O diário de Richie Tozier
4 Richie Tozier chora
Notas iniciais

No natal de 1956, quando Derry estava enfestada até as tampas de uma avalanche de neve, gripe e friagem, a avó de Eddie, em um passe de mágica (como se ele mesmo tivesse estalado os dedos e dito — Abracadabra!) apareceu batendo na porta decorada com ramos de alecrim açucarados da casa de Sonia Kaspbrak, com um peru enorme assado em uma cama de legumes orgânicos (como assim havia garantido ela). Para Eddie, aquele não tinha sido um natal muito apetitoso, já que fora obrigado a comer os legumes, a tomar um copo cheio de suco de couve e a provar a tão odiada berinjela parmegiana que a mãe costumava fazer nos finais de ano.
Enquanto as duas senhoras conversavam sobre o novo trabalho como engenheiro elétrico do primo de segundo grau de Sonia Kaspbrak, Eddie balançava as pernas por debaixo da mesa e brincava com a comida, com pouco animo, mexendo os legumes de um lado para o outro com o garfo, tentando formar um rosto. As ervilhas cozidas eram os olhos e o brócolis assado o cabelo, a cenoura cortada em palito era uma boca séria e a babata cúbica era o nariz. Eddie via o rosto do sr. Neil, sua mãe via desleixo e deselegância perante a mesa de jantar e sua avó via apenas uma criança insatisfeita com batatas assadas ao invés de batatas fritas.
Quando a noite estava no fim e Alfred Hitchcock Presents passava na televisão para deixar a sala menos vazia enquanto Sonia Kaspbrak procurava uma garrafa de vinho que havia guardado na dispensa, Eddie escovava os dentes e se preparava pra dormir. Ele olhava para o espelho e contava até trinta segundos antes de cuspir as bactérias na pia, como a dentista havia lhe ensinado, sempre fazendo um bochecho ante de ir para a cama.
Quando Eddie deitou e enfiou a mão debaixo do travesseiro para se ajeitar para dormir, sentiu sua mão tocar em algo que não fosse tecido e quando puxando para fora da cova, viu que era dinheiro. Um sorriso lhe brotou de orelha a orelha e por um momento Eddie se sentia um garoto poderoso e que poderia comprar o que quisesse sem ninguém lhe impedir. Sua avó viu aquele sorriso quando apareceu na soleira da porta do quarto do neto para dizer boa noite, e disse para ele que aquele dinheiro provavelmente teria sido deixado pela fada do natal, uma ajudante do papai Noel que se encarregava de cuidar das crianças que ganhavam dinheiro ao invés de brinquedos grandes.
— Igual a fada do dente? – perguntou Eddie.
Num chamego divertido, sua avó sorriu e concordou.
— Igual a fada do dente. Ela deve ter deixado mais cedo por ter feito um desenho bonito no seu prato, e depois por ter comido todos os legumes. Elas gostam de crianças criativas, Eddie, e você é uma.
Eddie dormiu feliz, e, no dia seguinte, quando sua avó foi embora, ele foi até a Second Hand Rose, Second Hand Clothes comprar alguma coisa. Ele saiu de dentro da loja com um relógio de parede em formato de lua e algumas moedas que ele gastou no mercado da rua Costello.
Quando terminou de ler mais uma página do bloquinho de Richie, Eddie olhou para o seu relógio — aquele relógio do natal 1956 -, mentiu para si mesmo que leria apenas mais um folha, e virou a página.
Eu encontrei Ben na escola hoje, mas eu não consegui contar pra ele sobre meu segredo. O que eu supostamente diria pra ele? “Ei, Monte de Feno, quer ouvir uma história engraçada? Eu gosto de garotos! Mas não se preocupe, meu chapa, garotas também estão na minha lista” ou “Sabe o que você tem aí entre as pernas? Coisas assim me atraem como um imã! Mas não se preocupe, eu não sou uma aberração”. Que merda, merda, merda, merda! Eu acho que não vou contar. É muito arriscado, eles podem parar de ser meus amigos por causa disso. Quem sabe até ficarem contra mim?
Eddie virou a página e ao mesmo momento um carro refletiu o farol alto na janela de seu quarto. Ele protegeu os olhos da luz forte, e quando a luz forte passou, por apenas um momento, pontinhos brancos dançaram em frente aos olhos e a parede escura do quarto de Eddie. Ele fechou a cortina e ouviu um barulho agudo, como uma bolinha de chumbo caindo no chão.
Eu estive pensando. Preciso por isso pra fora de alguma maneira. Desde que comecei a escrever aqui eu passei a me sentir melhor, então acho que você, bloquinho, no momento é o melhor pra ouvir(?) a outra parte do meu segredo. Eu gosto de alguém. Eu já escrevi isso? Não importa. Desculpa se estou repetindo as coisas. Eu gosto do Eddie. Ele me faz feliz, é meu melhor amigo. Eddie sempre me faz companhia, sempre está comigo e por mais que eu brinque com ele ele nunca me deixa na mão, sabe? Faz algum tempo que eu ando carregando isso. Ver ele faz meu coração bater forte, meus braços se arrepiarem e me faz sorrir automaticamente. Eu me preocupo tanto com ele. Será que ele poderia sentir o mesmo que eu? Algumas pessoas tem duvidas sobre o que o Eddie gosta. Já ouvi Greta Bowie, Henry Bowers e até minha mãe comentar algo sobre isso. Sobre ele. Já os ouvi rindo por conta disso. Mas não contei pra ele. Não quis deixa-lo triste. Será que eu deveria contar pra ele o que eu sinto? Acho que Eddie ficaria assustado, talvez até parasse de falar comigo. O que ele vai pensar? “Ew, Richie Tozier chupa pinto” é isso o que ele vai pensar. O que todos eles vão pensar. Eu não vou contar. Não agora.
(pec
pec
pec)
Mais uma vez Eddie ouviu o som agudo e fechou o bloquinho. Ele olhou para os lados, para o chão e para a porta até perceber que o barulho vinha de sua janela. Uma onda de arrepios subiu até a nuca de Eddie quando ele abriu a janela e viu Richie Tozier plantado no seu jardim com um punhado de pedras na mão. Sua camiseta bege parecia surrada e suja de terra. Seus óculos estavam mal posicionados na base do nariz e Eddie teve a impressão de que seu amigo estava chorando quando ele limpou o nariz escorrendo com as costas da mão.
Em um minuto, Eddie estava vestindo um shorts que não fosse de pijama, no outro, estava descendo as escadas enquanto enfiava o bloquinho de Richie no bolso e corria para o jardim. Sonia Kaspbrak cuidava muito bem de suas plantas e quando Eddie passou por entre os vasos, pisando descalço no gramado recém regado por um regador automático, como dizia ele, Eddie sentiu um forte cheiro de chuva e terra molhada invadir suas narinas.
Quando Richie viu Eddie, ele soltou as pedras e as deixou cair duramente no chão. Emocionalmente, correu até o melhor amigo e o abraçou, soluçando e engasgando em catarro.
— H-H-Hen...
Eddie abraçou Richie também e sentiu aquele arrepio de novo, o mesmo que havia sentido quando viu o amigo na base de sua janela, como quando um pingo de água muito gelado cai dentro da camisa, ou quando um vento muito quente assopra na nuca suada depois da aula de educação física.
— O que aconteceu, Richie?
Richie soltou Eddie e limpou o nariz escorrendo de novo.
— H-Henry Bowers me cercou. E-Eu não tava achando um negócio no meu quarto e fui procurar do lado de fora de casa e...
Eddie ergueu o rosto de Richie. Seus olho esquerdo estava sendo consumido por um hematoma roxo e esquisito. Eddie estava horrorizado, e logo sentiu o estomago embrulhar quando viu que aquilo que ele pensava que era catarro escorrendo do nariz de Richie, na verdade era sangue fresco e suado que não para de pingar.
— Por que aquele merda te bateu!? O que foi que aconteceu!? Richie, nós pr
— Ele disse q-que v-viu você me dar o chocolate. Disse que era dele e que ele queria o que era dele de volta. Mas não foi por isso. É que ele me provocou, Eddie. Ele me provocou e eu fiquei bravo. Ele te chamou de bicha burra e eu fiquei bravo e empurrei ele na sarjeta e
— Você empurrou Henry Bowers por minha causa?
Richie fungou, piscou e mais um lacrimejo escorreu do seu olho esquerdo.
— Ele disse aquilo, Eddie. Eu não podia deixar. Ele, você. Você é tão
(amado)
indefeso que
Um raio atravessou o céu e as nuvens se afofaram mais. Richie olhou para o bolso de Eddie enrugou o cenho. Algo parecia estar quase caindo dele. Algo conhecido por Richie. Algo que
— me pertence.
Eddie não ouviu a primeira palavra que o amigo havia dito, porque um trovão soou como um tambor perto da rua Main.
— Isso me pertence! – Eddie ouviu de novo, e as mãos de Richie atravessaram sua frente como o primeiro raio atravessou as nuvens.
Richie puxou se bloquinho do bolso de Eddie e então a chuva começou a cair, fazendo com que as lágrimas dele se misturassem com o tororó que estava se formando por cima da cidade de Derry. Richie ergueu o bloquinho com raiva e o balançou na chuva.
— Isso é MEU, Eddie! Eu estava procurando ele! Eu sabia que não estava perdido! Você roubou ele!
— Richie, eu
— Richie eu porra nenhuma, Eds! Isso é pessoal! Isso é
Eddie se encolheu.
— pessoal! Agora você sabe, agora você sabe que
E Richie parou por um momento
(agora você sabe que eu gosto de meninos, Eds. Agora você sabe que eu gosto de você)
Seu corpo pareceu amolecer e ele correu para a rua, com a chuva batucando em sua cabeça, junto dos seus pensamentos e medos e preocupações e
— olha por onde anda, seu porrinha!
Richie ouviu o rugido zangado quando trombou em Henry Bowers. Seu corpo foi jogado com tudo na sarjeta toda escorrida de água. Seu bloquinho foi lançado há três passos de distância.
— Achei você, quatro olhos. Achei você! – Henry cantarolou.
O céu se iluminou com um trovão e Richie conseguiu ver o sorriso sanguinário de Henry. A luz fez seus olhos vazios brilharem, e, em um grito que fez Richie se afastar se arrastando na correnteza da água, ele pegou o bloquinho ensopado jogado no chão.
— O que é isso, quatro olhos? É a lista de paus que você chupou, é?
Richie levantou, gritou e Henry o empurrou de novo.
— Achado não é roubado, seu porrinha. Agora encosta em mim de novo, e eu quebro os seus dentes, ouviu bem?
A rua Kansas estava inundada. Folhas navegavam na sarjeta como barquinhos em uma tempestade no oceano. Henry Bowers já estava bem longe dali e Richie Tozier chorava sentado na na meleca de água e terra que formava na enchente. Eddie nunca o havia visto chorar antes. Nunca achou que Richie, na verdade, seria capaz de chorar. Quando se aproximou do amigo, com a bombinha na mão, que havia ido buscar enquanto Henry discutia com ele, Eddie o abraçou. Mas Richie disse que
— é tudo sua culpa.
Fale com o autor