O diário de uma filha de Hades
5 Ninguém merece!
Notas iniciais
10 de Outubro
Ah, diário, como eu gostaria de esfolar vivo os malditos dedo-duros e fazê-los comer a própria pele.
E por que eu estou tão assassina? Bem, posso fazer até uma lista.
1. TPM muda muito a personalidade de uma mulher. Inclusive uma filha de Hades.
2. Algum maldito contou ao Sr. D que eu fugi do acampamento.
3. Agora, terei que lavar a louça por duas semanas.
4. E, inclusive, com a irritante presença do Shawn. E da Mary. Juntos.
E eu não faço a mínima ideia do porque Shawn vem junto. Bem que ele poderia morrer um pouquinho, rapidinho...
Enfim. Lá estávamos nós quatro — esqueci de incluir que o David veio junto. Sabia que ele estava desaparecido há duas semanas? — quando começou.
– Pra que espirrar água no meu lindo cabelo, hein? — Mary esperneou.
– Lindo nada, pura chapinha isso aí! — Os meninos começaram a rir do que eu falei, mas pararam imediatamente quando Mary os olhou com o seu olhar de "Se rirem mais, maquiagem de palhaço aparece".
– Isso é pura inveja, Lia. Não posso fazer nada se seu cabelo é uma porcaria e você fica horrorosa nele.
Parei de esfregar uma panela.
– O que?
– Isso mesmo! Você sempre teve inveja de mim. Sempre quis ser ruiva, alta, magra e ter a habilidade de ser... Bonita. — Ela fez uma pausa para jogar os cabelos para trás. — Deixe de ser criança, Lia. Cresce, filha de Hades. Aliás, você parece um defunto. Sua mãe deve ter vergonha de você.
Mordi o lábio e deixei todas as coisas caírem.
– Ah, é? — As lágrimas ameaçavam cair. Não agora. — Me desculpa então se minha mãe preferiu me ensinar a ser uma mulher de verdade a fazer escova no cabelo. Me desculpa se eu não passo três horas me arrumando pra agradar gente que nunca se importou comigo. Me desculpa então se eu não nasci alta, ruiva e linda. Mas pense bem: essa tua beleza vai embora, esses teus peitos vão bater no umbigo e essa pele macia vai ficar mais enrugada que uva-passa. Meu caráter vai permanecer, e esse teu pensamento de merda vai te levar pra merda.
Ela tentou articular alguma coisa, mas o máximo que fez foi abrir e fechar a boca, conformada.
Saindo dali, fui direto para o meio da floresta, aonde o sol não passava direito e eu podia raciocinar direito debaixo de alguma árvore.
– Não chore. — Alguém sentou ao meu lado e me fez levantar a cabeça. — Você fica horrível assim.
– Ah, James — Abracei-o o mais forte que meus braços curtinhos podiam. — Eu me sinto tão...
– Eu sei pequena. Agora deixe de chorar porque todo esse excesso de maquiagem preta que você passa tá escorrendo e, acredite, já poderia fazer cosplay¹ de panda.
– Babaca! — estapeei ele, que mostrou a língua.
– Vamos pro seu chalé comer balinha, tá?
– Minhas balas, seu ordinário!
E fomos.
Mas né, tive que dividir porque ele é um malvado e sabe aonde tenho cócegas. E uma hora, enquanto eu estava dedilhando no baixo sem nem pensar, quando a porta abriu e um Shawn muito irritado entrou.
– O que diabos...
– Por que criou aquela porcaria de drama? — Ele apontou o dedo pra mim. Espera, ele pinta as unhas? — Agora meu plano...
– Que plano? — Acho que Shawn não notou que James o observava com desdém. Briga! Briga! Briga!
– Ahm... O plano... De...
– Molhar a Mary!
– Molhar a Mary? — os dois perguntaram ao mesmo tempo.
– É... Molhar a Mary... — Shawn coçou a cabeça, tentando disfarçar.
– Outro dia a gente pensa em molhar a Mary de novo, certo Shawn? Agora vai embora.
A porta se fechou num estrondo.
James ergueu a sobrancelha e eu os ombros.
Quase que ele descobre!
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