O diário de Richie Tozier

12 Eddie Kaspbrak lembra de Stan Uris


Notas iniciais
♥ Perdoa eu e esse vício de colocar o Henry no meio rsrsrs; ♥ Esse é um capítulo um pouco voltado para stenbrough;

No dia que Eddie lembrou de Stan Uris, ele também inventou uma mentira.

Eddie encontrou Stan no Barrens, logo depois da aula. Mas não porque ele queria encontrá-lo. Eles não haviam combinado. Não haviam nem se falado naquela manhã. Eddie chegou a falar com Bill Denbrough e a trocar o sanduíche de pasta de amendoim e geleia pelo mufin de amora de Ben Hanscom, mas só. Quando o sino cantou em cada sala da Escola de Derry e os corredores logo ficaram cheios e poluídos de gritaria, Eddie estava sozinho.

Encolhido, ele andou rápido, mantendo os olhos no chão, acompanhando seus próprios passos. Eddie sentia os olhares pesarem em cima de suas costas. O fim de aula era sempre uma loucura, e mesmo com tanta algazarra, ele conseguiu ouvir por debaixo do alvoroço quando Carla Bordeaux sussurrou seu nome para Cissy Clark. As duas meninas eram da sala de Ben Hanscom e Beverly Marsh. Elas estavam perto do antigo armário de Betty Ripsom quando Carla abriu a boca grande e disse

— Aquele é Eddie Kaspbrak. Foi ele quem sofreu aquele acidente. Meu pai disse que o amigo desse menino acusou Henry Bowers pelo que aconteceu. Você acha que foi ele? Porque eu não acho.

A mochila ficou muito mais pesada naquele momento. Era como se Cissy Clark a tivesse aberto e enchido de pedras e cascalhos. Desconfortável, Eddie ajeitou a bolsa nos ombros. Ele lançou um último olhar para Carla Bordeaux antes de perdê-la de vista no meio da multidão. Um olhar envergonhado e desatento, que o levou a esbarrar em alguém com força. Eddie cambaleou para frente em busca de equilíbrio. Quando ouviu risadas, ele saiu correndo. Deu de cara com o sol e desceu as escadas. Eddie deu a volta na escola e saiu na rua Charter. A gritaria e os corredores cheirando a suor ficou pra trás. Carla Bordeaux, Cissy Clark, Peter Gordon, todos ficaram para trás. E então ele subiu a Witcham, sem nem pensar em olhar por sobre o ombro. Eddie subiu três quadras da Kansas antes de virar na Main e pegar um atalho na travessa Richard. Quando saiu na rua Center, ele virou a direita e entrou na Center Street Drug Store.

O sininho em cima da porta anunciou a chegada de mais um cliente. O sr. Keene ergueu os olhos e parou de escrever o que estivesse escrevendo. Ele empurrou os óculos de aro dourado nariz acima e sorriu ao ver Eddie Kaspbrak atravessar o corredor de antissépticos. O sr. Keene se inclinou lentamente sobre o balcão e juntou as mãos abaixo do peito.

— Eddie, meu garoto. Como está se sentindo?

— Bem.

— Veio buscar suas pílulas?

— Sim, por favor.

Eddie ficou na ponta dos pés e apoiou os braços no balcão. O sr. Keene se virou e fuxicou em uma das gavetas. Depois de murmurar alguma coisa, ele entregou o saquinho de remédios para o menino.

— Diga a Sônia que mandei um oi, sim?

Eddie olhou dentro do saquinho, concordando com a cabeça.

— Eu vou. Obrigado, sr. Keene.

Eddie rapidamente saiu da Center Street Drug Store e deixou o sr. Keene e seu sorriso azedo lá dentro, atrás do balcão de vidro. Ele andou duas quadras até a rua Kansas, desceu e virou no começo da Witcham. Se Eddie tivesse descido a Kansas e ficado por lá, ele não teria lembrado de Stan Uris e muito menos seria obrigado a correr de Henry Bowers. Eddie estaria em casa, fazendo a lição da escola e depois assistindo Tom e Jerry com a mãe na sala. Mas no meio do caminho ele decidiu ver se Bill Denbrough estava em casa. Pensou que talvez eles pudessem brincar de arminha no quintal.

Henry estava encostado na imensa parede de tijolos da lateral do prédio da Escola de Derry. Estava esperando Patrick Hockstetter voltar do mercado da avenida Costello com alguma bebida alcoólica. Eles haviam combinado o esquema antes da aula, porque Patrick estava com uma identidade falsa nova. Eddie saberia disso, saberia que Henry estava a dois palmos da sua fuça, mas ele foi desatento o suficiente e não olhou direito para os dois lados da rua quando atravessou a Jackson. Estava ocupado demais colocando o saquinho de remédios dentro da mochila.

A atenção só voltou quando Eddie estava perto do bueiro aonde Georgie Denbrough foi brutalmente assassinado. Ele ouviu passos. Passos além dos dele. Passos pesados que pareciam afundar a calçada. Lentamente, ele olhou para trás. Henry Bowers estava a poucos metros de distância.

— Ei, sua bicha estúpida! — Eddie ouviu Henry gritar — Eu quero acertar umas coisas com você.

Movido ao desespero, Eddie apertou o passo. Começou a andar rápido e depois a correr. Passou pela casa de Bill Denbrough como um raio e quase escorregou na rua quando tentou olhar por sobre o ombro. Sentia o peso da mochila sempre dar impulso pra frente, desequilibrando seu corpo. Na interseção da Witcham com a Weast Broadway, Eddie sentiu ser abruptamente puxado para trás. Henry o havia alcançado e agarrado sua mochila.

Seu merdinha! — Henry cuspiu — Seu merdinha desgraçado, meu pai tá emputecido comigo por causa sua e daquele quatro olhos metido a besta. Mas vocês não vão sair por cima, tá entend

Eddie deu um chute para trás e Henry sentiu uma dor aguda no pé. Ele deu um uivo no momento que Eddie se desprendeu da mochila e continuou correndo. Em disparada, virou na esquina e deu de cara com a casa de Sally Mueller. Sentia o corpo muito mais leve. A mochila já não o empurrava mais para frente. Conseguia correr muito mais rápido. Quando chegou perto da casa de Greta Bowie, ouviu Henry gritar da esquina. Eddie olhou para trás e viu ele mancar como um velho. Na metade da West Broadway, bem perto da casa de Richie Tozier, no momento que olhou para frente de novo, Eddie trombou de cara com um poste de luz. O impacto jogou seu corpo para trás, e Eddie caiu de costas no chão, perdendo o ar. As costas doeram de forma absurda. Uma dor chata e aguda. Ofegante, ouvia os gritos de Henry ficarem cada vez mais altos. Angustiado, Eddie tateou os bolsos em busca de sua bombinha de asma.

Os gritos de Henry fez o pânico tomar cada vez mais conta da sua respiração. Eddie levantou, bambo, e a plastificada bombinha caiu no chão. Ele a pegou, enfiou na boca aberta e apertou.

— Eu vou quebrar você, tá me ouvindo!?

As costas de Eddie estralaram quando ele voltou a correr. Suor molhava o interior da camisa. Ele correu até o final da West Broadway e atravessou o tráfego da Kansas sem nem olhar para os lados. Buzinas e pneus cantaram como loucos e Eddie se enfiou na vegetação do Barrens antes de algum carro criar um acidente novo.

No meio do Barrens, Eddie foi estapeado por arbustos e galhos baixos. Sentia vontade de chorar porque não lembrava para que lado a sede do clube estava. Sabia que aquele era seu único jeito de pedir ajuda no meio daquelas árvores grossas. Eddie não sabia mais que direção estava tomando, e se Henry Bowers o encontrasse, ele seria um menino morto. Ninguém o ajudaria. Ninguém os ouviria. Ninguém nem acharia seu corpo. Eddie morreria sozinho, sem lembrar de seus amigos.

A bombinha foi sugada de novo e Eddie ganhou um corte na lateral do lábio quando mais um galho estapeou sua fuça. Estava cansado de correr e os tênis estavam sujos de terra. Ele diminuiu os passos e nisso, ouviu barulho de água corrente. Empurrou os arbustos com cuidado. Se havia água corrente, havia o Keanduskeag, e se havia o Keanduskeag, havia o canal. Conforme se aproximava, o barulho da água ficava cada vez mais alta e mais alta.

Eddie olhou ao redor e ouviu um galho quebrar. Espontaneamente se escondeu em um amontoado de arbustos. Quando ouviu vozes, seu coração ficou disparado. Ele olhou por cima da vegetação. O sol refletiu na correnteza de água.

Ele viu Stan Uris sentado na margem do Keanduskeag, e Stan Uris não estava sozinho. Bill Denbrough também estava lá. Os dois estavam de costas para Eddie, um do lado do outro, sentados com as pernas dentro da água. Curioso, ele delicadamente se esgueirou para mais perto. O canal estava com um cheiro forte.

Bill gaguejou alguma coisa que Eddie não ouviu bem, e depois Stan riu. Houve silêncio, um silêncio que deixou Eddie devidamente incomodado, e quando estava convicto de sair dali, ele viu. Viu serenamente Stan se aproximar de Bill. Viu Stan serenamente o beijá-lo. E quando sua memória trabalhou com toda a força, Eddie se deu conta de

(já não ter visto aquela cena pela primeira vez)

quem Stan Uris era.

Tentando ajeitar a posição, Eddie tropeçou e caiu em cima do arbusto. Pássaros voaram da árvore mais próxima.

M-Me-M-Merda, E-E-E-E-E

Eddie ergueu o olhar. Quando levantou do chão e limpou a sujeira da camisa, tanto Bill quanto Stan se aproximaram. Bill parecia chateado, já Stan

— Droga, Eddie! Que merda você tá fazendo aqui!?

— Eu

— Merda, merda, merda! Você viu?

— Sim, eu

MERDA, EDDIE!

Bill apoiou a mão no ombro de Stan.

— S-S-St-Stan…

— Stan, o cara — Eddie sussurrou — Stanny.

Os dois meninos o encararam, assustados. Desde que Eddie havia sofrido o acidente, ninguém se dirigiu a Stan daquela maneira perto dele.

— Eu lembrei, eu acho — ele continuou, mordendo os lábios — Me desculpa, eu

— C-Co-Como lembrou d-de-dele?

— Uma vez eu vim sozinho pro Barrens para ler revistinhas na sede do clube. — Eddie começou, envergonhado. Sentia as bochechas quentes — Eu não lembro porque eu vim pro Barrens, mas eu lembro de antes de entrar ouvir risadas. Então eu agachei e olhei por uma fresta da portinhola. Eu vi vocês dois lá embaixo. Eu vi Stan no seu… hum, eu vi vocês se beijarem. E Stan esticou o braço na sua

MERDA, EDDIE!

— Me desculpa! Me desculpa mesmo, eu nunca ia imaginar que

— V-Vo-Você contou pra a-a-alguém?

— Eu não lembro, Billy. Eu nem lembro deles. E-Eu sinto muito mesmo. Eu não acho que eu teria contado uma coisa dessas. Eu não sou um babaca!

Silêncio.

— Se o E-E-Eddie tivesse contado para a-al-alguém, eles já teriam f-f-fa-falado com a gente, S-St-Stan — Bill reconfortou o amigo. Depois virou para Eddie e disse: — N-N-Nós estamos esperando o m-mo-momento certo.

Eddie concordou.

— V-Vo-Você guarda s-se-segredo?

— Eu juro, Big Bill.

Stan deu um tapinha nas costas de Eddie e se desculpou por gritar. Bill agarrou os dois e os abraçou. Quando o abraço se desfez, Eddie acariciou a própria nuca.

— Henry tava no meu pé. Eu tava fugindo dele, por isso vim parar aqui.

— Você tá bem?

— Acho que sim. Ele pegou minha mochila. Meus remédios estavam lá. Às vezes ele deixou ela pra trás. Eu vou passar na Weast Broadway pra ver se eu a encontro.

— E-E-Ele te d-de-deixou em paz?

— Não vi o Bowers desde que entrei no Barrens.

— Ele deve ter amarelado.

Bill sorriu e timidamente pegou na mão de Stan.

— É. A-A-Amarelou feio.

Eddie também sorriu, e, depois, apontou com o polegar para a vegetação atrás dele. Disse que era melhor ir embora.

— Henry já deve estar longe e eu quero pegar minhas coisas de volta.

Ele se esgueirou novamente pelos arbustos e galhos baixos quando se afastou do canal. Assim que chegou na vegetação baixa, não muito longe de onde Bill e Stan estavam, ele chacoalhou a bombinha e deu uma sugada. Depois, a guardou no bolso e viu folhas se mexerem na sua frente. Mesmo que pudesse ser apenas um bichinho, Eddie deu um passo para trás, na defensiva, com o coração já tamborilando no peito.

Ele gritou quando Richie Tozier foi vomitado pelas árvores.

Caralho! Você me assustou!

Richie soltou um xingamento e abraçou Eddie.

R-Richie?

— Eu vi aquele caipira filho da puta te perseguir. Puta merda, Eddie! Eu me caguei de susto quando vi os dois entrarem no Barrens.

Eddie empurrou Richie do abraço, desconfortável. Envergonhado, Richie passou a mão na nuca.

— Você veio me ajudar, é isso?

— Com certeza, camarada. Faria isso por cada um de vocês.

— Abraçaria cada um também?

Richie deu um riso sem graça.

— A ação depende da minha preocupação. Se precisasse, eu tascaria um beijo bem molhado na boca do Monte de Feno. Mas me diz. Não saiu daqui ainda por quê?

— Eu… Eu encontrei o Bill e o Stan perto do canal. Estávamos brincado.

— Verdade? Estavam jogando o quê?

— Um jogo de palavras que o Stan ganhou.

— Poxa, parece bacana. Eu quero brincar também.

Richie começou a caminhar para a direção que vinha o barulho de correnteza. Eddie agarrou sua mão.

— Não acha melhor a gente brincar amanhã?

— Nós já estamos aqui, Eds. Vamos, me larga. Vai ser divertido.

— M-mm. Não.

Impaciente, Richie revirou os olhos e puxou o braço. Sorriu ao sentir a pequena mão de Eddie se desprender de seu pulso, e saiu correndo ao gritar

— Você não me pega, Eds!

Eddie seguiu Richie, impaciente. Correu e se desvencilhou dos galhos com mais facilidade. Quando em meio as folhas viu a pele pálida do garoto, aumentou o passo, tropeçando em uma raiz exposta. Ele planou e caiu em cima de Richie, que soltou um gemido. Os dois estavam bem pertinho da represa, e quando Richie ajeitou os óculos na base do nariz e olhou para o Keanduskeag, não viu nada além de um barquinho de papel boiando para perto do canal.

— Eu disse que eles tinham ido embora — Eddie falou.

Estava aliviado por dentro.