Notas iniciais
❤ Essa história é um crossover entre dois livros do Stephen King que eu gosto muito: it, a Coisa e pet sematary/ o Cemitério ou Cemitério maldito; ❤ A história por parte de pet sematary se passa baseada no livro e no filme de 1989 e não no filme de 2019: ❤ As datas usadas são baseadas nas seguintes: it, a coisa (filme de 2017 e 2019) acontecimentos datados em 1989 e 2016; pet sematary: (filme de 1989) acontecimentis datados em 1989; ❤ Esse capítulo introdutório tem informações principais para quem nunca leu o livro, então não acho que vá ficar difícil para acompanhar a história; ❤ A ideia do crossover veio baseada na arte de capa do capítulo que, inclusive, pode ser encontrada no tumblr; ❤ Apesar de ser uma short fic reddie, ela é mais voltada para o Richie e o pet sematary em si; ❤ Agradeço a você, leitor, por estar aqui comigo! Espero muito que goste da história;

A cidade de Ludlow, localizada no Maine, foi a grande manchete do Derry News no mês de dezembro de 1989. Sua rodovia, a rodovia 15, com seus extensos 290 quilômetros e meio, era a grande estrela da primeira página, e Richard Tozier só sabia disso porque o pai nunca começava o dia sem checar a seção de esportes. Era naquele momento que as costas do jornal sempre ficavam à sua mercê e era ali a sua oportunidade de achar algo interessante para passar o tempo.

— Pai?

Os olhos de Wentworth surgiram por cima do jornal no momento que Maggie Tozier encheu sua segunda xícara de café.

— Sim?

Richie terminou rapidamente de mastigar seus ovos com bacon e, ajeitando os óculos para demonstrar um ar um pouco mais sério, apontou com o garfo para a manchete da primeira página.

— O que aconteceu lá nessa tal de Ludlow?

Wentworth esticou o papel, olhou para a página principal e voltou a se esconder atrás do jornal.

— Coisas de outro mundo, Richie — ele pigarreou — Parece que uma casa de beira de estrada foi queimada. A casa de um velho chamado Judson Crandell. A polícia acha que foi o vizinho da frente dele, um médico de Chicago chamado Louis Creed.

— O velho morreu?

— Ah, sim. Ele morreu, e o tal doutor Creed desapareceu. Puf. Virou fumaça. Os policiais encontraram a casa dele abandonada.

— Será que o médico fugiu?

— Ninguém sabe direito, Richie — Wentworth abaixou o jornal e se inclinou para frente, bem na direção do filho — Por que você não lê a manchete em vez de encher o meu saco?

Antes de levar outra garfada de ovos com bacon até a boca, Richie começou a fazer a caricatural Voz do Menino Negro.

— Porque quando o mestre fala, parece qui eu tô ouvindo um coro di anjos cantando! Eu num tô certo? Corrije seu minino sê eu tiver errado. Sinhora Tozier, o que a sinhá acha? Eu num tô certo?

Maggie Tozier também se sentou à mesa.

— Sim, querido. Você está certo.

Wentworth deu um gole no café e apoiou os cotovelos na mesa. Estava impaciente, mas rendido. Ele ajeitou o jornal no colo.

— Alguns dizem que Louis Creed fugiu sozinho — Went continuou —, outros acham que ele fugiu com a esposa, Rachel, que também está desaparecida. De acordo com a polícia, esse homem chegou na beira da loucura.

— Por quê?

Wentworth bufou e se recostou na cadeira.

— Você faz perguntas demais, Richie.

— Mas

— O seu pai está certo. — Maggie Tozier mordeu uma torrada — Isso não é um assunto para se falar na mesa. É um papo muito sujo para um menino da sua idade.

Richie suspirou e afundou o corpo na cadeira. Sem ânimo algum, alfinetou um dos ovos com o garfo e viu a gema mal passada escorrer no prato. Wentworth Tozier matou sua xícara de café antes de se esconder novamente atrás da coluna de esportes. Naquele momento, Richie encarou o pai por um bom tempo, e só parou quando sua mãe lhe chamou atenção com alguns tapinhas na mão.

— Você vai lavar a louça hoje — Maggie disse.

Ele lavou, e quando colocou o último prato no escorredor, Richie estava sozinho. Nem a mãe e nem o pai estavam lá. A cozinha estava totalmente vazia. Avoado, Richie enxugou a mão no pano de prato que Maggie Tozier havia ganhado de sua irmã no chá de panela de mais de dez anos atrás. Ele olhou para a janela coberta de neve e desceu do banquinho que o ajudava a ter altura o suficiente para alcançar a pia. Aquela era a melhor época para Richie. Era o período do ano que Derry se afundava em neve, e se a cidade se afundava em neve, dependendo da semana, a Escola de Derry era bloqueada. No dia que os primeiros flocos vívidos começaram a cair do céu límpido e azul, Bill Denbrough apostou dois dólares que a escola seria interditada na segunda feira. Ben Hanscom, por outro lado, chutou que seria numa quarta.

Quando Richie acordou e viu a janela sufocada pelo brilho pálido da neve naquela manhã, ele mal se importou de ver no calendário que dia era. Correu para a sala, ligou a televisão no canal de notícias e ficou esperando para ver quais escolas do estado do Maine seriam fechadas. Chegou a ligar para Eddie Kaspbrak e perguntar ao amigo se estava acompanhando o noticiário.

— Eu estou — Eddie respondeu do outro lado da linha, enrolando o dedo no fio do telefone vermelho — Eles estão falando das escolas de Bangor ainda. Ah, olha! Agora é Derry. Você ouviu o que ele disse, Rich? Você ouviu? Sem aula essa semana! Eu vou fazer o melhor boneco de neve que você já viu, pode apostar seu couro nisso.

— Isso se uma gripe não te pegar primeiro, não é mesmo, Eds?

Richie contornou a mesa de jantar e lançou um último olhar para o jornal antes de correr para o armário de casacos e se agasalhar da melhor maneira possível. Ele saiu de casa na parte da tarde e levou sua bicicleta junto. Passeou pela rua Kansas com as mãos enluvadas agarradas no guidão e as rodas da bicicleta marcando o chão enevado. As janelas dos carros que atravessavam o tráfego estavam polvilhadas de neve e os jardins das casas estavam enlamaçados por causa do que já havia derretido.

No momento que o sinal fechou, Richie atravessou a rua e deu de cara com a transportadora dos irmãos Tracker. Três quadras depois, ele chegou na frente da Secondhand Rose, Secondhand Clothes e parou ali, junto de sua bicicleta, quando uma televisão que estava na vitrine extraiu toda a sua atenção. Apesar de muda, ela estava ligada no canal de notícias. Exibia a foto de um homem na casa dos seus quarenta e poucos anos. Na legenda, estava escrito que aquele era um homem muito perigoso chamado Louis Creed.

Richie encarou a foto e, desconfortável, desviou os olhos da televisão, coçando o nariz.

Foi então que Mike Hanlon, todo sorridente, se aproximou.

— Ei, Rich! — disse ele, apoiando a mão no ombro do amigo — Desde quando você se interessa por noticiários?

— Desde nunca — Richie respondeu, levantando a roda da bicicleta para espantar a neve grudada — Mas ultimamente não dá pra fugir. Essa manchete tá em todo lugar que eu vou. Já ouviu falar desse caso da rodovia 15?

— Eu ouvi e sei mais do que você imagina.

— Ah, sabe, é?

— Sei. Meu avô me contou que não é a primeira vez que coisas estranhas acontecem por lá.

— Verdade?

— Uhum — Mike ajeitou o gorro na cabeça — Até que parte da história você sabe?

— Não muito — Richie respondeu e voltou a andar e empurrar a bicicleta. Mike o seguiu. — Meus pais não quiseram me contar direito. Disseram que não é assunto pra gente da nossa idade.

— Se você quer mesmo saber, eu vou te contar mesmo assim. Eles não vão nem descobrir.

Os dois travessaram a rua Kansas até chegar no parque McCarron. Richie deixou sua bicicleta deitada no gramado enlameado e os dois garotos se aproximaram de um dos bancos de ferro. Richie limpou a neve antes de sentar no banco frio.

Mike esfregou as mãos uma na outra, e assoprou as palmas antes de começar a falar.

— Meu avô me contou que o homem que fica aparecendo no noticiário é um médico chamado Louis Creed. Ele se mudou para a rodovia 15 com a esposa e os dois filhos esse ano, mas as coisas ruins começaram a acontecer depois que o filho dele, Gage, eu acho, morreu atropelado por um caminhão da Orinco.

— Caramba! O moleque deve ter virado pudim!

Mike segurou um riso.

Beep beep, Richie.

— Desculpa. Pode continuar.

— Depois disso, encontraram a cova do Gage revirada e sem o corpo dentro.

— Roubaram o corpo?

Exatamente — Mike disse, sentando — E a polícia acha que Louis fez isso. A polícia acha que Louis roubou o corpo e fugiu com ele e a esposa.

Indignado, Richie franziu o rosto.

— Que tipo de maluco faria isso?

— De acordo com o meu avô, um maluco desesperado.

— Desesperado com o quê, Mike?

— Desesperado em trazer o filho de volta.

Silêncio.

— Olha, eu sei que isso é loucura — Mike voltou a falar —, mas eu acredito no meu avô. Ele já passou por muita coisa. E sinceramente, nada mais me surpreende depois desse verão.

— Do que você tá falando, Mikey?

Mike esfregou as mãos de novo.

— Existe dois cemitérios naquela rodovia, bem atrás do bosque que o Louis Creed morava com a família. Um deles é um simitério de animais, aonde as crianças daquela região enterram seus bichinhos quando eles morrem. Meu avô me disse que uma amiga dele enterrou o coelho dela lá.

— E o outro?

— O outro é um cemitério indígena. Ele fica para trás do Vale da Morte.

— Um cemitério indígena, é?

— Isso mesmo. Um antigo cemitério usado por índios nativos americanos. Os índios Micmac.

— Que nome engraçado.

Mike riu mais uma vez.

— Você acha que o médico enterrou o corpo do filho lá? — Richie perguntou.

— Se o meu avô acha, eu também acho — Mike respondeu — Ele me disse que quem é enterrado lá, é ressuscitado.

— Credo! É como brincar de Deus.

— Exatamente, Rich. É como brincar de Deus. Louis Creed decidiu brincar de Deus e no fim das contas ficou louco.

— Ele queimou a casa do vizinho, não foi?

— Foi. Meu avô disse que conhecia o velho Jud Crandell, Rich, e é aí que a história fica muito mais interessante.

— Por quê?

— Porque ele me contou que Jud tinha um cachorro, e que o cachorro dele morreu.

— E daí?

— E daí que ao invés do velho Jud enterrar o cachorro dele no simitério de bichos, ele enterrou o corpo dele no cemitério Micmac. Sabe por quê o meu avô acredita nisso, Richie? Porque ele mesmo viu o cachorro de volta dos mortos. Eu acho que foi o velho Jud Crandell que contou para o Louis Creed sobre isso, e talvez o Louis Creed tenha matado o Jud porque o Jud possa ter tentado impedir ele.

— Meu Deus do céu, cara. Isso é

— loucura, eu sei.

— E por que o velho Jud tentou impedir o médico de ir no cemitério Micmac? Ele não queria dividir a terra com ele?

Mike lambeu os lábios, pensativo. Depois disse:

— Não sei.

O silêncio predominou de novo. Às vezes Richie conseguia ouvir um carro ronronando na rua.

— Não é todo mundo que sabe sobre o cemitério Micmac, Rich. Eu te contei porque você é meu amigo — Mike disse, e levantou — Eu digo que acredito por causa do meu avô, mas no fim deve ser só uma lenda urbana idiota.

— Certo.

— Mas se um dia você passar por lá perto, só por precaução, passa reto.

— Certo.

— Você vai guardar segredo, não vai, Richie?

— Vou. Eu juro. Boquinha de siri, camarada.

Mike concordou e deu um sorriso preocupado. Ele enterrou as mãos no bolso do casaco que havia ganhado de natal e chutou um punhado frio de neve. Richie, antes de levantar, ajeitou os óculos na base do nariz e limpou uma sujeira imaginária da calça.

— Posso só fazer mais uma pergunta?

— Pode.

— Por que “simitério” de bichos e não “cemitério”?

Mike deu de ombros.

— Não sei. É desse jeito que eu ouviu o meu avô chamar.