O diário de uma filha de Hades
4 O ataque dos pombos assassinos
Notas iniciais
09 de Outubro
Acordei ontem com uma dor de cabeça malvada. Massageando a têmpora, andei até o banheiro e, naquele meu ritmo de filha de Hades escovei meus dentes.
– Ô criatura, levanta! – Nico puxou meu cabelo. Não se pode mais dormir no chão? – Quero tomar banho.
– Mmm... Não vou sair daqui... – bati na perna dele ou sei lá o que diabos era.
– Tá bom, não saia. – Ele sorriu maliciosamente. Fechei meus olhos, e quando estava quase dormindo sinto algo cair na minha cara.
Olho pro alto e... Deuses. Ah, se ele não fosse meu irmão!
Acho que Nico foi abençoado por Afrodite.
Nem preciso dizer o que eu vi, né? Senão vou ter que censurar, e meu diário não é lugar de safadeza.
– Aah! Tô saindo! Que nojo! – Gritei com as mãos nos olhos e pulei na minha cama.
Ele riu e ouvi o chuveiro sendo ligado.
Você, diário, deve estar pensando: que droga de irmã é essa que fica pensando besteira do próprio irmão? É a Lia.
Já com meu violão maravilhoso que nem eu sentei-me na escadinha e dedilhei um pouco.
“Oh, and I’m on my way to believing…”
– Nossa, mas como você nunca me falou que cantava? E tocava violão? – Mary começou a afinar a voz. Muito. – A gente podia cantar na fogueira! Tipo, e gravar um CD! Aí eu seria famosa! E rica! E mais linda!
Revirei os olhos.
– Querida, aí você acorda, né? – Ela mostrou a língua. – O que esse cabelo de menstruação faz na minha frente?
– Ai, sua chata. – Mary fez biquinho e eu ri. Continuei a dedilhar. – Me faz um favor?
Coisa boa não era. Vindo dela...
– Depende, você sabe que depende. Diga.
– Vamos fazer compras? Por favor! Eu faço o que você quiser. – E naquele momento de euforia ela só foi perceber as seis palavrinhas depois que as falou. Tapou a boca. – Não, espera!
– Tudo bem. – Sorri maliciosa. – Tudo o que quiser comprar, para um favor meu. Sem discussão. Onde vamos?
– Miami! – Deixei o violão no quarto. Ela me esperava na porta do quarto. Tomei suas mãos e, juntas, viajamos pelas sombras.
Eu odeio viajar nas sombras. Se eu, que sou filha de Hades, já fico muito enjoada – tipo quando vou viajar de avião ou, sei lá, minha mãe me arrasta naqueles cruzeiros de velhas solteiras com vinte gatos -, imagino Mary.
Mal chegamos, e o ar tremulou. Mensagem de Íris louca.
– Onde você está? – James sussurrou. – Sua praga! Aquele seu namorado não para de me encher o saco sobre você.
– Que namorado? – Mary me olhou maliciosa. Droga, agora é mais um. – Shawn?
– É, criatura. Como se você tivesse capacidade de arranjar outro. E cadê a Mary, aliás?
Ela acenou tentando parecer uma miss. E conseguiu. – Estou em Miami, vadia!¹
– Tá, mas o que você falou?
James revirou os olhos.
– Que você foi cagar, óbvio. Tenho que ir, não tenho mais dracmas.
– Mas... – A imagem se dissolveu. – Maldito! Idiota! – E os palavrões se seguiram, mas não acho importante escrevê-los. Um casal de velhinhos alimentando pombos me olhou. Os pombos também. Tipo, todos.
– Ahn... Lia, o que você fez? – Mary me cutucou. Eu mordi o lábio.
– Eu... Chamei sua mãe de maluca...
– Sua... Idiota! – Falando isso, os pombos começaram a se aproximar, tipo querendo nos cercar. Um deles me observava com um olhar assassino demais. Demais mesmo, sério.
– Depois você briga comigo, agora eu tenho que... – Fingi mexer na bolsa. Aliás, que bolsa? – Correr!
Os pombos voaram pra cima de mim. Era um mar de asas, pipoca com bacon e uma menina de 1,50 correndo e gritando.
– Titia Afro, desculpa! Ai meu coração! – Me escondi atrás de uma árvore. Olhei para trás e vi que eles me procuravam com aquelas cabecinhas pequenas, os bicos cheios de doença e os olhos vermelhos. Virei para frente e um menino me olhava. – Ai meus... eu... – Cocei a cabeça.
Ele se matava de rir. Estava ficando vermelho, roxo, anil, rosa-chiclete, verde-batata – verde batata? -.
– Pare de rir, seu lesado! – Bati no menino desconhecido. Ele parou e me encarou. – Sim, e quem você é para me bater?
– Sou uma filha de... – E se ele fosse mortal? Melhor não arriscar. – Droga, eles me acharam. Corre!
Peguei a mão dele e, juntos, saímos correndo enlouquecidamente até, sei lá, eu desistir da minha vida.
Ele bufava.
– O que você faz aqui?
Que raios de pergunta é essa? Ele se levantou e, finalmente, pude notar quem era. Tinha os cabelos castanhos lisos com uma mecha bem roxa – meio Chimbinha -, usava uma jaqueta de couro preta, calças camufladas, coturno e... UMA CAMISA LARANJA!
– O que você faz aqui digo eu! Desconhecido! – Tirei seus óculos. Olhos bem castanhos, transmitiam muita raiva. – Filho de Ares.
– Filha de Hades.
– Touché.
– O que é touché? – ele me olhou confuso.
– Ah, esqueci que os filhos de Ares são burros. – Ele me pegou pela camisa, pronto para me bater. Mas eu não quebrei o contato visual, a encarada, o olhar 43. Chame como quiser.
– Sua... – Seus olhos suavizaram. – Meu nome é David.
– Lia.
– Eu sei quem você é.
– Mas eu não fazia a mínima ideia de quem você é. – Enfatizei o ‘você’. – E como fugiu?
Ele coçou a cabeça.
– Digamos que Argos me devia um favor. E você?
Revirei os olhos.
– Viagem nas sombras, né querido! Agora você volta comigo e eu não quero nem saber!
Odeio ficar falando sobre em que lojas fomos, as discussões minhas, de Mary e David invadindo e tudo o mais. Resumindo: nunca gastei tanto na minha vida (uma loja de jogos abriu e estava em liquidação), Mary pode ser muito persuasiva, David é um maluco meio nazista e eu queria mais do que nunca voltar ao chalé. E assim o fizemos.
Assim que cheguei, James me bombardeou com perguntas que nem me importei em ouvir. Ele repetiria.
Abri a porta, e Shawn me esperava sentado em minha cama. Nico já dormia.
– Demorou muito, anão de jardim.
– O que você faz aqui? – Ele colocou um dedo nos lábios e apontou para Nico.
– Vim te falar uma coisa: não se meta com David. Não faça ele voltar para o Acampamento, por favor.
– Por que? – A pergunta ficou no ar. Shawn já tinha ido embora há muito tempo.
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