Notas iniciais
Eu vou deixar a conclusão da short fic em um epílogo, no próximo capítulo :) Espero que goste. Boa leitura! Se puder, não esquece de deixar uma força em forma de favorito ou comentário, tá? rsrsrs ♥️

A roda direita do carro mergulhou em um buraco disposto no meio da estrada escura e a traseira do Mustang deu um forte solavanco. Richie segurou o volante com firmeza. O farol rasgava a escuridão do comprido corredor que era a rodovia, as árvores deslizavam suavemente do lado de fora da janela.

Richie estava sozinho apesar da coisa no porta-malas. Graças a Deus, a estrada era só dele desde que deixou Bangor para trás. Podia dirigir em paz. O último carro que viu fora um Chevrolet prateado e judiado que estava abastecendo na última parada. As caixas de roda e o para-choque daquela pobre banheira estavam embrulhados por uma crosta dura de terra. O carro era um reflexo do dono. Branco, sujo e fedido.

Ele aumentou a marcha e ligou o rádio. No meio do vazio, não ganhou nada além de um incômodo chiado alto. Richie até tentou aturar o ruído, mas era impossível. O barulho parecia estar dentro da sua cabeça. Já estava ansioso, não precisava de mais lenha na fogueira. Inquieto, inclinou-se sobre o painel para ajeitar a estação, sem perceber que lentamente estava levando o carro a mudar de faixa. Ele apertou os botões, deu um tapa no painel e xingou a porcaria que era o sinal da estrada, sem sucesso algum.

Disperso, Richie soltou o pé do acelerador e o carro começou a suavizar as rodas. Ele somente voltou a prestar atenção na estrada quando ouviu o guincho de uma buzina. O som estridente que engoliu a rodovia levou Richie a levantar o rosto. Os olhos doeram por causa do enorme farol vívido que vinha do lado oposto da pista. Um caminhão da Orinco cresceu a sua frente, e urgentemente Richie girou o volante de volta para a faixa principal. O grande caminhão-tanque passou roncando pertinho do seu carro. O Mustang chacoalhou por causa da velocidade. Richie chacoalhou junto dele. Estacionou o carro no meio-fio. O coração batia forte no peito. Ele desligou o rádio e riu de nervosismo. Passou a mão no rosto e apoiou a cabeça no volante. Havia quase acabado de se matar. Estava a ponto de se entregar de bandeja e mão beijada ao inferno. Riu de novo ao pensar que por pouco não foi esfolado por aquele enorme para-choque cromado.

O estômago de Richie ficou embrulhado. Sentiu enjoo ao pensar em ser esmagado e urgentemente soltou o cinto de segurança, abrindo a porta do carro. A comida veio. Subiu, queimando o esôfago, e voltou quando a brisa da madrugada acariciou seu rosto. O frescor dos abetos que ficavam ao redor da rodovia o fez se sentir melhor. Richie ficou olhando para o asfalto até ter garantia que mais nada sairia de dentro do seu bucho. Ele se acolheu e fechou a porta. Aconchegou a cabeça no encosto do banco do carro e respirou fundo. O peito subiu e desceu lentamente. Se morresse, o que pensariam sobre corpo no porta-malas? Ele ergueu o rosto e ligou o Mustang de novo.

A paisagem sombria voltou a correr na janela. Àquela altura já não estava mais sozinho. O sossego havia acabado. Três ou quatro caminhões da Orinco passaram por ele no resto do caminho, todos zumbindo e roncando, com suas luzes correndo iguais estrelas cadentes. Um Honda Civic seguiu o retorno para Bangor.

Quarenta quilômetros depois do quase acidente, as árvores começaram a se multiplicar e a rodovia criou uma leve curvatura. Ali, Richie sentiu um calafrio estranho. Olhou pelo espelho retrovisor e ajeitou os óculos. Depois que voltou a atenção para a estrada, ele viu um homem parado no meio da rodovia. Instantaneamente afundou o pé no freio. As rodas cantaram e esfolaram a pista, poeira se ergueu em volta do carro. Os faróis do Mustang iluminaram a figura a sua frente. Richie inclinou-se por sobre o volante para ter certeza do que via. Louis Creed estava ali, com o rosto revestido em um espectro adoentado, olhos imersos em olheiras púrpuras. Quando Louis virou de costas, Richie viu uma enorme mancha de sangue encharcando o tecido de malha de sua blusa.

Embora por medo não quisesse sair de dentro do carro, a compulsão e o impulso de soltar o cinto e abrir a porta do Mustang foram muito mais forte. Felizmente, do lado de fora, não se via mais nada além da grande casa colonial a sua esquerda. Louis Creed havia sumido. Na verdade, provavelmente, nunca estivera ali de verdade. A canseira e exaustão estavam caçoando Richie, fazendo-o ver coisas que já não existiam mais. Não tinha o por que Louis aparecer no meio da rodovia. Ele estava sumido desde 1989 e dado como morto desde 1992. Richie lembrava muito bem disso. Rachel Creed continuava desaparecida naquele ano. Tinha 16 anos quando viu a notícia passar na televisão. A última família que ocupou a casa antiga dos Creed escavou o jardim para instalar uma piscina nova na época, e o momento de reforma foi importunado quando o corpo de Louis fora encontrado 7 palmos abaixo da terra. Quando constatada, a polícia concluiu que aquilo havia sido provocado por um crime de ódio. Disseram que quem encontrou Louis Creed dando sopa o matou com 10 facadas nas costas, possivelmente por pura ira a respeito da morte de Jud Crandell. No fim das contas, com finalidade de se livrar do corpo, o sujeito hipoteticamente teria enterrado o corpo de Louis na própria casa, abandonando o local de crime.

Ansioso, Richie encostou no carro, colocando um cigarro no canto da boca. Ele esperou um caminhão da Orinco passar. Tateou os bolsos em busca do seu isqueiro. Seus cabelos e o casaco chacoalharam com a rajada de vento provocada pelo automotivo. Assim que a poeira abaixo, Richie acendeu o cigarro e tragou, olhando para a gigantesca casa colonial a sua frente.

Desde que o corpo de Louis fora encontrado enterrado naquele terreno, nenhuma alma viva quis morar naquela casa. Corretores de imóveis chegaram a criar apostas e imobiliárias ofereciam o domicílio a preço de banana. Nada adiantava, todas as pessoas que realmente sabiam sobre a história daquele lugarem preferiam passar reto.

(passar reto)

(passa reto, Richie)

(Se um dia você passar por lá perto, só por precaução, passa reto)

Richie tragou o cigarro profundamente. A ponta acesa parecia um vaga-lume vagando no meio do nada. Observou a casa vazia com curiosidade e depois que terminou de fumar, jogou a bituca na rua. Ele entrou no carro e manobrou o mustang até a parte de trás da casa, escondendo-o de qualquer ponto visível da rodovia. Pegou a pá que estava no banco do passageiro e saiu. Temeroso, abriu o porta-malas e viu a coisa coberta e envolta em um lençol branco.

Richie sentiu um calafrio novo. Depois, ouviu um sussurro ser soprado em seu ouvido.

— Não faça isso — a voz cheia de terra disse.

Ele olhou para trás, o coração entalou na garganta. Lá estava Louis Creed de novo, com os olhos cintilando na luz da lua, a blusa cinza amarrotada e suja de terra. Richie deixou escapar um gemido, o horror e o terror cresciam dentro dele. O desespero tomava o seu corpo. Ele arregalou os olhos quando viu os lábios de Louis pintados de sangue. Eles pareciam carne podre. Richie conseguia sentir o cheiro de morte vindo dele.

— Não faça isso — disse Louis mais uma vez.

Richie tentou gritar, a garganta estava seca. Alarmado, ele levantou as duas mãos e cobriu o rosto. Sem ter que olhar para Louis, sentia-se mais protegido.

— Richie…

Ele balançou a cabeça de um lado para o outro. Estava desesperado. Lágrimas começavam a escorrer.

Richie começou a choramingar,

— Eu preciso fazer isso. Eu preciso fazer isso. Eu preciso fa

mas quando afastou as mãos e ergueu o rosto de novo, o fantasma de Louis já não estava mais lá. Richie sentiu a brisa esfriar as lágrimas meladas de seu rosto. Ele se apoiou com a bunda no porta-malas. Respirou fundo e tampou a boca, esganando um grito.

Quando mais um caminhão-tanque atravessou a rodovia, Richie finalmente tirou o corpo do porta-malas. Ele jogou a coisa por cima do ombro, pegou a pá e caminhou em direção da relva. Ele subiu a colina, andando inclinado para baixo por causa da dor nos braços. Quando chegou no bosque, estava terrivelmente frio. O vento chacoalhava as folhas das árvores, piando. Por mais que parecesse estar perdido, no fundo, Richie sabia por onde e para onde ia. Não tinha nem um pingo de dúvida. Algo o guiava. A vontade? O amor? Ele não tinha como explicar. Só conseguia caminhar. Sentia confiança. Alíviocpor Louis não aparecer mais. pensou que talvez Eddie o estivesse protegendo.

Soube que chegou ao simitério de bichos assim que passou por de baixo de um arco de madeira velha. Richie adentrou a clareira. Ela era um círculo perfeito, cheia de marcadores e túmulos, alguns de madeira, outros de graveto, alguns de lata. Ele colocou a coisa que carregava de lado e esticou as costas. Elas estralaram agradecidas. O ombro ainda ardia.

Richie observou as lápides. Uma delas era de um cão chamado Gen Patton, mais para frente, viu o túmulo de uma cadela chamada Hannah. As sepulturas mais novas estavam cercadas por flores. O gatinho mr. Raymond tinha seu túmido cercado por camélias. O coelho Julius parecia preferir rosas. Do outro lado do simitério, Richie encontrou um túmulo e uma lousa abandonada. Ajoelhando em cima das folhas secas, ele leu a palavra Sot. Aquilo realmente era uma palavra? Richie ergueu a lousa na luz da lua. Spot. Ele levantou o rosto por impulso. Viu um amontoado de árvores caídas. Empurrado, levantou e caminhou até elas, que mais pareciam um amontoado apodrecido de ossos. Tinha que subir por ali. Sabia que tinha que subir. E então Richie voltou para pegar a coisa, aproximando-se dos troncos secos de novo. Ele encaixou o corpo entre o braço e o ombro e começou a subir. A cada passo que dava podia ouvir o barulho dos galhos estalando. Um barulho oco, seco, como o de ossos quebrando. Richie subiu. Escalou sem olhar para trás, sem olhar para baixo, o vento assoviando por sobre os pinheiros. Não demorou para chegar ao topo, e depois que viu as poucas árvores a frente, começou a descer para o outro lado. Ele atingiu o solo rapidinho. A sensação de alívio inflamou seu corpo.

Do outro lado do Vale da morte, a trilha continuou. Era mais vasta e apodrecida, bastante pobre em árvores. Ele seguiu com passos firmes. Uma névoa rasteira começou a se formar no caminho. Richie mal via os sapatos.

O nervosismo aflorou no momento em que ouviu um som esquisito, alto. Ele o ignorou. Continuou concentrado na caminhada. O corpo que carregava já estava pesando no ombro de novo. Sentia o osso gritar embaixo da pele. O som aumento e uma sombra gorda apareceu. Richie tremeu. Você já enfrentou coisa pior, disse a si mesmo. Isso não é nada, Richie. Sua boca estava seca. Ele ignorou a sombra e continuou a andar. Ajeitou a coisa no ombro e continuou a andar. Não tardou e mergulhou em um emaranhado de pinheiros. Sem travar, continuou a andar. Não olhou para trás. Não hesitou. Apenas parou quando chegou perto de largos degraus talhados em rocha. Richie tinha que subir.

Mesmo fatigado, ele subiu e sentiu o vento ficou cada vez mais frio. Para se distrair, contou os degraus de um em um, somando quarenta e cinco estruturas de pedra.

Quando chegou ao topo, Richie viu-se em um patamar rochoso. Lá em baixo, via as copas dos pinheiros bem pequenininhas. O lugar que estava era morto. A terra era seca. Ele colocou o corpo de lado, suor frio escorria em seu pescoço. Richie estava sendo guiado, tinha certeza disso. Quando chegou no ambiente íngreme, algo lhe disse que aquele era o lugar. Aquele era o cemitério Micmac. E então espetou o solo duro com a pá. A pressão das mãos no cabo de madeira esfolaram a sua palma. A atividade física aquecia o seu corpo e, apesar do frio dormente, Richie diversas vezes sentiu vontade de arrancar a blusa. Passou eternos minutos cavando o monumento. A mão ardia, os pés doíam e suor embaçava os óculos. Quando achou que estava bom, ele parou, soltando um suspiro longo. Richie se apoiou no cabo da pá e olhou para baixo. A cova era fria, seca, horrorosa.

Foi até a coisa embrulhada e desamarrou o lençol que envolvia o corpo. Inspirou o ar gélido e travou quando viu o rosto de Eddie. Ele estava arroxeado, com sangue seco ainda grudado em torno dos lábios. Os olhos, totalmente vazios, encaravam o nada. Richie evitou olhar para a sua barriga. Ajoelhado na terra íngreme, bem de frente a sepultura, Richie beijou a testa de Eddie Kaspbrak. Ele o abraçou forte. As lágrimas desceram e depois ele o enterrou. Dispôs o corpo na cova e empurrou a terra seca por cima dele. Quando terminou, acendeu mais um cigarro. O mínimo que podia fazer depois de tudo era, achava ele, esperar.

Cansado, retornou até o simitério de bichos. Não tinha forças para ir até o carro. Richie sentou perto do túmulo de Marta, a coelha de estimação. Depois tombou, e adormeceu.