O beijo do anjo imortal
8 Capítulo VIII. O Submundo
Se estiver no meu destino perecer, então perecerei.
Uma torre vista ao longe ecoou conselhos sábios.
— Leve duas moedas de ouro e dois pedaços de cevada com você, e recuse prestar ajuda a um homem coxo. — Uma das moedas dê ao barqueiro que faz a travessia do rio Estige, em sua passagem verás um homem se afogando, não o ajude, não fale com as três tecelãs do destino. Uma fatia de pão deverá ser jogada a Cérbero, o cão de três cabeças e guardião. Perséfone a recepcionara com fartura e desejará compartilhar seu vasto banquete, de modo simples se sente no chão e não junto à mesa, não aceite comer qualquer coisa no reino dos mortos. No caminho de volta, deverá fazer o mesmo.
Um homem de capa que coxeava caminhava cabisbaixo. Por detrás da rocha a imagem de Caronte o barqueiro de Hades, que carrega as almas dos recém-mortos navegava sobre as águas do rio Estige.
Da mesma maneira repentina que o homem coxo apareceu ele sumiu.
Sem levantar os olhos ou dizer uma palavra, o barqueiro de aspecto fantasmagórico parou na margem do rio, como se me aguardasse.
Uma moeda para pagá-lo pelo trajeto, eu não queria comprovar a veracidade do relato sobre aqueles que não tinham condições de pagar a quantia tinham que vagar pelas margens por cem anos.
Hades em si era descrito como sendo um lugar localizado entre as profundezas ou extremidades da terra. Era considerada oposta ao brilho do Monte Olimpo.
O curso do rio parecia se entranhar cada vez mais fundo e distante da luz do dia. Cada vez mais perto do subterrâneo e como dito pela torre encantada, eu vi um homem que se afogava nas águas tortuosas do rio, avistei três mulheres lúgubres seriam as tecelãs do destino perto de um tear.
Não parei de caminhar até chegar à entrada que me levaria ao submundo, eu joguei um pedaço de pão ao terrível Cérbero, o cão de três cabeças e guardião do lugar.
Mais que depressa eu corri para dentro do mundo dos mortos, as tochas adornavam o caminho de pedras que se perdia de vista.
Uma porta dupla se abriu em minha direção, a iluminação do lugar refletia tons de ouro e atrás de uma mesa comprida com taças de cobre e prata estava uma mulher jovem e belíssima que parecia uma pintura delicada de cabelos negros e olhos verdes. Ela segurava de maneira terna uma romã, não havia dúvidas que aquela mulher pomposa era Perséfone.
— Seja bem vinda ao meu reino, bela Psiquê. Disse a rainha do mundo dos mortos de sorriso cálido.
— Grata. Inclinei-me humilde.
— E o que trouxe você até mim? Perguntou solicitude ao gesticular que eu me junte a ela na mesa do banquete.
Agir da maneira que fui instruída no mundo dos vivos, de modo simples eu me sentei no chão.
Contei-lhe sobre a minha jornada desde o princípio, a decisão do oráculo, a condição imposta pelo meu marido, às desconfianças que as minhas irmãs plantaram na minha cabeça, o infeliz dia em que decidir ver o rosto desconhecido, a partida do Deus do amor e a minhas lamentações pela perda e por fim as tarefas impostas por Afrodite...
Os olhos de Perséfone se apertaram compadecidos.
— Histórias de amor são emocionantes. Ela suspirou. — Eu vou ti ajudar Psiquê.
E assim a Deusa do submundo o fez ao me entregar uma caixa que continha um pouco da sua beleza.
O retorno para o mundo dos vivos encheu o meu coração de alegria, eu teria o meu cupido em meus braços, com tenacidade eu apertei a caixa em meu peito.
Sentia-me esgotada, fraca... Mas havia o consolo em saber que a minha árdua jornada logo terminará. Agora só me restava levar a caixa até a o templo de devoção a Afrodite.
O bosque bonito de vegetação baixa cultivava pequenos botões de flores, eu, parei em frente a uma fonte. O semblante abatido de olhos brilhantes me olhava de volta, aquela mulher do reflexo estava pálida de lábios sem cor, o vestido outrora alvo como a neve, possuía manchas nele.
Eu nunca havia me visto naquelas condições de cabelo desgrenhado como uma maltrapilha, Eros não poderia me ver daquela maneira, tão diferente do que eu era...
Ele jamais iria me querer de volta...
Se eu abrisse a caixa ao menos um pouco para recuperar o rigor que me deixou, ele não me abandonaria quando me visse outra vez.
Olhei para a caixa em minhas mãos.
O meu erro foi não parar para pensar melhor nas minhas possibilidades, o meu cansaço não ajudaria em nada naquela decisão.
A fraqueza dos meus braços me impossibilitou de manter a caixa em segurança, mais rápido do que um piscar de cílios a vi deslizar sobre a minha palma e cair com um baque no chão a tampa do objeto se deslocou.
A curiosidade dos meus olhos foi invadida por uma neblina fria que se movia da caixa em minha direção, eu fui acometida por um sono insano...
Então era assim que eu terminaria?
Jogada sobre as flores de um bosque desconhecido, presa numa maldição de sono, sem qualquer chance de voltar a ver Eros?
Meu amado Eros.
Antes da perda da minha consciência eu sorri ao pensar nele.
— Meu Eros.
E por um breve instante nos imaginei no jardim florido com o som da cascata ao longe.
O ser amado de fios de ouro e rosto de anjo sorria para mim, o corpo com o dorso desnudo, enquanto, caminhava em minha direção a palma da mão estava estendida.
Em um pedido compreendido que não poderia ser aceito, eu estava longe e a cada tentativa de aproximação eu me distanciava mais.
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