Notas iniciais
Boa leitura ❤

Perambulando e vivendo sozinha no castelo, Elsa sentia-se presa, uma injustiçada e enclausurada prisioneira de seu destino.

No tempo que se seguiu, ninguém a olhava com gentileza, ninguém se atrevia a conversar com ela além de Agnarr e Iduna e um grupo seleto de criados e, para seu temor, isso já vinha se tornando suficiente.

Algumas vezes, Elsa ia até a janela da biblioteca durante a noite, procurando com um fio de esperança pela presença do garoto que acenou para ela tempos atrás.

Ele a vira, notara sua presença por alguns minutos e ela não se esqueceria disso tão cedo. Perguntava-se como seria conversar com uma pessoa que não a conhecesse, que não a tratasse como herdeira ou com receio.

Sua tormenta perdurou por mais dois outonos até que, finalmente, Elsa estava grande o suficiente para cuidar de um ou outro assunto real.

Seus pais, notando a melancólica figura quieta que a filha estava se tornando, permitiram que ela tivesse algumas poucas regalias e naquele dia ela teria uma delas.

— Você está pronta, Alteza? — Perguntou uma de suas damas de companhia.

A princesa respirou fundo mais algumas vezes antes de arrumar o vestido roxo que usava e abrir a porta.

— Sim, vamos andando. — Ela concordou, contendo a eufórica sensação que crescia em seu peito, sabia ser a juventude mexendo com sua cabeça, fazendo com que sentisse animação com o mínimo trabalho fora do Castelo.

— Vamos encontrar alguém rapidamente e voltar, o rei e a rainha nos deram trinta minutos. — A empregada Mary disse em tom entediado.

— Talvez uma pessoa mais velha seja adequada para o cargo de livreiro Real. — Elsa sugeriu e a empregada se limitou a um menear de cabeça.

Seu trabalho era basicamente andar pelas vielas do Reino, anotar as irregularidades que visse e, caso encontrasse alguém apto para o cargo de Livreiro, tomar nota do nome e voltar. Quase ninguém do Reino sabia quem era ela, portanto, era fácil andar entre as pessoas sem ser reconhecida.

Mal começaram a andar e aquela já tinha se tornado uma de suas tarefas favoritas, tanto que, se imaginou vivendo em uma daquelas cabanas, sem responsabilidades ou maldições.

— Vou aproveitar para comprar algumas maçãs, majestade, você se importa? — Mary perguntou.

— De maneira alguma, irei esperar aqui. — Elsa respondeu.

Foi quando uma movimentação estranha chamou sua atenção, era raro ver brigas ou discussões em Arendelle, por isso ela andou mais rapidamente, alheia ao fato de que deixou a empregada para trás.

— Tenho três Às, parece que você perdeu. — Um rapaz disse com um sorriso paladino no rosto.

Os dois senhores à frente dele fumavam nervosamente e o jovem não abriu espaço para uma possível discussão, pegou o saco de moedas de ouro de cima da mesa e saiu. Elsa notou ser uma espécie de disputa e que, após uma rodada, outros se ofereciam a tentar a sorte.

Elsa seguiu a dupla sabendo que provavelmente eles iriam atrás do rapaz vencedor para roubar o prêmio, queria anotar todas as informações que pudesse para melhorar o Reino e isso seria o tipo de coisa que queria relatar a Agnarr.

Talvez, com isso, ela pudesse sair mais.

Ele entrou em um beco e, após alguns minutos, o jovem, com a agilidade de um maestro, fez com que os dois homens o perdessem de vista.

Ela suspirou aliviada e se virou para ir embora, mas uma mão quente a segurou com força e a jogou contra a parede, uma faca afiada sobre seu pescoço.

— Quem é você? Por que me seguiu esse caminho todo? — Era o mesmo jovem que minutos antes sumira de sua vista.

— Eu...

— Espera. — Ele semicerrou os olhos e repentinamente os abriu, incrédulo.

— Conheço você... — Se deteve por um momento, a analisando. — Já te vi! Agora me lembro, é você a garota da janela do castelo. — Ele murmurou, estarrecido, afrouxando o aperto no braço da garota.

— Você me viu? — Ela indagou, surpresa.

Ele ainda mantinha um olhar desconfiado a encarando.

— Claro que vi. — Soltou-a. — Nunca esqueço um rosto. — Explicou, guardando a faca. — Sou o Jack. — Ele se apresentou, olhando-a de cima a baixo. — O que alguém da realeza faz aqui? — Indagou mais para si do que para ela.

— Escute, eu só... — Ela começou a dizer, levantando as mãos, e ele se assustou com o gesto, prova de que ainda estava na defensiva.

— Só vi aqueles caras te seguindo, achei que queriam encrenca, por isso segui para ajudar você. — Ela explicou e ele a olhou de modo engraçado.

— Você... Me ajudar...? Desculpe, mas suponho que esse não seria o caso. — Antes que ela pudesse se envergonhar com o quão ridículo foi segui-lo, um dos brutamontes surgiu no topo da escada onde estavam.

— Aí está, o metido a sabichão. — O grandão disse, um sorriso maléfico emoldurando seus lábios.

— Vamos sair daqui. — Jack murmurou e ela concordou, seguindo o rapaz, mas o outro homem apareceu e se glorificou:

— Por aqui não, rapazinho.

Jack colocou o braço protetoramente em frente à jovem herdeira de Arendelle. Elsa quase podia escutar os pensamentos do rapaz procurando por uma saída dali, enquanto seu próprio coração parecia querer sair do peito.

— Ora, meus bons senhores, vamos ser sensatos, foi uma disputa justa. — Jack grunhiu.

— Não minta, garoto, nós vimos as cartas que você tirou da manga.

— Fico lisonjeado por pensarem assim, só mostra que minhas habilidades no jogo estão cada vez melhores.

— O que está fazendo? — Elsa perguntou, apertando a lateral do vestido.

— Acho melhor você ir embora. — Ele respondeu, não desviando o olhar do homem à frente.

Ela se sentiu perdida, sem saber o que fazer, mesmo sabendo que ele estava fazendo isso porque poderia obter algo em troca, não havia como ela sair dali.

— Nos dê o dinheiro. — Pediu um dos homens e Jack sorriu.

— E se não? — Indagou provocativo.

— Vou amassar os seus ossos até não sobrar mais nada, garoto, agora seja bonzinho e entregue. — O grandalhão mandou e o rosto de Jack se fechou em uma carranca.

— Por que você não vem pegar? — Indagou, dando alguns passos para longe de Elsa.

Foi quando o primeiro golpe veio, este que Jack desviou magistralmente, e outro e mais outro, Elsa estava perdida, nunca teve que passar por uma situação assim e sentia seus sentimentos se emaranhando dentro dela, a deixando nervosa.

Deveria ir embora?

Chamar ajuda?

Tentar ajudar?

Notou que Jack já estava perdido quando um dos homens pegou o saco de moedas do rapaz e o atingiu, prosseguindo com aquele show de horrores.

Algo dentro de Elsa cresceu ao ver aquilo e de repente tudo ficou branco, desaparecendo simultaneamente, como uma página arrancada de um de seus livros.

Quando voltou a si, horas depois, estava caída em um punhado de neve.

Ela se levantou ainda desnorteada, se assustando com as duas estátuas de gelo à sua frente, eram os dois brutamontes de mais cedo, totalmente congelados, suas expressões confusas gravadas para sempre daquele modo.

Ainda assustada, ela estendeu a mão trêmula até um deles, seus corpos estavam duros, como se fossem estátuas de verdade.

O rapaz camponês estava mais à frente, sentado encostado na parede, sua pele azulada pelo frio.

Ela correu até ele, se ajoelhando ao seu lado, os lábios finos do rapaz tremiam um pouco e ele estava gelado, mas estava bem, estava vivo.

Ela suspirou aliviada e procurou pela fonte de todo o problema, mas não encontrou o saco de moedas de ouro por perto.

Levantou-se, indo até os dois homens congelados, e viu o volume no bolso de um deles.

Grunhiu exasperada e lembrou-se do anel que usava, com certeza ele valeria um bom dinheiro, talvez até mais do que havia ganhado na disputa.

Ela o colocou sobre a palma da mão do rapaz e se levantou.

Precisava voltar para o castelo rapidamente antes que tudo se tornasse um caos.

Não sabia dizer bem o que houve, mas algo em tudo isso parecia culpa de seus próprios poderes. Estava se sentindo pesada e o sol que antes inundava o Reino desaparecera, flocos de neve caíam dos céus como se estivessem em início de inverno. As pessoas murmuravam questionando o clima e alguns até brincavam com a situação, mas quando chegou ao Castelo, o clima estava mais pesado, os guardas, assim que a viram, abriram os portões de maneira imediata.

Elsa entrou no pátio principal com o coração na boca e, ao se deter, sua mãe foi a primeira a abraçá-la.

Alguns passos à frente, seu pai tinha uma expressão de alívio e irritação no rosto.

— Pai... Sei que a situação parece horrível, mas posso explicar o que aconteceu.

— Mary me disse que viu você com um rapaz. — Agnarr suspirou e Elsa notou que o pai estava imaginando tudo errado.

— Você é uma jovem princesa, Elsa. Vai se tornar a herdeira do trono, entendo que sentimentos talvez a desviem de seu propósito, mas isso. — Ele apontou para o Reino, indicando o inverno adiantado daquele ano. — Isso, Elsa, passou dos limites.

— Como? — Elsa indagou, pensando não ter escutado direito, como diabos ela sairia em um encontro, se mal saía do castelo. — Você está entendendo errado, pai! Eu não estou me encontrando às escondidas com ninguém!

— E como você explica Mary ter visto você com... Um plebeu qualquer? — Agnarr alterou a voz e Elsa se calou, era mentira, Mary havia inventado isso para se safar da culpa, não importaria o que dissesse, nada seria relevante o suficiente para mudar os pensamentos do pai, ele sempre acreditava nos outros e nunca nela.

— Elsa. — Ele tocou no ombro da filha, parecendo mais calmo. — Irei retirar suas tarefas externas ao palácio, você entende por que estou fazendo isso, certo? — Indagou brandamente, Agnarr sempre falava desse modo quando adicionava ou retirava alguma regra.

Ela concordou.

— Ótimo. — Ele se afastou, mas antes de subir as escadas parou. — Ah! E antes que eu me esqueça, não precisa mais se preocupar com o cargo de livreiro, irei encontrar alguém para isso.

— Não me trate como se eu fosse uma irresponsável. — Ela falou, seu tom de voz elevando-se.

Agnarr parou, surpreso, e Elsa, trêmula, se endireitou.

— Já encontrei uma pessoa para o cargo, Judith, anuncie o nome que lhe direi agora, quero que seja anunciado em todo o Reino e que ele esteja aqui no mês que vem para suas obrigações. — Ela arrumou a capa sobre os ombros, o tecido esvoaçando atrás de sua figura enquanto ela subia as escadas e, com as mãos trêmulas ocultas pela luva, passava pela figura paterna parada em um dos degraus.


Notas finais
Até o próximo u.u