O cemitério da rodovia 15
1 1989
Notas iniciais

A cidade de Ludlow, localizada no Maine, foi a grande manchete do Derry News no mês de dezembro de 1989. Sua rodovia, a rodovia 15, com seus extensos 290 quilômetros e meio, era a grande estrela da primeira página, e Richard Tozier só sabia disso porque o pai nunca começava o dia sem checar a seção de esportes. Era naquele momento que as costas do jornal sempre ficavam à sua mercê e era ali a sua oportunidade de achar algo interessante para passar o tempo.
— Pai?
Os olhos de Wentworth surgiram por cima do jornal no momento que Maggie Tozier encheu sua segunda xícara de café.
— Sim?
Richie terminou rapidamente de mastigar seus ovos com bacon e, ajeitando os óculos para demonstrar um ar um pouco mais sério, apontou com o garfo para a manchete da primeira página.
— O que aconteceu lá nessa tal de Ludlow?
Wentworth esticou o papel, olhou para a página principal e voltou a se esconder atrás do jornal.
— Coisas de outro mundo, Richie — ele pigarreou — Parece que uma casa de beira de estrada foi queimada. A casa de um velho chamado Judson Crandell. A polícia acha que foi o vizinho da frente dele, um médico de Chicago chamado Louis Creed.
— O velho morreu?
— Ah, sim. Ele morreu, e o tal doutor Creed desapareceu. Puf. Virou fumaça. Os policiais encontraram a casa dele abandonada.
— Será que o médico fugiu?
— Ninguém sabe direito, Richie — Wentworth abaixou o jornal e se inclinou para frente, bem na direção do filho — Por que você não lê a manchete em vez de encher o meu saco?
Antes de levar outra garfada de ovos com bacon até a boca, Richie começou a fazer a caricatural Voz do Menino Negro.
— Porque quando o mestre fala, parece qui eu tô ouvindo um coro di anjos cantando! Eu num tô certo? Corrije seu minino sê eu tiver errado. Sinhora Tozier, o que a sinhá acha? Eu num tô certo?
Maggie Tozier também se sentou à mesa.
— Sim, querido. Você está certo.
Wentworth deu um gole no café e apoiou os cotovelos na mesa. Estava impaciente, mas rendido. Ele ajeitou o jornal no colo.
— Alguns dizem que Louis Creed fugiu sozinho — Went continuou —, outros acham que ele fugiu com a esposa, Rachel, que também está desaparecida. De acordo com a polícia, esse homem chegou na beira da loucura.
— Por quê?
Wentworth bufou e se recostou na cadeira.
— Você faz perguntas demais, Richie.
— Mas
— O seu pai está certo. — Maggie Tozier mordeu uma torrada — Isso não é um assunto para se falar na mesa. É um papo muito sujo para um menino da sua idade.
Richie suspirou e afundou o corpo na cadeira. Sem ânimo algum, alfinetou um dos ovos com o garfo e viu a gema mal passada escorrer no prato. Wentworth Tozier matou sua xícara de café antes de se esconder novamente atrás da coluna de esportes. Naquele momento, Richie encarou o pai por um bom tempo, e só parou quando sua mãe lhe chamou atenção com alguns tapinhas na mão.
— Você vai lavar a louça hoje — Maggie disse.
Ele lavou, e quando colocou o último prato no escorredor, Richie estava sozinho. Nem a mãe e nem o pai estavam lá. A cozinha estava totalmente vazia. Avoado, Richie enxugou a mão no pano de prato que Maggie Tozier havia ganhado de sua irmã no chá de panela de mais de dez anos atrás. Ele olhou para a janela coberta de neve e desceu do banquinho que o ajudava a ter altura o suficiente para alcançar a pia. Aquela era a melhor época para Richie. Era o período do ano que Derry se afundava em neve, e se a cidade se afundava em neve, dependendo da semana, a Escola de Derry era bloqueada. No dia que os primeiros flocos vívidos começaram a cair do céu límpido e azul, Bill Denbrough apostou dois dólares que a escola seria interditada na segunda feira. Ben Hanscom, por outro lado, chutou que seria numa quarta.
Quando Richie acordou e viu a janela sufocada pelo brilho pálido da neve naquela manhã, ele mal se importou de ver no calendário que dia era. Correu para a sala, ligou a televisão no canal de notícias e ficou esperando para ver quais escolas do estado do Maine seriam fechadas. Chegou a ligar para Eddie Kaspbrak e perguntar ao amigo se estava acompanhando o noticiário.
— Eu estou — Eddie respondeu do outro lado da linha, enrolando o dedo no fio do telefone vermelho — Eles estão falando das escolas de Bangor ainda. Ah, olha! Agora é Derry. Você ouviu o que ele disse, Rich? Você ouviu? Sem aula essa semana! Eu vou fazer o melhor boneco de neve que você já viu, pode apostar seu couro nisso.
— Isso se uma gripe não te pegar primeiro, não é mesmo, Eds?
Richie contornou a mesa de jantar e lançou um último olhar para o jornal antes de correr para o armário de casacos e se agasalhar da melhor maneira possível. Ele saiu de casa na parte da tarde e levou sua bicicleta junto. Passeou pela rua Kansas com as mãos enluvadas agarradas no guidão e as rodas da bicicleta marcando o chão enevado. As janelas dos carros que atravessavam o tráfego estavam polvilhadas de neve e os jardins das casas estavam enlamaçados por causa do que já havia derretido.
No momento que o sinal fechou, Richie atravessou a rua e deu de cara com a transportadora dos irmãos Tracker. Três quadras depois, ele chegou na frente da Secondhand Rose, Secondhand Clothes e parou ali, junto de sua bicicleta, quando uma televisão que estava na vitrine extraiu toda a sua atenção. Apesar de muda, ela estava ligada no canal de notícias. Exibia a foto de um homem na casa dos seus quarenta e poucos anos. Na legenda, estava escrito que aquele era um homem muito perigoso chamado Louis Creed.
Richie encarou a foto e, desconfortável, desviou os olhos da televisão, coçando o nariz.
Foi então que Mike Hanlon, todo sorridente, se aproximou.
— Ei, Rich! — disse ele, apoiando a mão no ombro do amigo — Desde quando você se interessa por noticiários?
— Desde nunca — Richie respondeu, levantando a roda da bicicleta para espantar a neve grudada — Mas ultimamente não dá pra fugir. Essa manchete tá em todo lugar que eu vou. Já ouviu falar desse caso da rodovia 15?
— Eu ouvi e sei mais do que você imagina.
— Ah, sabe, é?
— Sei. Meu avô me contou que não é a primeira vez que coisas estranhas acontecem por lá.
— Verdade?
— Uhum — Mike ajeitou o gorro na cabeça — Até que parte da história você sabe?
— Não muito — Richie respondeu e voltou a andar e empurrar a bicicleta. Mike o seguiu. — Meus pais não quiseram me contar direito. Disseram que não é assunto pra gente da nossa idade.
— Se você quer mesmo saber, eu vou te contar mesmo assim. Eles não vão nem descobrir.
Os dois travessaram a rua Kansas até chegar no parque McCarron. Richie deixou sua bicicleta deitada no gramado enlameado e os dois garotos se aproximaram de um dos bancos de ferro. Richie limpou a neve antes de sentar no banco frio.
Mike esfregou as mãos uma na outra, e assoprou as palmas antes de começar a falar.
— Meu avô me contou que o homem que fica aparecendo no noticiário é um médico chamado Louis Creed. Ele se mudou para a rodovia 15 com a esposa e os dois filhos esse ano, mas as coisas ruins começaram a acontecer depois que o filho dele, Gage, eu acho, morreu atropelado por um caminhão da Orinco.
— Caramba! O moleque deve ter virado pudim!
Mike segurou um riso.
— Beep beep, Richie.
— Desculpa. Pode continuar.
— Depois disso, encontraram a cova do Gage revirada e sem o corpo dentro.
— Roubaram o corpo?
— Exatamente — Mike disse, sentando — E a polícia acha que Louis fez isso. A polícia acha que Louis roubou o corpo e fugiu com ele e a esposa.
Indignado, Richie franziu o rosto.
— Que tipo de maluco faria isso?
— De acordo com o meu avô, um maluco desesperado.
— Desesperado com o quê, Mike?
— Desesperado em trazer o filho de volta.
Silêncio.
— Olha, eu sei que isso é loucura — Mike voltou a falar —, mas eu acredito no meu avô. Ele já passou por muita coisa. E sinceramente, nada mais me surpreende depois desse verão.
— Do que você tá falando, Mikey?
Mike esfregou as mãos de novo.
— Existe dois cemitérios naquela rodovia, bem atrás do bosque que o Louis Creed morava com a família. Um deles é um simitério de animais, aonde as crianças daquela região enterram seus bichinhos quando eles morrem. Meu avô me disse que uma amiga dele enterrou o coelho dela lá.
— E o outro?
— O outro é um cemitério indígena. Ele fica para trás do Vale da Morte.
— Um cemitério indígena, é?
— Isso mesmo. Um antigo cemitério usado por índios nativos americanos. Os índios Micmac.
— Que nome engraçado.
Mike riu mais uma vez.
— Você acha que o médico enterrou o corpo do filho lá? — Richie perguntou.
— Se o meu avô acha, eu também acho — Mike respondeu — Ele me disse que quem é enterrado lá, é ressuscitado.
— Credo! É como brincar de Deus.
— Exatamente, Rich. É como brincar de Deus. Louis Creed decidiu brincar de Deus e no fim das contas ficou louco.
— Ele queimou a casa do vizinho, não foi?
— Foi. Meu avô disse que conhecia o velho Jud Crandell, Rich, e é aí que a história fica muito mais interessante.
— Por quê?
— Porque ele me contou que Jud tinha um cachorro, e que o cachorro dele morreu.
— E daí?
— E daí que ao invés do velho Jud enterrar o cachorro dele no simitério de bichos, ele enterrou o corpo dele no cemitério Micmac. Sabe por quê o meu avô acredita nisso, Richie? Porque ele mesmo viu o cachorro de volta dos mortos. Eu acho que foi o velho Jud Crandell que contou para o Louis Creed sobre isso, e talvez o Louis Creed tenha matado o Jud porque o Jud possa ter tentado impedir ele.
— Meu Deus do céu, cara. Isso é
— loucura, eu sei.
— E por que o velho Jud tentou impedir o médico de ir no cemitério Micmac? Ele não queria dividir a terra com ele?
Mike lambeu os lábios, pensativo. Depois disse:
— Não sei.
O silêncio predominou de novo. Às vezes Richie conseguia ouvir um carro ronronando na rua.
— Não é todo mundo que sabe sobre o cemitério Micmac, Rich. Eu te contei porque você é meu amigo — Mike disse, e levantou — Eu digo que acredito por causa do meu avô, mas no fim deve ser só uma lenda urbana idiota.
— Certo.
— Mas se um dia você passar por lá perto, só por precaução, passa reto.
— Certo.
— Você vai guardar segredo, não vai, Richie?
— Vou. Eu juro. Boquinha de siri, camarada.
Mike concordou e deu um sorriso preocupado. Ele enterrou as mãos no bolso do casaco que havia ganhado de natal e chutou um punhado frio de neve. Richie, antes de levantar, ajeitou os óculos na base do nariz e limpou uma sujeira imaginária da calça.
— Posso só fazer mais uma pergunta?
— Pode.
— Por que “simitério” de bichos e não “cemitério”?
Mike deu de ombros.
— Não sei. É desse jeito que eu ouviu o meu avô chamar.
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