O diário de Richie Tozier

10 Eddie Kaspbrak é acolhido.


Notas iniciais
♥ Consegui trazer esse capítulo o quanto antes, espero que gostem ♥ Estou muitíssimo grata com todos os comentários, de verdade. Espero de ♥ que continue assim; ♥ Como já fiz vocês sofrerem demais, esse capítulo tá bem soft; ♥ Boa leitura!

Bill Denbrough fechou a porta do quarto nº 609 e Richie imediatamente sentiu uma horrível vontade de chorar. As mãos estavam extremamente suadas e trêmulas quando ele empurrou os óculos na base do nariz, como se o ato o pudesse ajudar a entender, ou até mesmo consertar a situação. Ele olhou para Bill e se aproximou cautelosamente da maca aonde Eddie estava repousando. Logo sorriu e disse para Eddie que

— essa é uma boa piada, Eds. Vocês dois combinaram quando a gente ainda não estava aqui?

Eddie ficou em silêncio, Bill pigarreou e Beverly colocou uma mexa do cabelo ruivo atrás da orelha.

Richie virou para trás e olhou para Bill com urgência.

— É uma piada, não é, Big Bill? Heim? Heim!?

— O dr. Handor disse que eu bati a cabeça — Eddie começou, e Richie virou novamente para ele — Ele me fez perguntas do tipo “Quem é você?” e eu tive que dizer “Eu sou Eddie Kaspbrak”. Ele me fez um amontoado de perguntas, mas ele parou quando perguntou do que eu lembrava e eu disse “Lembrar do quê?”. Depois ele saiu da sala e levou a minha mãe junto.

Bill apoiou a mão no ombro de Richie e apenas naquele momento ele percebeu que todos estavam mais próximos dele.

— E-e-eu ouvi eles conversarem do l-lado de f-fora. — disse Bill — O dr. H-Handor disse que o E-E-Eddie s-so-sofreu um t-trauma. “E-Ele esqueceu o q-que a-aconteceu e p-provavelmente a-a-lgumas c-coisas a m-m-mais”, f-foi o que o dr. Handor d-d-disse. “Pode d-de-demorar pra e-ele recuperar a m-mémória” — ele fez uma pausa e respirou fundo — Q-Quando eu e-e-entrei no q-qu-quarto e E-Eddie me viu, e-e-ele f-ficou feliz. N-Não pensei que p-p-pudesse ter e-esquecido v-vocês já q-q-que l-lembrou de m-mim.

— Mas ele esqueceu — Richie sussurrou — Ele esqueceu de nós, mas lembrou dessa sua cara de cu.

— Beep b

— Enfia o beep beep no cu, Stanley!

Bill deu um tapa na cabeça de Richie.

— O-Olha os m-mo-modos, b-boca de l-lixo.

Richie cruzou os braços, olhando para os próprios pés.

— Não é justo — ele murmurou.

— Claro que é — Stan rebateu — Bill é quem Eddie conheceu primeiro. Bem antes de mim e de você.

— Bem antes de todos nós — Beverly completou — Mas a gente ainda pode ajudar ele a recuperar a memória, não é?

Bill concordou. Ben também.

Antes de um silêncio incomodo engolir o quarto, uma enfermeira entrou com uma seringa na mão, imediatamente afastando todas as crianças de perto da cama, provocando medo nelas só de ver a agulha pontiaguda escorrer um líquido horroroso e transparente. Ela perguntou como Eddie estava se sentindo, e antes que ele pudesse responder, enfiou aquela monstruosidade de metal em seu braço, lhe arrancando uma careta dolorida. Richie viu Eddie cerrar o punho, e desejou de todo o coração que pudesse estar segurando a mão dele naquele momento. Quando a enfermeira deixou a seringa em cima de uma bandeja de metal e puxou a gola da camisa que Eddie estava usando, Richie finalmente pôde ver a cicatriz que Henry Bowers havia causado em seu pescoço. Ela estava inchada e roxa, e quando a enfermeira passou um algodão com álcool em cima dela, Richie jurou ver uma lágrima escorrer pela bochecha de Eddie. Seu coração apertou e o impulso o levou a se aproximar da maca. Richie pegou a mão de Eddie, que sem nem pensar duas vezes a apertou com força quando a enfermeira pressionou o algodão mais uma vez no machucado.

Assim que ela terminou, separou um comprimido em cima da cômoda, pegou a bandeja de metal e foi embora. Eddie soltou rapidamente a mão de Richie quando Bill se aproximou, e Richie limpou o suor da palma na camisa.

— Eu o-ouvi o dr. Handor d-di-dizer pra s-sua m-ma-mãe que amanhã v-você já vai p-poder ir pra sua c-ca-casa.

— Nós vamos te ajudar a recuperar a memória, Eddie — Beverly disse e sorriu.

Eddie abaixou os olhos.

— Desculpa — sussurrou ele — Desculpa — ele começou a chorar. Soluços escaparam e ele limpou as lágrimas das bochechas com as costas da mão — Eu não sei nem o nome de vocês.

Beverly o encarou com pena e Ben esticou a mão na direção de Eddie, um pouco sem jeito. Ele estava levemente trêmulo.

— Eu sou Ben Hanscom — disse.

Eddie apertou a mão de Ben. O choro se esvaziou.

— Stan Uris — disse Stan.

— Beverly Marsh.

— Meu nome é Mike Hanlon.

Bill sorriu e passou o braço pelo pescoço de Mike. Ele virou para Eddie e disse:

— V-Você já s-sa-sabe, mas meu n-nome é B-Bill D-Denb-brough.

Eddie riu e olhou para Richie.

— E o seu nome é Richie.

Richie sentiu as bochechas ficarem quentes. Ele lambeu os lábios, ajeitou os óculos e sorriu.

— Richie Tozier é como me chamo, fazer vozes é o que eu amo.

Mike deu um tapinha nas costas de Richie.

— E ele é horrível em fazer isso.

— Não, eu não sou! Eu sou o homem das Mil Vozes, camarada. Tenha mais respeito comigo. Quando eu crescer, vou ter mais dinheiro do que três tios Patinhas juntos. E vai ser só fazendo isso.

Eddie pegou o comprimido de cima da cômoda e o colocou na boca, sugando a água com seu canudo de sanfona. Naquela altura do dia, o sol já estava desaparecendo pela janela, e Beverly começou a ficar preocupada. Disse que era melhor ir embora, porque o pai poderia ficar bravo. Mike e Stan também aproveitaram a deixa. A despedida foi curta e Ben conseguiu ver as três bicicletas se afastarem pela janela.

— N-Nós vamos para o B-Ba-Barrens a-amanhã. V-Você vem? P-Pode te ajudar a l-le-lembrar de alguma c-coisa. T-Talvez se v-você v-ver a s-se-sede do c-clube.

— Nós temos um clube?

— Nós temos, sim senhor. — disse Richie — Embaixo da terra, como um esconderijo secreto. E tudo graças ao Monte de Feno aqui.

Ben sorriu sem jeito e Eddie abaixou os olhos.

— O Barrens não é perigoso?

— É o único lugar que nós temos paz — Ben disse.

— Eu não sei se consigo ir pra lá sozinho.

— Eu posso ir com você, Eds! — disse Richie, rapidamente — Eu vou ser guia. Os seus olhos.

— Eu não estou cego.

Richie deu de ombros.

— Não, não está. Eu estou. Por isso uso esses óculos.

— Richie…

— Ora, vamos. Eu posso passar a noite aqui com você, assim você não fica sozinho. E amanhã, quando você sair, a gente vai pro Barrens junto.

— R-Richie tem r-razão. N-Não é b-bom você andar s-so-sozinho no e-estado que você t-tá. E pra e-ele é m-mais fácil d-dormir aqui já q-que se machucou t-ta-também.

Richie concordou animadamente com a cabeça.

— Muitíssimo obrigado, Big Bill.

— N-Não há d-de quê.

Eddie se deu por vencido e minutos depois Bill e Ben foram embora. Richie se escondeu embaixo da cama de Eddie quando Sônia Kaspbrak apareceu no quarto cerca de meia hora depois. Ela deixou a nova bombinha de asma em cima da cômoda de Eddie e não fez nada que uma mãe não faria. Deixou uma troca de roupas no quarto e explicou para o filho que por mais absurdo que fosse, não poderia ficar lá além do horário de visitas e foi embora muito contragosto.

— Sua mãe sempre me dá medo — disse Richie quando saiu de baixo da cama — Parece que a qualquer momento ela vai explodir, e não é sempre que eu ando com roupa de segurança.

— Sua piada é de muito mal gosto. Não é nada engraçada.

Richie sentou na beirada da cama, fazendo Eddie encolher as pernas. Pela primeira vez ele notou os hematomas roxos e amarelos espalhados pelos braços de Richie.

— Você tá dolorido?

Richie riu sem jeito.

— Não. Eu sou forte como uma rocha, Eds.

— Bill me contou o que aconteceu. É estranho não lembrar de nada. Henry Bowers te chutou, não foi?

— Como um saco de batatas.

Quando Richie olhou para a janelinha da porta, percebeu que as luzes dos corredores haviam sido apagadas. Seus olhos pularam para o relógio com a imagem de Jesus Cristo estampada, e o ponteiro indicava que já era uma hora da madrugada.

— Você acha que eu vou conseguir lembrar de vocês de novo algum dia? — perguntou Eddie, passando sua bombinha de uma mão para a outra.

Richie concordou com a cabeça.

— Você vai, e quando acontecer, nós vamos dar muitas hahas dessa situação.