O desafio

1 Capítulo 1 - Sorvete de espinhos


Faltava apenas um dia antes dos testes de conlitimação e eu não estava com tanto medo mais e nem aflita, a única coisa que eu sentia agora era ansiedade, muita ansiedade. Ao mesmo tempo que eu queria que o tempo passasse o mais rápido possível, eu não queria. Já era quase hora do almoço e eu não havia saído da cama nem para o café da manha, estava olhando para o meu universo no teto e pensando no que aconteceria. Eu tinha um universo pintado no meu teto, é que quando eu era menor eu gostava de dormir sob as estrelas e por isso vivia dormindo no telhado e quando meu pai descobriu isso ficou com medo de algo acontecer comigo e então resolveu fazer um universo no meu teto, sempre ficava imaginando qual era o meu lugar no meio de tudo aquilo. Resolvi me arrumar e encarar a cara de enterro dos meus pais, pela primeira vez a única cara que eu poderia ficar olhando o dia todo era a da minha irmã, enquanto eu tirava o pijama e colocava uma roupa para ir almoçar ouvi minha mãe bater na porta.

– Filha? — fazia tanto tempo que ela não me chamava assim, na maioria das vezes era só Kristen mesmo.

– Sim, mãe?

– Posso entrar? — disse enquanto abria a porta, perguntar pra que mesmo, não é? — O almoço esta pronto, você não vai descer?

– Eu ia fazer isso agora mesmo — sorri.

– Mas se você não quiser ir agora...

– Por que eu não iria querer?

– É que você deve... eu não sei. — disse minha mãe indo na minha direção e me abraçando — Eu só queria um almoço em família antes de você...- me abraçou mais forte, ela não conseguia terminar uma frase se quer, eu estava com tanta pena dela, mas não podia me sentir dessa forma, isso estragaria mais ainda o meu psicológico para os testes, tentei parecer firme ate pensar que na verdade aquele poderia ser o ultimo almoço em família que eu iria ter.

– Esta tudo bem mãe — disse enquanto tentava sair dos braços dela, segurei firme em seus ombros enquanto olhava em seus olhos — Vai ficar tudo bem.

Seus olhos estavam cheios de lagrimas que não caiam, mas ainda sim ela deu um sorriso e eu não pude deixar de retribui-lo.

Enquanto descia as escadas ate a cozinha acabei tropeçando em um dos equipamentos do meu pai que estava jogado no quarto degrau, o resultado foi: eu rolando 3 degraus abaixo, só consegui ouvir pessoas gritando "surpresa" enquanto minha cara estava enfiada no chão da cozinha. Blair começou a rir sem parar.

– Entrada triunfal — disse ela

Minha vó também estava rindo, mas foi a primeira a me ajudar a levantar e meus pais ficaram parados sem reação alguma.

– Você esta bem Kris? — minha avó perguntou no meio de uma risada.

– Acho que sim — me levantei com a ajuda dela e fiquei imóvel também, apenas olhando para a cara dos meus pais, quando de repente eu, eles e todos que estavam lá caíram na gargalhada.

Depois que tudo se acalmou eu olhei para toda a decoração, havia uma faixa enorme escrito surpresa e balões roxos e azuis como se imitasse um universo para todos os lados, pensei no que eles estariam comemorando e se havia algo para se comemorar, mas eu não queria estragar aquilo então só fui cumprimentar as pessoas que estavam lá, além dos meus pais, irmã e avó também estava alguns primos que eu só havia visto uma vez na vida e meu tipo Bobby que quando eu o vi fui correndo abraça-lo.

– Tio Bobby!

– Kris-Kris — ele me chama assim desde que eu me perdi na floresta olhos-escuros quando tinha 6 anos e foi ele quem me achou me chamando por esse apelido ridículo, que com o tempo eu passei a gostar, mas ele era o único que usava esse apelido. — Como você esta? Ual cresceu cinco cm a mais que a ultima vez, parabéns — ele riu

– Pra sua informação são 6 cm a mais, ok?

– Temos um novo recorde aqui.

– Eu estava com tanta saudade tio Bobby, por que você nunca mais me telefonou?

– Vou lhe contar um segredo — ele me puxou para um canto da sala perto de um dos famosos vasos de planta da minha mãe. — Sabe por que eu não podia te ligar? — balancei a cabeça dizendo não. — Porque eu estava em uma missão secreta e lá não havia nenhum telefone, acredita nisso? Apenas cartas, mas infelizmente esse tipo de comunicação não funciona mais.

– Pois deveria, assim teria como você me manter informada sobre as missões secretas.

– Contando mais uma de suas historias fantásticas Bobby? — disse meu pai

– Historias? Que historias? — Tio Bobby olhou para mim e piscou.

– É pai, que historias?

– Vocês dois ahn? — nós rimos.

– Kristen? — minha mãe chamou, fui ate la ver o que ela queria.

– Sim?

– Você não vai cumprimentar os outros convidados? — disse me entregando uma bandeja com tortinhas de amora.

– Eu nem ao menos sei o nome deles mãe, por que os convidaram ?

– Hey, não foi assim que eu te eduquei e eles vieram de longe.

– Só para comer? Ual.

– Pare com isso — ela riu — Ofereça essas tortas a eles

Fiz um sinal de reverencia a ela que continuou a sorrir, como era bom ver ela daquela maneira, eu poderia ate enfrentar primos chatos pra sempre se ela continuasse com aquele sorriso.

Cheguei ate eles e ofereci as tortas de amora que estavam com um cheiro ótimo, mas infelizmente eu não conseguia comer nada, meu estomago estava completamente embrulhado. Me referi a eles como "vocês" ate porque eu realmente não sabia o nome de nenhum deles, apenas o da minha prima Alice, mas como eu gostaria de não saber. As poucas vezes que eu encontrava com ela em alguma data comemorativa nós brigávamos o tempo todo e quando eu digo o tempo todo, é o tempo todo mesmo. Nos sempre tivemos opiniões completamente diferentes e com isso as discussões sempre aconteciam, ela era loira com o cabelo um pouco abaixo dos ombros, mas sempre estava com ele preso em um rabo, era um pouco mais alta que eu e bem magra também e por ironia do destino ela tinha a mesma idade que eu ou seja ela também iria fazer os testes e por esse motivo eu não entendia porque ela estava lá, o fato dela ter a mesma estatura que eu não impedia dela ter dez vezes mais chances de conseguir passar nos testes que eu, é por isso que a família dela não estava nenhum pouco preocupada, ela fazia vários tipos de esportes e lutas, mas também era super inteligente, não entendo como alguém pode ser tantas coisas assim, mas é claro que os pais exigiam demais dela, desde pequena. Eu podia brincar como qualquer outra criança já ela vivia para impressionar os pais ou seja nunca tinha tempo de realmente ser uma criança.

– Olá Alice, aceita um? — tentei ser simpática na medida do possível.

– Oi KrisKris — disse em tom de deboche, perdi o meu bom humor na mesma hora.

– O que estava fazendo aqui? Não deveria estar na sua casa fazendo tudo o que seus pais pedem? oh ya — eu podia viver falando do jeito estupido da Blair, mas talvez eu não fosse tão diferente assim.

– Pelo menos eu vou passar nos testes, já não podemos dizer o mesmo de você. — disse enquanto pegava uma torta.

– Serio? É o que vamos ver.

– Qual é, todo mundo sabe que você não tem a mínima chance de passar, ate nosso avô sabia disso.

Soltei a bandeja no chão e fui pra cima dela, segurei a na parede com o ante braço sobre o seu pescoço tão forte que ela começou a ficar sem ar, me lembrei da forma parecida que fiz isso com Robert e com a mesma voz que nunca havia usado antes.

– Fale do meu avô novamente e eu te mato, entendeu? — olhei firmemente para os olhos delas e vi a cabeça dela dar um leve movimento de concordância. — ótimo!

– Hey hey, calma ai Kriskris — tio Bobby veio ate nos e me tirou de cima dela, ele me puxou para uns 50 cm longe e enquanto eu me afastava continuei a olhar para ela com ódio estampado nos olhos. Alice ficou imóvel com a boca aberta, a musica que tocava parou, eu acho que era Everybody dos Backstreet boys, logo depois do mundo quase ter acabado a única coisa que sobrou de antes foram as musicas, o que eu acho ótimo. Meus pais vieram correndo ate a sala e puderam ver a cena.

– O que aconteceu? — perguntaram ao mesmo tempo.

– Olha só quem mostrou as garras e vocês achando que ela era toda frágil em? — disse Blair

Todos voltaram a ficar em silencio, apenas encarando uns aos outros ate que Alice teve um surto.

– Essa garota é louca — gritou — Você poderia ter me matado.

– Deveria — disse Blair

– Blair!? — gritou minha mãe e ela fez um tanto faz com os ombros e voltou para a cozinha. — O que foi que deu em você Kristen?

Antes mesmo de eu responder, Alice pegou sua bolsa que estava no cabide automático virou se para mim e gritou.

– Sua louca! — bateu a porta por fim, ver aquela garota indo embora foi um alivio.

Logo minha mãe dispensou todo mundo.

– Sinto muito, mas a festa acabou.

Ouvi todos exclamando baixo. Cinco minutos depois a casa estava quase vazia exceto pela minha vó e tio Bobby, ele ficou o tempo todo sentado ao meu lado no sofá me acalmando.

– Da próxima vez arraste ela para fora e deixe que um ônibus faça o trabalho, não conte a seus pais que eu disse isso — disse baixinho, mas eu mal consegui sorrir, estava pensando que havia estragado a festa toda. — Hey KriKris, esta tudo bem, todo mundo tem seu momento de raiva principalmente você que

– Principalmente eu que o que? Eu que sei que estou cavando minha própria cova?

– Achava que pessoas da sua idade falavam cúpulas, mas se você quer voltar a cem anos atrás, ok.

– Eu to falando serio tio Bobby, todo mundo age como se eu fosse a pessoa mais fraca do mundo e talvez eu seja.

– Não! — gritou ele — você não tem ideia da força que tem.

– E você tem ?

– Todos vivem dizendo que a Alice é isso e aquilo só por passar o dia todo treinando e estudando, certo? — balancei a cabeça em concordância — Mas foi você que deu aquele nocaute nela, não foi? Ela faz luta desde quando se entende por gente e você nunca nem se quer brigou no colégio e mesmo assim conseguiu imobiliza-la.

– É, mas foi só em um momento de raiva, talvez isso não volte a acontecer de novo.

– Você só fica nesse talvez e "e se" e se perguntando o tempo todo o que deve ou não fazer, você só tem que reagir as vezes, sem pensar. Sei que não devo dizer isso para não perder o meu posto de tio do ano — ele riu — mas você não se sentiu bem em ter ido pra cima dela? Sem pensar nas consequências?

Queria dizer não, mas no fundo eu sabia que sim.

– Sim! — respondi

– O problema não é os outros duvidarem de você, o problema é você duvidar de si mesma o tempo todo.

Pela primeira vez não o vi como alguém que faz piada de tudo e sim alguém que claramente já esteve no meu lugar.

– Obrigada Tio Bobby — ele deu uma das suas famosas piscadinhas e sorriu — Alias, hoje em dia ninguém diz nocaute mais.

Logo eu sabia que iria ter que enfrentar a fúria dos meus pais e por incrível que pareça eu estava confiante, não só confiante para encara-los e sim confiante para tudo que estaria para vir dali para frente.

Eles chegaram na sala e pediram para que o tio Bobby fosse dar uma volta, ele se levantou e fez reverencia para os meus pais, era incrível a maneira que nós nos parecíamos.

– Muito bem — disse meu pai

– Só vai dizer isso ? — perguntou minha mãe cruzando os braços.

– Não (?)... Ah é claro, meus parabéns Kristen. — enquanto ele falava eu estava olhando para o chão, mas quando ele me deu os parabéns não pude deixar de olhar espantada para ele.

– O que?

– Isso mesmo que você ouviu, meus parabéns.

– Parabéns exatamente pelo que?

– Por ter feito o que todos sempre quiseram fazer — disse minha mãe

– Bater na Alice? — perguntei ainda espantada

– Tecnicamente você não bateu nela, você só deu um susto — disse minha mãe sorrindo.

Eu não estava acreditando que eles realmente estavam dizendo aquilo, eles estavam me agradecendo por bater quer dizer, assustar a minha prima. Eu tinha a melhor família do mundo. Logo minha vó desceu as escadas dizendo.

– Se você não tivesse feito aquilo, eu teria. Ora, eu ouvi o que ela disse, garotinha sem escrúpulos. Não foi isso que eu ensinei ao pai dela.

Meu segundo tio, Hector Lenfay não era do tipo que visitava muito a família ou que recebia visitas, ele vivia ocupado e mesmo sendo o mais novo entre os três, era o mais rico. Eu nunca senti nenhum tipo de familiaridade com ele por mais que eu tentasse ate porque ele não era nem um pouco paternal, imagina tional? Que seja.

– Então esta tudo resolvido aqui? — disse meu tio entrando pela porta da frente.

– Espera, onde você estava? — perguntei

– Sua mãe me disse para dar uma volta, então eu fui.

– Era modo de falar

–Ok, da próxima vez alguém me avise. — disse rindo e foi me abraçar.

– Acho melhor vocês virem aqui. — gritou Blair da cozinha

Fomos ate lá e nos deparamos com um porco espinho modificado em cima do balcão perto das comidas.

– Achei que eles estivessem extintos — disse

– Eu também — todos disseram ao mesmo tempo

– Felizmente não esta — fui ate ele

– Sim, mas você não sabe o que eles fazem, sabe? — disse Blair se afastando e antes que eu pudesse responder minha mãe gritou.

– Kristen se afaste!

Mas antes que eu sequer pudesse pensar em me afastar pude ver os espinhos do porco espinho modificado se levantando e atirando vários espinhos na minha direção, mas em uma questão de segundos, tio Bobby se jogou na frente deles com um pote de sorvete enorme servindo de escudo. O sorvete ficou completamente cheio de espinhos venenosos, o problema é que um dos espinhos atingiu o braço esquerdo de Bobby, quando ele viu, logo o puxou sem a menor preocupação, como se já tivesse feito isso antes. Enquanto isso o porco espinho modificado sai pela porta.

Tio Bobby percebeu que todos os olhares estavam voltados para ele, era como se ele estivesse disfarçando.

– O veneno só faz efeito depois de exatos 142 segundos.

– Ta legal e como você sabe disso?

– Pode pegar aquele esparadrapo para mim? — disse ele sem responder minha pergunta. Peguei o esparadrapo e ele colocou no lugar do furo que o espinho havia feito.

– Não vai me responder?

– Ele sabe disso porque ele já estudou muito sobre isso — disse meu pai

– E por que?

– Você ainda tem essa mania de fazer trinta perguntas por minuto? — ele riu.

– Qual é a graça? Você podia ter morrido se aqueles espinhos tivessem te acertado.

– Mas não acertaram.

– Mas podiam ter acertado. Além de que você... você me salvou (?)

Ele olhou para mim enquanto pegava o pote de sorvete cheio de espinhos do chão e colocava em cima do balcão.

– Espera, você quase morreu pra me salvar? Qual seu problema? — gritei

– E temos aqui mais perguntas. — disse Bobby como se fosse um apresentador

– Ótimo, não temos mais sorvete — disse Blair

– Mas ainda temos bolo — disse minha avó

– Então vamos come-lo! — disse meu pai

Todos pegaram um pedaço de bolo e foram ate a sala, o ultimo a pegar foi meu tio e antes que ele pudesse passar pela porta eu o puxei pra perto das escadas.

– Por que fez aquilo por mim?

– Porque eu sou seu tio?

– Não responda uma pergunta em forma de pergunta.

– Você vive fazendo isso — disse ele

– Ótimo, não me copie

– Mas é você que esta

– Responda minha pergunta, sem mentiras — cortei ele

– Por que você acha que eu não fiz aquilo por ser seu tio?

– Porque nem meu pai fez

– Ele estava mais longe e você sabe que ele fica paralisado quando esta assustado — disse ele me tirando da frente dele — Isso responde suas perguntas?

– Sim — abaixei a cabeça

– Eu faria qualquer coisa por você.

– Serio?

– É claro, você e sua irmã são minhas sobrinhas preferidas. — sorri

Também peguei um pedaço de bolo e me juntei a eles na sala enquanto no víamos alguma serie na tv em que ninguém estava interessado, mas só de estarmos todos lá, juntos, já estava ótimo.