Notas iniciais
A todos que estão começando essa história comigo, SEJAM BEM VINDOS! Faz dois anos que tenho essa história na cabeça e finalmente concluí o primeiro rascunho. Espero que gostem!

Beijinhos da Maria.

Bebidas Especiais da Dona Gertrudes:

Glória em xícara ........................................................R$ 3,00.

Amor espumado........................................................R$ 5,00

Coragem líquida.........................................................R$ 8,00

Fé no café .................................................................R$ 8,50

Virtude recheada........................................................R$ 9,00

Indulgência.................................................................R$ 9,00

Primor.........................................................................R$ 9,50

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SEGUNDA

O garoto de cabelos castanhos percorreu todo o caminho da escola até a casa com passos apressados, o que não era muito tendo em vista suas perninhas gorduchas. O olhar visivelmente impaciente lhe passava pelo rostinho toda vez que o sinal para pedestres se fechava. Havia algo de terno no modo em como segurava um papelzinho na mão, quase que com medo de que o ar o rompesse, ou as digitais de seus dedos o manchasse. Quando viu o prédio bonito que era sua casa, passou por um foi de ser atropelado ao saltar na frente de um ônibus na expectativa de chegar mais rápido. Do outro lado da porta de sua casa, olhos também ávidos o aguardavam ao som da cafeteira expelindo líquido negro. O garotinho, que gostava de fazer mistérios, tentou deixar o rosto em branco enquanto batia à porta, mas o peito estufado já dizia tudo. Ele estendeu o papelzinho para a mulher, que portava aquele sorriso materno diagnosticado em qualquer parquinho. Ela já o abraçava independente do que continha naquele bilhetinho que parecia tão importante para o menino.

—Parabéns, filho! Eu sabia que você conseguiria. -Ela o apertou de um lado, com a mão livre abrindo o papelzinho. — O prêmio de Melhor Amigo da Turma! Meu bem, que ótimo!.

O menininho mal podia se conter de orgulho.

—Sempre te falei que esse sorriso iria conquistar o mundo. — A mulher disse cutucando a pontinha do seu nariz. Puxando a mãozinha do garoto convidou- Vem, vamos tomar um cafézinho enquanto você me conta tudo.

Na voz dela parecia se tratar de um oscar, por que esse era o papel de mães, serem as maiores e melhores fãs que sua prole poderia ter.

O menino a seguiu contente, e foi ali, no balcão que dividia a sala e a cozinha, que algo maior se instalou. Tradições raramente vem de momentos suntuosos afinal, mas daqueles momentos que por algum motivo estão encravados na memória sem motivo algum. E para aquele garotinho, sem nem saber, o cheirinho adocicado -que nada tinha a ver com o gosto- pareceu virar plano de fundo de cada momento especial guardado nos baús de sua memória. Como os tempos eram bons, quando a felicidade era regrada a cheiro de café.

...

Fábio tinha convicção toda vez que falava sobre qualquer coisa. Mas tinha um certo tópico que sempre lhe enchia o peito com aquele sentimento bom e brando e quente, tão bom quanto uma xícara de café logo no início da manhã. O café podia te propiciar tanto, ele achava. Energia, vivacidade, ansiosidade, insônia, assuntos para quebrar gelo, desculpas para fazer aquela paradinha no meio do trabalho. Ele também tinha certeza de que cada pessoa possuía o seu café. O mundo era dividido entre café com açucar, adoçante ou virgem. Mas, ah! A individualidade de cada ser, contudo se expressava quando um era café com canela, outro era expresso sem açúcar ou até caramelo com café com leite. E todo café transmitia sua própria essência. Por isso, Fábio fazia aquele cafézinho de uma esquina de São Paulo um local raro. Não um lugar conhecido! Por Deus, não! É quase impossível ser famoso numa cidade tão grande como a metrópole. Cada um que entrava ali, no entanto, sentia a diferença.

Claro que o local ajudava a estabelecer uma esfera incomum por meio de uma completa simplicidade. A começar, só havia duas mesinhas de madeira clara, uma de cada lado da porta. Cada uma se deparando com uma parede de vidro que mostrava a rua. Não que a visão da rua, dos carros, da cidade, tornasse o local caótico. Pelo contrário, parecia que ao entrar no café, você via a cidade a todo vapor, mas fora dela, como um espectador. E qualquer espetáculo é digno de impressão. Depois havia um longo balcão, de parede a parede no fundo, com banquetas vermelhas gastas. Era uma grande espaço sem cadeiras ou mesas, e uma pequena cafeteria.

Na hora do Rush, Fábio mal conseguia respirar, como em qualquer cafeteria no horário do café da manhã. Era uma fila enorme de todo o tipo de pessoa. A sua frente, por exemplo, estava um cara de vinte e poucos anos, os olhos sujos de remela e, claramente, ainda de pijamas (se as pantufas não entregassem). Tipo de bebida? Chá. Ele pediu chá.

—Quais vocês tem? — O cara perguntou após suprimir um bocejo.

Fábio olhou a sua frente, olhou as horas para ter certeza que não era madrugada, olhou para o sujeito novamente.

—Tem certeza que você não quer um café? — Obviamente, ele precisava de cafeína. O homem até demorou para entender o que ele havia perguntado.

—Não.. Chá está bom.

—Chá Matte? -Fábio tentou, pelo menos chá matte também possuía doses de teína.

—De camomila.

Fábio suspirou, tentado a colocar café "por engano" no copo de isopor. Ele até duvidava que o dorminhoco ia perceber.

Foram mais 20 cafés atendidos, 12 pães de sal, 14 pães de queijo depois que o sossego habitual do café voltou.

O sino tocou indicando um novo cliente.

—Bom dia, seu Alfredo! — Ele cumprimentou e como sempre foi respondido com um "Humph". Seu Alfredo era um homem narigudo, de óculos quadrados grandes, gravata e suspensório. Andava mancando e parecia sempre estar fazendo bico de desgosto. Dependendo do dia, era um homem com um chapéu coco. Ele era magro, altivo e frívolo companheiro do bartender, já que passava quase o dia inteiro ali.

O velho teve uma crise de tosse.

—Pegou a gripe, hein? — Fábio perguntou para o velho, sua voz ecoando um pouquinho por todo o café, já que só estavam os dois ali.

—Que gripe, rapaz! É essas malditas indústrias, nem o Zé-chaminé lá de Itapeva soltava tanta fumaça! Vou te dizer, garoto, essas aí ainda vão matar todos nós.

—Eu jurava que ia ser as vacas. — Fábio era um assíduo insone. Já tinha assistido todos os filmes no Netflix e agora só havia sobrado os documentários, para o desespero de Amanda. O último havia sido Cownspiracy.

O velho mandou para Fábio aquele olhar seguido de suspiro e balanço de cabeça que todo idoso dominava com maestria, ao pensar na geração seguinte. Fábio suprimiu uma gargalhada, Seu Alfredo era definitivamente uma figura.

—E onde está a Sofia?- Fábio se referia a cuidadora que o filho do senhor contratou a uma semana.

—Mandei embora.

—Ela parecia simpática.

—Esse era o problema. — Senhor Alfredo era doutor em fazer qualquer virtude parecer um dos sete pecados capitais.

—Ah. Bom, pelo menos ela foi somente a segunda desse mês.

— Eu não precisaria de nenhuma delas se aquele sem-vergonha do meu filho não desse uma mão para o seu velho. Eu nem dou tanto trabalho assim! -O velho estreitou os olhos em resposta ao silêncio do outro homem. -Dou?

—Claro que não, Seu Alfredo, claro que não. -Fábio respondeu com um leve sorriso pensando no drama que havia se estabelecido no café uma vez. Era melhor nem dizer. Mas para fins de exemplificação do caráter, havia uma senhora cabeluda, o que descobrira ser peruca, seu cachorro barulhento, Seu Alfredo e muito bolo de uva passas diet. Na peruca.

— O que vai ser, senhor? O de sempre? — Fábio perguntou, após balançar a cabeça na tentativa de apagar o episódio da memória. O senhor Alfredo era um café expresso duplo, sempre acompanhado do famoso bolo de passas diet da Dona Gertrudes. Fábio colocou a vigésima primeira xícara do dia à frente do senhor com a delicadeza de ações rotineiras. Sutilmente ele afastou os potes contendo açúcar para o lado oposto do balcão onde o velho estava sentado. O senhor havia reparado, mas tinha muita preguiça e dor de coluna para ir buscar. Seu Alfredo era daqueles diabéticos que aterrorizavam os médicos "Eu sei que vou morrer, mas vai ser uma morte doce". Por isso, Fábio ganhava 100 reais a mais no fim do mês da cria do senhor se ele mantivesse Seu Alfredo seguindo a dieta.

Fábio estranhou o silêncio que se seguiu. Alfredo era um orador nato, não havia assunto que ele não pudesse dissecar por horas e horas. Por mais que ele adorasse fingir que o falatório o incomodava, Fábio tinha que admitir que era confortante ter alguém para quebrar a monotonia do horário das 9h30.

—Então, Seu Alfredo, como anda a vida? Você está meio calado hoje.

O velho senhor pareceu grato por alguém ter notado sua abstenção de palavras.

—Hoje é meu aniversário de casamento, ou era para ser. — Alfredo mexeu no seu bolo sem o usual bico de desgosto, mas uma tristeza nos olhos, talvez até arrependimento. Fábio estendeu o silêncio, ele já ia fazer uma piada para quebrar o gelo, quando o velho continuou.

—Não do meu casamento com Amélia, mãe do Gabriel, se é o que você está pensando. Era para ser aniversário do meu primeiro casamento.

O homem de trás do balcão ficou levemente chocado. Ele não era muito bom em história, mas tinha quase certeza, tirando os 30 anos do segundo casamento, e fazendo alguns cálculos (o que ele também não era muito bom), não era uma época que muitos divórcios aconteciam. Não era conhecido muitos senhores de sessenta e poucos anos com 2 casamentos no bolso. Fábio deixou escapar um "Ah", mas permaneceu em silêncio após um suspiro. Aquele era um assunto que o senhor obviamente precisava colocar para fora de seu peito.

—Era julho de 1943, quando eu a conheci. Mel era uma das meninas mais bonitas da cidade, extremamente tímida e, principalmente, tinha um generoso dote. -Alfredo relembrou com gotas de amargura respingando de sua voz ao mesmo tempo que ele tomava um gole do expresso.

Fábio já havia limpado o balcão até ele ter um brilho remanescente da sua glória antiga, checou a temperatura da estufa de alimentos, colocou mais pó de café na máquina, podendo se dar ao luxo de sentar-se na banqueta do seu lado do balcão.

—E então? Você se apaixonou por ela? — Fábio perguntou, sabendo que dali não havia volta, , sentindo que não era para esse lado que a história pendia. Sua voz se misturou com o delicioso cheiro de café que se alastrava pelo ambiente.

—Amor? Rapaz.. -O velho se enrolou na última palavra, como se se relembrando de quão jovem era a sua companhia, quanto os tempos se distanciavam, e assim ideias, costumes...- Na minha época, casamento era tudo menos amor. Claro, haviam os sortudos que conseguiam conciliar, ou que acabavam se apaixonando depois. Mas eu era um jovem soldado de 19 anos, orgulhoso pela minha ascendente carreira no exército, desesperado por sair daquela cidade e conhecer o mundo. Mel, então? Ela mal havia parado de trocar fraldas de bonecas e já esperavam que ela trocasse fraldas de um bebê de verdade. Tinha 15 anos.

Tomando o silêncio do bartender como impulso para continuar, ele começou a contar:

"Quando nos conhecemos, era um baile de São João em que toda a cidade comparecia. E eu não pude deixar de reparar naquela menina, recém apresentada pela sociedade, com vestido azul e cabelo loiro todo engomado na moda do momento ajudando na mesa de bebidas. Me aproximei para chamá-la para dançar, ela sorriu para mim docemente, mas eu fiquei inseguro. Foi preciso umas 3 idas à mesa de bebidas para que ela percebesse que eu queria algo mais, até porque depois de provar o poncho da Senhora Joana ninguém voltava em sã consciência, e lá estava eu voltando pela terceira vez.

—Por favor, diga-me que o senhor não deseja outro gole desse ponche, não é possível alguém achá-lo agradável.

—Realmente, não o é, senhorita...

—Mel, todos me chamam de mel.

—Pois bem, senhorita Mel, não é o ponche que procuro por agradável, mas quem o serve com tanta graciosidade. — Eu falei sorrindo confiante, mas o vermelho nas bochechas clamavam por insegurança. Ela também possuía carmin na face. — Me concederia uma dança?

—Ora, pensei que nunca iria pedir.- Ela disse sorrindo para o chão."

—Nós dançamos duas valsas, mais que duas era falta de decoro pois não havia nenhum arranjo entre nós. E, por mais que eu tivesse desejado aquela terceira valsa... Como eu me arrependo, rapaz, por aquelas duas danças. Por que a partir dali, tudo se tornou um desastre, como um trem desgovernado rumo ao fim do penhasco" .

O olhar vidrado do velho senhor demonstrava a verdade de suas palavras. Fábio queria saber o que acontecia agora que sabia um pedaço da história, mas o sino tocou o lembrando de que havia ainda muito trabalho a ser feito. Seu Alfredo acenou para que ele atendesse os novos clientes e o deixasse com seus próprios pensamentos.

Eram duas adolescente, uma com pele chocolate e uma loira que usavam uma quantidade enorme de pulseiras em cada braço. Devia ser coisa da última moda ou algo assim, Fábio pensou.

—Eu quero um capuccino e um enroladinho de queijo por favor. -A menina loira falou com um sorriso gentil.

—Um chocolate quente e uma mini pizza para mim. -A outra garota pediu, logo retomando a conversa com a amiga. Elas foram esperar os pedidos numa das mesinhas. Quando Fábio foi entregar os pedidos, a garota de pele escura e brincos de argola falou:

—Experimenta! Eles tem o melhor chocolate quente do estado, eu juro! -Empurrou sua xícara para a amiga.

O bartender sorriu com o elogio e foi atender ao caixa novamente. O café logo estava envolto no barulho de conversa, cheiro de caramelo, canela, alguma música tocava no fundo, algumas buzinas entravam pela porta quando aberta e risos reverberavam pela madeira do piso.

Ainda havia umas 7 pessoas dentro do café, quando Samuel entrou, timidamente, e sentou no seu lugar de sempre. Fábio tinha um desses carinhos inexplicáveis pelo garoto, era como se ele fosse seu irmão mais novo. Ele não sabia o por quê, talvez por Fábio conhecer um pouco da história do garoto, talvez por que ele se sentava quase toda tarde na mesma cadeira do balcão para fazer os deveres, como se não houvesse outro lugar de tranquilidade. Enfim, ele colocou o pano no ombro. Agilmente preparou a quadragésima xícara do dia, acrescentando umas folhinhas de hortelã. Ele a deixou ao lado do garoto, hesitando somente quando viu a mancha avermelhada na bochecha direita e o lábio inchado, cortado.

—Manda uma, Sam. -Fábio secou um dos copos com o pano dos ombros.

O menino sorriu, agradecido por ele não comentar nada sobre seu estado deplorável.

—Quem é que, no Natal, anda com o saco cheio às costas, subindo e descendo a rua?

Fábio esforçou-se para encontrar uma resposta menos óbvia do que o velhinho de vermelho. Não sabia nem mesmo por que tentava, afinal jamais tinha acertado uma. O pensamento lhe fez soltar uma risada.

O barulho da porta sendo aberta rompendo a calma do local ofereceu a desculpa perfeita para Fábio não envergonhar-se novamente com sua aparente incapacidade de formular respostas de charadas. Mas o leve sorriso instaurado nos lábios de Fábio, aquele que estava sempre ali, exposto para qualquer um ver, fechou-se a medida que focalizava na mais nova cliente aguardando para ser atendida.

—Rosa? -O homem perguntou incerto, afinal a garota usava mais maquiagem do se lembrava, dando a impressão de talvez ser uma desconhecida. Quando ela lhe tornou os olhos surpresos, ele sentiu levar um soco no estômago.- O que você está fazendo aqui?

Seu tom saiu mais acusatório que desejava. O que ele, realmente queria perguntar, no entanto, era o que a tinha feito ela ter aqueles olhos tão profundos, tão perspicazes. O que ela fazia ali, parecendo uma protagonista do filme As patricinhas de Beverly Hills, em plena segunda-feira? Em seu café nada luxuoso? O que a tinha feito pintar a alma de seus olhos com tanta maquiagem?

Mas não era seu lugar perguntar. Não mais.

—O que você está fazendo na minha cafeteria favorita?

—Eu trabalho aqui a um ano. — Fábio respondeu com deboche ao levantar uma das sobrancelhas.

—Eu não... Eu não venho aqui a um tempo. As coisas andam... complicadas- Ela respondeu tentando manter o tom indiferente- Com a escola e tudo.

—Bom, a saída é bem ali. -Fábio apontou para a porta com o rosto impassível, ignorando a preocupação ascendente em seu peito. Rosa não era uma boa mentirosa, nunca fora.

—Você não vai me atender? — A voz da garota não falhou, nenhuma hesitação foi vista em seu rosto. Mágoa, no entanto, enchia em seus olhos para qualquer andarilho ver. Fábio teria percebido isso se pudesse perpassar todo rancor e orgulho de seus próprios olhos, mas ele não queria ver.

Aquela garota que o abandonou, agora ousava entrar em sua redoma de paz, ousava o fazer se sentir culpado pelo o que havia entre eles, fazia todas as memórias inundaram sua mente em uma súbita tempestade.

—Foi você que disse que nunca mais queria me ver. — Sua voz soou baixa, fria, não ousando transparecer toda a raiva, a saudade, a tristeza que aquele simples rosto envolvia.

—Você me abandonou primeiro! — A voz de Rosa subiu alguns decibéis, deixando a raiva submergir. O homem sentiu um certo alívio. Raiva, ódio, Fábio conseguia lidar, por que assim não precisava pensar nos outros, naqueles que vinham de mãos dadas como velhos amigos: a tristeza e o remorso.

—Eu não podia fazer o que você me pediu. -As mãos do bartender agarram o balcão ao tentar não gritar com Rosa em seu ambiente de trabalho. Ao invés, sua voz saiu defeituosa, robótica quase.

"Por favor, não." Foi o que Fábio pensou ao observar a garota dominar as lágrimas não caídas. Ela não havia chorado naquela fatídica noite, duvidava que havia chorado após o incidente. Por que, então, ela lutava contra as lágrimas nesse momento? Não, antes, nem depois, mas agora, 3 anos vividos sem um ao outro?

O homem percebeu quando o desastre iminente estava para acontecer. Foi quando ela reparou na fina argola em seu dedo anelar esquerdo.

—O que é isso? Você é casado? — O sussurro da garota pareceu ter sido gritado por todo o café. Fábio não respondeu, não conseguia olhá-la nos olhos, e isso por si só já era uma resposta.

—Eu e Amanda estamos casados a um ano. -Ele se arrependeu de sua resposta no minuto em que saíram e no momento que os lábios altivos de Rosa tremeram, quase imperceptivelmente. Raiva da situação em que estava lhe inflou o peito.

— O que você queria, Rosa? Que eu te deixasse um recado? "Ei, faz dois anos que não nos vemos, mas eu queria te convidar para meu casamento. Ah, é o Fábio, falando nisso."? — Sua voz reverberou escorrendo sarcasmo.

Era exatamente isso que ela esperava, ele percebeu. Nesse momento, o bartender se deu conta do quanto os dois haviam mudado. Quanta distância havia se instalado sobre eles, mesmo que a única coisa os separando era um ínfimo balcão. O silêncio se estendeu, um muro de vidro entre duas pessoas padecendo da mesma causa, sem, contudo, buscarem a solução juntas.

Ele não estava mais na vida dela. Ela não estava mais em sua vida. A medida que esse fato se instalava sobre os dois, a tensão se tornou somente uma corrente de ar. Afinal, não era possível se importar por alguém desconhecido. Fábio sabia que qualquer sentimento era melhor do que sentimento nenhum, mas ambos ali estavam dispostos a correr o risco, enfiando indiferença goela a baixo em si mesmos.

—Eu vou querer um café com canela e baunilha, por favor. — A jovem a sua frente pediu, engolindo o que quer que arranhava sua garganta. O cérebro dele tentando ajustar a idéia de que esta desconhecida tanto se assemelhava a uma pessoa que amava anos atrás. Mas a semelhança parava no arrebitado de seu nariz, ou nos olhos da mesma cor, mas com um fundo diferente. Sua mente tentava entender como duas pessoas eram tão parecidas e dramaticamente diferentes. Enquanto seu coração batalhava para lembrá-lo que ele conheceria aqueles olhos em qualquer lugar e esmurrava seus órgãos para lembrá-lo que ele nunca realmente a esqueceu. E por isso ver seu olhos no rosto de outra pessoa era desconcertante demais para se vislumbrar por mais que cinco segundos.

— Serão oito reais e sessenta centavos. Algo mais? — O bartender a encarou brevemente, mas não viu nada além de uma cliente em seu primoroso café que se parecia muito com alguém do seu passado.

—Rápido, por favor. Estou muito atrasada. — A voz da garota soou rouca. Ele acenou e foi buscar o pedido, tentando dominar qualquer coisa que estivesse comprimindo seu peito.

Um estranho atendendo ao pedido de uma desconhecida.

O homem, então, esforçou-se o máximo para não pensar, uma habilidade aprimorada desde a sua precoce juventude, e viu o relógio marcar as 16h.

— Oh, menino! Me traga logo uma dessas delícias que você faz! Ande, ande! — A senhora vestida no mais profundo rosa shock entrou toda esbaforida. — Este lugar está vago, querida?

A menina mal teve tempo de responder quando a senhora já despejava os trambolhos que carregava ao lado do assento. Mas era uma ótima oportunidade.

— Boa tarde- Disse com um sorriso tímido- Qual é o seu nome?

—Linda, querida. E o seu?

—Bianca. -Achou engraçado como o nome Linda combinava tão bem com seu exterior borbulhante e efervescente. Tomou o fôlego perante a oportunidade e disse — Eu.. eu estou fazendo um documentário. -A garota mexeu nervosamente na câmera pendurada em seu pescoço.- Você poderia responder a algumas perguntas?

Linda achou graça do jeito da garota.

—Só se você gravar desse ângulo. -Apontando pro seu lado direito- Da esquerda, meu queixo fica com uma papa horrível, menina! — A senhora de rosa soltou uma risada cheia da energia que tinha dentro.

Bianca imaginou que se aquele negócio de auras fosse verdade, a da mulher que tão confortavelmente se sentava a sua frente seria rosa. Alguns tons mais claros que seu vestido rosa-shock, algumas paletas mais escuras do rosa que portava sob seus lábios e das pulseiras que tilintavam em seus braços. Diabos, se ela tivesse um cachorro, provavelmente teria seu pelinhos oxigenados de rosa pink. Um poodle de preferência.

Bianca odiava poodles.

—Oras! Vamos! Já começou a gravar?

A menina saiu de seu estupor (rosa) e ligou a máquina. Pegou também seu celular conectado a um fone de ouvido e estendeu para o outro lado da pequena mesa.

—Por favor, tente falar perto da parte do microfone.- Ela disse apontando para a parte quadradinha que estava grudada ao fio.

—Dessa parte aqui? — A mulher apontou para o celular como se nunca tivesse visto um na vida, pendendo perigosamente em sua mão. Ainda colocando a parte sem a tela perto do ouvido.

—Não. Er...

A senhora soltou outra de suas risadas retumbantes.

—Não se preocupe, menina, eu sei onde é o microfone. Como eu falaria com os meus filhos se eles por acaso existissem?

Outra risada ecoou. A menina um pouquinho envergonhada se aprontou.

—Então, eu vou falar o número da cena, depois fazer a pergunta. Ok?

—Não vai me dizer qual é a pergunta primeiro?

—Hum.. Não? -Ela disse meio incerta- Quer dizer, não. Quero pegar as reações naturais e as respostas sinceras das pessoas.

A senhora assentiu. Fábio, já conhecido de ambas ao que parecia, deixou silenciosamente duas xícaras na mesa. Uma das xícaras tinha uma coloração esquisita, de forma que a garota empurrou-a em direção à velha.

—O que é isso?

— Café com açafrão. -Ela respondeu como se não houvesse nada de errado nisso. Como se tempero de carne devesse estar todo dia em seu café.

Bianca resolveu deixar de lado .Com os olhos protegidos pela segurança das lentes da câmera, ela se sentou mais ereta e pigarreou. Com a voz mais segura que tinha reunido iniciou:

—Take 1.-Clicou no botão do celular que gravava o áudio.

A senhora sorriu para seriedade da menina. Era óbvio para Bianca que aquela senhora tinha nascido para ser o centro dos holofotes. Ser o tipo de pessoa amada pelas câmeras e sem vergonha nenhuma de saber disso.

— Nos conte um pouco sobre você, Sra. Linda.

—Ah! Já começamos com as difíceis não? Veja bem, tenho mais do que algumas décadas nas costas. Eu sei, difícil de acreditar, não é? — Ela conversou com a câmera. Parecia uma daquelas antigas artistas, revivendo suas glórias antigas em meio a todo o laquê dos cabelos.- Mas me falaram esses dias que eu até me parecia com aquela artista da novela das nove. Quem sou eu? Ah, não sei de uma pessoa que saiba responder essa pergunta sobre si mesma com firmeza. Mas... viajei para vários lugares, sabe, tenho dez passaportes para comprovar.- Ela deu risadinhas. Mas seu rosto foi tornando-se mais... antigo. Revivendo ao que parecia ser história pura e viva- Vi muita coisa, menina. Muita coisa.

Bianca ficou animada, afinal tinha como objeto de seu documentário uma pessoa assim tão vivida. A mulher emanava tanta vivacidade, tanta coragem, que Bianca, em seus plenos 15 anos, sentiu uma pontada no nariz de ciúme pela personalidade daquela mulher que portava com tanto orgulho as décadas no rosto. Aquela mulher que se portava como se todos devessem se lembrar de seu nome. E Bianca, não podia ser o contrário. Toda a roupa preta, os cabelos loiros presos num rabo de cavalo funcional, parecia se esconder nos quilinhos a mais que possuía.

—Você, que já viu tanta coisa, Sra. Linda, pode me dizer o que é a felicidade para você?

Com certeza, Linda não esperava uma pergunta dessas e levava a boca sua xícara, quando parou ergueu os olhos determinados para câmera.

—Eu não acho que felicidade é um sentimento, se você quer saber. -Ela finalmente engoliu aquela mistura asquerosa marrom alaranjada.

—Como assim? — Curiosidade pingava na voz da interlocutora.

—Bom, se fosse sentimento não seria possível de escolher ser feliz. Mas eu fiz a escolha de ser feliz. E, olha, é uma das mais difíceis de se fazer. Exige persistência. Fiz essa escolha quando decidi viajar sem companhia de homem algum. Quando suava no trabalho em busca de algo mais, até mesmo quando algum relacionamento acabava, e meu coração se quebrava em um milhão de pedacinhos. Eu não fui feliz, ou tive sorte. Eu escolhi ser feliz. Vê a diferença? A vida, minha cara, não é questão de destino mas do que você escolhe colocar nela.

A menina olhava pela câmera aquele rosto tão altivo que não era possível ter sido infeliz. Ela duvidava até mesmo que seu coração tivesse sido quebrado. Para Bianca, não parecia muito questão de escolha, esse negócio de felicidade.

—E você poderia me contar um dos seus momentos mais felizes?

Linda tomou outro gole de seu café.

— Ah sim. Foi quando eu achei que estava no fundo do poço. Me sentia no próprio escuro, sozinha. Em um palco da minha vida que ninguém tinha se dado o luxo de vir assistir.

—E o que aconteceu? — A menina perguntou com muito menos profissionalismo e muito mais curiosidade infanto-juvenil, talvez até mesmo aquela admiração nas bochechas de quem se sente identificado.

—Nada! Acordei um dia, uma terça qualquer indo para um trabalho que eu odiava. Ainda chorando pelo meu primeiro rasgo no coração, talvez o segundo e eu não podia mais. Disse a mim mesmo que era eu por mim, ou ninguém pelo nada que eu me tornara. Fiz um curso de costura, que me rendeu um dinheirinho suficiente para uma passagem para Paris. Mas querida, não era tão fácil viajar como é agora... Quando enfim sentei na frente da torre Eiffel...

A senhora se perdeu nas memórias.

—Sim? — A menina tentou puxá-la de novo para o momento presente.

—Olha que horas são! Vamos fazer o seguinte, nos encontramos amanhã para continuar? Eu deixei Totó na tosa já a duas horas!

—Mas.. — Fábio ouviu a menina dizer, sem contanto concluir pois a velha já reunia sua caravana rosa rumo à tosa de Totó.

Linda era tudo menos uma velha senil. Em verdade, ela tinha um brilho malandro no olhar, que Fábio tinha certeza que se parecia com o de Sherazade, a mesma língua afiada, a mesma mágica de um narrador ávido. Mas, ao contrário de Mil e uma noites, Linda não lutava pela sua vida, mas por companhia, odiava estar sozinha. O silêncio, então! Aquela pausa tinha pouco haver com uma incapacidade lógica e muito mais haver com o seu imenso tempo livre e sua necessidade de conectar-se. Ela lhe havia contado até que tinha contratado uma garota de acompanhante só para ter com quem falar.

...

Já estava escuro quando Fábio passou a chave pela tranca do seu santuário e desligou as luzes sob o letreiro "Café da Dona Gertrudes". Uma BMW branca, que ele nunca conseguiria ter com o seu atual rendimento estava parada do lado de fora. Ele olhou para os dois lados da via e verificou se a janela azul do segundo andar do prédio ao lado, uma que era adornada por uma cortina verde água, estava acesa Não estava, o que queria dizer que Amanda já tinha saído para o seu turno da noite. Em passos apressados ele abriu a porta do carro, entrou e, mal tinha fechado a porta, o veículo já havia disparado cantando pneu pelas ruas eternamente movimentadas de São Paulo.

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Glória em xícara

Receita de café com hortelã
Tempo de Preparo: 5 minutos

Ingredientes:
Hortelã a gosto
Café tradicional

Modo de Preparo:
Antes de preparar o café, macere algumas folhas de hortelã fresca e coloque no filtro de café. Coloque o pó e a água quente e faça o café normalmente. Sirva com folhinhas de hortelã para deixar mais atraente.

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Notas finais
Vocês estão animados?? Eu estou morrendo para saber o que vocês acharem. Também estou aceitando capas hahaa!
Beijinhos.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.