O diário de Richie Tozier

11 Os otários dividem uma bebida.


Notas iniciais
- Tenho um desafio pra vocês! Nesse capítulo existe uma referência a um outro livro do King que eu gosto muito. É o meu segundo favorito e eu pensei "por quê não?". Se alguém descobrir qual é, fala nos comentários! Quero ver se alguém vai acertar. A única dica é: Está no começo do capítulo rsrsrsrs; — Esse capítulo, além de meio soft, ficou longo. Eu espero que gostem. — Agradeço novamente aos comentários. Juro, eles me motivam demais e me dão gosto de postar os capítulos o mais rápido possível! Continuem assim! Eu amo interagir e saber o que estão achando. — Muito boa leitura.

Um homem dentro de um plymouth fury 1958 vermelho e branco encheu a buzina quando Richie atravessou a rua Kansas correndo. Ele ouviu gritos, e quando percebeu que o lunático o observava pelo espelho retrovisor, Richie virou e mostrou a língua e o dedo do meio das duas mãos para ele. O motor do carro roncou de forma feroz, e a bunda comprida do plymouth fury sumiu no tráfego.

Depois de deixar um bilhete em cima da cômoda do quarto aonde Eddie estava, o qual havia escrito “Eu vou voltar pra buscar você. Inventa uma desculpa pra sua mãe, senta essa sua bunda no banco de fora do Derry Home Hospital e me espera”, Richie deu de cara com o sol depois de um dia inteiro confinado no pronto-socorro. A noite havia sido horrível. Dormir no sofá do Derry Home Hospital era pior do que dormir num colchão forrado de mil pedras, e Richie sabia que por causa disso sentiria dores mais tarde. Quando levantou de manhã e ouviu as costas estalar, foi quando decidiu que precisava se entregar um pouco ao luxo e ganhar pelo menos um banho antes de levar Eddie ao o Barrens.

O tráfego diminuiu e Richie virou na West Broadway. Contou quarenta e seis passos, olhou para a garagem vazia e entrou em casa. O silêncio era absoluto. Ele estalou os lábios, foi até a geladeira e bebeu leite do gargalo. Não havia comido nada desde o almoço do dia anterior, e a sensação do líquido gelado descendo pela garganta e aterrissando em sua barriga era maravilhosa.

No momento em que um arroto declarou sua satisfação, Richie colocou a garrafa em cima da mesa e subiu as escadas, de dois em dois degraus. A porta rangeu quando ele entrou, e não fechou direito quando ele a empurrou. Richie tateou a parede e acendeu a luz. Seus olhos acostumaram com a luminosidade quente do quarto, e logo ele viu que os lençóis estavam embolados no seu edredom de dinossauro igual a como havia deixado. Exausto, se jogou em cima da cama e suas costas agradecem a generosidade. Ele conseguia sentir o agradecimento, os músculos menos tensos por causa da cama macia e do travesseiro de penas. Seu corpo estava aliviado, e num suspiro fundo, ele tirou os óculos e coçou os olhos. Richie olhou para o teto por um tempo, observando formas coloridas dançarem no forro branco e embaçado. Demorou até vestir os óculos de novo, e quando o fez, engatinhou na cama até sua cômoda, abriu a primeira gaveta e retirou o fundo falso dela. Richie sorriu de forma maliciosa e pegou um maço novinho de cigarros Winston de dentro do seu esconderijo secreto. Ele abriu a janela do quarto, acendeu um fósforo e colocou o cigarro na boca, tragando lentamente a fumaça, inclinando a cabeça para trás e a soltando para cima.

Com o cigarro entre os lábios, Richie levantou e foi até seu toca-discos. Tragou de novo a fumaça e folheou seus álbuns de disco de vinil como folhearia um livro. Assim que achou o seu favorito de Jerry Lee Lewis e seu toca-discos começou a tocar Whole Lot of Shakin' Going On, Richie retirou a camiseta na frente do espelho. Seu corpo parecia uma tela pintada. A costela tinha hematomas laranjas, amarelos e verdes, e quando Richie virou de costas, viu as cores vermelho e roxo traçando a linha da coluna. Ele se observou por um tempo, virando de frente e depois virando de costas, até perceber que seu cigarro não passava de uma mera bituca que só havia sobrado filtro. Num peteleco ele a jogou fora e tirou as calças. Sorriu quando a música chegou no refrão e foi cantarolando até o banheiro. Na soleira da porta ele batucou a madeira, dançando. Infelizmente o sorriso morreu quando Richie olhou para a pia de porcelana. Ele entrou no cômodo de piso frio cuidadosamente, com passos leves e curtos, como se uma cobra pudesse atacá-lo se não tivesse cuidado.

Merda… — sussurrou para si mesmo, aproximando-se da pia. Lá estava a blusa de dinossauro que Eddie havia usado na última vez que fora a sua casa, amassada e pendurada na beirada de porcelana.

Richie observou a blusa embolada por um tempo. Ela parecia prestes a cair. Estava agarrada na borda como uma pessoa agarrada na beira de um penhasco. Ele a pegou. Salvou-a de colidir-se com o chão, e olhou para ela com um olhar vago e cansado. De supetão ele sentou em cima da tampa fechada da privada e a música que vinha de dentro do seu quarto parecia absurdamente distante e abafada, como se Richie tivesse entrado em um túnel. Conseguia sentir o cheiro de Eddie vir da camiseta, tinha certeza disso, e aquilo apertou o seu coração. Richie retirou os óculos e balançou a cabeça, como se negasse para si mesmo o que estava acontecendo. Ele enterrou o rosto em uma das mãos e começou a chorar. Sentia-se arrasado ao pensar que o amor da sua vida o havia esquecido.

Dois dias atrás… — sussurrou mais uma vez — Estava tudo bem há dois dias atrás…

Um suspiro subiu em sua garganta como bolhas em um galão d’água. Richie levantou e ao tatear a parede encontrou a torneira da banheira. Ele ligou a água quente, tirou a cueca e jogou a blusa de Eddie em cima da privada. Da forma que um submarino faria, Richie submergiu devagar na água quente do banho e mergulhou para molhar os cabelos. Ele passou a mão no rosto para retirar o excesso de água quando volto a superfície da banheira, e ouviu a água escapar pela beirada e colidir com o azulejo do chão. Ainda conseguia ouvir Jerry Lee Lewis cantar quando encostou a cabeça na parede e se deixou chorar. Não conseguia aceitar, e muito menos entender, tudo o que havia acabado de passar. Havia acabado de admitir tudo o que sentia, ganhado o seu primeiro beijo e seu segundo, mas mais verdadeiro e prazeroso, contato sexual. Richie finalmente havia conseguido enfrentar seu medo diante de Eddie, e finalmente havia recebido a correspondência em troca.

Ele suspirou e ali, sentado, sentiu-se testado por Deus. Sentiu medo, logo em seguida, ao pensar que sua escolha sexual poderia ser um pecado, mas contrariou-se ao lembrar da vez que Mike Hanlon disse a ele e aos otários um dia no Barrens que

— Deus aceita seus filhos da forma que são, não importa se Stan é judeu ou não!

Richie deu um riso seco, com tristeza, e depois de se ensaboar e se lavar da maneira que Maggie Tozier o havia ensinado, ele saiu da banheira e se enrolou na toalha. Richie pegou a blusa de Eddie e a jogou em cima da cama. Vestiu-se devidamente e olhou-se no espelho. Então Henry Bowers cruzou a sua mente por um momento, e aquilo fora o máximo para sentir raiva.

— Você vai pagar, seu caipira imundo. Nem que eu tenha que enfiar uma bombinha no seu cu. Nem que eu

Richie chutou o cesto de roupas sujas e deu um grito duro e raivoso. Ele xingou Henry de todas as formas que conhecia e como se a primeira ação já não o extravasasse, chutou o seu boneco de Elvis Presley que estava jogado no chão. O boneco deslizou pelo chão de madeira e foi parar embaixo da cama de Richie. Ele procurou respirar fundo quando notou o que havia feito. Procurou respirar fundo porque sabia que naquele momento, Henry Bowers não era prioridade. Sua prioridade era Eddie, e ele ajudaria Eddie a recuperar a memória. Richie queria ajudar de todo o coração e alma, e sentia-se devidamente pronto para fazer o que fosse preciso. Logo, na calmaria, apertou a parte dos óculos que estava embolada em esparadrapo e guardou o maço de cigarros no bolso. A agulho do toca-discos já estava suspensa e as músicas haviam acabado., e depois de um ato involuntário de coçar o pescoço, Richie varreu o quarto com os olhos e saiu.

Ele retirou sua bicicleta da garagem pelo uso da força, a posicionou no meio-fio, subiu sobre ela e pegou embalo. Na West Broadway, a bicicleta ganhou velocidade lentamente. Ele ficou de pé nos pedais, com as mãos firmes no guidão e sentiu o vento acariciar seu rosto. Quando subiu a rua Kansas, Richie inclinou sobre o guidão, vendo os prédios comerciais deslizarem suavemente. Assim que chegou na curva da Main, ele começou a deslizar de forma suave até chegar ao Derry Home Hospital. Eddie estava sentado em um dos banquinhos de espera do lado de fora do hospital. Quando avistou Richie, urgentemente levantou. Richie acenou, desviou de uma ambulância que estava estacionada e freou a bicicleta na frente da calçada.

— Seu táxi chegou, senhor.

Eddie arregalou os olhos.

— Você quer que eu

— vá na garupa. Exatamente. Vamos, sobe.

Eddie torceu a boca e subiu, segurando Richie pela cintura, bem firme.

— Eu odeio ir na garupa — disse ele, e Richie começou novamente a ganhar velocidade, dando a volta na rua Main — Bill sempre fala para eu ir na garupa, mas Silver é muito rápida. Você pode não ser tão rápido quanto ela, por favor? Eu tenho medo de vomitar.

Richie riu.

— Nenhuma bicicleta é mais rápida que Silver, Eds. Eu tenho certeza que você não se esqueceu disso.

A caminho do Barrens, Richie voou pelo meio-fio da rua Kansas. Pedalou o máximo que pôde, e quando encarou a descida, deixou o peso dos dois corpos tomar conta. Deixou os pés apoiados nos pedais e viu biblioteca pública de Derry passar como um borrão de tinta. Richie sentiu os braços de Eddie esmagarem a sua lateral da costela e aquele ato o fez sorrir.

Quando a bicicleta começou a perder velocidade e Eddie relaxou os braços, Richie voltou a pedalar com todo o esforço que podia. Tendões saltavam em seu pescoço e veias começaram a pulsar em sua têmpora. Parecia que estava tentando carregando uma caixa de 50 toneladas. Assim que a bicicleta pegou velocidade novamente, Richie se inclinou sobre o guidão, sentindo o cabelo voando por cima da cabeça, atrapalhando a visão quando os fios começaram a ameaçar a entrar na frente de seus olhos. Não demorou para eles atravessarem o canal.

No momento em que chegaram, Richie cuidadosamente deitou a bicicleta no gramado do Barrens, e o resto do caminho ele e Eddie percorreram a pé. Bill Denbrough, Stan e Ben Hanscom estavam perto da sede do clube quando eles chegaram. Silver estava encostada em uma das árvores e outras duas bicicletas estavam dispostas na grama. Beverly saltou de cima da pedra que estava sentada e rodeou Richie com um sorriso de orelha a orelha. Involuntariamente o distraiu com o perfume que estava usando. Ela enfiou a mão em um de seus bolsos e retirou o maço de cigarros de dentro dele da mesma forma que um mágico tira o coelho da cartola.

— E-Eddie! — Bill anunciou, aproximando-se — C-Como está se s-s-sentindo h-hoje?

— Bem. Eu estou bem. Falei para a minha mãe que eu ia estar na sua casa.

Bill concordou e sorriu.

— Não contei pra ela que esqueci deles — Eddie continuou, olhando de relance para Stan — Fiquei com medo de ela não me deixar brincar com vocês.

— V-Você fez muito b-b-bem, E-Eddie. B-Bem vindo de v-volta ao c-clube dos o-otários.

Beverly acendeu um cigarro e todos entraram na sede do clube quando Bill anunciou que pegou uma garrafa de bebida que estava debaixo da pia da cozinha.

— E-Eu acho que o m-me-meu pai e-esqueceu ela lá, aí e-eu trouxe para a g-ge-gente p-provar.

— Billy, meu garoto! — disse Richie, animadamente. Ele laçou o braço no pescoço de Bill, e pegou a garrafa de vidro de suas mãos — O que seria de mim sem você?

— U-Um bunda m-m-mole sem a-amigos, eu a-acho.

Richie abriu a tampa da garrafa, levou o bico até o nariz e cheirou o líquido dourado. Fez uma careta quando sentiu como se as narinas fossem queimar. Richie deu um gole grande e surpreso, tossiu. Seu rosto contorceu de mil formas diferentes e ele pôs a língua para fora, como se tivesse acabado de beber um copo de água suja.

— Que treco horrível, meu deus do céu!

Estava desacreditado. Era como se tivesse acabado de beber fogo líquido. Sua garganta queimou de cima a baixo, até chegar no estômago.

— I-Isso é w-whisky. P-Puro é r-ruim, mas eu o-ouvi dizer q-que é g-gostoso com c-c-coca. Se você t-ti-tivesse esperado, n-não ia estar c-c-com essa cara de m-merda.

Bill retirou quatro garrafas de coca de dentro da mochila. Dispôs um pouco de whisky em copos de plástico e completou com o refrigerante gaseificado.

— Nós vamos beber álcool? — perguntou Eddie, pegando um dos copos — Nós somos crianças! Minha mãe disse que

— Foda-se a sua mãe, Eddie — Richie interrompeu. Beverly segurou um riso.

— É, E-Eddie — Bill concordou, pegando o seu copo — F-Foda-se a sua m-ma-mãe. N-Nós não v-vamos morrer. V-Vai ser l-legal.

Bill Denbrough deu o seu primeiro gole e foi acompanhado por Beverly, depois por Stan, Mike e Ben Hanscom. Quando Richie olhou para Eddie, viu incerteza e insegurança em seus olhos. Ele encarava o líquido marrom borbulhar dentro do copo.

— Ei, Eds.

Eddie olhou para Richie. Richie sorriu e se sentou mais perto.

— Não vai acontecer nada. Já bebemos outras bebidas antes e o que você mais gostou foi uma gororoba de Gim e suco de ameixa — ele deu um gole no copo e segurou uma careta — Vamos, Eds. Pode confiar em mim. Eu prometo cuidar de você.

Hesitante, Eddie encarou a bebida mais uma vez antes de levar o copo até os lábios. Ele deu um grande gole, fez uma careta e mordeu os lábios. Olhou fundo nos olhos de Richie e sorriu ao pensar o quão bobo era, pois até que a bebida estava docilmente gostosa. Relaxado e seguro com as palavras do menino Tozier, Eddie ergueu o seu copo a cima de suas cabeças.

— Ao clube dos otários — disse, e todos levantaram os seus copos também, com os sorrisos estampados nos rostos.

Ao clube dos otários!