O espetacular Homem Aranha: Uma história

1 Cap 1 Nerd esquisito com problemas para socializar


Capítulo 1 — Nerd esquisito com problemas para socializar

Desde que se entende por gente, Peter Parker era viciado em tudo que se pode definir por cultura nerd e geek. Vivendo desde bebê com seus tios, May e Ben Parker, o seu quarto era infestado por action figures que vagavam do mundo dos quadrinhos e mangás, de famosos personagens dos games e sagas literárias até as clássicas séries e filmes de fantasia e ficção cientifica. Entretanto, Apesar de tudo isso, o que mais o fascinava era ciência e tecnologia. Esse era, inclusive, o seu sonho. Tornar-se um grande cientista e trabalhar na Oscorp, a maior empresa da área em Nova York.

Naquela semana, especialmente, ele não parava de pensar na empresa, justo porque a Oscorp realizaria uma exposição de tecnologia e genética, pautada pelo cientista preferido de Peter, Lance Ferguson, um especialista em genética animal.

Pelo que Peter havia lido em uma entrevista recente para o Clarim Diário, as novas pesquisas de Ferguson abordavam aracnídeos dos mais diversos tipos, mas, infelizmente, na época, os estudos ainda estavam no início. A esperança do jovem Parker era que novos detalhes sobre essa pesquisa fossem revelados na exposição.

Seu melhor amigo, Cory, que definia Peter como um “um nerd esquisito com sérios problemas para socializar”, discordava fortemente disso.

—Ah Peter, Não seja idiota. — Dizia Cory - É simplesmente impossível, você tá me entendendo? I-m-p-o-s-s-í-v-e-l, não existem condições de em tão pouco tempo o Ferguson, por mais incrível que ele seja, já ter desenvolvido algo dessa pesquisa.

— Nunca, Cory, nunca, nunca mesmo duvide de Lancel Ferguson. — Respondeu enfático Peter.

Eles estavam almoçando no refeitório do colégio, esperando a aula de álgebra que viria logo em seguida.

— Faz quanto tempo mesmo desde aquela entrevista dele pro Clarim? Oito, nove meses? E você sinceramente acha que ele já está lá com tudo pronto? Ah Peter Parker, tenha paciência. — Respondeu justamente sem paciência Cory.

— Não necessariamente tudo pronto. — Ponderou Peter— Mas pelo menos alguma coisa sobre, sabe, Cory? Isso eu tenho certeza, alguma informação a gente vai ter.

— Hunf, só se for alguma informação sobre o papai Noel ou Pé Grande Hahaha! — Debochou Cory.

— Triste existir os descrentes da genialidade do grande Lancel Ferguson. —Debochou de volta Peter.

— Mais triste ainda existir os fãs iludidos de Lancel Ferguson.

— Escuta aqui então, Cory, se você tá tão confiante assim que não vamos saber nada nessa exposição sobre a pesquisa do Lancel, que tal uma aposta. — Propôs Peter dando um sorriso confiante.

— Muito bem, Peter. — Disse Cory dando um sorriso confiante de volta.— Valendo quanto?

— Cinquenta dólares! — Disse Peter dando a mão ao amigo para confirmar que a aposta estava feita.

— Feito! — Respondeu Cory apertando a mão de Peter.— Vai ser um prazer ganhar seus cinquenta dólares, meu amigo.

— Olha só, vai ganhar cinquenta dólares por que hein, seu bostinha? —Interrompeu os dois Flash Thompson. — Vamos, quero saber, cinquenta dólares por que? falem, porra.

Flash Thompson, o pior ser humano que Peter já conheceu na vida, tinha dezoito anos, dois a mais que Peter e Cory, mas ainda estava no segundo ano, assim como os dois. Não passava na opinião de Peter de um loirinho playboy e babaca e principalmente um Bullie, da pior espécie.

— Acho que o casalzinho desaprendeu a falar, Flash. — Disse Troy Beller, Melhor amigo de Flash ou capanga, como Peter preferia chama-lo, tão burro quanto, tinha dezessete anos.

— Talvez uma afogada na lixeira faça os dois recuperarem a fala, não acham? — Falou Antony Baxter, o cara que completa o trio de babacas, e assim como eles, completamente estúpido, também tinha dezessete anos.

Talvez a única coisa que os três fossem realmente bons era no futebol americano, mas no lugar onde viviam, a terra dos sonhos e das oportunidades, a América, aquilo não só bastava, como era para todos naquele colégio a nata das qualidades. Se você fosse bom no “Football”, tudo bem você ser um merda em todo o resto, inclusive com as pessoas.

— Vamos, merdinhas, vão falar ou vou ter que forçar vocês? — Ameaçou Flash ficando de pé atrás da cadeira onde estava sentado Cory e apertando seus ombros com as mãos.

— Fla-Flash. — Começou Peter.

— Sem gaguejar, Parker. — Disse Flash em tom amedrontador, e apertando com ainda mais força os ombros de Cory.

— Será que ele consegue Flash? hahahahaha!. — Tripudiou Troy, de pé ao lado de Flash, de braços cruzados em uma típica pose de capanga de segundo nível.

— Vai, Parker, fala, somos amigos, não somos? Ou você se esqueceu?. —Debochou Antony indo na direção de Peter, inclinando-se para encara-lo, já que Parker estava sentado a mesa assim como Cory, tudo isso sem tirar o sorrisinho idiota do rosto.

— A gente só tava fazendo uma aposta sobre a exposição da Oscorp. — Disse Peter olhando para Flash. O playboy fez uma expressão de confusão, claramente não sabia do que se tratava a tal exposição dita por Parker.

— Exposição, sei... de quanto foi a aposta, bostinha? — Perguntou Flash se dirigindo a Peter.

— Cinquenta dólares. — Respondeu Peter.

Cory apenas observava quase tremendo, desviando o olhar disfarçadamente entre o amigo e os valentões.

— Cinquenta dólares? Hahahaha! — Disse Flash apertando mais forte os ombros de Cory, fazendo com que este soltasse um leve gemido de dor, os três riram em um único som.

— Olha só esse merda gemendo igual uma vagabunda hahahaha!. — Tripudiou Flash arrancando ainda mais risos dos capangas. Os risos, inclusive, começaram a chamar a atenção das outras pessoas no refeitório que olhavam o que estava acontecendo.

— O que vamos fazer com essa informação, Flash? — Perguntou Troy ainda arfando de rir.

Flash soltou Cory e caminhou em direção a outra mesa do refeitório, Tanto Peter como os outros três fizeram uma expressão de confusão. Flash apenas pegou uma das cadeiras de outra mesa e trouxe para a de Parker, colocando ao lado dele e se sentado, em seguida colocou o braço por cima dos ombros de Peter puxando-o para mais perto, tudo isso com um sorriso cínico nos lábios.

— Vocês dois vão me dar esses cinquenta dólares! — Disse Flash sorrindo, mas com um tom que claramente não aceitaria algo contrário ao que disse. Peter o encarou com a certeza de que fazia uma expressão de medo, e mesmo sabendo disso não poderia evitar, mas o medo que sentia estava misturado a um pouco de ódio. Não entendia de forma nenhuma como em um colégio, uma situação como aquela poderia ocorrer. Estava claro para todos naquele refeitório o que estava acontecendo, afinal de contas, não era a primeira vez, e nem acontecia só com ele ou Cory. Flash sentia-se livre para junto com seus capangas fazer o que bem entendia com os alunos que achava mais fracos. Nenhuma pessoa ousava se opor, e Peter estava cansado disso.

— Não!

Todo as vozes no refeitório morreram. — Não se ouvia mais risos ou sussurros, nenhum único som, todas as pessoas estavam em choque. Peter havia respondido Flash mais alto do que gostaria e também do que seria recomendável, mas, pela primeira vez, alguém naquele colégio havia dito “não” a Flash Thompson.

— O-O que você disse? — Perguntou em choque o playboy.

— Não. — Repetiu Peter, não tão alto e nem tão enfático como da primeira vez.

— Peteeer, não... — Começou quase que em um sussurro Cory

— CALADO!!!!! Gritou Flash apontado o dedo no rosto de Cory, sua mão tremia. Olhando nos olhos de Peter, retirou o braço de seu ombro e levantou-se, ficando de frente para o Parker. O refeitório continuava mudo, apenas observando.— Levanta. — Disse para Peter.

— Flash... — Começaram Troy e Antony.

— QUIETOS! — Gritou outra vez Flash, dessa vez para os capangas, sem deixar de encarar Peter.— Já disse, Parker, levanta.

— Não. — Desafiou Peter. O rosto de Flash se contorceu em pura fúria.

— DE PÉ, AGORA!!! — Exigiu aos berros Flash.

— N-Não. — Disse Peter, tomando consciência da situação em que estava se metendo.

— Escuta aqui, Parker. Vociferou Flash chutando a mesa em que estavam Peter e Cory. Com o susto do momento, Cory levantou-se em um salto e Peter caiu da cadeira que estava sentado, os capangas de Flash também se assustaram.— De pé, seu merda, ou vou te espancar aí mesmo.

Era isso, Peter havia se metido em uma briga, e não era bom em brigas, o que significava que levaria uma verdadeira surra. Só conseguia pensar onde aquela coragem, aquele pequeno momento de coragem o havia levado, talvez ser um medroso fosse a melhor escolha, era isso, Peter iria se desculpar com Flash, talvez ele pegasse mais lev...

— Chega, Flash, já deu. Uma voz firme rompeu o silêncio da plateia da confusão. Peter e Flash olharam pro lado e viram ali de pé uma garota alta e magra. Ela deu alguns passos em direção aos dois e encarou Flash por um instante, em seguida, ofereceu a mão Peter, ajudando-o a se levantar. Parker a olhou encantado, sua beleza era algo estonteante, conseguiu sentir o perfume dos seus cabelos negros que formavam cachos perfeitos, sua boca volumosa e seus olhos cor de mel só a tornavam ainda mais bela. Seu nome era Liz Allen. Peter a amava desde a quarta série.— Você tá bem, Peter? — Questionou Liz, educadamente.

— T-Tô sim, Liz, Valeu. — Disse um pouco nervoso e envergonhado Peter.

— Que bom. — Falou Liz, abrindo um lindo sorriso. O coração de Peter acelerou. Em seguida, Liz olhou para Flash e disse:

— Acabou a baderna, Flash Thompson. — O tom era firme

— Mas Liz... — Tentou questionar o playboy.

— Mas nada. Quando Aceitei seu pedido de namoro foi com a condição de você parar de ir atrás de confusão. — Disse com autoridade, Liz.

— Mas o Parker...

— Já disse, sem essa de mas isso, mas aquilo. — Continuou Liz.— Vamos pra aula que já vai começar. — De má vontade, Flash deu a mão a Liz e saiu do refeitório dando uma encarada ameaçadora para Peter, seus capangas logo atrás.

— Meu Deus, Peter. — Iniciou Cory, recolocando a mesa no lugar e indo até o amigo.— Que ideia foi essa de contrariar o Flash?

— Uma ideia estúpida. — Respondeu Peter, dando um grande suspiro de alívio.— Mano... eu quase morri hahaha!

— Pior que isso, você quase que me leva junto hahaha! — Disse Cory rindo assim como Peter da situação. Agora que tudo havia passado, os dois poderiam apenas rir daquela loucura, mas ainda assim, algo no íntimo de Peter dizia que Flash não iria apenas esquecer aquela afronta. Aos poucos, o Refeitório esqueceu a confusão e o dia foi voltando ao normal, porém, mal sabia Peter o que a noite daquele dia o aguardava, ou melhor, aguardava a Cory.

—-º--

Ao fim da tarde, Peter chegou em casa. desde muito jovem ele morava no mesmo lugar, no bairro do Queens, em um apartamento de tamanho aceitável, como ele gostava de definir. Vivia junto com os seus tios, May e Ben, que cuidavam dele desde que seus pais morreram em um acidente de avião quando Parker ainda era um bebê. Por conta disso, os dois eram suas figuras paternas. May trabalhava como enfermeira no hospital do bairro. Não ganhava bem, mas isso nunca a fez tirar o sorriso do rosto, Peter nem sequer lembrava-se da última vez que viu a tia de mal humor. Ela além de cuidar dele e do trabalho, ainda encontrava tempo para ajudar no abrigo comunitário próximo ao prédio aonde viviam. Seu tio Ben, por sua vez, trabalhava na biblioteca do Queens. Era um dos funcionários mais antigos. quando Peter foi viver com os dois, ele já trabalhava por lá, e não poderia haver lugar melhor para Benjamim Parker trabalhar. O tio de Peter simplesmente amava ler. E tinha uma qualidade que divertia muito o sobrinho, era um grande frasista, de primeiríssima categoria, e assim como May, acima de tudo, um homem de grande coração. Sempre que podia, conseguia uns livros para levar para o abrigo. Em termos familiares, Peter não podia se queixar, ele era muito sortudo.

Se ele tinha sorte, seu amigo, Cory, era o oposto. Os seus pais haviam se divorciado há doze anos. O seu pai se mudou para o Texas, onde vivia com a nova esposa, uma imigrante porto-riquenha com quem tinha um filho de nove anos, Peter não sabia muito sobre eles, não era um assunto confortável para Cory, então ele preferia não o abordar muito. Cory vivia com a sua mãe, Cinthia e o seu padrasto, Matt Maguire. Ela trabalhava com encomendas de doce no bairro. Eles também moravam no Queens, quatro quadras de distância de onde Peter e os tios viviam. Ela tinha um certo grau preocupante de depressão, se medicando constantemente com sedativos. Tia May já a havia alertado sobre isso, mas Cinthia considerava o único meio de lidar com a doença e com o marido, Matt, se negando a ir em hospitais ou coisa do tipo. Já Matt, era um homem complicado. Cory constantemente vestia casacos e jaquetas, mesmo nos dias mais quentes, Peter acreditava que Matt poderia ter alguma relação com isso. Além disso, o Sr. Maguire tinha problemas sérios com bebidas, se tornando bastante violento quando bêbado, e por conta disso, vivia de trabalhos esporádicos, já que nunca durava em nenhum emprego. Estranhamente estava sempre com dinheiro para gastar com amigos e bebida, mas nunca para ajudar com as contas de casa, isso sempre caía no colo de Cinthia. Sem dúvidas, para Peter, esse não era o melhor ambiente para se viver. No entanto, Cory não era muito de se queixar disso.

O apartamento de Parker era vizinho do da Sra. Watson. Uma doce senhora que estava sempre trazendo bolos para ele. Ela vivia com o esposo, o Sr. Watson, mais fechado e carrancudo, mas para Peter, ele não parecia uma má pessoa. Moravam ali há cinco anos e tinham uma filha da idade dele, mas nunca a tinha visto. Ela estudava no Canadá e vivia com uma tia lá, só vindo nas férias de fim de ano para a casa dos pais. Época que os Parkers viajavam para encontrar o resto da família no interior. Peter só a conhecia então por fotos da infância, já que os Watsons eram estranhamente contra tecnologia “moderna”, como eles se referiam a internet. E por aquelas fotos, Peter a achava uma ruivinha muito estranha, com uma cara espinhenta e uns óculos muito grandes para a idade.

Naquela noite, pela Tia May, ainda não ter chego em casa do trabalho, a Sra. Watson trouxe um bolo de Laranja com cobertura de chocolate para Peter e o tio Ben, esse era, inclusive, o bolo favorito do jovem Parker.

— Peter, meu doce, alguma vez já te disse que seria meu sonho você e a minha menina casando? — Perguntou a Sra. Watson enquanto cortava o sexto pedaço de bolo para Peter na cozinha.— Vocês seriam perfeitos um para o outro.

— Já disse sim, Sra. Watson. — Responde Peter, dando um riso aconchegante. Parker já havia ouvido muitas vezes aquilo da Sra. Watson. Não o Incomodava, ele até mesmo achava um pouco cômico, mas nunca imaginava casar com aquela garota espinhenta e estranha, nem se lembrava direito qual o nome dela. Talvez fosse Marcia ou algo do tipo.

— Ei, Peter. — Chamou o sobrinho da sala o tio Ben. — Como foi a escola hoje? Na biblioteca ouvi alguns jovens falando sobre uma tal confusão.

Peter gelou. Até onde o tio Ben havia ouvido? Será que já sabia de alguma coisa? Isso era algo que ele fazia sempre. Perguntava sobre uma situação que ele já sabia a resposta, para dar a chance de a pessoa contar a verdade. No entanto, Ben nunca expunha ninguém quando essa pessoa mentia, mas a expressão de desapontamento que fazia denunciava que ele sabia quando a verdade não era a resposta. Foi então que uma frase dita certa vez pelo tio ecoou na mente de Peter naquele instante

A verdade e a confiança são como dois pilares de uma construção. Se o primeiro cair, o outro se tornará muito propenso a queda também.”

— Flash Thompson tentou tomar cinquenta dólares de mim e do Cory. — Iniciou Peter. — Eu o desafiei e disse não. Acho que ele nunca tinha visto ninguém negar algo a ele naquele colégio, e começou a gritar conosco no refeitório, se não fosse a Liz Allen...

— Liz Allen é aquela garota bonita que você gosta, não é? — Interrompeu Tio Ben.

— É... essa mesma. — Respondeu Peter corando

— Prossiga. — Falou em seguida o tio Ben dando um leve sorriso.

— Bem... é como eu estava dizendo. Se não fosse a Liz puxando o Flash dali eu e ele iriamos brigar. — Concluiu Peter.

— Não quero que você fique brigando no colégio. — Falou o tio Ben levantando-se do sofá onde estava sentado e indo na direção do sobrinho.

— Eu não podia simplesmente abaixar a cabeça, Tio Ben. — Disse Peter encolhendo-se.

— Escuta Peter. — Iniciou Tio Ben pondo a mão no ombro do sobrinho carinhosamente e olhando nos seus olhos.— Brigar não iria resolver a situação. não estou dizendo que deveria abaixar a cabeça ou fugir. Sim, era necessário enfrenta-lo, mas com o cérebro, não com os músculos.

— Você não entende, Tio Ben. — Disse Peter sentindo-se incompreendido.— Como eu vou usar o cérebro contra os punhos do Flash Thompson? Não faz sentido e no fim, nós nem brigamos.

— Mas quem disse que era para usar o cérebro para brigar? — Questionou Tio Ben.

— Hããã? — Confuso, respondeu Peter.

Tio Ben, no entanto, não teve tempo para responder. Tia May entrou pela porta, chegando do trabalho.

— Oh Boa noite, meus amores. — Saudou May fechando a porta.

— Boa noite, tia. — Respondeu Peter.

— Boa noite, querida. — Respondeu Tio Ben dando um beijo na esposa.

— Como foi o dia de vocês? Lá no hospital foi uma correria danada, vocês nem fazem ideia. — Disse arfando tia May, colocando a bolsa em cima da poltrona.

— Um longo dia, Tia May. — Disse Peter.— Um longo dia.

— Pra mim foi bem tranquilo, querida. — Respondeu Tio Ben.— O que aconteceu pra ser tão agitado dessa forma no hospital?

— Ah, Ben, nem te conto... oh Ana? — Assustou-se Tia May ao entrar na cozinha e encontrar a Sra. Watson.

— Vim trazer esse bolo para o Peter, May. — Disse a Sra. Watson.— Mas já estou saindo.

— Saindo nada, Ana, vamos pôr o papo em dia. Vem, sente-se. — Convidou Tia May puxando uma cadeira na cozinha.

— É... acho que fui esquecido no churrasco, Peter Hahaha! — Fez piada da situação Tio Ben

— Parece que sim Hahaha! — Riu junto Peter.

— Mas bem, como eu iria dizendo antes pra você...

O celular de Peter tocou.

— Ah desculpa, tio. — Falou apressado Peter.— É o Cory, a gente estava vendo a vaga de um estágio, preciso ir pro quarto, tudo bem?

— Ah sim, claro. E filho... — Chamou tio Ben, Peter virou-se antes de ir para o quarto.

— O que foi? — Perguntou

— Obrigado por contar a verdade. — Disse Tio Ben.

— Jamais mentiria pro senhor, Tio Ben. — Falou Peter e entrou.

—-º--

— Pode ter certeza, Peter. — Disse na chamada Cory.— Nós vamos ser os escolhidos nesse concurso.

— Não consigo entender como você duvida que vamos saber algo na exposição da Oscorp. — Iniciou Peter.— Mas acha possível vencermos o concurso de estágio do Clarím.

— Não é Obvio? — Disse Cory.— O concurso do Clarím nós vamos ganhar. Tanto a minha, quanto a sua foto ficaram incríveis.

— Do jeito que você fala parece até que é fácil. — Disse Peter, revirando os olhos.

— Não é questão de ser fácil ou não. — Começou Cory.— É questão de entender a qualidade do que fizemos, entendeu?

— O que eu entendo é que você tá confiante demais e a confiança excessiva é a porta para a decepção. — Respondeu Peter, em tom de brincadeira.

— Pois vou passar na sua cara quando formos escolhidos. — Finalizou Cory.

Peter e o amigo estavam preenchendo o formulário online do Clarím Diário. O jornal do famoso J. Jonah Jameson estava promovendo um concurso para duas vagas de estágio para fotógrafos amadores. Fotografia era apenas um hobby para Peter e Cory, mas o segundo havia ficado muito empolgado com a possibilidade de trabalhar ao lado de Jameson. O grande sonho de Cory era se tornar jornalista, e ele via naquele concurso sua grande chance. Peter não estava tão empolgado quanto o amigo. Para ele, um estágio na Oscorp seria um objetivo melhor. Entretanto, Cory raramente se empolgava com algo, então para apoia-lo, Parker decidiu se inscrever também.

Os dois se conheciam desde os seis anos, eram dez anos de amizade. Tudo havia começado em uma festa beneficente do abrigo comunitário da tia May. Peter estava completamente deslocado, faziam alguns meses que os Parkers haviam se mudado para lá, mas o prédio em que moravam não tinham crianças da mesma idade que ele. Peter passava o dia jogando vídeo game, quando, obviamente, não estava na escola. No entanto, aquele dia seria diferente.

Tia May havia decidido se juntar ao trabalho no abrigo comunitário já faziam algumas semanas. Ela estava sentindo que a família não havia se entrosando com a comunidade e via no seu trabalho no abrigo como uma forma, além de ajudar pessoas necessitadas, de mudar esse cenário. Desse modo, a festa beneficente era um momento perfeito para integração.

Nessa festa, enquanto a tia May e o tio Ben rapidamente se adaptaram, Peter sentiu-se ainda mais deslocado. A quadra de esportes do colégio do bairro, lugar que estava sendo utilizada para a festa, estava cheia, balões espalhados por toda parte, muitas barraquinhas de comida e faixas penduradas por todo lugar pedindo doações.

Para Peter, aquilo tudo estava entediante. Entretanto, ele não era o único que compartilhava daquela opinião. Um menino aparentemente da mesma idade que ele estava sentado em uma arquibancada da quadra, afastado de toda aquela balbúrdia, jogando um PSP. Peter passou a observa-lo. De vez em quando, o menino levantava a cabeça, esquecendo da tela, olhava para as pessoas na quadra, revirava os olhos e voltava ao seu jogo. Parker passou a achar aquela situação curiosa e a cada vez que o garoto repetia essas ações, passo a passo, Peter dava um risinho.

O tio Ben, certa vez disse:

“Tédio é um mal que aflige apenas aqueles com pouca imaginação”

Peter tinha encontrado algo para espantar o tédio naquela festa, aquele garoto. Todavia, a diversão duraria pouco. O menino, em certo momento, percebeu Parker o encarando e rindo. Uma situação constrangedora para Peter. o garoto saiu da arquibancada, Peter pensou que viria tirar satisfações com ele, mas não, aquele menino apenas saiu do local.

Peter se sentiu mal por aquilo, pensando bem, rir de alguém assim, que nem sequer se conhece, não era algo legal de se fazer. Decidiu ir atrás do garoto e se desculpar, era o que os seus tios o aconselhariam a fazer.

Quando saiu do lugar, viu o menino, ainda com um PSP na mão, sentado em um banco de madeira embaixo de uma arvore na frente do colégio. Foi até ele. Eram os únicos ali. O sol do crepúsculo, já quase se pondo, o vermelho no horizonte e o vento frio que precipitava uma noite gélida eram as únicas testemunhas daquele momento. Peter se aproximou, folhas voavam baixo entre a grama enquanto ele atravessava o gramado na direção da pequena figura sentada no banco. O menino levantou a cabeça em sua direção, a sua expressão estava turva nas memórias de Peter, mas o brilho dos olhos do jovem garoto quando seus olhares se cruzaram ele nunca irá esquecer. Naquele instante, Parker soube, e teve certeza que o menino também, que eles seriam amigos para vida toda.

— Olá, meu nome é Peter, eu queria pedir desculpas por estar rindo lá dentro, só achei um pouco engraçado a forma como você olhava para as pessoas na quadra, revirando os olhos, sabe.

Por um mero segundo o menino avaliou se Peter estava sendo sincero ou não, e por fim, disse:

— Tá tudo bem, eu só estava achando aquilo tudo chato, entende?

— Entendo muito bem. — Disse Peter dando um amigável sorriso.— Posso me sentar?

— Pode sim. — Disse o menino estendendo a mão e sorrindo também.— Me chamo Cory.

— É um prazer, Cory. — Respondeu Peter apertando a mão do garoto. A festa durou mais duas horas e meia. Os dois, no entanto, não viram o tempo passar. O sol se foi, a lua brilhou reinante no céu daquela noite fria. A lua. porém, reinava solitária. Diferente dos meninos Peter e Cory. Os dois não mais estariam sós, nunca mais, ao menos, foi isso o que Parker pensou.

Gritos do outro lado da chamada o trouxeram de volta ao presente, para longe das risadas daqueles dois garotos no banco do gramado do colégio. Os gritos eram confusos. Uma mulher parecia implorar que algo não fosse feito, um homem berrava completamente furioso e uma outra voz, mais madura, mas ainda assim, inconfundível, a voz do menino, daquele menino da festa beneficente gritava mandando alguém se afastar.

— SAI DE LONGE DA MINHA MÃE. — Gritava Cory numa mistura de raiva e medo.

— SEU MOLEQUE FILHO DA PUTA. — Gritou o homem. Eles pareciam estar em uma disputa física.

— NÃO, POR FAVOR, NÃO. — Berrava em desespero a mulher.

— Gente, o que tá acontecendo? — Perguntou Peter. Ninguém o respondeu, nem sequer o ouviram. Não dava para compreender perfeitamente o que ocorria.

CRASH!!!!!

Algo quebrou. Peter não soube identificar o que.

— FILHOOOOO. — Gritou outra vez a mulher.

CRASH! CRASH! CRASH!

Mais coisas quebrando. Peter não sabia o que estava acontecendo, mas levantou para ir até os tios, eles poderiam fazer alguma coisa, ajudar de alguma forma, ir até a casa de Cory, ligar para a polícia, qualquer coisa. Ele sentia que algo ruim estava prestes a acontecer. E em um instante, tudo se calou. O silêncio dominou o outro lado da linha. Peter pensou que talvez a ligação houvesse caído, mas não... um som estrondoso rompeu o silêncio.

BANG!!!!

Um tiro. O coração de Peter apertou-se por um instante, o brilho dos olhos daquele menino naquele fim de tarde dominou a sua mente. No momento seguinte, apenas o vazio restou. Sabia que seriam amigos para a vida toda... e então a mulher gritou, e a sua dor ecoou em cada parte do ser do jovem Peter Parker.

— CORYYYYYYYYYYYYYYYYY.