O cara da minha sala
1 Prólogo

Oi, diário.
Estou apaixonado.
Que frase patética. Parece abertura de shoujo barato, daqueles em que pétalas de cerejeira voam até dentro da sala de química, desafiando todas as leis da ventilação. Ainda assim, é verdade. E geralmente elas têm esse péssimo hábito de existir mesmo quando são ridículas.
O nome dele é Genya Shinazugawa.
Meu vizinho que também é meu colega de sala e o motivo semanal para eu esquecer como a gravidade funciona.
Que inferno!
Ele é alto, tem cabelos castanhos sempre bagunçados e uns olhos violeta que deveriam ser proibidos de tão belos. O problema é que ninguém olha para eles por muito tempo, porque antes você precisa sobreviver à expressão de quem parece querer discutir até com o armário nos corredores escolares.
Genya vive de cara fechada e anda de braços cruzados. Responde aos outros com grunhidos e, estranhamente, é uma das pessoas mais gentis que eu já conheci.
Na segunda-feira passada, ele recolheu o estojo de uma caloura que derrubou tudo no corredor. Fez isso reclamando o tempo inteiro.
— Presta mais atenção por onde anda... Dizia ele enquanto ajoelhava para juntar cada lápis de cor.
Na quarta, emprestou o casaco para um menino do primeiro ano que estava tremendo de frio.
— Devolve amanhã. Nem esperou agradecimento.
Ele faz essas coisas como se tivesse vergonha de ser bom. É quase irritante. E eu estou completamente ferrado.
Porque faz três meses que invento desculpas para sentar perto dele. Esqueço borracha, caneta. Peço a matéria que eu já copiei, derrubo o caderno "sem querer" exatamente para o lado da carteira dele.
Nada.
O homem é mais desligado que Wi-Fi de escola pública! Tenho quase certeza de que, se eu aparecesse usando uma placa escrita "Gosto de você, seu idiota", ele perguntaria se era trabalho de artes.
Enfim.
Se algum desocupado estiver lendo isso no futuro, saiba que eu, Muichiro Tokito, dezesseis anos, estudante do segundo ano e aparentemente sem amor-próprio suficiente, registrei oficialmente meu sofrimento.
Porque amar O cara da minha sala talvez seja bonito nos livros de romance que eu leio. Na vida real, dá uma indigestão desgraçada.
E amanhã eu vou precisar olhar para aquele rostinho bonito novamente como se meu coração não fosse um completo traidor.
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