Manhã

Segundas-feiras deveriam ser abolidas.

Não por motivos filosóficos ou sociais. Simplesmente porque elas sempre me obrigam a encarar o Genya às sete e vinte da manhã, quando meu cérebro ainda está inicializando e meu coração já decidiu passar vergonha.

O despertador tocou três vezes antes de eu levantar. Meu irmão mais velho, Yuichiro, abriu a porta do quarto sem a menor cerimônia.

— Vai continuar fingindo que está morto ou pretende ir para a escola?

— Ainda estou decidindo.

— Escolhe rápido. O ônibus não tem paciência com adolescentes dramáticos. — Ele fechou a porta antes que eu pudesse responder. Típico. Como se ele também não fosse um adolescente dramático.

Vinte minutos depois, eu já caminhava pela rua com uma torrada entre os dentes, porque aparentemente gosto de viver todos os clichês possíveis. O bairro ainda estava silencioso, e foi justamente na esquina que o vi.

Genya.

Uniforme impecavelmente amarrotado, mochila pendurada em um ombro só e uma expressão que fazia parecer que alguém tinha declarado guerra contra ele antes do café da manhã.

Ele morava duas casas depois da minha fazia quase um ano. Descobri isso por acidente, quando o encontrei levando o lixo para fora usando um pijama de dinossauros. Desde então, nunca mais consegui levá-lo completamente a sério.

— Bom dia! — falei, alcançando seu passo.

Ele me olhou de lado.

— Hm... dia.

Vitória. Respondeu com palavras inteiras.

Seguimos em silêncio por alguns metros. Era um silêncio confortável para ele e absolutamente desesperador para mim.

— Você estudou para a prova de história?

— Estudei.

— Estava difícil...

— Estava.

Meu Deus. Estou conversando com uma parede emocionalmente disponível que porcaria. Quando chegamos ao portão da escola, alguns alunos acenaram para nós. Quer dizer... para mim. Genya apenas ergueu a mão sem diminuir o passo.

Nossa sala ficava no segundo andar, perto das janelas voltadas para a quadra. Como sempre, sentei ao lado dele antes que qualquer outra pessoa ocupasse a carteira.

Ele nem questionou mais, acho que oficialmente virei parte da mobília. A professora de matemática entrou distribuindo folhas.

— Vamos começar com o exercício em dupla. Espero que se saiam melhor dessa vez. — Olhei discretamente para o universo e agradeci por, uma vez na vida, ele colaborar.

Genya puxou a cadeira um pouco para o meu lado.

— Vamos fazer logo. — Durante quarenta minutos dividimos cálculos, borracha, régua e o mesmo espaço minúsculo da carteira. Às vezes nossas mãos se encostavam enquanto alcançávamos o lápis.

Ele nem percebia, eu esquecia como somar.

— Tokito.

— Hã?

— Você escreveu sete vezes oito igual cinquenta e cinco.

— Foi estratégia.

— Estratégia para repetir de ano?

Respirei fundo e comecei a rir. Contra todas as expectativas, o canto da boca dele também subiu por um segundo.

Um segundo. Mas eu vi.

O intervalo chegou como uma explosão de vozes. Tanjiro apareceu carregando duas caixas de leite, Zenitsu reclamava de absolutamente tudo e Inosuke corria pelo corredor como se educação física fosse seu estado de espírito.

— Muichiro! Vem! — Tanjiro chamou.

— Já vou. — Olhei para trás antes de sair e Genya permanecia sentado, mexendo distraidamente no próprio lanche. Sozinho. Por algum impulso que meu cérebro certamente vai cobrar depois, coloquei meu suco sobre a mesa dele.

— A gente pode comer junto... se você quiser. — Ele piscou, surpreso.

— Achei que você fosse ficar com seus amigos.

— Eles sobrevivem cinco minutos sem mim. — Houve um silêncio, então ele puxou a cadeira ao lado com o pé.

— Senta. — Foi só isso.

Nenhuma declaração, nenhuma música romântica, nenhuma pétala voando pela janela. Apenas duas marmitas, um garoto mal-humorado dividindo batatas fritas sem admitir que estava dividindo e outro tentando agir normalmente enquanto o coração fazia um escândalo. É..., tem horas que eu prefiro os shoujos.

Querido diário: segunda-feira de manhã recebeu nota oito de dez. Perdi cinco anos de expectativa de vida, mas ele dividiu as batatas comigo. Considerando que Genya trata comida como patrimônio privado, talvez isso seja praticamente um pedido de casamento. Humanos são estranhos. Eu sou o pior deles.

[...]


A tarde


Yuichiro estava oficialmente declarando guerra à matemática avançada.

O caderno permanecia aberto sobre a mesa da cozinha, coberto por números, integrais e uma quantidade preocupante de rabiscos que pareciam mais um manifesto contra a existência dos logaritmos do que qualquer tentativa de resolução.

Ele soltou o lápis com tanta força que o objeto quicou na mesa.

— Quem foi o criminoso que inventou isso?

— Um matemático, imagino.

— Um criminoso matemático!

Dei de ombros e continuei copiando meus próprios exercícios. O curioso era que Yuichiro sempre foi o gênio entre nós. Tecnicamente ele nasceu primeiro. Dois minutos, para ser exato. Tempo suficiente para usar isso como argumento em qualquer discussão desde que aprendemos a falar.

"Eu sou o irmão mais velho."

Dois minutos. Cento e vinte segundos. A humanidade realmente construiu hierarquias com menos.

Meu celular vibrou sobre a mesa.


Tanjiro

🍙

Muichiro, você reparou no Genya hoje?

Franzi a testa e respondi quase imediatamente.

Eu:

Reparei. Ele existe todos os dias.

A resposta veio em segundos.

Tanjiro

🍙

Não brinca. Ele ainda não fala comigo.


Ergui os olhos do aparelho por um instante, tinha me esquecido disso.

Na hora do intervalo, Genya comentou sobre "meus amigos" como se Tanjiro não fizesse parte daquele grupo. Na hora achei estranho, mas deixei passar. Agora, pensando melhor... aquilo não fazia sentido.

Tanjiro e Genya são amigos ou eram.

A confusão entre as famílias Kamado e Shinazugawa tinha sido praticamente um evento municipal. Sanemi, o irmão mais velho do Genya, quase saiu no braço com metade do bairro por causa da história envolvendo a Nezuko. Gritos, orgulho ferido, vizinhos espiando pela janela... o pacote completo da tragédia familiar japonesa versão adolescência. Acham que apenas séries teen dos EUA fazem isso? estão precisando passar uma semana no meu bairro.

No fim, quem resolveu tudo foi Ayla, a esposa do Sanemi. Enquanto os homens competiam para descobrir quem era mais cabeça-dura, ela entrou na sala, mandou todo mundo calar a boca e resolveu a situação em quinze minutos.

O problema é que a paz nunca voltou completamente. Olhei outra vez para a conversa.


Eu: Mas vocês brigaram?

Tanjiro 🍙

Não. Esse é justamente o problema.


Fiquei encarando aquela mensagem por alguns segundos. Como alguém para de falar com o próprio amigo... sem brigar? Suspirei, mais um mistério.

Genya Shinazugawa parecia colecioná-los com o mesmo entusiasmo que colecionava carrancas. Fechei o celular e apoiei o queixo na mão.

Yuichiro rabiscava mais um cálculo enquanto resmungava palavras que provavelmente ofenderiam Pitágoras em várias línguas.

Quanto a mim...

Acabei de ganhar uma nova missão completamente não solicitada: descobrir por que o garoto por quem estou estupidamente apaixonado decidiu transformar Tanjiro Kamado em um fantasma.

E, sinceramente, minha vida já não era complicada o bastante?