O diário de uma filha de Hades
7 Lavar as louças pode ser uma má ideia.
Notas iniciais
13 de Outubro
Diário, eu deveria aprender com meus erros e nunca mais acreditar no que Shawn diz.
Hoje, depois de eu conseguir por duas horas me esconder das filhas de Afrodite — inclusive, sacrifiquei meu café da manhã por isso. É sério! -, uma delas me encontrou.
Adivinha quem?
– Ei, você! — Uma loira bem bonitinha saiu correndo a minha direção. — foi você que estava em nosso chalé ontem a noite, não?
A encarei.
É a menina dos pés bonitos que acordou todo mundo.
– Sim. — Mesmo tentando apressar o passo pra mostrar que não queria conversar, ela me seguiu.
– Com aquele novato... — Seu tom de voz me fez parar.
– Eu não tenho nada com ele!
Ela riu.
– Eu também não disse que tinha, mas se a carapuça serviu...
– Olha aqui, o que você quer, hein? Porque já conseguiu acabar com a minha manhã com esse papinho sem graça e que não nos leva a nenhum lugar.
– Ah, me desculpa! — Ela ajeitou os óculos dourados. — Aliás, meu nome é Nichole, mas todo mundo me chama de Nicki.
– Não parece com a Minaj... — Averiguei a tal Nichole e ela corou. Filhas de Afrodite coram?
– Enfim, eu queria pedir desculpas por ter causado toda aquela confusão...
– E?
– E, senhora apressada, que se não fosse por mim você estaria lavando os estábulos agora. E saiba que os pégasos estão com um probleminha de diarreia.
– Filhas de Afrodite falam de cocô de pégaso? — Comecei a rir.
– Do que acha que falamos?
– Maquiagem, cabelos e unhas... — Devaneei e ela me deu um tapa na nuca.
– Não é só isso!
– Verdade, tem pele também. — Outro tapa? Sério? Virei saco de pancada agora, só pode.
A tal Nicki revirou os olhos e saiu andando. É bom mesmo, pois (in)felizmente já era a hora de eu ir cumprir meu castigo e ir lavar louça com as três pessoas que eu menos queria ver.
Sabe naqueles filmes, quando uma garota chega em algum lugar e parece que todo o ambiente foi manipulado? Tipo, jogando vento no cabelo dela para que fique todo bonito, a luz batendo em um ângulo que a deixasse linda e tal?
Não foi o que aconteceu comigo.
Assim como os deuses não gostam muito de mim, não querem mesmo que eu tenha um momento deusa grega do dia. Ou sei lá, só sou azarada.
– Acho que precisamos por uma rampinha pra cá, para que pessoas como Lia não caiam toda vez... — Shawn riu-se até que lancei um dos meus olhares mortíferos.
– Muito engraçado você. — Analisei o que faziam. — Já que, bem... Não tem mais o que fazer por enquanto, eu posso guardar a louça.
– Então o David fica aqui e te ajuda. — Shawn contestou.
– Por que? Sou perfeitamente capaz de fazer tudo sozinha.
– Oh sim. — Ele riu. — Você? Do jeito que é desastrada e baixinha, mais capaz quebrar tudo do que conseguir guardar um prato.
– Falou o lesado que fala dormindo! — Os dois outros, que estavam concentrados demais, pararam de fazer o que estavam fazendo. David e Mary me olharam e eu corei. — Eehrm... Tá... Eu posso guardar então com ele...
Os três me ignoraram por um tempo, era realmente muita louça. Depois, ficamos só eu e o filho de Ares.
– Vou pegar uma escada. — Fiquei sozinha, então, nada melhor do que fuçar a despensa. Tinha muita comida gostosa ali...
– Ei! Pare de comer Nutella e venha me ajudar! — Ouvi gritarem e caí no chão. — Tá bem?
– Tô. E não preciso de ajuda pra levantar.
Começamos a guardar prato por prato em silêncio.
– Bonita música. Você canta bem. — Sabe quando você se desliga do mundo e nem nota que está fazendo algo? Então.
– Obrigada.
– E não precisa ficar toda vermelha. — Ele riu e afagou minha bochecha com o dedão. Desde quando filhos de Ares são fofos?
Depois de um tempo, decidi perguntar.
– Por que você não reclamou quando falaram pra você ficar guardando as coisas comigo?
– Bem... Eu... Não tinha nada pra fazer.
– Nem novatos pra bater? O Shawn seria um bom saco de pancadas... — Sorri com a ideia.
– Não, nele eu... — Seus olhos faiscaram. — Deixa. Por que está me perguntando isso?
– Ah, porque... — Eu não tinha um motivo, na verdade. — Porque eu não quero que ninguém me veja com você!
– Ah é?
– É!
David riu e pegou minhas pernas.
– Me solta! O que você está fazendo, seu maluco? Maníaco! — Bem, vocês sabem o que aconteceu. Ele me colocou nos ombros dele e saiu correndo.
– Gente, olhem a Lia! OLHEM A LIA!
– Ele tá me estuprando! Tarado! Nojento! Atacador de menininhas indefesas!
Esmurrei as costas dele, mas né... Não funcionou muito, porque o maldito me jogou no lago! E no meio da aula de canoagem!
– Socorro, eu não sei... — E a visão escureceu.
***
– Onde eu tô?
– Na enfermaria. Você desmaiou, parecia bosta boiando.
Joguei um travesseiro nele.
– Não me compare a bosta... Não sou você.
– Ah, é? — Shawn se aproximou.
– É. — Distância perigosa demais...
Não, não chegue mais perto! Volte para as profundezas do útero de sua mãe!
– Boas notícias, Lia! Já pode... — David estava trazendo um milkshake nas mãos e parecia feliz até abrir a porta. — Ah, desculpe, tô atrapalhando o casal.
A porta fechou num estrondo. Empurrei os ombros de Shawn.
– Você é um maluco, um esquisito! Sai de perto de mim! E aliás, pare de me usar só pra conquistar a piriguete da Mary...
Seus olhos eram de um intenso azul que chegaram a faiscar de raiva e algo mais que eu não pude identificar.
– Tá. Não vou mais chegar perto de você. — A porta se abriu e fechou de novo. Por alguns instantes, fiquei com dó da pobrezinha...
Será que fiz cagada?
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