudo na minha vida está indo muito bem.
O ódio dentro de Mac crescia a cada palavra que saía da boca do doutor. O maldito se vangloriava, enquanto ele estava afundado no desespero. Ainda por cima festejava a própria felicidade, enquanto ele vivia o pior dia de toda a sua vida.
— Que bom que está feliz, Stillwell. — Disse aproximando-se de Farley.— Parece que destruir a minha vida deu frutos para você.
— Que papo é esse, idiota. — Disse Stillwell fazendo pouco caso.— Não vai me dizer que essa história do pagamento ainda? Fique tranquilo, em alguns meses, assim como disse aquela retardada da sua mulher eu pago.
O rosto de Mac contorceu-se em ódio.
— Nunca mais fale assim da minha Karine. — O tom de Gargan era ameaçador, ele apontava o dedo para o doutor.
— Tá certo, idiota. Não precisa fingir que é homem, não. — Farley debochava.— Devia era estar em casa, fodendo a sua mulher, não aqui. É claro, talvez seja ela quem foda você Hahaha!
— A Karine está morta. — A ira tomava conta de Gargan. Ele apertou a faca que estava embaixo da camisa, presa ao seu corpo pela cueca e pela calça.
— Morta??? Como assim, morta? — Farley fez uma expressão de confusão.
— Por culpa sua, eu a matei. E agora vou vingá-la, matando você. — Mac sacou a faca e avançou em direção ao doutor. Farley, com um reflexo rápido pegou uma balança de pesagem de cima de um dos balcões e arremessou contra Gargan, acertando sua mão e derrubando a faca.
Com o ex-segurança desarmado, Farley tentou correr em direção a saída do laboratório. Gargan, no entanto, deixando a faca de lado, bloqueou a porta de escapatória do doutor.
— Gargan, saía da minha frente. — Gritou o cientista. Seus olhos estavam arregalados.
— Essa foram as mesmas palavras que a minha Karine gritou para mim. — Mac chorava. O ódio misturava-se a tristeza dentro dele como dois leões se engalfinhando.
— Você está doido. — Gritou Farley.
— Nunca estive tão lúcido na minha vida. — Gargan avançou novamente e, dessa vez, Stillwell não teve escapatória. O ex-segurança pegou o cientista pelo pescoço e o ergueu.— Eu vou matá-lo, depois irei atrás do Osborn e do Ferguson.
Farley se debatia enquanto era estrangulado pelas mãos gigantescas de Gargan. Mac sentia prazer encarando os olhos do cientista dominados pelo medo, enquanto percebia que as luzes da sua vida estavam se apagando. Apagando pelas mãos de alguém que ele tanto desprezou.
No entanto, Farley acerta um chute na lateral do abdômen do ex-segurança, que sentindo a dor, o solta. Stillwell pega em cima da bancada do laboratório uma seringa com um líquido dentro, e antes que Mac possa reagir, a crava em seu pescoço.
— O que é isso? — Pergunta Gargan tonto, perdendo rapidamente os sentidos.
— Isso, seu merda, é o meu Soro do Escorpião. — Farley endireita sua roupa, enquanto observa Mac desorientado.
— Soro? — A voz de Mac era vacilante e espaçada.
— O Soro que ainda não estava pronto para testes em humanos. Mas não se preocupe, pelo que vi com os animaizinhos, logo você estará nos braços da sua esposa hahaha! — Farley ria triunfante.— Achou mesmo que um bosta como você iria me matar?
Sim. Mac achou que o mataria. Entretanto, no fim, ele era apenas um lixo. Sua vida de nada valeu, se é que ele poderia chamar o que viveu de vida. Mas tudo aquilo eram apenas os frutos das escolhas e decisões que teve durantes os anos. Gargan caiu ao chão, não ouvia mais o Dr. Stillwell. Apenas a voz da sua Karine vinha a mente.
“Venha até mim, amor”
Aquela era a doce Karine que conheceu.
— Já estou indo. — Fechou os olhos e tudo ficou escuro.
--o--
— Aqui o dinheiro, garoto.
— Aqui só tem quinhentos dólares. — Iniciou Peter após contar o dinheiro que lhe fora entregue.
— E daí? — Perguntou em resposta o responsável pelos pagamentos da organização de luta clandestina. Seu nome era Clarence.
— Como assim “e daí”? O anúncio dizia que quem vencesse levava dois mil dólares. — Falou indignado, Parker. Estava numa sala do segundo andar do local, a qual o único acesso era por um elevador que, para ele, parecia muito malcuidado.
— É verdade, o anúncio dizia isso mesmo. — Disse Clarence não dando a mínima para a indignação de Peter. O garoto mal conseguia acreditar na cara de pau daquele homem.
— Então onde estão os outros mil e quinhentos dólares? — Questionou Peter.
O homem que até então encontrava-se sentado atrás de uma mesa descascada que o separava do jovem, se levantou e disse:
— Olha aqui, moleque. Em médias as lutas duram quatro minutos, mas você derrotou o Esmaga Ossos em menos de um. Ou seja, prejuízo para nossa organização. Então, contente-se com esse dinheiro e dê o fora daqui.
— Você não entendeu, esse dinheiro é meu, eu o ganhei de forma justa. — Foi firme Peter.
— Ganhou foi? — Iniciou com um tom debochado Clarence.— E quem disse que isso é problema meu? O mundo não é justo. Aprenda isso.
Cabisbaixo, Parker deixou a sala. O garoto esperava mais daquela noite, porém, aquilo era tudo que tinha conquistado. Enquanto seguia em direção ao elevador, um homem apressado se esbarrou nele, indo em direção a sala de Clarence. Peter até iria reclamar, mas o homem passou com tanta pressa que resolveu deixar para lá.
Sentiu, na calça, o celular vibrar. Havia várias mensagens da tia May, do Tio Ben, Cory, Sra. e Sr. Watson. Todos querendo saber onde estava. Só então que Peter notou que já eram mais de 23 horas. Resolveu ligar para May, para informar que já estava voltando. Ela atendeu no primeiro toque.
— Peter, graças a deus, onde você está? — May estava desesperada.— Já liguei para todos os hospitais e delegacia do bairro. Seu tio, os Watsons, a mãe do Cory, estão todos te procurando.
— Desculpa, Tia. Fui para casa de outros colegas de escola e esqueci de avisar. Nem vi o tempo passar. — Mentiu.
— Meu deus, que irresponsabilidade, Peter. — Falou May, estava brava.
— Desculpa mesmo. Pode ligar para todo mundo e dizer que estou bem, por favor? — Parker estava achando toda aquela situação um exagero, mas conseguiu disfarçar ao celular.
— Vou fazer isso. — A voz de May já parecia mais tranquila.— Quanto a você, venha direto para casa, vamos ter uma conversa séria.
— Tá legal. — Disse o jovem desligando o celular.
— EI, PEGUE ESSE HOMEM. É LADRÃO!!! — Clarence gritava na porta da sua sala, enquanto o homem que esbarrou em Peter corria desembestado na direção do garoto.— PEGUE ELE, GAROTO.
Peter, no entanto, nada fez. O homem passou por ele e entrou no elevador, estava sorridente. Antes da porta se fechar, ainda disse á Peter:
— Obrigado, irmão. — O garoto cumprimentou de volta com um movimento com a cabeça. O ladrão fugiu.
— Por que o deixou escapar? — Perguntou Clarence aproximando de Peter.— Você tinha o poder para pegá-lo e o deixou fugir.
— Deixei. — Disse Peter fazendo pouco caso.— E daí?
— Como assim “e daí”? Ele roubou o meu dinheiro. — Disse o homem indignado. Peter sorriu antes de responder.
— E quem disse que isso é problema meu?
Clarence compreendeu. Nada mais disse. Apenas deu meia volta e retornou a sua sala. Peter esperou o elevador voltar. Sorria de orelha a orelha. A justiça estava feita. Era isso o que pensava.
Quando chegou a rua, Peter sentiu o frio da noite novaiorquina, não estava vestido apropriadamente para aquele clima. Era uma noite nublada. Nem mesmo a lua conseguia sobrepujar as nuvens. Uma brisa fina o envolveu naquela rua quase deserta. Uma ou outra pessoa ainda vagava por ali àquela hora, e diferente dele, estavam bem protegidas do gelo que impregnava o ar.
Seguiu pela rua, e conforme andava, as calçadas ficavam mais movimentadas. A quantidade de pessoas indo de lá para cá crescia consideravelmente. Era até um pouco estranho tanta gente vagando tão tarde, concentradas em um mesmo lugar. No entanto, aquela não era a única coisa estranha aquela noite.
Quanto mais Parker andava, mais pessoas surgiam pelas ruas. Em pouco tempo, o jovem conseguiu ouvir vozes alteradas. Parecia que uma grande quantidade de pessoas se aglomerava próximo à onde estava. Em seguida, carros de polícia começaram a passar seguidamente por ele, rasgando a noite com suas sirenes incansáveis.
Passou em frente a biblioteca onde o tio trabalhava. O local estava fechado. Peter parou ali por um instante e observou aquele lugar. Um arrepio repentino irrompeu por seu corpo. Chegou a pensar que pudesse ser o Sentido Aranha, mas nenhum perigo ameaçava-o naquele momento.
Continuou a andar. Viu um pouco distante a sua frente, uma roda de pessoas aglomeradas. Elas falavam alto entre si. Um carro de polícia estava estacionado próximo a elas. O garoto aproximou-se do local. Estranhamente, seu coração palpitou e, quanto mais passos dava na direção daquelas pessoas, mais ele palpitava.
Uma sirene rompeu a escuridão. Uma ambulância aproximava-se da aglomeração. Peter aproveitou a abertura que o grupo de pessoas deu para a passagem dos socorristas para entrar no meio daquela massa de gente. Logo foi espremido no meio de braços que lutavam por espaço, curiosos pelo que se escondia por trás de tantas pessoas. Por fim, o jovem achou um pequeno espaço, testemunhando a pior cena que já havia visto na vida.
Os pais de Peter faleceram quando ele ainda era um bebê. Desde então, ele fora criado pelos tios. May e Ben Parker eram sua família. Agora, ali, diante dele, estirando no chão, estava o corpo do homem que lhe havia ensinado tudo que sabia.
Correu até ele. Policiais tentaram pará-lo, como se pudessem, como um tanque. Peter passou por eles. De joelhos, ficou ao lado do tio. Parker chorava, aquilo não poderia ser real, era um pesadelo, tinha que ser um pesadelo.
— Tio Bennnnnn. — Chamou Peter, debulhando em lágrimas.
— Pe...ter. — O tio o olhou, um leve sorriso formou-se em rosto.
— Tio, o que aconteceu? — Perguntou o garoto desesperado.
— Que bom... que está... bem. — Benjamin Parker fechou os olhos. Eles jamais se abririam novamente. E Peter nunca ouviria a voz aconchegante do tio outra vez.
— Qual sua relação com ele, garoto? — Perguntou, de pé atrás dele, um policial.
— É o meu tio. — O garoto soluçava. Em angústia profunda, abraçou o corpo de Ben.— Não me deixa, tio. Por favor, não me deixa.
O policial agachou ao lado do jovem, pôs a mão em seu ombro e disse:
— Ele sofreu uma tentativa de assalto. um homem armado queria o carro dele. o seu tio não reagiu, mas o homem, mesmo assim, atirou.
Os socorristas tentaram afastar Peter, porém, o garoto recusou-se a sair de perto do tio.
— Eles precisam leva-lo ao hospital. Tem que deixa-lo. — Disse ao jovem o policial.
Peter ainda em lágrimas afastou-se do corpo. Os socorristas colocaram Ben Parker na ambulância. O jovem tentou ir com ele, mas foi impedido pelo policial.
— Desculpe, garoto. Menores de idade não podem ir como acompanhantes. Ligue para alguém.
O jovem pegou o celular, estava completamente desnorteado. Procurou a tia nos contatos, mas antes de ligar, um outro policial aproximou-se do agente que havia falado com Peter. Sussurrando, disse:
— Escuta, Clark. Cercaram o assassino numa fábrica abandonada aqui próximo. — Peter pôde ouvir tudo. O ódio brotou no coração do garoto. Aquele assassino não iria escapar.
Rapidamente, Parker misturou-se a multidão, saindo do campo de visão dos policiais. Em seguida, afastou-se ainda mais das pessoas aglomeradas, adentrando uma ruela. Pegou a máscara que usara no ringue e a colocou mais uma vez. Olhou para o alto, a lua rompeu as nuvens e, brilhava agora tão forte quanto a fúria dentro daquele garoto.
Consumido pela ira, Peter pôs a mão na parede de um dos prédios daquela ruela, e tal qual uma aranha, o escalou. No topo, olhou o bairro de cima, avistou a fábrica, não estava tão longe. Ali, tomou impulso e correu. Pulou do topo do prédio que estava para outro e, assim por diante. De prédio em prédio, Parker chegava próximo a fábrica. Não era justiça que o movia, era a vingança.
Chegou ao seu destino.
Peter andava pelas paredes da fábrica como uma aranha. Sorrateiro e silencioso, ele procurava o homem responsável pela morte do tio. E a cada segundo que passava, seu ódio crescia.
Peter ouvia atentamente cada barulho dentro daquela fábrica. Máquinas rangiam conforme o vento passava por elas, ratos corriam apressados por entre os estreitos corredores, morcegos farfalhavam nos tetos cobertos de teias de aranhas. Nada escapava aos ouvidos atentos do jovem.
Até que, em determinado instante, um som diferente chamou sua atenção. Seguiu tal som. E lá estava ele, o homem responsável por atirar em Ben Parker, próximo a uma das janelas da fábrica. Silenciosamente, Peter aproximou-se. E em meio a escuridão do local, disse:
— Escondendo-se como um verme, assassino. — O eco das paredes transformava a voz do garoto em algo macabro e fantasmagórico.
— Quem está aí? Falou assustado o criminoso. — Ele apontava a arma que carregava para todos os lados em busca de onde vinha a voz.
— Foi essa a arma que usou para mata-lo? — Perguntou Peter. Mais uma vez o eco fez sua parte.
— Apareça, filho da puta. — Gritou apavorado o assassino.
— Me responda!!! — Gritou em resposta Peter.
— Ahhhhhhhh. — O assassino gritou enquanto disparava seguidamente para todos os lados.
— Está com medo, seu assassino? Pois realmente deveria. — Disse Peter.
— ATENÇÃO!!!! — Uma voz do lado de fora da fábrica gritou por um megafone.— O PRÉDIO ESTÁ CERCADO. SAIA COM AS MÃOS PARA O ALTO AGORA!!!
A polícia chegara. As luzes de seus refletores batiam nas janelas e iluminavam o interior da fábrica. Tal fato distraiu o criminoso. Essa era a chance de Peter, e ele não a desperdiçaria. Pulou contra o bandido, dando um chute na sua mão, derrubando a arma.
— Mas que porra foi es... — Dizia o assassino, mas Peter o interrompeu, agarrando-o pela camisa e erguendo-o.
— E agora, seu merda? — Gritou Peter para o criminoso.
— Por favor, por favor, por favor. — O assassino debatia-se em desespero. — Tenha piedade, eu imploro.
— Você teve piedade do meu tio? Responda!!! — Gritou Parker. No entanto, antes que o criminoso tivesse a chance de responder, a luz do refletor da polícia acertou a janela que os dois estavam. Naquele instante, o rosto do assassino de Ben Parker foi iluminado, ficando visível para Peter pela primeira vez. E, diante do choque do que vira, o jovem soltou o criminoso. Abalado, deu dois passos para trás. Não era um rosto desconhecido, aquele homem, que matou o seu tio, era o mesmo que roubara Clarence, e ele deixara fugir.
“Por que o deixou escapar? Você tinha o poder para pegá-lo e o deixou fugir.”
As palavras de Clarence voltaram a sua mente. Peter detinha o poder para ter parado o homem que atirou em Ben Parker, mas nada fez. Deixou-o escapar. Ele tinha o poder...
“Com grandes poderes, vem grandes responsabilidades”
Essas foram umas das últimas coisas que seu tio lhe disse. Havia sido ainda aquela manhã.
A vida era cruel e, às vezes, agia de maneira dura para ensinar uma lição. Peter agora entendia isso.
O assassino, no entanto, tentou atacar o garoto, que por instinto, vindos do Sentido Aranha, o empurrou. O criminoso tropeçou nos próprios pés, caindo contra a janela de vidro, que se despedaçou fazendo-o despencar do terceiro andar da fábrica. Peter, assustado, foi até a janela. Lá do alto, observou o corpo inerte do assassino. Ele estava morto.
No entanto, diferente do que imaginava, não estava feliz ou aliviado. Arrependeu-se. A morte daquele homem não era o que seu tio desejaria. Ele iria querer justiça, e aquilo não foi justiça, apenas vingança. Ben não estaria orgulhoso.
Saiu dali. Já longe da fábrica, voltou a pensar naquelas fatídicas palavras.
“Com grandes poderes, vem grandes responsabilidades”
Uma aranha, a única sobrevivente entre outras doze, o picou. Ele, logo ele, um jovem comum no meio de uma multidão. Aqueles grandes poderes que ele fora presenteado, ou amaldiçoado, nem sabia mais, davam a ele uma grande responsabilidade. Não pôde salvar o Tio Ben, tampouco trazer justiça a ele, mas poderia salvar e trazer justiça a inúmeras pessoas. Assim honraria o tio de agora em diante. E nunca mais mataria ninguém.
O celular tocou. Era May. Não sabia como iria contar o que aconteceu, mas sabia que esse era o seu dever.
— Com grandes poderes, vem grandes responsabilidades. — Disse para si mesmo. Em seguida, atendeu o celular.— Tia, tenho algo para te contar...
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