Notas iniciais
Eu não acho que no fim das contas o final ficou tão bom. Não sei se conseguir retratar exatamente o que eu queria, mas, bem, está aí hihi :) A história está concluída, mas tive uma ideia de final alternativo que talvez eu exponha aqui, então ainda vou deixar a fanfic em aberto, caso eu persista nessa ideia. Obrigada para quem acompanhou :)

Naquela noite, Winston Churchill, o gato que voltou dos mortos, invadiu os sonhos de Richie. No meio do simitério de bichos, sua sombra volumosa e disforme se erguia nos troncos das árvores. A silhueta do animal era uma projeção medonha concebida pela luz da lua. Church era uma imagem esguia, e apesar de não conseguir vê-lo, Richie tinha certeza que podia ouvi-lo. O gato estava ronronando, e ele podia jurar aquilo de pé junto. Era inevitável não perceber, pois o som enchia o bosque e se esvaia pela folhagem, assim como o seu traço barganhado.

Richie levantou devagar, sem tirar os olhos da sombra desenhada nos troncos secos. Por acidente, acabou chutando a cruz de madeira da lápide de Marta, a coelha de estimação, que caiu com um baque seco. O cheiro do simitério estava podre, era um odor insuportável. Instantaneamente, Richie sentiu seu corpo ficar nauseado.

Prendeu a respiração quando finalmente viu a imagem de Church no meio da escuridão. Estava sentado em um amontanhado de terra, os olhos verdes brilhavam e encaravam Richie de modo aterrador, o pelo grosso e sujo mal se movia em conjunto da brisa. Dentre a folhagem baixa, o rabo balançava e dançava como uma serpente.

O corpo de Richie gelou quando uma imagem um pouco maior que Church saiu de entre as árvores do bosque. O nervosismo o levou a ajeitar os óculos. A estatura infantil e os cabelos louros e sujos de terra entregaram a identidade da coisa. Aquele era Gage Creed, e Richie só sabia por causa de uma foto que havia visto no Derry News, em 1989.

Gage cambaleou na sua direção e parou ao lado de Church, levando a pequena mão branca até o pelo duro do gato. Church sentou e enrolou o rabo em volta das patas. Ali no meio a brisa cantou, e então uma silhueta mediana apareceu e parou ao lado de Gage, acariciando seus cabelos finos, os lábios repuxados em um sorriso endiabrado. Richie mal pôde acreditar. Aquela, dona da silhueta fina e curva, era a desaparecida Rachel Creed, com a roupa ensanguentada e um pé descalço.

Não tardou e uma quarta criatura apareceu antes de Richie acordar, uma entidade que ele apenas havia visto em meio aos livros de Mike Hanlon. O Wendigo, um espírito maligno que ali, em meio ao seu sonho, cresceu até ficar maior que as árvores. O corpo gigante e alongado engolia a lua, os chifres davam a impressão de tocar as estrelas. O torso afilado expunha a costela e seus dedos engarrados dançavam no ar, com finas cordas transparentes enroladas entre eles. Richie sentiu o horror e o terror gritarem dentro dele de novo. Seguiu os olhos pelo corpo do fio largo e viu as cordas irem até Church, Gage e Rachel Creed. Um grito trancou na garganta. Eles eram marionetes, seus corpos mortos e podres estavam possuídos pelo Wendigo.

Ele vai te comer, Richie… — ele ouviu Rachel dizer, e então o Wendigo curvou o corpo, estendo o braço decomposto na direção de Richie.

Antes que os dedos esguios e pintados de sangue o pudessem pegar, ele acordou de supetão, a respiração arfada, fazendo-o engasgar na própria saliva. Ajeitando os óculos, olhou para os túmulos dispostos perto do Vale da Morte. As placas estavam caídas, mas não lembrava de tê-las derrubado.

A audição aflorou quando ouviu galhos secos quebrando. Richie ergueu o rosto. Viu uma sombra a sua frente, o coração acelerado como uma máquina.

— Eddie? — perguntou, com a voz falha.

Estava nervoso, muito nervoso. Sentiu um toque gelado no ombro e viu pelo canto dos olhos uma mão suja e esbranquiçada lhe apertar a espádua. Seus músculos tencionaram e um calafrio longo atingiu a espinha.

Richie… — ele ouviu uma voz afogada falar. Uma voz que, do fundo do coração, achou que jamais ouviria de novo.

Encorajado, tocou a mão pálida e gélida com carinho, afagando o rosto em sua superfície. Ela tinha o cheiro metálico de sangue e o fresco odor de terra.

Depois de um longo tempo, Richie virou para a figura que estava parada atrás de suas costas, seu coração surrando o peito. A coisa desajeitadamente abriu os braços, o abdômen era um grande círculo ensanguentado, a blusa azul estava surrada e rasgada, expondo a carne viva e brilhante.

Sem pensar duas vezes, Richie abraçou Eddie. O apertou entre os braços, sentindo a pele rígida e morta em contato com a sua. Apesar de saber que a situação que se encontrava era a mais pura loucura, ele não ligava. Não ligava para o cheiro ruim, nem para o contato gelado e grotesco e muito menos para a aparência apavorante que a coisa que arranjou tinha. Aquilo era uma preocupação para mais tarde — uma grande preocupação para mais tarde — e Richie não pensaria naquilo por hora. Somente queria poder fazer o que não conseguiu antes, somente queria poder cuidar de Eddie Kaspbrak como sempre sonhou um dia. Somente queria finalmente desfrutar do final feliz que pensou que seria incapaz de ter.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.