O diário de uma filha de Hades
6 Como fazer um chalé inteiro acordar com: Shawn
Notas iniciais
12 de Outubro
É dia das crianças. Um dia que eu odeio, pra falar bem a verdade, pois é nesse dia que minha mãe decide dizer que eu já sou uma adulta — e só nesse dia, preciso frisar -. E é nesse dia que metade do acampamento me dá presente, mesmo comigo tendo 16 anos. Tudo porque eu tenho a altura de uma criança de 12 anos que ainda não sofreu o estirão de crescimento.
Obrigada, genética!
– Parabéns Lia, pintora de meio-fio! — Fui erguida do solo por James. Ele pensa que é quem? — Aqui, de presente.
Aí abri aquela embalagem muito amassada e características de um filho de Hermes pra descobrir que ele me deu uma chupeta. Cara, aí é sacanagem! Não poderia ser qualquer outra coisa? Onde é que eu vou esconder isso? O que é que eu vou fazer com uma chupeta? Se fosse um pote de papinha, até daria para comer, mas...
– Ei, ei! Terra chamando! — James estalou os dedos na minha frente. — Gostou?
– Amei. — Forcei um sorriso bem... Bem Lia, na verdade.
– Eu sei que você odiou. Era a intenção.
– Por que você não vai... — Ele tapou minha boca.
– Doce como um limão, hein? — fechei a cara. Mary vivia falando isso. — Ah, desculpa.
Nem parei para ouvir o resto, pois saí correndo sem nem ver onde ia. Os galhos batiam no meu rosto e, quando, notei, já estava próxima ao riacho. Sentei-me na terra fofa.
Mary era minha amiga desde que entrei no acampamento. Como é possível que ela pense que eu tenho inveja dela? Como ela pôde jogar 4 anos de amizade no lixo? Como ela pôde me menosprezar assim como fazia com tudo e todos?
Fico me perguntando se realmente deveria ter começado a falar com ela. Talvez não.
– Ainda bem que lhe encontrei. — Já sabia quem era, nem me dignei a olhá-lo. — Então, como vou conquistar Mary?
Sua expressão mudou na hora quando viu minha cara de panda.
– Ai deuses, você tá bem?
– Tô bem. Sai daqui. Agora.
– Não, eu não posso sair até você me ajudar. Lembra? Jurou pelo Estige.
Revirei os olhos e arranquei uma página do diário. Escrevi algumas palavras e entreguei a ele.
– Some.
– "Mary, você não é pescoço mas mexeu com minha cabeça"? É sério isso?
– Sim. Dê um jeito de por isso nas coisas dela. Pede pra que ela responda, sei lá. Se vira, projeto de lixo.
Ele se fingiu de ofendido.
– Ô pé-na-cova, pare de ser chata. — Não pude segurar o riso de ironia. Ele me olhou como se não entendesse nada.
– Tá, tá. Agora vai embora.
– Não, você precisa me ajudar!
– Não preciso não, já lhe ajudei. — Cruzei os braços.
– Claro que precisa! Ó o Estige aí! — Ele apontou para o riacho.
– Isso é um riacho.
– Sentido figurado, idiota!
– Idiota é você, seu...
Galhos quebraram. Nós dois viramos com armas em punho.
– Ei, ei, calma aí, pombinhos! — Connor riu da nossa cara, o que não durou alguns segundos pois ele tivera que correr pra não ser alvo de nossas espadas.
Pena que não dá certo colocar um campista novo E uma filha de Hades com um metro e meio para correr, pois nós dois saímos rolando.
– Você vai me ajudar. — Ele prendeu meus punhos.
– Ou o que?
– Ou... Ou... Conto para todo mundo do seu pijama dos ursinhos carinhosos!
– Você não ousaria...
– Gente, sabia que a Lia mmrrf.... — Tapei a boca dele.
– Tá bom, tá bom. Vamos?
– Mas...
– Ou é agora ou nunca, lesado.
Shawn deu de ombros e me ajudou a levantar. Juntos, nós dois começamos a caminhar.
– Aliás, que caderno era aquele?
– Que caderno? — Joguei meu diário que estava nas minhas mãos para trás e o mesmo desapareceu.
– Deixa...
Paramos próximos ao chalé 10. Averiguei o lugar.
– Faz assim... Me ajuda a subir naquela árvore, aí a gente consegue pular a janela.
Ele me olhou. — Como?
– Faz pezinho. — Ele juntou as mãos e subi na árvore.
– Mas eu não consigo subir... — Entrei no chalé e abri a porta.
– Entra.
Reviramos cada cama. Meus deuses, era impossível saber qual delas era a de Mary. Mentira, nem era. A cama de Mary, logo, era a cheia de tinturas ruivas e apliques e a que tinha um pôster enorme da Beyoncé.
Ouvimos risos muito estridentes.
– Droga! O que fazemos? — Shawn me olhou e eu levei meus dedos na boca. Apontei para debaixo da cama, a única sem nenhuma tralha embaixo.
Percebi que estávamos ferrados quando percebi que Shawn é grande demais e tivemos que ficar numa espécie de conchinha muito esquisita e nos esforçarmos pra não fazer nenhum ruído.
***
12 de Outubro, debaixo da cama de alguma menina, 3:51 AM
Shawn dormiu faz umas horas. As filhas de Afrodite também, mas é impossível sair por causa das harpias. Logo, aqui estou, tentando escrever. Sabiam que Shawn fala dormindo?
– Mmmm... Lia... — Oi? — Eu... mmmm...
Continua! Continua que eu tô te ouvindo!
– Bacon... — não era isso o que eu queria, mas tá.
Tapei a boca dele quando uma menina acendeu uma lanterna.
– Ei, psiu, meninas... — A menina dos pés muito bonitos começou a acordar suas irmãs uma a uma. O que ela está fazendo?
– O que você quer, Hayley? — A voz de Mary com sono era inconfundível.
– Tem mais alguém no chalé. Acho que é um ladrão! — A menina era muito idiota, porque tentava não gritar mas gritava mais alto ainda. Cutuquei Shawn para ele acordar.
– Ferrou, nos descobriram. — Sussurrei a ele, que me olhou desesperado. E não podia fazer viagem nas sombras, não dava, só se me concentrasse e naquela situação não dava.
– O que fazer?
– Você consegue correr? — Ele assentiu. — No três.
– Meninas, peguem seus secadores!
Mostrei um dedo.
– Não, Janette, não é muito efetivo jogar um bobes neles.
Dois dedos.
– Calem a boca!
Três dedos.
– Corre nego! — Saímos de debaixo da cama muito rápido. Corri rumo ao meu chalé que, graças aos deuses, era muito próximo.
Sabe aqueles filmes, quando uma manada de patricinhas saem correndo cheias de latas de spray, secadores e com o cabelo parecendo o da dona Florinda atrás de alguém?
Então.
Entrei finalmente no chalé e caí na cama, ofegante.
– Socorro, Lia! Elas vão me pegar! — Shawn começou a socar a porta. Levantei e cruzei os braços.
Que peguem!
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