O diário de Richie Tozier
13 Richie Tozier presenteia Eddie Kaspbrak
Notas iniciais

No Barrens, as árvores cresciam para todos os lados, grossas, altas e abarrotadas de folhas, uma hora ou outra lutando arduamente por espaço e um pouquinho de sol. A luz, com muito esforço, sempre conseguia chegar a alimentar a vegetação mais baixa quando se esgueirava por feixes abertos dentre a folhagem. Richie afastou um amontoado de arbustos entrelaçados para que Eddie pudesse pular para a vegetação baixa. Ele saiu aliviado daquele meio de troncos abarrotados de musgo.
Um forte sopro de vento assoviou e tremeu os galhos das árvores mais fracas. Elas sussurram e pássaros saíram voando para longe. Richie também atravessou os arbustos e mais uma vez tomou a dianteira da caminhada. Eles andaram em silêncio até chegar à clareira. Richie conseguia ouvir o ruído da bombinha de Eddie chacoalhando de vez em quando.
Ele pisou na grama esmagada e judiada por seus próprios tênis e caminhou até o centro. Eddie o seguiu.
— É aqui — disse Richie, e se ajoelhou no chão. Folhas secas foram esmagadas pelo seu joelho. Ele ergueu a porta da sede do clube, que se abriu como uma escotilha.
Os dois entraram pela abertura. Primeiro Eddie, e depois Richie, que a fechou de novo e desceu as escadas. Ele limpou as mãos sujas na lateral da bermuda e ajeitou os óculos. A tábua revestida no chão rangeu quando Richie foi até o rádio que estava pendurado por um prego na parede de madeira velha. Ele o ligou. O rádio chiou. Ajeitando o botão na estação mais próxima, Richie observava Eddie de forma curiosa. Ele caminhava por entre os pilares, analisando cada canto do buraco embaixo da terra. No momento que o rádio começou finalmente a cantar, Richie viu-o andar lentamente até o velho e redondo pote de biscoitos que Stan guardava suas toucas de emergência. Eddie o pegou e olhou como se fosse uma engenhoca de outro mundo. Foi ali que Richie entrou em estado de alerta. Ninguém havia mostrado o pote para ele desde a última vez que estiveram no Barrens.
Um suspiro escapou da narinas de Eddie, e ele guardou o pote de volta e olhou para o amigo.
— Eu lembrei do Stan hoje — disse.
Richie arregalou os olhos. Afastou-se do rádio como se ele pudesse explodir e se agarrou no pilar mais próximo.
— O quê!?
— Você tá surdo, é?
Richie deu um riso nervoso. Ajeitou os óculos de novo e endireitou a postura.
— Não! — alegou com urgência, batendo os braços na lateral do corpo — Eu só… caramba, Eds! Como?
Eddie caminhou até a rede disposta no meio do clube. A madeira do chão rangeu de novo e ele sentou, afundando devagarinho no tecido. Pensou como se estivesse deitado em areia-movediça e, aéreo, Eddie balançou a rede com a força da ponta dos pés.
— Eu… eu só lembrei. Eu vi ele e lembrei.
Richie contornou o pilar e sentou-se ao lado de Eddie.
— Ouvi dizer que quando as pessoas entram nesse estado que você tá, coisas como cheiros, ou déjà-vus podem ajudar a lembrar das coisas.
— Verdade?
— Uhum.
Eddie ficou em silêncio por um momento, depois continuou:
— Acho que foi por causa desse tal déjà-vu. Não que eu tenha lembrado de tudo. Algumas coisas ainda estão vindo na minha cabeça. É devagar, sabe?
— Sei. E eu acho que tenho uma coisa que pode te ajudar a não se perder.
Richie afundou na rede e mergulhou a mão em um dos bolsos da bermuda. Dali de dentro, retirou um pequeno bloquinho de espirais vermelhas. Enquanto Eddie o observava, confuso e curioso, Richie arrancou uma página do bloquinho e a dobrou. Ele esticou o caderno para Eddie. A foto da capa barata era a sorridente estátua de Paul Bunyam, a mesma foto de muitos cartões-postais que Richie havia visto quando visitou a biblioteca pública de Derry a procura de Ben Hanscom.
— Eu estava começando a escrever nele, mas não vai me fazer falta. Eu posso arranjar outro pra mim.
Eddie abriu o bloquinho.
— Você pode anotar as coisas que acontecem no seu dia a dia se quiser, Eds — Richie continuou — As coisas que você lembrou, quem você lembrou, sabe? Pra não se perder.
— Como um diário? — Eddie perguntou, folheando as páginas vazias.
Richie deu de ombros.
— Como o que você quiser. Você pode fingir que isso aí é um bloco de dados secretos procurado pela união soviética.
Eddie riu.
— Obrigado, Richie.
— Disponha, meu chapa! — Richie respondeu, com a Voz do Policial Irlandês. Depois, ele abaixou os olhos, pensativo. — Hmmm… ver um bloco de notas assim não te lembra de nada, Eddie? — perguntou.
Eddie enrugou o cenho.
— Deveria?
— Não sei, Eds. Deveria?
— Eu acho que não.
Richie suspirou fundo, lambendo os lábios. Ele deitou na rede, com os pés pendendo para fora. Eddie o imitou.
— Tudo bem. E a sede do clube? Não te lembra de nada?
Eddie negou, olhando para o teto.
— Não tem problema — disse Richie, apoiando os braços atrás da cabeça — Você vai lembrar.
Os dois ficaram olhando para o teto por um bom tempo, até Richie levantar e pegar uma de suas revistinhas. Quando deitou de novo ao lado de Eddie, ele começou a lê-la. Folheava as páginas com muito entusiasmo, mesmo sabendo como seria a história. Richie mal tinha noção do tempo. Assim que terminou, não sabia se havia passado cinco minutos ou vinte.
Dispondo a história em quadrinhos em cima do colo, percebeu que Eddie estava mais próximo, com um dos braços em torno do seu tronco. Seu nariz chiava de uma forma engraçada, e quando Richie o chamou pelo nome, Eddie não respondeu nada além de um resmungo baixo. Ele havia se ninhado e dormido.
Richie, carinhosamente, afagou os cabelos de Eddie. Ficou sonolento a cada minuto, sentindo os olhos pesados.
Logo ele dormiu também.
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