O desafio

2 Capitulo 8 - Uma lembrança sem rosto


Depois do almoço de despedida minha família ficou reunida ate o jantar, depois do jantar minha avó foi a primeira a se despedir.

– Olha só como esse tempo passou rápido — disse ela se levantando da mesa — Acho melhor eu ir embora porque daqui a pouco os taxis vão ficar invisíveis e vai ficar quase impossível pegar um.

Depois das 24:00 os taxis ficavam invisíveis para evitar roubos ou qualquer coisa do tipo. A segurança da capital sempre foi ótima, era quase impossível ouvir que algum tipo de crime havia acontecido, mas ainda sim o mundo de hoje tinha mais cuidado que qualquer outra época já teve, ainda mais depois que o projeto Filadélfia 2 deu certo, qualquer tipo de objeto podia ficar invisível aos olhos humanos.

Tio Bobby se ofereceu para leva-la, mas ela não aceitou, disse que ele deveria ficar um pouco mais comigo. Ela foi ate a porta, pegou seu casaco e fez um sinal com as mãos para eu ir ate ela, me aproximei e ela me abraçou como nunca antes, um abraço apertado e demorado e enquanto eu estava em seus braços ela começou a dizer, provavelmente seu ultimo discurso para mim.

– Eu estou muito orgulhosa de você.

E na verdade ela só me disse isso e mesmo assim, essa simples frase valeu mais que qualquer discurso do mundo.

– Obrigada vovó. — abracei-a mais forte.

Sempre vi despedidas como uma forma de sofrimento, mas no fim era só uma forma de saber que haveria alguém esperando por você. Não via mais problemas em despedidas e sim em não ter a quem se despedir.

Ela olhou profundamente em meus olhos, balançou a cabeça em aprovação e o mais importante, com um sorriso fraco, mas encantador. Disse apenas um tchau antes de fechar a porta e ir embora.

– Pensei que seria mais difícil — disse a mim mesma e não percebi que tio Bobby estava logo atrás de mim.

– Acho que vocês deveriam conversar um pouco antes de Bobby ir. — disse meu pai saindo da sala e minha mãe logo atrás.

– Esta com medo? — perguntou sem hesitar

– Medo? medo de que?

– Suas perguntas...

– O que tem elas?

– Você se protege com elas.

– O que? Claro que não.

Como ele podia me conhecer dessa maneira? Uma maneira que nem eu me conhecia.

– Então me responda, esta com medo?

– Eu não tenho o que temer.

Mas eu realmente não estava com medo, eu só estava completamente aterrorizada.

– Tenho certeza que não, mas se estiver lembre-se, as coisas as vezes parecem ser...

– O que não são. — acho que meu avô deve ter dito muito isso a ele também.

– Ótimo — ele sorriu — Alias, adorei o paratzo.

– Obrigada, meu avô me deixou de aniversario de 16 anos.

– Ele tinha um ótimo gosto.

– Sim — disse enquanto o olhava em um dos espelhos que haviam na sala.

– Acho melhor eu ir — disse ele

– Infelizmente você veio me visitar na hora errada, quem sabe você se lembre de mim de novo daqui uns anos.

– Ok, pare com isso. Eu vou voltar daqui algumas décadas.

– Ótimo, vou me lembrar de preparar algo.

– Ótimo

– É — disse olhando para baixo para ele não ver minha cara de decepção.

Antes de ir tio Bobby não disse tchau por alguma razão ele abominava essa palavra assim como abominava ter que dize-la.

– Espero que você acabe com eles — "eles" não significavam meus concorrentes e sim o estado. Isso foi a ultima coisa que ele disse antes de ir.

Agora me via sozinha no meio da sala, olhei em volta imaginando como seria minha vida sem eles. Antes de subir para o meu quarto, dei boa noite aos meus pais e a Blair que mal respondeu, fui para meu quarto ao menos tentar dormir, mas eu sabia que não conseguiria. Olhei para meu universo no teto pensando em varias coisas ao mesmo tempo, mas infelizmente não era sobre universos ou estrelas que eu estava pensando... Como eu queria poder parar de pensar.

Pensei em quantas pessoas que também iriam fazer os testes estavam pensando em jogar tudo para o alto e se tornar um slacke, em quantas estavam aflitas e assustadas, não me sentia bem, nem mesmo tranquila em saber que eu não era a única a estar tendo esses sentimentos e sim com raiva, raiva por pessoas terem que se submeter a arriscar a própria vida pelo que? Eu não conseguia entender o por que dos testes existirem, na verdade ninguém conseguia. Acho que o estado só fazia esse tipo de coisa para mostrar que estavam no poder ou algo do tipo, eles faziam discursos de 20 horas, mas nunca explicaram o por que desses testes realmente existirem. É incrível a capacidade que os humanos tem de causarem guerras e ferirem uns aos outros por poder, a humanidade quase foi extinta por isso uma vez e eles ainda insistem em cometer os mesmos erros. Humanos são assustadores.

Virei para o lado para mais uma vez tentar dormir, o que foi inútil, não importa o que eu fizesse eu não conseguia. Depois de algumas longas horas eu consegui pegar no sono, comecei a ter mais um daqueles sonhos que mais se pareciam lembranças e dessa vez não foi com Robert, ainda sim era em um lugar subterrâneo, mas dessa vez não era uma caverna e sim um quarto. Pude ver uma cama com um colchão bem fino sobre ela e uma porta enorme feita de ferro que estava trancada, então percebi que não era um quarto e sim uma cela, na porta havia uma pequena portinha que consegui ver lá fora, era um corredor enorme com varias outras celas iguais a minha. No canto da cela havia uma pequena porta que dava para um banheiro que eu mal cabia. Comecei a procurar um jeito de sair, olhei para cima e no alto havia uma janela cheia de grades, emburrei a cama para de baixo dela e subi para poder ver o que tinha lá fora. Fiquei completamente surpresa com o que eu estava vendo, uma cidade subterrânea.

Consegui deduzir que o lugar que eu estava era um prédio e talvez o único, um prédio em uma cidade subterrânea? Nada mal. No meio da cidade havia uma praça onde estavam várias pessoas que se pareciam com soldados, eles usavam fardas pretas com um símbolo roxo, foi quando me lembrei do meu primeiro sonho, eram fardas iguais a aquelas. Também pude ver um tipo de hospital onde uma mulher levava uma maca com um garoto com roupa branca e alguma coisa na cara, era como uma agulha enorme no meio do olho, talvez eu estivesse enxergando errado. Ela levou-o para dentro do que se parecia um hospital e pude ver mais e mais pessoas com roupas brancas e a maioria todas adolescentes e crianças, acho que eram pacientes.

O mais assustador foi que em volta da praça havia um centro de treinamento com crianças e adolescentes sendo treinados com armamentos pesados e com lutas de todos os tipos. Todos eles em perfeita sincronia, ao mesmo tempo pareciam robôs. Ouvi passos no corredor e desci da cama o mais rápido possível e coloquei-a no lugar, em primeiro momento não sabia o que fazer, então deitei na cama e fingi estar dormindo, os passos foram ficando cada vez mais perto ate que ouvi a porta se abrindo e uma voz ressoou.

– 52 levante-se!

O que por google era 52? Não podia ser eu.

– Ora 52, não me ouviu?

Então resolvi abrir os olhos, me deparei com um daqueles soldados. Ele não tinha mais que 25 anos, o cabelo estava escondido em uma boina preta, ele era realmente alto, estava pensando em lutar e fugir, mas quando vi o tamanho dele, resolvi não fazer isso.

– Acha que só porque esta aqui a mais tempo vai ter alguma folga?

Esta aqui a mais tempo? Isso ecoou na minha cabeça, o que ele queria dizer com isso?

– O que? — disse

– Se troque rápido — disse ele fechando a porta, foi quando olhei para o que eu estava vestindo. Estava com uma camisola branca que ia pra baixo do joelho.

– Vestir o que? — gritei e é claro que nenhuma resposta foi dada. — Ótimo.

Sentei na cama e alguma coisa no meu subconsciente me fez levantar e ir ate o banheiro, olhei atrás da porta e lá estava uma calça jeans escura, uma blusa preta e uma bota de couro sintético.

– Pelo menos eles tem bom gosto — pensei alto.

Me arrumei rápido e felizmente havia um pequeno espelho no banheiro, meu cabelo estava horrível, eu estava presa em um lugar que eu não fazia ideia de onde era e estava preocupada sobre meu cabelo, dez pontos para mim. Senti algo no bolso da calça e quando tirei-o, era nada menos que um elástico de cabelo. Será que eles pensam em tudo? Prendi o cabelo e fui ate a porta, e é claro que ainda estava trancada, parei em frente dela tentando pensar em algo, quando de repente vi uma câmera acima da porta. Sem perceber fiquei encarando-a, ate que os altos falantes do corredor começaram a ressoar com uma voz.

– Todos em seus postos. — aquela voz não me era estranha, lembrei da voz na caverna e percebi que eram a mesma.

Como eu não fazia ideia qual era o meu posto, fiquei parada em frente a porta esperando algo acontecer, elas se abriram e lá fora havia um soldado para cada cela, o soldado que estava na frente da minha cela virou meus braços brutalmente e colocou algemas.

– Qual a necessidade? E por que os outros não precisam?

– Serio 52? — disse ele

Olhei para ele assustada e desentendida.

– Qual é Kristen, depois de todas as vezes que você tentou fugir?

Não me importei com a parte que eu fugi varias vezes e sim com o meu nome.

– Você sabe meu nome!?

– O que você tem hoje em?

– Hoje? Que dia é hoje? — perguntei em quanto ele me levava para fora do corredor onde ficava minha cela.

– Ok, pare com isso e você sabe que eu não posso ficar falando com você. Alias, me desculpe pelo jeito que algemei você, é que eles colocaram câmeras para todos os lados.

– Por que você não pode falar comigo ?

Ele continuou me levando e não obtive nenhuma resposta, passamos por dois guardas, deduzi que eles eram guardas por não estarem usando as mesmas roupas e sim roupas de... guardas. A minha frente estavam as pessoas que estavam nas outras celas, consegui ver uma garota loira de cabelos compridos, outra com o cabelo bem curto e mais uns três garotos, eles tinham quase o mesmo tamanho, talvez eram da mesma idade ou de idades próximas. Continuamos andando feitos escravos na época da primeira ordem mundial, ninguém reagia nem mesmo falava algo e mesmo se eu quisesse fazer algo, não conseguiria com todos aqueles soldados e ainda mais algemada, a única vantagem que eu tinha era ser a ultima, se eu fosse para o lado contrario...

Era realmente uma péssima ideia, mas como eu só tinha ideias péssimas resolvi fazer isso, primeiro tentei decifrar o que havia no lado oposto, guardas, armadilhas, talvez uma saída? Quem sabe. Nos estávamos cada vez mais perto do lugar que me salvaria ou me mataria. Eu estava algemada, mas o soldado que me levava já não estava mais me segurando, então agi rápido. Quando todos os outros prisioneiros junto com seus soldados viraram a esquerda eu diminui o passo ate parar, antes que o soldado que estava atrás de mim pudesse dizer qualquer coisa, eu dei uma pela cabeçada nele e logo em seguida um chute no estomago, como eu conseguia fazer isso? Enquanto ele estava caído no chão, corri para o outro lado onde havia mais um corredor enorme, era difícil correr algemada (nunca pensei que diria isso), mas ainda sim minhas emoções estavam a flor da pele, então corri como se estivesse na competição mais importante da minha vida. Parecia que aquele corredor não tinha final, quando finalmente consegui ver uma luz ao lado direito, corri mais rápido ainda e virei tão rápido que o máximo que eu consegui ver foi a mistura de luzes com uma pessoa me puxando e colocando a mão na minha boca, pude ouvir varias vozes ao mesmo tempo e junto com as vozes consegui ouvir as batidas do meu coração tão aceleradas quanto um radiotec atrás de um microchip 427. Quando a pessoa que me segurava me soltou, olhei rápido para trás e pude ver o mesmo soldado que eu acabará de bater me olhando fixamente.

– Como você? — gritei e então ele voltou a por a mão sobre minha boca e me virou, quando realmente olhei para frente pude ver varias pessoas em volta de uma mesa de centro gigante, parecia uma reunião da capital, exceto por eu não conhecer ninguém e alguns dos rostos estavam completamente embaçados, eu não conseguia enxerga-los, logo depois o soldado me virou para ele e fez um sinal de silencio com as mãos seguido de um shhh bem baixo. Ele tirou a mão da minha boca bem devagar me olhando fixamente com medo que eu gritasse ou fizesse algo que estragasse tudo, foi quando tudo parecia estar em câmera lenta, o modo como ele olhou para o lado e em seguida me olhou e disse "Não faça nenhum barulho" estava tudo entrando em lentidão, foi quando minha cabeça começou a doer completamente e eu tive uma lembrança, uma lembrança dentro de outra lembrança, tudo estava tão confuso. Me lembrei de varias coisas que aquele soldado já havia feito por mim e por mais duas pessoas que eu também não conseguia ver o rosto, minha memoria não permitia ver certas imagens, isso me deixava arrasada, mas me lembrei da primeira vez que o conhecei, assim como dessa vez, eu o odiava por pensar que ele fazia parte de tudo aquilo e não por na verdade ser mais um a ser comandado por aquelas pessoas, me lembrei das vezes que ele havia me feito rir e me ajudado a fingir ser um deles, foi quando voltei a olhar para ele e disse repentinamente:

– Jason! — dito isso, fui ate ele e tentei abraça-lo, mas me lembrei da parte que minhas mãos estavam para trás, ainda sim ele me abraçou e eu consegui sorrir aliviada.

– Vou tirar você daqui — Jason disse confiante, mas ainda sim estava tentando manter a respiração normal, mas era impossível não estar ofegante depois de ter corrido dez vezes mais que eu para não me deixar fazer nenhuma besteira. E eu só conseguia pensar no quão aliviada eu estava por ter me lembrado dele.

Jason abaixou atrás de uma rocha e fez um sinal para eu segui-lo, antes que eu pudesse dar uma ultima olhada para aquelas pessoas em volta da mesa, para quem sabe dessa vez eu poder enxerga-las, mas Jason me puxou com tanta força que não tive tempo nem de me virar, saímos correndo o mais rápido possível pelos corredores ate chegarmos onde os outros estavam, ninguém reparou nosso sumiço, ninguém se quer olhava para os lados. Continuamos andando feito zumbis, na primeira ordem todos diziam que os humanos acabariam como zumbis, mal sabiam que seriam eles mesmos a se auto destruírem. Finalmente chegamos onde deveríamos. Era um lugar parecido com o centro de treinamento que eu havia visto da minha cela, mas esse era dez vezes mais avançado, não só nos acessórios de lutas, mas em praticamente tudo e as pessoas desse lugar treinavam com a maior facilidade, como se já fizessem isso a anos, era incrível de ver a praticidade que eles tinham, era como uma dançarina de colken dançando no meio fio de uma piscina de algodões.

– Onde estamos? — perguntei baixo e me virando lentamente para Jason

– Como você não sabe? O que aconteceu com você?

– Eu não sei, é que... — parei de falar enquanto um guarda passava por nos, estamos esperando na fila de checagem, mas ela estava realmente lenta. Eles revistavam literalmente tudo. — Tudo isso não parece ser real, é como... como uma lembrança, entende? Mas eu estou aqui, agora, na minha própria lembrança.

– Isso soa tão confuso — Jason disse enquanto segurava meu braço e ia andando lentamente pela fila.

– Eu sei... — Não queria dizer algo que me fizesse parecer louca, embora eu estava.

– Hey — ele disse baixinho. — Não se preocupe, nós vamos descobrir o que esta acontecendo, agora procure o — e sua voz pareceu com um chiado horrível

– Procure quem? — perguntei enquanto fazia uma cara de dor

– Procure o — e o chiado apareceu de novo

– Eu não consigo ouvir — disse espantada

– Mas o que esta acontecendo? Tudo bem, tente entender agora, procure a — e o chiado apareceu mais uma vez e mais forte

– Não, pare! — gritei. — Desculpe Jason, mas eu não consigo entender, no lugar aparece um chiado horrível, não sei o que você esta tentando dizer, mas por favor pare!

– Eu não entendo, eu só estou dizendo o nome dos nossos amigos — Disse confuso, olhei entristecida para ele e fiz sinal com os ombros. — Ok, não importa, quando você entrar lá dentro certamente eles virão ao seu encontro, esta bem?

Concordei com a cabeça.

– Você não vem? — perguntei

– Não posso, eu tenho outros prisioneiros para olhar.

"Prisioneiros" essa palavra ecoou em minha cabeça, então era só isso que eu era naquele lugar, uma prisioneira...

Quando chegou a minha vez de passar pela checagem eu estava realmente aflita, pensei se eu não havia colocado nada de errado nos bolsos ou ate mesmo no sutiã, mesmo sabendo que não a minha ansiedade me fazia questionar me varias vezes. O guarda que estava fazendo a checagem era totalmente violento, não tinha o mínimo de delicadeza, me segurei para não soca-lo no estomago.

– Limpo! — ele disse e abriu passagem.

Antes de entrar eu dei uma grande pausa, ate que tomei o máximo de coragem e comecei a seguir em frente. Havia varias alas lá, a primeira ficava depois da checagem e foi a qual eu vi, olhei para quase todos que estavam lá, mas nenhum veio ao meu encontro, estavam todos concentrados lutando, então resolvi seguir e ir para a segunda ala, ela não era tão diferente da primeira, exceto pelos armamentos mais avançados ainda, fiquei pensando no que haveriam nas próximas então, cheguei a ter calafrios. Provavelmente os amigos que Jason me falará não estavam na segunda ala também, então resolvi seguir em frente.

A terceira ala era parecida com as duas primeiras, mas essa não havia armamentos mais avançados que a segunda, na verdade eram iguais a única coisa que diferenciava eram os computadores, enquanto as primeiras só haviam dois ou três, nessa haviam vários na base de uns 16 á 20 computadores e era a ala maior ate agora e mais, digamos, simpática. Entrei nela bem devagar e fui ate o centro e fiquei uns dois minutos imóvel, apenas olhando tudo, de alguma forma eu estava encantada com aquele lugar, ate ouvir alguém chamando o meu nome e em seguida passos em minha direção. Me virei bruscamente para finalmente velos e por Google me lembrar deles.

– Ah você esta ai — disse a garota cujo o rosto eu não conseguia enxergar e a voz parecia modificada de alguma forma.

– Por que demoraram tanto hoje? O sargento Brian resolveu lhe dar uma folga? — o garoto perguntou e assim como a garota eu não conseguia enxergar seu rosto muito menos ouvir a sua voz original, parecia um tipo de vídeo que caiu na água e estragou.

– Quando isso acontecer haverá uma terceira ordem. — disse a garota

– Por que eu não consigo enxerga-los? — perguntei, cortando a conversa paralela dos dois.

– O que quer dizer com isso? — perguntou o garoto seguido de uma leve risada.

– Você esta com algum problema Kristen? — perguntou a garota chegando mais perto e fazendo com que seu rosto ficasse mais embaçado ainda

– Eu, eu não consigo enxerga-los nem ouvi-los direito, eu não sei porque.

– Eles fizeram algum experimento com você hoje? — ele me perguntou

– Talvez possa ser algo que ela tenha comido ou...

– Parem! — gritei. — Vocês... vocês são apenas um tipo de lembrança, mas o pior de tudo é que eu me sinto parte dessa lembrança como o meu eu de agora.

– Você tem certeza que esta bem? Porque esta me parecendo um pouco... ahn... — disse o garoto

– É claro que eu estou, Jason me disse para...

– Jason? — cortou a garota — Consegue se lembrar dele?

– Sim! E também consigo ver seu rosto normalmente — disse

– Como pode se lembrar de Jason e de mim não? Eu que... — ele parou de falar.

– Você que o que? — perguntei espantada

– Não é hora para isso — disse a garota e no fim o chiado apareceu novamente, talvez porque ela tenha dito o nome dele. — Talvez você não consiga nos enxergar porque suas memorias não estão completas, estão faltando parte e nós estamos entre essa parte que ainda falta e por isso não consegue nós enxergar e nem mesmo nos ouvir.

Ela era impressionante esperta e por mais que tudo isso parecesse uma grande loucura, fazia algum sentido.

– Você realmente acha que nos somos apenas lembranças? O que tem de errado com vocês? — perguntou o garoto

– Você... como... foram... — a cada palavra que ela dizia o chiado aparecia, ele começou a soar instantaneamente, meus ouvidos começaram a doer.

Coloquei a mão sobre meus ouvidos, dei uma ultima olhada para aqueles que eu não conseguia ver e sai correndo, corri como se estivesse em um campo nas férias de inverno com minha familia. Os guardas não tiveram tempo nem se quer de ter alguma reação, consegui sair para fora e corri ate a praça onde haviam vários soldados, eles não esperavam por uma fugitiva e por isso foi fácil passar por eles, mas de repente ouvi um "pare" e é claro que eu não parei, então comecei a ouvir tiros e mais tiros atrás de mim, corri para trás de uma enorme lata de lixo que havia lá e me escondi. Ate ouvir uma voz falhada gritar:

– Parem com isso, é a Kristen! — fui ate a borda da lata para ver quem era, vi o rosto embaçado e a calça jeans preta, percebi que era o garoto que eu acabará de ter uma conversa, ele estava em frente a vários soldados armados gritando para pararem. — Parem agora, é a 52!

– Cessar fogo — ouvi uma voz grossa e completamente fria, todos pararam de atirar, foi ai que consegui ver o mesmo homem que me acordou na cela mais cedo, deduzi que era o tal sargento Brian.

– Venha aqui agora 52 ou eu mesmo vou ate você e acabo de uma vez por todas com isso, já é a decima vez que você faz isso, não vou mais tolerar esse insulto, você tem 2 minutos.

– Kristen, por favor, venha! Sei que você não consegue se lembrar de mim, mas esta tudo bem... Nos vamos dar um jeito nisso, nos sempre demos um jeito em tudo. — o garoto disse.

Eu não o conhecia, não sabia como ele era nem mesmo sabia seu nome, mas eu... eu o amava. Como eu poderia amar alguém que eu nem conhecia? Estava passando tantos pensamentos ao mesmo tempo, mas o único que se tornou insolúvel foi o de que eu precisava abraça-lo.

– O que esta fazendo V2? Saia dai agora. — gritou o sargento

Consegui entender o V2 sem nenhum tipo de chiado, sabia que esse não era o verdadeiro nome dele e sim o apelido de prisioneiro, mas era tudo o que eu tinha, era tudo o que eu sabia sobre dele. Sai de trás da lata de lixo e corri ate ele e fiz o que eu realmente queria fazer, abraça-lo. Ele me abraçou tão forte que por um momento eu me lembrei dele, mas logo isso se perdeu no ar e eu não sabia quem ele era, não sabia nem se quer o que eu estava fazendo.

– Acho que já esta na hora de você receber uma lição, não é porque é nosso melhor experimento que eu não irei fazer nada. — disse o sargento — E que isso sirva de lição para todos! — gritou

Sai dos braços do V2 e o olhei firmemente, mesmo não conseguindo ver seu rosto, ele se posicionou ao meu lado e fez a mesma coisa, olhou para o sargento para entender o que ele queria dizer com tudo aquilo. Sargento Brian tirou sua arma da cintura e a engatilhou, antes que eu pudesse pensar em qualquer coisa, ele acertou minha perna com um tiro fazendo me cair de joelhos e consequentemente gemer de dor. Enquanto eu estava ajoelhada no chão, consegui apenas sentir V2 se ajoelhando ao meu lado e dizendo que ficaria tudo bem ao mesmo tempo que gritava com o sargento Brian, também pude ouvir uma voz feminina dando gritos de por que? Foram as ultimas coisas que vi, antes de apagar completamente e acordar assustada em minha cama.

– Foi só um sonho — disse enquanto sentava me na cama com a maior dor de cabeça e por ironia, com dor na perna também. — Mas que droga esta acontecendo? — perguntei a mim mesma, eu realmente gostava de falar sozinha, mesmo que isso parecesse solitário.

Ouvi alguém bater na porta e instantaneamente olhei no relógio e marcavam apenas 25:00, não fazia nem uma hora que eu estava dormindo, pensei.

– Filha? Quem esta ai? — Minha mãe perguntou e logo fui ate a porta abri-la.

– Não era ninguém mãe, eu só estava conversando com um pomtec que parou na minha janela — Pomtecs eram pássaros tecnológicos, é que depois da primeira ordem não sobraram muitos animais "reais".

– Ah tudo bem então. — disse ela, mas antes que ela se virasse para ir embora eu disse:

– Mãe?

– Sim?

– Você não pode ficar um pouco aqui comigo? — perguntei

– Kris, você tem que dormir para estar descansada para amanhã.

– Eu sei... — disse em tom de tristeza.

– Mas ainda é cedo e ficar um pouquinho aqui não vai prejudicar ninguém, não é? — ela disse sorrindo e entrando em meu quarto.

Nos deitamos na minha cama e ficamos olhando o meu universo no teto, a cama era pequena, mas nós duas éramos magras e por isso cabíamos perfeitamente nela.

– Mãe?

– Sim querida?

– Posso perguntar uma coisa? — disse enquanto me mexia desconfortavelmente, não queria que ela pensasse que eu estava com algum problema, mas precisava entender o que estava acontecendo, mesmo que pra isso eu tivesse que perguntar a ela.

– É claro.

– Você acha possível alguém ter uma lembrança, mas ela viver essa lembrança com o "eu" dela de agora?

– Que ótima pergunta sobre culinária em? — ela disse enquanto ria

– Se fosse para perguntar algo culinário eu perguntaria para o papai.

– Que falta de consideração com os meus dotes culinários — ela disse enquanto me empurrava e ria.

– Mas é serio mãe, acha isso possível?

Ela ficou um tempo parada olhando para o universo, ate que falou:

– Nada é impossível.

– Eu sei, eu sei, mas você já ouvi falar sobre algum caso assim?

– Vários, é quando a pessoa se recorda de algo, mas ela vive isso de novo como se estivesse vivendo no presente, mas na verdade é apenas uma lembrança onde o eu interior do presente esta vivendo algo do passado, na maior parte dos casos as pessoas acham estarem confundindo sonho com realidade e isso realmente acontece muitas vezes, mas nem sempre é só uma ilusão ou confusão, como queira chamar, mental. — ela disse praticamente dando uma aula, o que me ajudou muito.

– Esse tipo de coisa tem algum nome especifico? — perguntei.

– Sim... Cérebro enlouquecedor. — ela riu

– É serio, mãe!

– Na antiga ordem as pessoas ate podiam dar nomes específicos para tudo, mas nada mais é assim filha. — disse ela me olhando. — Mas por que quer saber sobre isso?

– Ahn... É para um trabalho de escola. — Eu mentia realmente mal.

– Ah, achava que suas aulas haviam acabado á uma semana atrás.

– É que...

– Tudo bem, não importa. Mas você não esta com nenhum problema, esta?

– Não, claro que não. — disse rápido. Logo depois disso, nenhuma de nos disse mais nada, ficamos apenas paradas, olhando para o meu universo. E no fim, queria agradece-la por não ter feito perguntas e mais ainda pelo silencio.

Ela ficou ali comigo ate que eu finalmente pegasse no sono novamente.

Acordei no dia seguinte com um despertador denominado "Blair", olhei no relógio e ainda faltavam 3 horas para o horário que eu realmente deveria acordar, mas ainda sim levantei pois sabia que eu não conseguiria dormir mais. Sai do quarto de pijama e com o cabelo totalmente bagunçado, amarrei-o de lado e desci ate a sala. Quase chegando na cozinha, ouvi meus pais conversando em um tom completamente baixo, continuei andando normalmente e entrei na cozinha, imediatamente eles pararam de conversar e não conseguiram ao menos disfarçar.

– O que aconteceu? — perguntei sem ao menos dizer olá.

– Oi pra você também! — disse minha mãe.

– Oi... O que aconteceu? — perguntei novamente e dessa vez mais seria.

– Nada querida — disse meu pai em tom suave.

– Vocês acham que eu minto tão mal assim, por que?

– Como? — perguntou minha mãe.

– Aprendi a mentir mal desta forma com vocês, agora me digam o que esta acontecendo! — levantei o tom de voz sem querer.

– Não esta acontecendo nada Kristen, já disse. — disse ela irritada, parecia que nos iriamos brigar ali mesmo, na cozinha e no dia dos testes de conlitimação, que bela despedida.

– O que vai querer tomar no café da manhã Kris? — perguntou meu pai calmamente.

– Qualquer coisa.

– Que tal seu suco preferido de amoras azuis com um pouco de azeitonas silvestres? — perguntou minha mãe como se nada acabará de acontecer.

– Pode ser... Ahn, obrigada. — disse desconfiada de tudo aquilo, eles estavam mais estranhos que o normal, não conseguia parar de pensar no porquê.

– Só um minutinho.

E realmente havia passado apenas um minuto ate ela ter preparado tudo e me entregado um grande copo de suco com um canudo giratório, que estava me deixando tonta. Logo depois os dois saíram da cozinha me deixando tomar meu suco sozinha, era bom não ter ninguém me observando nem que fosse por alguns minutos. Enquanto tomava meu suco, ouvi conversas paralelas e sussurradas, novamente eram meus pais, mas dessa vez parecia um discussão com sussurros. Me aproximei devagar da porta da cozinha e pude ouvir melhor.

– Fale mais baixo, ela pode ouvir! — disse meu pai sussurrando alto (?)

– Eu estou falando baixo, mas precisamos contar logo para ela.

– Acha que ela vai reagir como?

– Eu não sei, mas vamos fazer o que? Amarra-la e leva-la a força? — disse minha mãe fazendo movimentos de interrogação com as mãos.

Não estava conseguindo ouvir direito, por mais que eu tentasse, então resolvi colocar um plano em pratica. Me encostei no batente da porta, ainda com o suco em mãos e tomei-o ate chegar no fim e fazer aquele velho barulhinho irritante, foi ai que os dois olharam para trás espantados.

– Kristen? Faz quanto tempo que você esta ai? — perguntou minha mãe quase sem fala.

– A mais tempo que vocês imaginam.

– Você ouviu tudo? — perguntou meu pai surpreso.

– Eu não acredito que vocês fizeram isso. — disse fazendo um drama quase acreditável. Mesmo não sabendo o que era, eu tinha que fingir que sabia.

– Nós desculpe Kristen. — disse ele balançando a cabeça tristemente.

Por um momento pensei que eles fossem dizer só isso e que no fim meu plano não havia dado nenhum pouco certo.

– Nós estamos fazendo isso porque te amamos. Não podemos te deixar fazer os testes.

– O que?! — disse assustada. — Como assim?

– Nós vamos fugir, sair daqui, sair da vista de qualquer um que faça parte do estado.

– O que? Não! Vocês não podem fazer isso comigo, eu já disse. Eu faço minhas escolhas!

– Espera, então você não ouviu o que falávamos?

– Eu pensei que vocês respeitassem minhas decisões... Mas eu não me importo, eu vou fazer os testes nem que eu precise... — Parei de falar, porque eu não sabia o que dizer. O que eu diria? "Nem que eu precise passar por cima de vocês?" Eles são meus pais, pensei.

– Kristen, por favor, tente entender; Isso não são mais testes reais, tudo isso é uma grande forma de acabar com a metade da população. Os estados estão completamente cruéis e com ideias terríveis e sem sentido algum, eu não posso deixa-la passar por isso tudo em vão. — disse ele quase sem folego.

– Mais um motivo para eu estar lá. Se tudo isso for realmente verdade, acha mesmo que eu vou fugir? Sabem quantas pessoas inocentes estão indo para o abate e não sabem? Ou talvez alguns saibam, mas não possam fazer nada contra isso? Acham mesmo que eu vou simplesmente fugir?

– Mas se você estiver lá, o que vai adiantar? Você não é uma super heroína da primeira ordem Kristen, heróis não são reais. O que uma pessoa pode fazer contra o estado se nem mesmo um exercito poderia? — disse minha mãe convicta, como se falasse com uma criança de oito anos.

– Acha que é isso o que eu quero? Ser uma heroína? Eu só quero estar junto com as pessoas que eu deveria estar e se algo acontecer a eles, a nós; nós teremos uns aos outros.

– Você nem mesmo os conhece, vai trocar sua família, sua vida por pessoas que você não sabem nem o nome?

– Você não entende.

– Então nós explique! — gritou meu pai, finalmente dizendo algo.

– Eu quero finalmente ter liberdade. — disse sem gritar e sem esforço algum.

– Liberdade? Acha que ser obrigada a fazer algo, ficar presa em um lugar contra sua própria vontade e sendo destinada a morrer, é liberdade? Acha mesmo? — disse ela fazendo cara de indignação e ao fundo meu pai tentando compreender.

– Liberdade é não ter mais medo! Eu não quero mais sentir medo, eu quero poder olhar no espelho e ver que a garota amedrontada se foi. — Eu estava tentando segurar as lagrimas, mas era como se tivessem colocado toneladas em meus olhos, eles chegavam a doer.

Meus pais ficaram em silencio, não sabiam mais o que dizer; eu não sabia mais o que dizer. Em parte eu estava como eles, sem entender o porque eu me importava tanto com aqueles que eu nem ao menos conhecia (como eles haviam dito), mas no fundo eu sentia que era exatamente isso o que eu deveria fazer, o que eu queria fazer. Pela primeira vez eu sabia exatamente o que eu estava pensando; Eu queria ajudar aqueles que eu nem ao menos conhecia, também tinha esperanças te encontrar aqueles cujo os rostos eu não me lembro, os nomes eu não sei, mas o amor e a lealdade que eu sentia por eles era completamente real.

– Suba e faça sua mala. — minha mãe disse finalmente.

– O que? Depois de tudo e você ainda vai me...

– As 11 horas eu vou te levar para o Travellen. — disse ela me cortando.

– O que? — Corri ate eles e os abracei, mesmo não sentindo a mesma retribuição de abraço, já estava tudo bem.

Subi as escadas correndo, como se eu fosse ir para o melhor lugar do mundo, por mais que eu soubesse de tudo o que poderia me acontecer, parei de pensar nisso e a única coisa que conseguia pensar era que eu tinha esperanças de encontrar aquelas pessoas, encontrar Jason, V2 e a garota inteligente.

Enquanto pegava algumas blusas, comecei a falar comigo mesma.

– Eu acho o que? Que vou encontra los lá? No meio de varias pessoas? E se eles forem de outro estado e se eu estiver ficando louca e eles nem ao menos existirem? — falei baixinho enquanto dobrava as blusas dentro da mala ou melhor socava-as. — E se eu encontra-los e eles não souberem quem eu sou? Vou dizer o que? "Oi gente, então, eu sonhei com vocês, mas na verdade era uma lembrança, lembram que nos éramos todos prisioneiros de um lugar subterrâneo?" Só pare! — gritei comigo mesma. Terminei de arrumar a mala e me lembrei que faltava me arrumar. Coloquei uma blusa preta sem estampa e uma calça jeans clara, prendi o cabelo e logo em seguida desprendi, achei melhor deixa-lo solto, porque a maior parte que eu ficarei lá terei que deixa-lo preso.

Fiquei pensando se havia esquecido de algo por eu sempre esquecer de coisas importantes. Chequei a mala pela ultima vez e coloquei-a no corredor, antes de sair dei uma ultima olhada no lugar que eu mais havia ficado na minha vida e agora eu não o veria por muito tempo. Por fim fechei a porta e desci as escadas tentando não cair com a mala que estava um tanto quanto pesada. Era apenas uma mala com algumas coisas, pois em Travellen eles dariam uniformes e varias outras coisas. Fiquei sentada no sofá esperando minha mãe, ate que finalmente ela chegou e o mais estranho foi que minha irmã iria junto, mas meu pai não.

– Você não vai? — perguntei a ele.

– Infelizmente não vou poder querida. — disse entristecido.

– Tudo bem papai. — disse sorrindo, fazia tanto tempo que não falava com ele desta forma.

– Boa sorte. — Ele me abraçou e beijou minha testa. — E lembre-se, nunca faça algo que prejudique alguém e principalmente a si mesma.

– Vou me lembrar disso.

Antes de entrar no carro, dei uma ultima olhada para a casa e todo o lugar em volta e por ultimo para meu pai, parado em frente a porta com as mãos no bolso, o mesmo modo que ele ficou no meu primeiro dia de aula. Finalmente entrei no carro e parti.