O cara da minha sala
3 2.Terça-feira
Manhã
Existe um fenômeno curioso chamado terça-feira.
Ela não é horrível como a segunda, nem promissora como a sexta. É só um limbo. Um corredor infinito onde adolescentes caminham carregando mochilas pesadas e traumas acadêmicos. Uma invenção particularmente cruel da humanidade.
Cheguei à escola cinco minutos antes do sinal. Tanjiro estava encostado na janela da sala, conversando com Zenitsu, que gesticulava como se estivesse narrando o fim do mundo.
Genya ainda não tinha chegado e isso me deixou um pouco curioso, obviamente que meu corpo notou isso antes da minha cabeça.
Eu sou Ridículo.
Sentei na carteira ao lado da dele e comecei a desenhar linhas aleatórias no canto do caderno. Trinta segundos depois, a porta abriu e ele entrou. Cabelos úmidos, gravata torta e uma lata de café gelado na mão. Passou pela sala recebendo meia dúzia de "bom dia" e respondeu todos com um aceno curto.
Quando parou ao meu lado, empurrou a lata em minha direção.
— Segura.
— Hã?
— Vou guardar a mochila.
Obedeci pois sou muito tapado. Fiquei segurando a bebida dele como um funcionário temporário de loja de conveniência enquanto Genya colocava os livros na carteira.
— Valeu. — Pegou a lata de volta e abriu com um estalo. — Você quer?
Nem sei explicar por que isso me deixou tão feliz, mas neguei. Talvez porque pessoas não entreguem seus cafés matinais para qualquer um. Ou talvez eu esteja tão apaixonado que já esteja romantizando o transporte de bebidas. O cérebro realmente entra em greve quando tem muitos sinais.
A primeira aula foi língua. A professora pediu que formássemos duplas para analisar um conto e nem precisei olhar. Genya já havia arrastado a cadeira para perto da minha e ficou quieto enquanto eu lia baixinho as primeiras linhas.
— Você lê melhor em voz alta.
Meu coração fez um mortal.
— Como sabe?
— Na apresentação do mês passado.
Ele... prestava atenção? Passei os próximos quinze minutos fingindo analisar simbolismos enquanto tentava não sorrir igual um idiota. No intervalo, resolvi colocar meu plano brilhante em prática. Plano esse elaborado após exatos nove segundos de raciocínio: fazer Genya e Tanjiro conversarem.
Simples e provavelmente desastroso. Encontrei Tanjiro perto dos armários.
— Vem almoçar com a gente.
Ele sorriu imediatamente.
— Claro!
Chegamos à mesa onde Genya já estava sentado. Assim que viu Tanjiro, seus ombros endureceram quase imperceptivelmente e o Kamado puxou a cadeira.
— Posso...?
— A mesa não é minha. Faz o que quiser.
A resposta foi tão grosseira que imaginei que o Shinazugawa provavelmente sairia no braço ali mesmo. Os três comeram em silêncio durante quase um minuto. Zenitsu passou correndo atrás de Inosuke berrando alguma coisa sobre um pão de mel roubado, e mesmo aquela cena absurda não conseguiu aliviar o clima.
Tanjiro respirou fundo.
— Genya... sobre aquele dia...
— Não precisa.
— Mas eu queria explicar.
— Eu disse que não precisa. — Ele continuou comendo sem levantar a cabeça.
Tanjiro apenas assentiu, oferecendo um sorriso pequeno e triste antes de terminar o almoço rapidamente. Quando ele foi embora, não consegui segurar.
— Você ainda gosta dele como amigo, né?
Genya parou o garfo no ar.
— De onde você tirou isso?
— Do jeito que você evita olhar pra ele.
Ele soltou um suspiro cansado.
— Às vezes... ficar longe é mais fácil. — Foi tudo o que disse. Depois levantou, pegou a bandeja e caminhou até o lixo e eu fiquei sentado olhando suas costas desaparecerem pelo corredor.
Parabéns, Muichiro. Sua investigação avançou exatamente uma frase e agora eu tinha mais perguntas do que respostas. Porque, aparentemente, o garoto de olhos violetas não odiava Tanjiro.
O problema parecia justamente não conseguir sentir raiva.
A tarde
Tinha mais um motivo para as terças serem um limbo e ela se chama educação física.
A quadra da escola era um caos organizado. Metade da turma aquecia, a outra metade fingia alongar enquanto conversava, e o professor tentava convencer adolescentes de que correr atrás de uma bola era "formação de caráter". Uma tese ousada.
Yuichiro já estava em campo com as mãos na cintura, analisando a disposição dos cones como um estrategista prestes a invadir um reino.
Meu irmão realmente gostava de futebol. Eu preferia mil vezes um treino de bokken. Pelo menos espadas de madeira não gritavam "toca, toca!" no meu ouvido.
Foi então que reparei nele conversando com uma garota perto das arquibancadas, olhei melhor e meu estômago resolveu praticar ginástica de tanto que se contorceu.
— Ei... aquela não é...? — Tanjiro começou.
— Sim. — respondi, antes mesmo que ele terminasse.
Era a ex-namorada do Genya.
— Mas ela e ele...
— Não. — Cortei o assunto pela segunda vez.
Sinceramente, eu não queria pensar na ex do meu crush. Já estava difícil sair da estaca zero. Imaginar que ele ainda pudesse gostar dela era como decidir colocar sal numa ferida por entretenimento. Humanos fazem isso o tempo todo e chamam de curiosidade. Complicado.
Muito complicado.
Tanjiro soltou uma risadinha discreta e deu um leve encontrão no meu ombro.
— Relaxa, Mui. Eu sei que ele não tem mais nada com ela. Você tem mais chances do que imagina.
Balancei a cabeça imediatamente.
— Não tem nada a...
— Tokito. — Ele falou meu sobrenome daquele jeito calmo de sempre. Primeiro olhou para Genya, do outro lado da quadra, depois voltou para mim. — Eu sei que você gosta dele. E estou dizendo que está tudo bem.
Meu cérebro simplesmente desligou. Não era como se eu escondesse ser gay, todo mundo próximo de mim sabia. Mas existir era uma coisa; anunciar aos quatro ventos que eu era apaixonado por Genya Shinazugawa era outra completamente diferente.
Antes que eu precisasse inventar uma desculpa vergonhosa, mudei de assunto na velocidade da luz.
— Tanjiro, cadê a Tsuyuri?
Ele sorriu na hora.
— Com a Aoi. As duas foram buscar água.
Claro. Kanao e Aoi eram praticamente inseparáveis e ele não pescou que que queria que ele calasse a boca. O professor apitou, chamando todos para o centro da quadra.
— Times de cinco! — Começou o ritual mais cruel da adolescência um verdadeira tortura: capitães escolhendo pessoas como se estivéssemos em um leilão esportivo.
Inosuke foi escolhido primeiro, Genya logo depois, eu já senti o prenúncio da tragédia. Quando os times finalmente ficaram prontos, Tanjiro olhou para a nossa formação e depois para a deles.
Nosso time: eu, Tanjiro, Kanao, Zenitsu e um hipocondríaco que estava fazendo ef obrigado.
O outro: Yuichiro, Genya, Inosuke e mais um atleta da sala.
Tanjiro respirou fundo.
— Dá pra ganhar. — Eu acompanhei seu olhar até Inosuke, que já fazia embaixadinhas enquanto Genya ajustava a faixa no pulso.
Depois olhei para Zenitsu, que discutia com o professor porque "correr muito faz mal para as articulações".
— Se o Zenitsu realmente jogar... — Suspirei. — A gente perde, só que de forma digna.
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