Notas iniciais
Boa leitura ❤

— De novo aqui, Jack. — Exclamou o guarda da prisão de Arendelle, Jack suspirou exasperado quando foi colocado atrás das grades.

— Nem pergunte, é uma longa história. — Murmurou o garoto.

— Conta para a gente, jogos, roubo, trapaça ou briga? — Indagou o outro segurança em tom de deboche.

— Feitiçaria. — Jack se gabou, encostado tranquilamente na parede da prisão.

— Tem certeza? — Indagou um dos homens, abismado.

— É, aparentemente congelei dois caras, como se eu pudesse fazer isso. — Ele resmungou irritado e os homens se entreolharam, a expressão de diversão sumindo gradualmente e dando lugar a surpresa e apreensão.

— Feitiçaria... Jack, você sabe a sentença para isso aqui em Arendelle? — Um deles indagou e Jack deu de ombros.

— Ah, imagino que seja alguns dias de prisão ou algum trabalho comunitário qualquer, como das últimas vezes, não deve ser nada muito grave. — Ele comentou, o sistema prisional era uma piada naquela cidade, mas ao ver a expressão dos homens, se levantou curioso, sentindo um aperto gradual na garganta. — Não deve ser muito grave, não é?

— Jack, a sentença para quem pratica feitiçaria é a morte. — Respondeu um deles e Jack ergueu as sobrancelhas surpreso, dando alguns passos para trás.

— Morte? Tem certeza disso? — Ele indagou, andando de um lado a outro na cela.

— É, temos certeza, agora sabemos quem será decapitado hoje no centro da cidade. — Disse um dos homens casualmente e o outro o cotovelou em forma de repreensão.

Mas era tarde demais e Jack já estava pirando com aquela notícia, aquela garota... O que havia acontecido com ela? Ela poderia afirmar que não foi ele.

— Decapitação?! Qual é, rapazes, vocês me conhecem... A minha vida inteira! Sabem que eu não mexo com esse tipo de coisa.

— Relaxa, Jack, eles não fazem esse tipo de demonstração cruel com plebeus miseráveis como você. — Explicou um dos homens.

— Não?

— Não, eles cortam sua garganta com uma faca aqui na cela acima. — Completou o outro guarda.

— Ah... — Jack se agachou na cela.

Começou a pensar na irmãzinha que provavelmente nunca mais o veria, as ocasiões em que a levava para colher amoras na floresta eram as melhores lembranças dele. Lembranças estas que eram escassas graças à sua mãe, que não permitia que Jack ficasse em casa, então era apenas nos aniversários da pequena Emily que podia levá-la para sair.

Mas não reclamava, apesar de saber que Emily sentia sua falta e ele a dela era egoísta o suficiente para se sentir melhor morando na rua, e se a sorte o ajudasse, em algum quarto de bordel ou taverna.

Viver com a mulher que chamava de mãe era o inferno, ela não o tratava como filho e, desde pequeno, ele tinha de buscar meios para não morrer de fome. Então, aos nove, começou a morar nas ruas de Arendelle.

— Comandante Mathias. — Cumprimentou os guardas.

— Venho com uma ordem real, preciso que libertem o prisioneiro... — O guarda de cor morena e porte imponente releu o documento. — Jackson, por ordens de sua futura majestade, a princesa Elsa.

Os guardas imediatamente agiram e Jack levou alguns segundos para recobrar a consciência enquanto caminhava junto ao militar para fora da prisão.

— Elsa... — Ele murmurou, ligando os pontos, então ela era uma princesa. — Ela está bem? — Ele indagou, recebendo um olhar frio do homem. — Quero dizer, ela não...

— Você faz perguntas demais, garoto. — O homem o cortou, parando subitamente em frente a uma carruagem. — Nada que envolva a família real diz respeito a você de agora em diante.

Ele abriu a porta da velha e surrada carruagem.

— Agora entre. — Jack franziu o cenho, olhando para o homem desconfiado. Por que Elsa faria isso após lhe dar um anel? E se fosse uma mentira?

— Para onde está me levando? — Indagou.

— Você saberá quando chegarmos. — Jack olhou para ele, a adrenalina tomando conta de seu corpo jovem, quando acertou o rosto do homem com força, o derrubando no chão.

Deu as costas ao comandante, mal se dando conta quando o mesmo se levantou em um piscar de olhos.

Mathias o derrubou e o imobilizou com facilidade.

— Me deixe ir!

— Não seja idiota, garoto, não é nada disso que você provavelmente está imaginando. — Torceu o braço do garoto enquanto abaixava a cabeça do rapaz com brutalidade e o empurrava para o interior da carruagem. — Mas já que está tão curioso para saber aonde vai, a princesa Elsa declarou você como o novo livreiro real, portanto estou levando você para uma cabana nas montanhas, onde o velho Bulda irá te ensinar tudo que precisa para servir a família real com respeito e elegância da corte em pouco tempo.

Jack levou alguns momentos antes de dar uma risada dolorosa, provavelmente pela torção que havia levado segundos antes no braço esquerdo.

— Livreiro real... No Palácio não existe biblioteca? — Indagou Jack.

— Claro que existe, mas são livros muito antigos e, em sua maioria, as princesas já leram.

Jack revirou os olhos, era isso que a vida reservava? Uma vida monótona servindo um bando de meninas mimadas.

— E eu não posso recusar esse cargo? — Ele perguntou e o homem o olhou seriamente, fechando o livro que acabara de abrir.

— Deixa eu te explicar uma coisa que creio que não ficou clara para você. — Ele fez uma pausa. — Você só está vivo porque a futura rainha deste reino escolheu você. Caso saia ou desista deste cargo, sua antiga sentença voltará à tona. — Mathias fez um movimento no pescoço que sinalizava a morte que ele teria tido.

Jack suspirou, olhando pela janela, observando os flocos de neve caírem no escuro da tarde. Ele teria de juntar um bom dinheiro e fugir de Arendelle, só assim conseguiria continuar vivendo sem a imposição de ninguém.

— ...Terei salário? — Perguntou e Mathias o olhou enfadonho, antes de concordar com a cabeça.

Vários minutos se passaram e o silêncio já estava se tornando incômodo quando Jack finalmente se expressou.

— Bom... — Ele começou animado. — Quando chegaremos? Quando começo no meu novo emprego?

— Já chegamos. — Mathias anunciou, abrindo a porta da carruagem. O frio entrou com força, fazendo Jack fechar um pouco os olhos.

— Espere, você não vai descer? Não tem medo de que eu fuja ou algo do tipo? — O rapaz perguntou e Mathias sorriu, pela primeira vez em toda a viagem.

— Você pode tentar fugir, mas não acho que vá muito longe. — Murmurou e, ao descer, Jack realmente notou que não era um lugar muito acolhedor nem conhecido, ele não saberia para que direção fugir em meio àquela neve.

— Sabia que frases com tom de sátira não combinam com você? — Indagou Jack com um quase sorriso no rosto.

Mathias concordou.

— Sei. Boa sorte, Jackson, não desperdice essa segunda oportunidade que a vida está te dando. — E, sem esperar uma resposta, fechou a porta, a carruagem sumindo na neve assim como seu rastro minutos depois.

— Ah... pode deixar... — Sussurrou Jack, se encaminhando para a cabana.

— Olá? — Indagou, entrando. Era uma cabana aconchegante, com uma lareira e comida na mesa.

A barriga de Jack roncou.

Há quanto tempo não comia?

— Você demorou. — Falou um troll e Jack se sobressaltou com o susto ao ver o que achava ser uma estátua sentada em uma mesa cheia de livros falar.

— Caramba, que susto, isso não são horas de estar nos aposentos de um rapaz solteiro, sabia? — Jack indagou e Pabbie o olhou seriamente.

— Não sabia que o escolhido seria um jovem engraçadinho. — O troll observou.

— Não fique com inveja do meu dom com as palavras. — Explicou o rapaz de forma descontraída.

Pabbie respirou fundo.

— Sente-se aqui, Jack, se não aprender a ler logo, não poderá ver sua irmãzinha tão cedo. — O chamou e Jack se surpreendeu com o modo direto e sério com que o troll havia dito aquilo, sabia que eles eram seres místicos e sagrados do Reino, mas não sabia que eles podiam ler sua vida apenas com um olhar.

— Vai usar magia comigo? Pensei que fosse proibido. — Observou o rapaz ao se sentar e notar que o troll segurava um colar com uma pedra transparente e brilhosa entre suas mãos. Ele estendeu ao rapaz.

— Somos os seres mais antigos que o próprio Reino, não podem proibir nossa magia. — Explicou Pabbie, estendendo o colar. — Agora, terá de ler por duas semanas todos os livros que eu trouxer e, após esse período, irei tirar o colar de você. Caso tenha se esforçado, saberá ler sem precisar dele.

Jack concordou, já se sentindo entediado.

(...)

Alguns anos se passaram e havia aprendido tudo que uma boa rainha precisava saber: ética, cultura, costura, assuntos políticos, geografia de Arendelle e o principal, que era se manter discreta e nunca permitir que ninguém soubesse de seus poderes.

Desceu até o jardim quando um dos serviçais a avisou sobre a chegada do livreiro.

Jack havia se mostrado um bom funcionário, principalmente após os primeiros meses de serviço. Ela se lembrava claramente das vezes em que ele vinha mal-humorado, mas, por algum motivo ele sempre a olhava com curiosidade.

As coisas entre eles melhoraram quando, em mais de uma ocasião, ele teve de entregar um ou outro livro pela fresta da porta de seu quarto.

Jack nunca dizia nada, mas ela sabia quando era ele, pois sempre colocava o livro com cuidado sobre o chão e o deslizava para dentro.

Com a morte de seus pais, Elsa já não se alimentava, nem saía mais de seu quarto. A tristeza parecia consumir o resto de sua energia e até mesmo Anna, preocupada com o sumiço anormal da irmã, foi até o quarto em uma tentativa afetiva de tirar a irmã de lá. Uma tentativa que quase funcionou se não fossem as mãos congeladas de Elsa e o gelo ocasionalmente espalhado pelas paredes do quarto.

Naquele período, Jack desistira de colocar os livros pela fresta do quarto e, ao invés disso, toda tarde ele lia para ela. Elsa se encostava na porta, ouvindo a voz grave do rapaz próxima ao seu ouvido, as palavras sendo absorvidas e a distraindo de seus pensamentos.

— Você vai ser uma boa rainha. — Ele disse certo dia. — Você será mais justa que seus pais foram, então, não se tranque, seja lá o motivo que os levou a fazer isso, não faça a si mesma o que eles lhe fizeram. — Ele completou, se levantando, seus passos ecoaram pelo corredor.

No dia seguinte, Elsa saiu do quarto e foi direto para a biblioteca, para ler o livro que há muito tempo a perturbava, vendo pela milésima vez se havia alguma solução naquelas antigas palavras que não tivesse visto antes.

Por algum motivo, sentia que algo naquela história sobre o rei Kai não era só uma lenda.

Ela voltou para o quarto e ficou lendo um livro comum sobre a vila de Solvik, uma vila de pescadores ao norte. Quando terminou, saiu do quarto e notou que Anna havia feito o mesmo, ambas se olharam surpresas e Anna sorriu para a irmã.

Elsa deu um olá breve, estava com o humor bom e não queria estragar isso ignorando a irmã.

Ambas desceram em silêncio e Elsa notou um pequeno grupo de pessoas do castelo aglomeradas em torno do jovem livreiro. Ele sorria amplamente para todos e seus olhos castanhos imediatamente foram para Elsa, a princesa que olhava para as pessoas perdida em pensamentos.

— Sabe, eu estive pensando, li tantos livros de romance. O que você acha, vario um pouco e leio algo mais assustador? — Indagou Anna.

— Oh... Bom, eu não sei. — Elsa respondeu, estranhando ao ouvir a própria voz. — Se você acha que conseguirá dormir à noite — Elsa concluiu.

Anna parecia maravilhada com aquilo, finalmente Elsa não a havia ignorado!

Um clima estranho se instaurou entre elas e Anna, notando que o livreiro já estava disponível, foi até ele.

— Olá, Jack! Como vai? Ah, estou tão animada! Hoje terminei ontem aquele romance que você trouxe e foi simplesmente perfeito. — Anna tagarelou e Jackson deu risada.

— Mesmo? O que acha de levar outro então? Trouxe este que me disseram ser muito bom. — Ele indicou, pegando um livro do fundo de sua carroça, seu manto marrom esvoaçando por conta do clima.

Anna pegou o título com velocidade, mas se lembrou da conversa com Elsa, não queria realmente ler nada assustador, mas falou aquilo para puxar assunto.

Negou com a cabeça.

— Na verdade... Desta vez... — Ela hesitou. — Quero algo de terror. — Ela concluiu e Elsa não pôde deixar de sorrir com a situação.

Anna era adorável e ela sentia muita falta de tê-la por perto.

Jack então retirou um livro negro da carroça e o entregou a ela.

Ambos encararam Anna, que concordou, engolindo em seco.

— C-certo. Obrigada. Vou ir... Vou ir guardar ele em meu quarto. — Explicou, se retirando.

Elsa deu risada levemente, levando a mão enluvada à frente dos lábios.

Jack não conseguiu desviar o olhar, já fazia três anos que trabalhava com livros e aquele dia era o primeiro que a viu rir.

Ela o encarou, um sorriso leve ainda enfeitava seu rosto.

— Então, você tem algo pra mim? — Ela perguntou, tirando o rapaz de seu transe.

— Hum? Ah, sim! Claro. — Ele retirou um exemplar, este que estava embrulhado cuidadosamente em um pano de cetim azul.

Ela o abriu com calma, seus olhos azuis se arregalaram com a surpresa ao notar que era o livro que tanto queria.

— Muito obrigada, não sabe o quanto eu queria este livro. — Ela agradeceu, parecendo feliz. — Deve ter sido muito difícil achá-lo. — murmurou, preocupada, e Jack negou.

— De modo algum eu o encontrei por acaso. — Mentiu, coçando a nuca. Ele havia procurado por todo o Reino por aquele livro só para tentar tirar um sorriso dela, mas no fim, Anna conseguiu antes dele.

Ambos se encararam por algum tempo, Elsa tinha noção de que aquele era um dia pacífico e não havia muitas pessoas no castelo, era perfeito para ela falar com ele sem chamar atenção.

Então decidiu pedir:

— Jack, poderia me fazer um favor?

O jovem piscou, surpreso com a repentina seriedade dela, e então sinalizou para que ela andasse em direção ao jardim. Ela o fez, grata por ter a atenção do rapaz em si.

— Em que posso ser útil a você? — Ele perguntou hesitante.

— Preciso que encontre os familiares de um homem para mim. — Ela explicou, retirando um papel do bolso do vestido que usava. Jack leu o nome e seu interior se encheu de dúvidas. Odiava ser formal com ela, queria perguntar mais, mas não importava o que desejasse saber, ele era apenas um plebeu.

Certas barreiras não poderiam ser quebradas.

— Derick Frey Hollinston... — Ele leu baixinho, tentando se recordar deste nome.

— Mantenha isso em segredo, por favor. — Ela lhe pediu e ele sorriu minimamente, assentindo.

Era a primeira vez que conversavam sem ser sobre livros.

— Não se preocupe, majestade, eu com certeza vou descobrir quem este homem é para você.


Notas finais
Até o próximo u.u