O diário de Richie Tozier
14 Eddie Kaspbrak faz sua primeira anotação
Notas iniciais
Eddie deixou o Barrens antes de anoitecer.
Acordou à medida que o nariz começou a comichar por conta do incômodo cheiro de cigarro que a sede do clube estava embebida. Encontrou Beverly Marsh sentada na base da escada quando esticou o pescoço procurando a fonte do mal odor. Richie Tozier estava junto dela, dando boas hahas no meio da opaca névoa de nicotina queimada. Quando Eddie aproximou-se com o cabelo emaranhado e o rosto amassado pelo bordado que Arlene Hanscom havia feito para a rede de descanso, Richie apagou a bituca de cigarro na sola do tênis e levantou.
Os três foram embora do Barrens juntos.
Eddie contemplou o céu pingado em cores pastéis antes de entrar em casa. Ouviu Sônia Kaspbrak derrubar alguma coisa na cozinha e subiu para o andar de cima. Quando chegou no começo do corredor, estava quase correndo. No banheiro, ligou a banheira e pôs o bloquinho de anotações e sua bombinha em cima da privada. Logo arrancou toda a roupa, a jogando na cesta de roupa suja.
A água quente cobria a banheira inteira. Eddie entrou e mergulhou devagar, derramando água pela borda da porcelana. Um arrepio lhe aflorou na nuca quando estava submerso. Sentiu os mamilos ficarem duros. Sua pele lentamente começou a ficar rosada por conta do ambiente superaquecido. Vapor erguia-se a sua volta, com gotículas de água escorrendo no ladrilho. Quando fechou os olhos e soltou um longo suspiro, estava relaxado. Podia sentir os músculos menos tensos e a cabeça mais fria. Tudo estava longe. Henry Bowers estava longe. O Barrens estava longe. Sua mãe, o sr. Keene, o dr. Handor, suas doenças, seus problemas, todos eles estavam guardados no fundo da mente, jogados no porão, dentro de uma caixa encadeada. Às vezes o dr. Handor ou Sônia Kaspbrak tentavam abrir a tampa do caixote, gritavam o seu nome, mas Eddie não deixava. Chutava a caixa e os mandava calar a porra da boca.
Eddie ficou um bom tempo parado. Depois, puxou a esponja que ficava pendurada na torneira; A água já estava um pouco mais fresca. Ele ensaboou o corpo, lavou os cabelos e mergulhou mais uma vez. Saiu pingando de dentro da banheira e enxugou-se, enrolando a toalha na cintura. Debruçado sobre a borda da banheira, Eddie puxou o tampão do ralo. Disperso, observou a água começar a se agitar lentamente, igualzinho a uma tempestade marítima. Ela girou e girou, virando um redemoinho raivoso. O ralo engolia a água com apetite e chiava alto, um barulho um tanto parecido com uma criança sugando o canudo de um copo vazio.
Tão concentrado, mal ouviu a porta ranger. Somente reparou que a mãe o observava pela soleira quando esticou-se para pegar suas coisas de cima da tampa da privada. Ver a enorme imagem de Sônia fora o suficiente para um grito agudo e desesperado escapar de sua garganta. Ela havia escapado da caixa. Arrebentou o cadeado e a paz fora embora. Em meio ao pânico, Eddie perdeu o equilíbrio e caiu de bunda. A asma voltou. Todas as doenças voltaram. O peito trancou. Sentia o coração querer quebrar a caixa torácica. Sônia usava sua camisola florida e parecia maior do que nunca. Sua sombra caía sobre o filho de forma monstruosa.
— Você não apareceu para o almoço hoje, Eddie — disse ela, carrancuda — Você sabe que ficar sem comer pode deixar o seu organismo estressado. Você quer o seu organismo estressado?
Eddie negou urgentemente. Estava encolhido e segurava a toalha. Tinha medo de ela escapar.
— Aonde você estava? — Sônia perguntou.
— Estava com meus amigos. Estávamos brincando.
— E você lembrou de ir até a farmácia?
— Lembrei, mamãe.
— E então cadê seus remédios, Eddie?
Eddie sentiu uma pressão no peito. Lembrou que sua mochila e seus remédios ficaram jogados no meio-fio da West Broadway. Algum cachorro de rua já devia ter mijado nela. Talvez Henry Bowers a tenha jogado dentro do bueiro.
— Eu já guardei.
Sônia enfiou seu corpo gordo dentro do banheiro e ajudou Eddie a levantar. Ela beijou a testa do filho e depois, saiu. Antes de sumir nos degraus da escada, avisou que a jantava estava quase pronta. Quando deixou o banheiro, foi quando Eddie sentiu o maravilhoso cheiro do guisado de carne que a mãe costumava fazer.
Eddie jantou por volta das oito horas da noite, empanturrando-se facilmente de dois pequenos pratos do guisado morno. Como um bom filho, ajudou a mãe lavar a louça. Eles assistiram duas reprises de I love Lucy antes de Eddie se recolher para o quarto. Sônia passou o resto de sua noite assistindo I’ve got a Secret.
O quarto estava inundo na luz branca da lua. A janela aberta criava uma gostosa onda de frescor, deixando o cômodo inteiro arejado. Eddie pegou seu bloquinho, uma caneta e sentou na cama. Conseguia ouvir as risadas da mãe ressoar no andar de baixo. Ele abriu a primeira página.
LISTA DE AMIGOS
Big Bill Denbrough →
Stan Uris →
Beverly Maher? Marsh? Kersh? → (posso chamar ela de Bev ou Bevvie também. Todos eles chamam ela assim); ela gosta de rock n’ roll ♫ e parece bem próxima do Richie. Eu vejo eles fumando junto o tempo todo.
Mike Hanscom → (o garoto gordo. Richie chama ele de Monte de Feno); ele gosta de livros. (Ele gosta da Beverly?)
MIKE HANLON, não Hanscom → (Mikey. Ele tem uma fazenda); ele é legal, me deu aspirina quando tive dor de cabeça depois de beber aquela bebida que o Billy fez.
Ben HANSCOM → (Richie chama ele de Monte de Feno); foi ele fez a sede do clube!
acho que o Ben gosta da Beverly (??)
Sonhei com ele essa tarde. A gente tava na travessa Richard. Ele tinha um machucado no estômago, parecia um H, eu acho. Fui com o Bill e o Stan buscar remédios na farmácia pra poder fazer um curativo.
↓
→ Não foi um sonho estranho ← SIGNIFICA ALGUMA COISA???
Richie Tozier → (Rich. Ouvi Bill chamar ele de boca de lixo algumas vezes. É bem a cara dele mesmo) Ele é engraçado de uma forma meio esquisita, meio irritante. Só que ele é o que mais me apoia. É estranho, ele age como se eu fosse grudado nele. Não que eu não goste, mas é difícil expressar a mesma coisa. É um pouco… sufocante? O quanto será que a gente era amigo??? Richie me deixa confuso… mas eu acho que eu gosto.
Eddie parou de escrever e mordeu a ponta da caneta, pensativo. Estava tão entretido nas anotações que assustou quando uma sombra gorda subiu pela janela, engolindo todo a luminosidade da lua. O colchão quicou e ele sufocou um grito. Alguma coisa invadiu a sua cama. Parecia um grande gato preto e gordo.
Encolhendo as pernas, Eddie urgentemente puxou a cordinha da luminária. O quarto foi invadido pelo fulgor da lâmpada amarelada. O grande gato preto na verdade era sua mochila. Aproximando-se devagar, ele a pegou e abriu. Cadernos, livros, sacola de remédios. Tudo estava lá, sem tirar nem por.
— Psiu!
Eddie ergueu os olhos para a janela e vagarosamente debruçou o corpo sobre o vão. Ouviu a mochila cair no chão, mas ignorou completamente. Richie estava em pé do lado de fora da casa, amassando o gramado recém-regado de Sônia Kaspbrak com os tênis sujos.
— Eu esqueci de te devolver ela hoje à tarde — ele disse — Peguei sua mochila e levei pra casa antes de ir te procurar no Barrens. Tá tudo aí dentro. O Bowers não pegou nada.
— Obrigado, Richie.
— Não foi nada não, Eds — Richie respondeu, e então olhou por sobre o ombro, na direção da rua — Ei, que tal você deixar eu entrar antes que alguma viatura passe e ache que eu tô tentando invadir a sua casa?
Eddie riu.
— E você não tá?
— Nem um pouco. Aqui é minha segunda casa. A terceira é a do Big Bill.
— Eu não acho que a minha mãe vai deixar você entrar.
— E quem foi que disse que ela precisa deixar? — perguntou Richie, sorrindo. Ele deu um pulo e cravou os dedos nos beirais da janela, dando impulso com o pé para dentro do quarto. Deitado e esparramado no colchão, ele olhou para Eddie e sorriu — Viu, Eds? O Moby Dick não precisa saber que eu estou aqui.
— Richie… — repreendeu Eddie, em tom de desaprovação.
Richie sentou num pulo e alvoraçado começou a mexer os braços na frente no corpo.
— Mi disculpa, mestre! Mi disculpa! — começou a falar, com a Voz estridente do Garoto Negro. Animado, começou a chacoalhar Eddie de um lado para o outro — Num bate em mim! Num deixa a baleia mi comê! Num deixa, sinhô! Eu vô sê um minino bom!
Eddie sufocou uma gargalhada e segurou os braços de Richie.
— Você é impossível.
— Só se for impossível de resistir.
Eddie balançou a cabeça, mas não por desaprovação. Ele apenas balançou a cabeça, um ato involuntário. Tinha um sorriso bobo no rosto, que sumiu aos poucos. Richie pegou a mochila gato-gordo do chão e retirou o saquinho de remédios que o dr. Handor havia receitado para Eddie havia uma semana. Ele apanhou uma das pílulas de dentro do saquinho branco e, esticando o braço até o criado-mudo, pegou o copo de canudo divertido que Eddie esqueceu em cima de duas revistinhas do Zorro. Richie estendeu a pílula e o copo para o amigo.
— Tenho certeza que já passou da hora de você tomar isso — disse ele, assim que Eddie pegou o comprimido de sua mão.
— Passou — Eddie respondeu. Ele enfiou a pílula no fundo da língua e deu um gole no canudo. O comprimido desceu sem protesto algum —, mas minha mãe não sabe.
Mordendo os lábios, Eddie colocou o copo no chão e encolheu as pernas no peito, encostando na parede da janela. Richie o olhou curioso.
— Eu tive um sonho hoje à tarde, Richie. Com o Ben. Tinha você, eu, o Stan, o Bill e ele. Acho que tinha a Beverly também, eu não sei. O Ben tinha um machucado na barriga — ele olhou para Richie —, eu acho que o ferimento era em forma de “H”.
Ele viu Richie arregalar os olhos.
— Puta merda, Eddie!
— O-O quê?
— Caramba, isso realmente aconteceu! O monte de feno tem uma cicatriz enorme na pança! Foi o Bowers que fez isso com ele. Foi você que
— fiz o curativo.
— Exatamente! Cacete! Você lembrou do Monte de feno!
Eddie balançou a cabeça.
— Não, eu não lembrei. Eu só… Eu quero dizer, não foi um sonho estranho, mas…
— Talvez falte alguma coisa, Eds! Talvez se você ver a cicatriz, o que você acha? Nós podemos encontrar o Ben amanhã.
— Poder ser. Mas e se não der certo?
— A gente tenta de novo.
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