O conto do livreiro e a rainha fria - jelsa
4 A verdade é delicada
— Você o conhece, Pabbie? — Jack indagou, sentado à mesa de sua velha cabana enquanto encarava com seriedade o velho Troll.
— Você enlouqueceu, só pode estar brincando comigo! Então agora você decidiu virar o capacho da rainha. — Coelhão, como era popularmente conhecido nas vielas de Arendelle, indagou irritado.
Jack havia conhecido o rapaz pouco mais velho que ele por acaso, enquanto bebia em uma taverna em suas primeiras semanas de livreiro. Coelhão vivia basicamente do que conseguia, desde trabalhos honestos até furtos organizados.
Ao menos era o que dizia.
Ele, assim como Jack, não possuía boa fama.
— E todo o dinheiro que você juntou? — Jack se levantou em um piscar de olhos e tapou rapidamente a boca do amigo de modo nada sutil.
— Do que você está falando, cenorão...?
— É Coelhão e me solte porque eu não te dei essa liberdade. — Resmungou o rapaz, empurrando Jack para longe e limpando as vestes, como se Jack o tivesse sujado.
Pabbie parou a infusão de chás que estava preparando e encarou Jack.
— Derick Frey Hollinston... Este é o nome do oitavo rei que este Reino teve. — Respondeu, recuperando a atenção perdida dos rapazes.
— Oitavo rei? Está dizendo que aquele rei louco que tivemos é este cara? — Indagou Coelhão.
— Rei louco... O daquele conto inventado que a rainha Elsa vive lendo? — Perguntou Jack logo em seguida.
Pabbie concordou.
— Ele não é um conto falso, realmente aqueles dois irmãos existiram assim como a maldição do rei Kai. — Pabbie explicou. — Mas quando tudo aconteceu, ninguém queria falar ou comentar sobre o ocorrido, então só depois de muito tempo registraram a história utilizando pseudônimos, já que ninguém sabia os nomes originais. Me surpreende que Elsa saiba o nome verdadeiro dele. — Concluiu, pensativo.
— Sabe se existe alguém vivo? Alguém que conheça a história ou que tenha conhecido eles? — Perguntou Jack, passando a mão pelos cabelos ansiosamente.
— Hum... — Pabbie passou a mão no queixo, pensativo. — Sim... Existe uma pessoa, uma mulher.
— Só pode ser brincadeira, já se passaram 300 anos! — Coelhão exclamou, pasmo.
— Onde ela vive? — Indagou Jack, se aproximando do troll.
— Além das colinas ao norte, em uma das cabanas do povo da floresta. — Pabbie disse pacientemente e entregou uma cesta de comida ao rapaz.
— Leve isso com você, vai precisar na longa jornada. — Jack olhou para Pabbie com gratidão e assentiu, pegou o saco de moedas de ouro que vinha guardando durante todos esses anos e o colocou em sua bolsa.
— Peraí, Jack, você tem certeza? Meu amigo, pense bem! Se fizer isso, sabe que não haverá volta, terá que ficar aqui por muito mais tempo ou talvez nem ir embora. — Coelhão disse, parando Jack na porta de saída.
O rapaz hesitou por alguns instantes, então se voltou para o mais velho.
— Não existe retorno na minha palavra. — Jack zombou e jogou algo para Coelhão. — Aproveite os dias de livreiro na minha ausência. — Fechou a porta antes que Coelhão pudesse dizer alguma coisa. O homem resmungou, colocando o cartão que lhe atribuía temporariamente o título real no bolso.
— Garoto metido. — Resmungou irritado.
— Isso se chama amor, Conan, quando te pega... — Pabbie comentou casualmente.
— É Coelhão! E o que você sabe sobre amor? Conta outra. — Resmungou o rapaz, se jogando no sofá com uma cenoura na mão.
— Nós, Trolls, sabemos muitas coisas sobre o amor. — Disse uma troll, repentinamente entrando na cabana. — Uma delas é que ele o muda para melhor. E a outra é que do amor vêm os filhos... — Como se adivinhassem, várias crianças Trolls entraram conversando na cabana.
— Pra mim já deu desse papo! Preciso de álcool no meu organismo. — Coelhão disse, sentindo asco, saindo pela porta e seguindo em meio à neve a trilha que levava até Arendelle.
(...)
Havia se passado meses desde que Elsa teve notícias de Jack, seu nervosismo era quase sufocante, em parte por temer pela vida dele, mas também com a ansiedade de saber se ele havia conseguido descobrir algo.
Como se não bastasse, Elsa tinha outra preocupação mais sutil no palácio.
Pouco tempo depois de Jack sair, as irmãs tiveram a incômoda notícia de que Agnarr, antes de morrer, havia contratado alguns homens para ajudar Elsa a se tornar uma boa rainha.
Agora ela estava se preparando para assumir o trono de Arendelle.
Respirou profundamente, tentando afastar o nervosismo, já que, contrariando sua vontade, havia uma festa de coroação à qual ela, a contragosto, teve de ir.
O lugar era agitado demais para ela, todos aqueles rostos estranhos, conversando e rindo enquanto dançavam, a deixavam ansiosa, principalmente por ela ser a razão central de todos estarem reunidos ali.
Era sufocante.
Conversou brevemente com Anna antes de o Duque de Wilsenton tirá-la para dançar, fazendo Elsa perdê-la de vista. Ter Anna por perto era complicado, mas não a ter revelou-se estranhamente mais opressor.
— Rainha Elsa. Parabéns pela sua coroação. — Uma voz familiar disse à sua frente, despertando-a de seus pensamentos. Ela o olhou, sabendo que por trás daquele capuz marrom estava Jack.
Ele retirou o capuz, Elsa sorriu minimamente aliviada ao ver que ele estava bem.
As bochechas de Jack ficaram avermelhadas, ele tossiu e desviou o olhar, olhando a festa antes de encarar a rainha.
— Você... Me daria a honra? — Ele indagou, estendendo a mão com cordialidade.
Elsa se inclinou e, mesmo não querendo chamar atenção para si, tentou convencer-se de que essa seria uma forma mais fácil de conversarem.
Concordou, chamando a atenção de muitos ao vê-la interagindo com alguém.
Se arrependeu, mas já não podia recuar.
Jack envolveu a cintura da rainha com o braço e, com o outro, segurou sua mão enluvada, uma expressão satisfeita tomava conta de sua feição jovial.
— Eu não sei dançar. — Elsa murmurou e ele a encarou, os olhos castanhos gentis a fitando.
— Guio você. — Respondeu, fazendo girar no lugar.
— Você sabe dançar? — Indagou, e ele pareceu constrangido.
— Bom, acho que os passos que aprendemos nas tavernas não são tão sofisticados, mas servem para a princesa não passar vergonha. — Ele explicou e ela sorriu levemente, desviando o olhar.
— Por favor, me chame de Elsa. — Ela pediu, tocando o ombro do rapaz com mais firmeza enquanto ele a guiava em uma música animada.
Ele não parecia muito seguro, mas por fim concordou.
— Somente quando estivermos a sós, então. — Concluiu, o olhar terno analisando o rosto dela.
— Estava preocupada com você. — Ela admitiu, um nó na garganta se formando. — Você não enviou uma carta nem deu notícias. Eu pensei... Pensei que talvez...
— Está tudo bem. — Ele sussurrou, surpreso com a preocupação genuína dela. — Na próxima expedição, tentarei enviar algumas cartas.
Ela negou com um menear decidido.
— Não haverá uma nova expedição. — Ela murmurou. Aquela altura já não dançavam no ritmo da música, e sim em movimentos lentos. — Prefiro que você fique aqui. — Ela desviou o olhar e ele fez o mesmo, sentiu o coração disparar, iludindo-se, se sentindo feliz com aquilo.
Ele buscou o olhar dela e ergueu a mão hesitante, tocando sutilmente no cabelo dela, fingindo tirar algo dali.
— Se é o que você quer. — Ele murmurou, notando pelo canto do olho que dois homens se aproximavam.
Ele havia passado dos limites.
— Então... O que você descobriu? — Ela finalmente teve coragem de perguntar.
Ele olhou ao redor, havia muitas pessoas próximas, não parecia o lugar mais adequado para falarem sobre aquilo.
— Me encontre no jardim do castelo hoje à noite. — Ele sussurrou antes de se afastar um passo, fez uma reverência quando um homem ruivo de barba lateral e mais dois homens já de idade avançada pararam em frente aos dois.
— Rainha Elsa. — O ruivo cumprimentou, pegando a mão da platinada e a levando aos lábios.
Elsa pareceu nervosa com a aproximação do estranho.
— Sou o príncipe Hans, das ilhas do Sul. É uma honra conhecê-la. — Ele sorriu inocentemente e os outros dois homens a cumprimentaram, ignorando completamente a presença de Jack.
— Somos os chefes da realeza particular. Estamos aqui para guiar vossa majestade a um caminho bom e justo. — Um deles os apresentou e, repentinamente, um homem grande surgiu entre os convidados e segurou Jack pelo braço.
— O que pensa que está fazendo? Solte-o agora mesmo. — Elsa mandou, irritada com o comportamento do guarda, a atenção das pessoas se voltou a ela e um dos chefes se aproximou.
— Ficar próxima de pessoas assim só lhe distrairá de seus... Propósitos. — Ele concluiu e Jack grunhiu, puxando o braço do aperto do homem. — Vamos apenas guiá-lo para fora, aparentemente ele não deveria estar aqui.
— Não precisa me levar, sei o caminho até a saída. — O rapaz explicou nervoso, se soltando do aperto do homem, deu uma última olhada em Elsa, a bela jovem o encarava preocupada e ele suavizou a expressão em seu rosto, não queria preocupá-la.
— Guarda, por favor, certifique-se de levar o livreiro em segurança até sua casa. — Algo no tom de voz que Hans utilizou o alarmou e ele soube que não seria isso que aconteceria ao sair dos portões do Castelo.
Então, no meio da inevitável intimidação do guarda de Hans fora dos portões do castelo, ele viu Kristoff se aproximando, surpreso com a briga, briga essa em que Jack estava em gigantesca desvantagem. O homem tinha o triplo de sua força e sem dúvidas teria quebrado sua costela se Kristoff não tivesse corrido em sua direção.
— O que é isso? — Indagou o rapaz irritado, ajudando Jack a se levantar do chão.
O brutamontes simplesmente deu de ombros e se afastou, voltando a entrar no castelo. Kristoff olhou com pena para o amigo, no rosto havia apenas um roxo ao redor do olho esquerdo, mas com certeza no restante do corpo havia mais lesões.
Jack fez uma careta, ofegante, tentando se recompor.
Sven se aproximou ao ver que o amigo havia chegado.
— O que você aprontou, Jack? Por que ele tava te batendo? — Kristoff indagou e o rapaz se afastou, recobrando o equilíbrio. — Bom, quer saber? Na verdade, não importa, não quero me meter nos seus problemas, vem, vou te levar para casa. — Kristoff tentou se aproximar, mas Jack negou.
— É bom ver você, amigo. — Jack sussurrou, nostálgico. Fazia meses que não via Kristoff, o loiro havia saído de Arendelle para fazer algumas entregas em vilas próximas pouco antes de Jack sair em sua viagem. — Combinei de me encontrar com uma pessoa hoje à noite, pode ir na frente.
— Como pode pensar nisso em um momento como esse? Olha só para você! Jack... Se você se envolver demais com essa gente, isso vai acabar matando você.
— Como você... Bem, não importa. — Jack revirou os olhos. — Não pretendo morrer ainda; por isso, pode voltar tranquilo pros trolls, diga ao Pabbie que amanhã eu o verei. — Ele olhou para o muro do castelo, fazia um bom tempo que não escalava.
— Sven acha que isso é suicídio. — Tentou, Kristoff, cruzando os braços.
— Bom, eu não estou levando nenhuma corda. — Jack brincou, começando a subir o muro. Tinha sorte de seu sangue ainda estar quente e os machucados não doerem no processo.
— Como é a vista aí de cima? — Indagou Kristoff.
— Nada de mais, consigo ver as pedras daqui e parece que estou vendo o Coelhão bêbado naquela taverna ali à frente. — Brincou e olhou para baixo, um sorriso travesso surgindo em seus lábios ao ver que, do ângulo que estava, parecia que os chifres de Sven estavam acima de Kristoff.
Jack deu risada.
— Do que você está rindo, seu idiota? — Perguntou Kristoff e Jack não teve chance de responder quando uma voz desconhecida disse:
— Quem está aí? — O guarda dos portões indagou e Kristoff teve que tossir alto para tirar a atenção do som de Jack caindo do lado interno dos muros do Palácio.
— Boa noite, seu guarda! Está uma linda noite hoje, não é mesmo? — Kristoff indagou e Jack gemeu ao tentar se levantar, sentia o tornozelo pulsando devido à queda e torcia para que não estivesse quebrado.
Pegou um pedaço de madeira do chão, muito semelhante a um cajado, para se apoiar e se afastou indo em direção ao jardim do Palácio.
Suspirou ao notar que estava sozinho. "Pelo menos eu não perdi nenhuma parte do corpo... Ainda", pensou com ironia, repassando os últimos acontecimentos na mente.
Elsa realmente vinha buscando de modo incansável este homem. Jack não era bobo de não saber que a rainha o procurava por causa dos poderes que o homem tinha, e lhe dava grande curiosidade o motivo por trás da fixação dela por aquela lenda.
Foi uma grande surpresa para ele quando chegou à cabana da mulher, ela possuía um pedacinho minúsculo do espelho quebrado da história, preso na testa entre os olhos e o cabelo. Ela havia se tornado imortal por conta daquilo, daqueles poderes. Ele ainda se recordava claramente dos olhos brancos e sua pele translúcida, como se fosse uma boneca de porcelana com os olhos cegos, perdidos na escuridão.
"— Dois dos filhos de Kai sobreviveram no dia da revolta, eles vieram morar nesta região inóspita de Arendelle, e de um deles nasceu um filho. Eu o criei quando os irmãos morreram, nenhum deles viveu mais que 20 anos, e a criança, neta de Kai, não foi diferente, nenhum deles saía desta vila, mas todos sempre tentaram manter a linhagem de Derick, um orgulho repassado por gerações como um vírus." Explicou a velha mulher enquanto costurava de modo frenético uma manta que parecia nunca ter fim.
"E o que aconteceu com os outros herdeiros do trono? Existe algum vivo nos dias de hoje?" Indagou Jack curiosamente, não conseguindo desviar os olhos das íris brancas da velha bruxa.
Jack ergueu o olhar, tinha se perdido tanto na lembrança que mal viu Elsa se aproximar.
Sua pele pálida sendo banhada pela lua enquanto seu andar delicado se aproximava dele, as mãos de Jack começaram a ficar úmidas e ele respirou fundo.
— Oh, Jack... — Uma expressão de surpresa tomou conta do rosto da rainha, logo sendo substituída por expressões severas.
— Eu vou agora mesmo fazer os culpados pagarem por isso. — Ela disse, decidida, se virando e indo tão rápido que Jack quase não consegue impedi-la.
— Deixe para lá, é só um machucado de nada, não merece sua preocupação. — Tentou persuadir.
— Claro que merece! Ele passou por cima das minhas ordens, feriu uma pessoa em quem eu confio. — Ela explicou naturalmente, mas aquilo fez Jack sentir o coração saltar de felicidade. Não poderia contar sobre Derick, não agora que, após três anos de convivência, ambos estavam próximos, ele temia a reação dela ao saber sobre a verdade.
Ela o guiou até um banco próximo aos arbustos podados e retirou um lenço de dentro do bolso. Ele não soube dizer de onde surgiu o gelo, mas ela virou o rosto do jovem para ela e, com a cautela que ele sempre a vira ter, pressionou o gelo em seu rosto.
Ele sabia que naquele momento Elsa podia escutar seu coração batendo rapidamente, mas ela era gentil o suficiente para ignorar aquilo.
— Bom, resolverei isso depois. — Ela murmurou, concentrada no que fazia, de modo que ele conseguia observá-la sem ressalvas. — Me diga, Jack, você tem irmãos? — Quis saber e ele sorriu ao se lembrar da pequena Emily.
— Uma irmã caçula, é uma criança adorável, sempre a levo para colher amoras na floresta no fim da primavera. — Ele explicou, nostálgico, e ela sorriu levemente ao notar como ele falava ternamente da garota.
— Gostaria de conhecê-la algum dia, você me permitiria? — Ela indagou e ele assentiu.
— Tenho certeza de que vocês se tornariam ótimas amigas. Ela adora você. — Ele explicou e ela piscou, confusa.
— Adora?
— Ela acha sua falta de aproximação com o povo misteriosa. — Ele respondeu e Elsa concordou um pouco melancólica.
— Não deve ser só ela que pensa assim, mas nem todos devem gostar de mim por isso.
— Elsa disse, pensativa, e o encarou de modo sério.
— Então. Diga-me o que descobriu sobre Derick. — Ela pediu e ele não pôde deixar de desviar o olhar para o chão à frente.
— Ele não possui mais herdeiros. — Ele mentiu, sentindo o gosto amargo imaginário ao fazê-lo. — Sua morte... Foi seguida com a de toda a sua família.
Ela pareceu aliviada, como se um fardo tivesse sido tirado de seus ombros.
— Essa é uma ótima notícia. — Ela lhe sorriu, baixando o olhar para as mãos enluvadas.
— Você tem sido um bom amigo, Jack. — Completou. — Não sei como poderei lhe agradecer.
Eles se encararam por algum tempo e ele sentia uma mistura de culpa e felicidade por aquilo.
Vozes começaram a se aproximar e Jack se endireitou.
— Tenho que ir. — Ele sussurrou, se afastando.
— Espere. — Ela chamou, levando até ele o cajado que havia esquecido no banco. — Tenha cuidado na volta. — Ela pediu, ele sorriu antes de concordar e sair.
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