O diário de Richie Tozier

5 Eddie Kaspbrak protege Richie Tozier


Eddie balançava ansiosamente as pernas por debaixo da mesa do refeitório. Mordiscava sem parar o canudo do seu suco de ameixa enquanto Bill Denbrough gaguejava algo para Stan e Ben. Algo sobre a aula de geometria. Algo que Eddie não ligava nem um pouco, pois estava exausto. A noite fora cheia.

(e que noite!)

Ver Henry Bowers do outro lado do refeitório, com o cabelo lambido e o sorriso torto lhe dava náuseas. O ver rindo lhe trazia temor, pensando no que ele poderia estar falando para fazer Arroto Huggins se curvar sobre a mesa e fazer barulho de porco. Eddie sentia as mãos suar só de imaginar os segredos de Richie saírem da boca suja de Henry, junto com aquele seu temido e horroroso bafo de feijão podre. Um suspiro fundo lhe subiu pela garganta, fazendo Eddie quase se engasgar com o seu suco de ameixa e logo, sem que pedisse, Bill lhe despejou alguns tapinhas nas costas e voltou a se concentrar no trabalho de quinta-feira junto de Ben e Stan.

Sentia-se profundamente sozinho. Richie não fora para a aula aquele dia e Eddie sentia-se terrivelmente culpado. Sabia que

(é tudo culpa sua)

tudo aquilo iria acontecer. Sentado no mesa, brincando com as bordas do seu sanduíche de geleia de amora, imaginava que Richie mentindo para a sra. Tozier, dizendo que estava com gripe, talvez até com diarréia, para que a mãe não lhe fizesse qualquer pergunta que fosse, o deixando faltar pelo menos aquele dia da aula.

Greta Bowie contornou a mesa mascando um chiclete com a boca aberta e Eddie suspirou mais uma vez. A imagem de Richie com a boca sangrando e os olhos cheios de lágrimas subiram na sua cabeça como os créditos sobem depois de um dos filmes acabar no Alladin. Pensou mais uma vez que nunca havia visto Richie chorar. Nem quando ele caiu de bicicleta há duas semanas atrás quando eles estavam apostando corrida até o Bassey Park, nem quando eles estavam sentados perto da ponte do beijo e um carro azul passou em velocidade alta e atropelou um esquilo. Aquele dia quem havia chorado fora Eddie, enquanto Richie procurava uma vareta longa para cutucar o corpo do bicho morto e esmagado no asfalto quente.

Eddie não parava de pensar o quanto havia prejudicado o melhor amigo. De como colocara a pele de Richie em perigo por puro orgulho de querer sem melhor. Henry Bowers naquele ponto já deveria ter espalhado para a escola inteira. Provavelmente passara a noite como uma coruja, debaixo do cobertor para não ser pego pelo pai, lendo e deliciando-se cada vez mais com os relatos de Richie Tozier ser tão bicha quanto julgava que Eddie poderia ser. E ele sabia que com tudo isso e muito mais, apenas um pedido de desculpas não seria o suficiente e só de pensar no que realmente deveria fazer, Eddie já sentia sua garganta inchar e trancar todo o ar que ele precisava ingerir.

(Voce sabe o que é um placebo, Eddie?)

Procurou manter a calma, e como em um teatro no começo do show, quando as cortinas abrem para os lados assim que o espetáculo vai começar, a garganta de Eddie abriu novamente, mesmo com as mãos tremulhas e o suor gelado lhe brotando na testa. Eddie sabia o que deveria fazer, por mais medo que tivesse, sabia que o que fez não era nem um pingo perdoável e que tinha que concertar a caca que havia feito.

O sinal anunciou o fim do intervalo, a multidão de alunos postos para jogar seus lixos fora e aguentar mais duas horas sentados ouvindo sobre a maravilhosa história da América. Eddie levantou, com a bombinha cravada na palma da mão, e seguiu em direção aonde Henry Bowers, Patrick Hockstetter e Arroto Huggins estavam sentados. Foi a primeira vez que percebeu o quanto Henry estava folgado, sentado com os pés apoiados na mesa. Porém, assim que viu Eddie Kaspbrak se aproximar com a sua blusa de dinossauro, shorts vermelhos e cabelo penteado com gel de eucalipto, Henry perdeu a posição e levantou.

— O que voce quer aqui, seu bostinha? Perdeu alguma coisa ou só tá querendo que eu desfigure a sua cara?

Eddie engoliu em seco. Conseguia ouvir Bill o chamar alarmado do outro lado do refeitório. Percebia os murmurinhos dos alunos cada vez mais baixos.

Ver a cara de Henry Bowers novamente lhe trouxe nojo. Lembrar dos machucados estampados na cara de Richie e na humilhação que Henry havia causado para o seu melhor amigo lhe provocou cores nas bochechas, arrepio na nuca. Sem tardar, quando o próprio Eddie menos percebeu, seu punho fechado já esfolava um grande e dolorido soco no queixo de Henry Bowers, sugando milhares de exclamações de todos de dentro do refeitório. O peito de Eddie naquele momento crucial descia e subia sem parar, sentia o coração entalado na garganta. Sem nem ter controle sobre seus próprios atos, conseguiu se ouvir dizendo para Henry Bowers

— devolver o que não é seu! Voce tem que devolver o que não é seu, seu merda! É melhor voce me dar o que voce roubou ontem, Bowers!

Todos estavam indgnados, inclusive Arroto e Patrick. Bill Denbrough já estava quase próximo de Eddie, enquanto Henry Bowers oscilava. Em um minuto, Henry começou a rir, no outro, antes que qualquer um pudesse reagir, Henry segurou Eddie pelo pescoço, deu meia volta e o jogou em cima de uma das mesas do refeitório, fazendo-o bater a cabeça na quina. Não tardou, e o grito dos adultos invadiu o refeitório, expulsando qualquer vestígio infantil do local, fazendo todas as crianças correrem dali como pulgas fugindo do fogo.

A cabeça de Eddie doía absurdamente, num latejo infernal. Sentia seu corpo mole, seus olhos exautos, e antes de se entregar e cair na mais profunda escuridão, viu Henry jogar algo por cima de seu corpo e dizer que Eddie podia ficar

— com esse lixo.