Notas iniciais
Desejo a todos uma boa leitura :3

Elsa acordou no meio da noite, sua mente agitada não permitia que ela dormisse, culpa, remorso e medo tomavam conta de todo o seu ser, havia acertado Anna. Agora a caçula não se lembrava mais de seus poderes, era horrível essa sensação, a ideia de ocultar algo tão grandioso de todos.

Ela olhou para as próprias mãos. A tenra idade não era gentil com ela, bombardeando-a com esses pensamentos destrutivos. Mas a falta de alguém para conversar sobre isso era pior ainda, ela se levantou, pegou uma lamparina e saiu do quarto, caminhou até a biblioteca do castelo, tendo o cuidado de não acordar os pais ao passar em frente ao aposento real;

Ela abriu as portas ruidosamente, foi até o livro que conhecia tão bem, era uma antiga lenda de um rei, um homem que governou estas terras há gerações passadas, um rei que havia ficado louco com os poderes de gelo que tinha...

***

Na aurora dos tempos, houve um rei em Arendelle, ele era bom e justo, descendente de uma longa linhagem de homens e mulheres daquela região, o homem possuía longos cabelos brancos e olhos cinzas como a mais espessa neve;

Um dia, este rei teve dois filhos justos, um se chamava Tyng, que era belo como a neve mais fina de início de inverno, e o outro, Kai, tão educado quanto um ser humano poderia ser. Tyng, por sua vez, cresceu reservado, apesar de ser herdeiro do trono. O jovem rapaz sofreu de melancolia durante sua adolescência graças ao fardo pesado de aprender como um rei deveria se portar. Já Kai que sempre almejou o trono, tinha muito tempo livre e inveja do irmão, não entendendo o porquê Tyng, que tinha tudo, parecia não querer nada.

Quando os jovens príncipes completaram dezoito invernos, já não mantinham laços afetivos, separados por um grande desfiladeiro de orgulho e rivalidade, seguido por brigas constantes.

Com isso, ambos passaram a se evitar no palácio.

Até que Kai, revoltado por não ser reconhecido como herdeiro nos últimos momentos moribundos do pai, certa noite caminhou por um longo caminho enevoado, indo até a montanha proibida dos trolls. Ao chegar até o líder dos seres místicos, ele, dotado de grande influência com as palavras, pediu algo que o ajudasse em sua jornada no Reino.

Sua justificativa para o pedido era a benevolência para com a terra que seus antepassados tiveram.

Insistiu que sua família merecia uma recompensa divina por governar tão bem aquelas terras por gerações, conseguindo manter o equilíbrio da paz em harmonia por gerações perfeitamente.

Os trolls então lhe entregaram um espelho de gelo mágico, que poderia controlar a neve do Reino e fazer com que dias mais prósperos e felizes chegassem.

Entretanto, os trolls nada disseram sobre o preço daquele presente ser a popularidade do jovem príncipe, minando sua beleza e carisma. Ao notar que tudo que desejava agora havia se tornado inalcançável, o ódio que já era grande em seu coração aumentou, percebendo que, por ironia do destino, o espelho só favoreceu seu irmão mais velho à custa de sua própria felicidade.

Então, em uma certa manhã, alguns anos depois, enquanto se preparava para uma cavalgada matinal pelas vielas do povoado, Tyng encontrou a imagem deplorável de seu irmão mais novo. Sentado sob vários cacos de vidro congelado, Kai convulsionava levemente enquanto sangue emoldurava suas pernas, assim como escorria de sua boca.

Kai, em sua angústia e desamparo por não conseguir o que queria, optou, em um ato desesperançoso e alucinado, por quebrar e engolir pedaços do que um dia fora um presente ao povo de Arendelle.

"Agora eu entendi o que os Deuses queriam que eu fizesse."

Antes mesmo que Tyng pudesse chamar seus guardas e proteger seus filhos, uma espada já encerrava sua curta e invejada vida, escorrendo pelas mãos de Kai, que agora, por meio de sangue e matança, era o rei.

Após a morte de Tyng, Kai entrou no ápice de sua loucura, não encontrando a felicidade que achou que encontraria no trono, nem a paz que pensava encontrar assim que se livrasse de Tyng. Amaldiçoado agora com poderes de gelo, ele iniciou uma caçada sangrenta a todos os opositores de seu reinado pessoalmente, até que, cinco anos depois, acusado de bruxaria, faleceu envenenado por uma de suas esposas. Seus filhos foram mortos e parentes executados, derrubando assim o reinado de toda sua família.

***

Elsa leu novamente o texto, seus olhos se enchendo de lágrimas à medida que encerrava aquela curta história.

Seria verdade aquilo?

E se realmente morresse por conta das pessoas do Reino não a aceitarem?

Ficaria louca também?

A janela da biblioteca se abriu com o vento forte lá fora e, com o susto, Elsa guardou o livro proibido de volta e foi até a janela. Seus pais não permitiam que ela lesse aquele tipo de livro, diziam ser fantasioso e horrível demais para sua idade.

Elsa ficou observando a lua por algum tempo e se sentiu segura, como se a lua acalmasse seus temores. Olhou para a rua além dos muros do castelo.

O bom da biblioteca era que, por ser nos fundos do Palácio, ela tinha vista privilegiada do movimento da rua traseira, rua que, àquela hora, estaria certamente vazia se não fosse um garoto de mais ou menos a sua idade sendo enxotado de um estabelecimento barulhento.

— Posso voltar outro dia e arrumar as mesas para o senhor, apenas me dê uma chance! — O garoto pediu, e a porta se abriu novamente.

Um homem gorducho com um avental sujo e um charuto soltando fumaça o olhou com irritação.

— Escute, aqui é um bar, não é lugar para um garoto da sua idade trabalhar. — Cuspiu de maneira rude no chão da rua e entregou o que Elsa julgou ser moedas ao menino. — Volte daqui a alguns anos e talvez eu permita que trabalhe aqui. — E, dito isto, o velho fechou a porta.

O garoto ficou parado durante alguns minutos ali, perdido em pensamentos. Então, sentindo alguém o observar, ele se virou para o Castelo.

Mesmo com a distância, Elsa teve um vislumbre de uma ferida no canto da boca do menino, mas, ainda assim, ele a encarou e um sorriso gentilmente triste surgiu no rosto dele.

Ele ergueu a mão em um aceno breve e se virou, seguindo seu caminho entre a penumbra e a ventania da noite.


Notas finais
Espero que tenham gostado e até o próximo capitulo ♥