O diário de Richie Tozier

9 Richie Tozier tem um sonho estanho.


Richie Tozier teve um ou dois sonhos esquisitos antes de acordar. Em um deles, Henry Bowers era uma criança catarrenta com cheiro de chulé, e Richie tinha um pouco de pelo começando a crescer na cara. Era mais velho, mais forte e mais seguro. Henry, por outro lado, era pequeno, gordinho e birrento. Eles estavam na calçada da avenida Costello, bem em frente ao mercado. No sonho, Richie segurava Henry pela gola da camisa. Indefeso, Bowers se debatia de um lado para o outro, fazendo suas banhas baterem na lateral da cintura. Sangue fresco escorria de seu nariz, e quando Richie lhe deu mais um soco na fuça, Henry se explodiu em um grito de dor, ouvindo o osso de seu nariz fazer um barulho esquisito.

Você gosta disso, seu merdinha?, ouviu-se dizer. Henry caiu de bunda no chão quando Richie o soltou. Ele tentou se afastar, arrastando-se de costas pela calçada, mas Richie o puxou pelas pernas de novo. Abre a boca, Bowers. Abre a porra da sua boca!, ele gritou, e Henry obedeceu, com os olhos trêmulos e cheios de lágrimas.Foi então que Richie inspirou e cuspiu um amontoado de saliva em seu rosto.

Quando olhou para a vitrine do mercado da rua Costello para limpar o filete de saliva que estava escorrendo da boca, o coração de Richie disparou como se houvesse recebido um choque. Richie já não era mais Richie. Richie era Henry, e quando ele olhou para Henry de novo, Henry era Richie. Coçou os olhos para ter certeza do que estava vendo, e depois que as estrelas sumiram e sua visão começou a acostumar com a claridade do sol novamente, Richie viu que naquele momento ele era o garoto catarrento e sujo largado no chão. Balançou a cabeça, alarmado, como se aquela visão pudesse pular para fora dali como um inseto que estava preso no cabelo, mas não adiantou. Richie então fechou os olhos e virou para a vitrine de novo. Contou até três e olhou para seu reflexo mais uma vez. Graças a Deus.Lá estava ele de novo.

Não deu um minuto, e um choramingo começou a surgiu atrás de suas costas. Por quê, Richie?, ele ouviu. Por que você fez isso comigo?. Seu braço arrepiou e seu coração gelou. Ele virou para a rua e olhou para a calçada. Eddie estava lá, no lugar de Henry, com o nariz sangrento e quebrado. Com a sua saliva escorrendo no rosto. Você não me ama mais, Richie?, Eddie perguntou. O que eu fiz pra você, o que eu fiz?. Richie cobriu o rosto com as mãos. Não, não, não, não, não, dizia a si mesmo, balançando a cabeça. Não, você não é o Eddie, não é.

Atônito, Richie começou a andar em ré, procurando fugir da imagem de Eddie esmurrado no chão, pelas suas próprias mãos. Deu um passo, e outro e mais outro, até cair no nada, numa escuridão inerte, como se estivesse flutuando. Richie planou igual Alice na toca do coelho, e quando percebeu, teve que mergulhar em água quente. Era seu outro sonho. Um sonho aonde ele era do tamanho de cenouras, batatas e vagens, e da mesma forma que os legumes tinham que boiar na água quente, Richie também tinha. Naquele sonho, ele estava dentro de um caldeirão fundo. Ele fazia parte de um ensopado delicioso que Henry Bowers, o gigante, estava fazendo. Era horroroso. Henry era maior que a estátua de Paul Bunyam. Maior e mais assustador. Seus dentes eram afiados como palitos de dente e seus olhos eram sanguinários e cheios de ódio. Richie procurava gritar por cima do barulho da água borbulhante, e a única resposta que recebia era a risada de porco horrenda que Henry soltava a cada vez que abria a boca.

Antes que Henry Bowers o pudesse comer no jantar, Richie acordou em um dos quartos do hospital. Mesmo que não conseguisse ver pela falta de seus óculos, Ben Hanscom estava lá, sentado no sofá, com a cabeça recostada na janela. Ao lado dele, estava Beverly, deitada em seu peito. Mike Hanlon andava de um lado para o outro, impaciente e Stan Uris anotava alguma coisa no seu livro de pássaros. Bill não estava lá. Nem Bill e nem

eddie! — Richie sentou bruscamente, esticando seus braços em procura de seus óculos — Eddie!

— Richie!

Mike foi o primeiro a se aproximar. Depois veio Ben, Bev e Stan aos tropeços. Os óculos de Richie foram-lhe entregue nas mãos por algum deles, e ele os vestiu com urgência. O nada virou tudo, e ele conseguiu enxergar o rosto de seus amigos. Beverly parecia preocupada e tinha bolsas de olheiras sobre os olhos. Ela abraçou Richie e começou a chorar. Então Ben, Mike e Stan o abraçaram também.

— Por que toda essa cerimônia? — perguntou, assim que todos o soltaram.

Beverly riu em meio as lágrimas.

— Soubemos o que aconteceu e viemos correndo para cá. Você não deviam ter saído do Barrens. Oh, Rich. Eddie

— O que tem ele?

— Do que você lembra? — perguntou Stan.

— Henry Bowers, é isso que eu lembro. Aquele caipira miserável. É tudo culpa daquele

— Rich

O quê!?

— Eddie está em outro quarto — Mike começou a falar — Ele foi atropelado. Bill está com ele. Um homem viu tudo de dentro do mercado da rua Costello. Henry bateu em vocês dois e Eddie foi atropelado porque ele tentou sair correndo. O pai do Henry disse que ele e os amigos dele estiveram dentro de casa o tempo todo. Ele falou que o homem é um mentiroso.

mas

— mas nós sabemos que não é verdade.

A porta rangeu. Bill entrou no quarto e aproximou-se entre Ben e Stan.

— O-o-oi Richie. C-co-como você e-e-está?

— Eu não sei, Big Bill. Como Eddie está?

Bill abaixou os olhos e lambeu os lábios.

— B-be-bem, eu acho. Não q-q-quebrou nenhum o-o-osso. Ele só lu-lu-l-luxou o nariz e agora t-te-tem uma c-ci-cicatriz de c-ci-cigarro n-no p-p-pescoço. E-E-Eddie está no q-qu-quarto 609.

Beverly abaixou os olhos. Ben deu um espirro.

— A senhora Kaspbrak ainda está lá, Bill? — Bev perguntou. Bill negou.

— E-e-ela saiu p-p-para b-bu-buscar outra bo-b-bomb

Richie mal deixou Bill terminar de falar. Afastou os lençóis e levantou da cama. Ele estava descanso e o chão estava frio. Do lado de fora do quarto, procurou de supetão seus pais. Olhou para a ala de espera e depois para o corredor. Não achou ninguém e ficou triste. Pensou se por acaso seus pais estiveram ali em algum momento, ou se pelo menos eles sabiam que Richie estava no hospital.

O quarto 609 estava a três portas de distância. Nas pontas do pé, Richie tentou primeiro olhar pela janelinha da porta. Não alcançou e muito menos viu algo. Olhou para um lado e viu uma maca disposta no corredor. Olhou para o outro e viu seus amigos o seguindo em fila indiana. Richie então abriu a porta e entrou primeiro. Eddie estava com o cabelo penteado para o lado, tomando água de um copo com canudo de sanfona. Sua cicatriz estava roxa. O coração de Richie explodiu de felicidade, e mais tarde adoeceu de tristeza.

— Eds! Hei, Eds, meu garoto! Como está?

Eddie engasgou e sentiu água entrar no nariz. Seus olhos pularam de Richie para Mike, de Mike para Ben, de Ben para Stan, e de Stan para Beverly.

— Estou… bem?

Richie aproximou-se mais um pouco e com um sorriso charmoso deu uma piscadela. Eddie, por outro lado, encolheu-se mais um pouco por entre os lençóis.

— Foi uma tarde e tanto, não foi, Eddie Spaguetti? Você quase virou pizza!

Beep beep, Richie — Beverly torceu o nariz, e riu.

Eddie enrugou o cenho.

— Bi-bi o quê?

Beep beep — Beverly repetiu — Beep beep, Richie.

— Quem é Richie? — perguntou Eddie, alarmado — Bill, quem são eles? Billy, quem são eles? Quem é ele? Cadê a minha mãe? Bill, eu eu não consigo res resp resp

Eddie pegou a bombinha

suuuuuuup

e Richie perdeu o chão.

(quem é Richie?)